A Jornada do Rei

3 A Noite na Masmorra


No céu nublado de um dia atípico de primavera, a chuva fina e cortante começou a cair. Estava fraco e mal podia ver o caminho que fazia em cima do cavalo. Via os vultos dos moradores e pressentia seus olhares de pena recaindo sobre mim. A caminhada foi lenta e demorada, afinal, onde eu morava era quase nos limites da cidade, além disso, Sir Peter parecia querer exibir meu corpo destroçado como prova de algo. Apenas eu sabia quem tinham sido meus reais oponentes, e que ele mal tinha me encostado a mão.

Começava a anoitecer quando vi a mudança de ambiente, a parte nobre da cidade era algo que poucas vezes tinha presenciado. Não havia necessidade de ir para aqueles lados, a única coisa que conseguiria era mais uma humilhação para minha ficha. Mais alguns minutos se foram e me vi ultrapassando os muros do castelo. Vi o portão se levantando enquanto fitava a liberdade lá fora, se soubesse o que estava por vir, admiraria aquela paisagem por mais tempo. Quando pisquei, os portões estavam suspensos, os cavalos pararam de andar e fui jogado no chão. Um zunido tomou conta do meu ouvido, mas depois pude escutar ao longe a voz de Sir Peter falando com alguém.

— O Rei ainda está julgando ocorrências ? — Disse Peter esbravejando sua voz.

— Sinto muito meu príncipe. O último julgamento do dia ocorreu a alguns minutos. O Rei já se recolheu ao seus aposentos. — Respondeu o rapaz, que parecia entoar uma voz suave e contraposta a de Peter.

— Está bem, que seja! Obrigado governador, está dispensado! — Rebateu.

— Guardas, por que ainda estou olhando esse pedaço de merda na entrada do palácio, tratem de colocá-lo na cela mais suja e porca que tiverem. Chamem um curandeiro para que não deixe que morra, ele precisa sofrer antes de partir dessa pra uma melhor. Agora vão, preciso fornecer meu apoio a lady Kaitilyn.

Os capangas de Peter me agarraram brutalmente pelos braços, e senti uma dor tremenda no braço deslocado. Senti minha cabeça rodar e desmaiei. Mas antes sussurrei para mim mesmo — Então...Kaitilyn...um belo nome.

Acordei com um ardor no rosto e um pedaço de pano sendo passado sobre ele, olhei assustado ao meu redor tentando me situar. Era um lugar escuro e silencioso. Uma mulher cuidava das minha feridas, não demorou muito para que ela saísse e me deixasse a sós em minha nova casa. Era feita de tijolos de pedra, o chão, recoberto por uma fina camada de palha seca. Não havia lugar confortável para descansar, se não a dureza das pedras. Uma grade a minha frente impedia minha fuga, se bem que em meu estado eu mal conseguia ficar de pé. Não havia entradas de ar ou luzes, se não uma pequena luminária que estava acesa no fim do túnel. Não tinha chama nem combustível dentro dela, mas queimava como tal. Pensei que fosse uma alucinação por estar tão mal das pernas e continuei a olhar o ambiente. O corredor era extenso, e nem guardas haviam naquele momento, duvidavam que alguém tentaria sair daquele lugar.

Escutei um arrastar de correntes e fitei um rapaz a me olhar na cela da frente. Tinha aparência de uns 22 anos, não muito mais velho que eu. Um rosto triste e abatido, quase chorando. Abriu a boca e me perguntou:

— Então o que fez garoto? Furto ? Assassinato ? Traição ?

Pensei um pouco no questionamento.

— Nenhuma das alternativas. Apenas protegi a futura rainha de um bando de marginais.

— Vejo que não se deu muito bem como protetor — disse, com uma breve risada.

— Sou tão bom com a força quanto um soldado é bom na cozinha — Rebati, sorrindo em resposta a ele.

— Mas o mais importante é que não lhe faltou coragem, uma atitude tão honrosa não devia ser recompensada com a masmorra! — Falou em tom indignado.

