A Irmandade - Dota 2
8 Rikimaru, O Príncipe Solitário
Notas iniciais
A cidade élfica dos Nightsilver era um palácio colossal onde pedras e árvores se encontravam para se transformarem em um reino majestoso e quase sobrenatural. Era o núcleo dos elfos anciãos, os servos da deusa Selemene e haviam também alguns homens e mulheres das terras pagãs, que vieram para se ajoelhar diante da deusa lunar e, assim como Mirana e Luna, servi-la para sempre.
Era a primeira vez em que Rikimaru visitava a cidade élfica e ficou deslumbrado. As árvores eram colossais. Escadarias de madeira e pedra foram construídas ao redor dos troncos e lamparinas de fogo azul foram penduradas ao longo dos degraus para iluminar toda a cidade. O interior de algumas das árvores eram ocos e dentro delas foram construídos salões, casarões, templos e palácios para os elfos. A decoração era linda e peculiar, típica dos elfos nightsilver, uma raça semelhante aos drows, porém, não corrompida.
Trilhas de pedra iluminadas por mais lamparinas azuis conduziam-nos para dentro da cidade. Riki viu elfos vestidos em seus mantos de seda não muito além dali. Quando eles viram Mirana e Luna se aproximando em Sagan e Nova, saudaram-na com gestos e palavras na língua dos elfos. Elas acenaram de volta e atravessaram o longo jardim verde e prata que se estendia ao longo da floresta.
Acima deles, em uma rede de galhos e cipós, um coro de elfos cantava louvores à uma enorme estátua do mármore mais branco que Riki já vira. A estátua era o retrato de uma mulher, grande e imponente, com um sorriso brilhante segurando a lua na mão direita. Na mão esquerda, havia um cetro.
_ É Selemene._ Mirana disse. Ela vira Riki encarando a estátua e sorriu para ele.
_ Você se parece com ela._ Riki murmurou timidamente, montado sobre o lombo de Nova, à frente de Luna.
Mirana riu baixinho.
_ Quem me dera possuir metade de sua beleza. Selemene é uma deusa e eu sou sua mera serva. Assim também é Luna.
Riki olhou para cima e viu o rosto carrancudo de Luna. Pareceu incomodada com o comentário de Riki e ele não sabia dizer o por quê. Ficou calado enquanto Nova e Sagan conduziam o trio para as entranhas de Nightsilver e viu toda a glória dos elfos da Noite Prata ali, naquela cidade. Depois de centenas de anos erguendo a cidade mágica, eles a transformaram numa floresta viva. Elfos e humanos se moviam por entre as raízes das árvores gigantes como formigas, irrigados pela luz azul forte que vinha das lamparinas e pela luz do luar, lá em cima, além das folhas verdes e douradas nos galhos imensos.
O tigre rajado e a puma negra só pararam quando pisaram em um jardim que ia até onde a vista de Riki alcançava. No centro do jardim havia uma árvore, a maior que ele já tinha visto. Entre suas raízes, havia uma grande porta de vidro colorido, acima de uma escadaria de pedra. Mirana saltou do lombo de Sagan e puxou um manto azul-da-noite da bolsa de couro que amarrara ao tigre. Luna fez o mesmo e puxou Riki consigo.
O pobre e mirrado sátiro azul não teve nem tempo de compreender o que estava acontecendo. Quando seus pés tocaram o chão, Luna cobriu-o com um manto azul que era grande demais para ele. Ela mesma vestiu-se com outro manto e assim como Mirana, colocou o capuz. Rikimaru fez o mesmo e as seguiu escadaria acima para o majestoso Templo Lunar.
Depois dos degraus íngremes e antigos, eles passaram pela porta de vidro. O interior da árvore-templo era um grande salão de luzes tremeluzentes. No centro, uma escultura da lua na ponta de um dedo estava cercada por servos lunares, que se ajoelhavam e juntavam suas vozes em um coro de louvores tristes. Corredores foram esculpidos ao longo do lado externo do tronco da árvore e de lá, sacerdotes e adoradores da deusa Selemene também cantavam, fazendo a canção ecoar.