— Certamente que não! Mas o Sir Peter não me pareceu ser das pessoas mais agradáveis. Sinceramente não sei o que se passa na cabeça dele. Mas sei que provarei minha inocência quando chegar o momento. Ele me olhou com pesar. E disse:

— Não teria tanta confiança jovem, quando um desses nobres encarna com um Plebeu tudo caminha contra você. O dinheiro move o mundo e não estamos em um conto de fadas. Rapidamente surgirão mais de 10 testemunhando contra ti, provas forjadas e tudo mais. Eu viveria o máximo que posso antes de um julgamento desses.

Parei a refletir suas palavras enquanto calafrios me apontavam na espinha. Por um momento tudo ficou em completo silêncio.

— Tiwry...prazer. Como devo chama-lo? — Perguntei para quebrar o silêncio monótono da madrugada.

— Jackenet, é como me chamam. É um prazer conhece-lo também jovem Tiwry.

— Sinceramente ficaria mais confortável com Tiw, é como os mais próximos me chamam!

— Também me sentiria bem com apenas Jack. Economizaria saliva, e a água aqui é muito escassa. — Disse sorrindo, debochando do próprio nome.

Também sorri um pouco, e a noite tensa aos poucos ficou mais leve. Me fazendo esquecer por poucos minutos da encruzilhada em que estava metido.

— Já que eu sou inocente, devo-lhe perguntar. Será que falo com um criminoso que está encarcerado bem em minha frente ? — Lhe indaguei.

— Creio que não acreditaria em minha versão da história, afinal nunca acreditam.

— Não saberá se acredito se ficar aí calado. Desembuche logo Jack! — Disse, meio enrustido.

— Está bem, está bem! Se vai te satisfazer tanto lhe contarei. — Se levantou e apoiou os braços nas grades, logo depois continuou com um longo suspiro e a história começou.

— Era manhã aqui no palácio, e eu era assistente de um nobre que tem passe livre para morar aqui. Isso para não dizer servo dele. Tinha muitas tarefas a realizar, arrumar seu quarto, realizar seus desejos, e vez ou outra preparar uma refeição para ele. Nesse dia, me pediu algo leve para se alimentar, parecia meio abatido com algo que tinha acontecido. Fui procurar algo e preparar uma refeição. Havia uma horta na sacada do quarto onde ele dormia, então colhi alguns alfaces. Preparei e os temperei como se estivesse fazendo para minha mãe. Ele se alimentou e elogiou o sabor, foi a única coisa que comeu no dia. Horas depois ele foi encontrado morto no quarto. O principal suspeito era eu, acusado de envenenamento, Fui julgado e peguei 85 anos de prisão por assassinato a um membro da alta nobreza.

Bom isso foi a 6 meses e agradeço por não ter pego pena de morte. Já estou me acostumando ao ambiente que passarei minha vida toda até a morte. Ninguém me defendeu, ninguém ao menos acreditou em mim. E foi assim que vim parar aqui. Assim como você, juro que sou inocente.

Foram essas as palavras do Jovem Jack, prestei bastante atenção em sua narrativa, escutei tudo sem lhe dizer uma palavra. E quando terminou, fiquei em silêncio por alguns minutos. Creio que ele pensou que não tinha acreditado nele. Mas estava refletindo outra coisa...

— A julgar pelo silêncio, não comprou minha história, não foi ?

— Espere um segundo, me disse que colheu alfaces ? E os preparou com suas próprias mãos ?

— Exatamente assim, não tirei os olhos deles desde que os colhi!

— Meu amigo, eu não só tenho certeza de que você é inocente, como posso provar. Mas antes terei que conseguir sobreviver.

Os sinos tocaram anunciando que amanheceu. 6 da manhã e os soldados entraram na masmorra. Por azar eu era o primeiro julgamento do dia, e não tinha preparado nenhum texto de defesa. Com certeza não facilitariam para mim, e eu gastei toda a noite criando afinidade com meu colega inocente. Fui sendo carregado até a sala do trono, ainda não conseguia andar direito.

— Espero vê-lo de novo Tiw, eu adorei sua companhia garoto! — Gritou Jack, muito sentimental, enquanto eu andava pelos corredores da masmorra.

— Acredite amigo, tirarei nós dois daqui!

E assim, fui sendo conduzido até meu julgamento. Pedi aos deuses sabedoria e que confortasse minha mãe caso algo chegasse a me acontecer.