Rikimaru seguiu no encalço de Luna, e estando oculto pelo capuz e pelo manto, era difícil reconhecê-lo. Para falar a verdade, era difícil reconhecer quem quer que fosse que estivesse lá dentro. Todas as pessoas vestiam o mesmo manto azul-da-noite. Mirana e Luna, por outro lado, pareciam chamar a atenção. Mesmo com o manto, Luna ainda usava o elmo com o desenho da lua e seus olhos violetas brilhavam sob as luzes do templo. O lindo rosto de Mirana destacava-se com a tiara de brilhantes e o cabelo castanho escorregava para fora do capuz.
Quando foi que Riki imaginou que teria a chance de entrar na cidade élfica? Seus antepassados, chefes do clã, os mais conhecidos e poderosos sátiros azuis da história...eles entraram na cidade élfica num passado distante. Mas havia muitas gerações desde que isso acontecera. E somente agora os sátiros azuis voltaram a entrar na glória dos elfos lunares. Através de Riki.
Ele teve certeza de que se seu pai estivesse vivo, estaria orgulhoso. A poucos eram dados o presente de um convite para entrar em Nightsilver. E ainda mais raro eram os convites para o Templo Lunar. Mas ali estava ele, na companhia das duas humanas mais belas que ele já havia visto, sob a luz abençoada da deusa da noite.
As duas caminhavam rapidamente pelo salão, mas Rikimaru tinha pernas curtas demais e precisava saltar para acompanhá-las. Precisaram caminhar quase cinco minutos para cruzar o salão inteiro, até que chegaram numa parte mais alta, onde se sentava o Mestre-Elfo, Schkyar.
Este era um elfo imponente. Usava uma coroa, parecida com a de Mirana, feita de prata e um capuz sobre os longos cabelos platinados. Seu rosto era quadrado, atípico e belo. Seus olhos azuis repousaram em Mirana assim que ela se aproximou. E Riki viu algo além de orgulho no olhar do elfo. Ele viu desejo.
_ Saudações, Mirana. Luna..._ disse o elfo. Quando ele se levantou, Riki viu que ele era imenso e muito forte sob a capa._ Venham comigo.
Mirana pareceu surpresa e indignada, mas seguiu-o. Luna e o saltitante Rikimaru vieram atrás. Os olhos do Mestre-Elfo pousaram rapidamente em Luna e depois foram para Riki. Ele desviou rapidamente o olhar para apontar um corredor nas profundezas do templo.
_ Entrem aqui.
O corredor era extenso e terminava em uma longa escadaria em espiral. Ao pé da escadaria, um vulto encapuzado os aguardava. Era alto e forte como o elfo, porém, quando se virou para olhá-los, Riki viu que não se tratava de outro elfo. Os olhos azuis, o cabelo castanho lembrou-lhe a sacerdotisa da lua, Mirana Nightshade. O homem, no entanto, usava uma coroa de ouro, com um grande rubi encrustado no centro e a barba crescia-lhe em tufos no queixo e acima dos lábios.
_ Minha querida filha._ ele sorriu ao ver Mirana se aproximando.
Ela lançou um olhar duro e discreto ao Mestre-Elfo, para depois deixar que um leve sorriso alcançasse seus lábios.
_ Majestade...
O sorriso do rei desapareceu para dar lugar ao desapontamento.
_ Majestade? Mirana, você não tem que me chamar assim. Eu sou seu rei, mas acima de tudo, sou seu pai.
_ Está bem, pai._ ela concordou com relutância._ Fico feliz que esteja aqui._ Mirana foi até o homem e abraçou-o.
Ele envolveu-a com os braços e apertou-a por um instante. O Mestre-Elfo encarou o momento sem expressão e Luna sorriu agradavelmente para eles. Riki encolheu-se quando os terríveis olhos do Mestre-Elfo repousaram nele.
_ Mirana._ chamou o rei e a filha olhou para ele, sorridente.
Mas o rei não sorria.
_ Querida, venho pessoalmente até você porque precisamos conversar.
_ Poderão se sentir mais a vontade em meus aposentos._ disse o Mestre-Elfo girando o rosto para encarar pai e filha._ Mirana, guie o seu pai. Eu acho que Luna e o nosso novo...convidado precisam de um pouco de descanso também.
Mirana lançou um último olhar ao Mestre-Elfo e em seus olhos estava a reprovação. Ela olhou para Luna e Riki e assentiu, depois arrastou o pai pelo cotovelo escada acima.
* * *
_ Dar santuário* a um sátiro azul fugitivo no Templo Lunar?_ o Mestre-Elfo encarava Luna e Riki com um olhar penetrante e rude._ Você enlouqueceu, Luna?
Eles estavam numa sala lateral onde um grande trono sob um vitral da lua havia sido colocado. Na crença dos elfos antigos, aquele era o trono onde um dia a deusa Selemene se sentaria, quando descesse dos céus. Mas agora, o próprio Mestre-Elfo se sentava no trono, como se chamasse a si mesmo de deus. Luna parecia incomodada com isso, Riki notara.
_ Os sátiros azuis são aliados dos elfos lunares há séculos._ respondeu-lhe Luna._ E foram os primeiros servos de Selemene, se o que se conta nos livros é verdadeiro. Nós devemos proteção a eles.
_ Mas este...este jovem sátiro é o príncipe de quem o novo chefe do clã dos sátiros azuis quer a cabeça. Se eu o proteger, estaria comprando uma guerra com os outros sátiros.
_ O novo líder é um conspirador._ Luna retrucou._ Está envolvido na morte da família de Rikimaru e tomou o lugar que pertence a ele por direito.
_ Ainda assim, eu não posso..._ recomeçou o Mestre-Elfo.
_ Foi Mirana quem ofereceu Santuário a ele. E sendo ela a suma-sacerdotisa da lua, escolhida a dedo pela própria Selemene, você não tem o direito de negar-lhe abrigo.
Os olhos do Mestre-Elfo cintilaram de fúria.
_ Não confunda sua posição com a minha ou com a da princesa Nightshade, guerrilheira._ ralhou Schkyar._ Você apenas oferece o sangue de nossos inimigos à Lua. Eu e Mirana somos os sacerdotes.
Luna encarou-o e Rikimaru viu fogo nos olhos violetas da guerreira. Luna não estava nervosa ou furiosa. O que Riki viu era o ódio, intenso e mortal, que ela sentia pelo Mestre-Elfo.
O próprio Riki sentia-se posto de lado. Até então não tivera o direito de palavra. Não pudera se defender, nem explicar a situação a Schkyar, pois Luna se encarregara disso. Sentia-se mortalmente cansado pela viagem e a felicidade de estar na cidade élfica esmorecia. Sentia-se agora um intruso indesejado. E mudar isso estava além do alcance de Luna.
_ Eu...eu vou embora. Voltarei pra minha terra natal._ ele decidiu.
Luna arregalou os olhos para ele.
_ O quê?! Você não pode, eles iriam te matar e...
_ Eu entendo sua preocupação e a agradeço, guerreira da Lua, mas não serei facilmente pego._ e Riki olhou para o Mestre-Elfo rapidamente._ Adeus.
Ele preparou-se para seu truque mais nobre. Atirou a bomba de fumaça e quando ela explodiu, ele já corria para longe. Ouviu Luna tossir e podia sentir os olhos penetrantes do Mestre-Elfo seguindo-o. Então fez-se desaparecer.
Correu para o mais longe que pôde. Cruzou o salão principal do templo e quando chegou a escadaria, despediu-se rapidamente de Nova e Sagan, que responderam-lhe com grunhidos carinhosos. Doía-lhe ter de ir embora assim, tão rápido quanto chegou, mas ali não era o seu lugar. Sentiu-se sozinho, agora mais do que nunca, mas teria de se acostumar a isso, se quisesse recuperar o trono de seu pai. Andar sozinho, por aí, apenas com suas armas na mão, trabalhando para ele próprio.
“É isso o que você é agora, Riki. Um príncipe solitário.”, disse a si mesmo.
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