A Irmandade - Dota 2
9 Enchantress, A Guardiã dos Bosques
_ Olá?! Olá!...Você está bem?
Quando a elfa drow abriu os olhos, Enchantress suspirou.
_ Ufa! Furion! Ela acordou!
Traxex gemeu dolorida e olhou ao redor. Estava confusa, evidentemente. Enchantress colocou a mão suavemente sobre a testa dela.
_ Não, não, você não está totalmente recuperada. Precisa de um pouco mais de descanso.
Das árvores surgiu uma figura alta, com trajes de shaman, mas ele não era um homem convencional. Seu rosto era redondo, assim como os olhos. No queixo brotavam tufos de pêlos azuis que lembravam raízes de plantas. E no topo da cabeça, havia um par de chifres grandes e retorcidos para dentro. Ele apoiava-se num cajado de madeira entrelaçada com cipó. Na ponta do cajado estava uma brilhante pedra dourada.
Ele nada disse quando se aproximou de Traxex, mas a elfa encarava-o como se pensasse que ele fosse algum tipo de demônio.
_ Traga-a quando ela estiver pronta._ pediu o shaman das florestas.
_ Sim, Furion._ concordou Enchantress.
Quando ele foi embora, Enchantress começou a cantar. Adorava as canções florestais e cantava sempre que sentia que o mundo precisava de um pouco mais de alegria. Mas nem isso trouxe alívio ou mesmo um sorriso ao rosto da elfa negra. A drow tentou se mover mais de uma vez, tentou falar, mas a dor não permitia que ela movesse mais do que os braços e sua voz parecia ter se perdido.
_ Está tudo bem._ tranqüilizou a mulher-cervo._ Não precisa ter medo de nós. Nem dos outros, aliás. Estão engaiolados. Meu nome é Aiushtha. Como você se chama?
A elfa encarou-a e forçou a única palavra que conseguia murmurar a sair de sua garganta.
_ Traxex...
_ Bem, Traxex. Nós somos os seres viventes da Floresta Verde. Eu e o Furion guardamos essas árvores desde que Avëim, a deusa dos bosques, se foi. Imagino que você nunca tenha visto esse lado da floresta.
Drow Ranger sacudiu a cabeça negativamente.
_ Eu não conheço o seu povo, mas sei que você não é daqui. Você mora do lado escuro da floresta? Na...Floresta dos Mortos?
Dizer aquele nome causou arrepios em Enchantress.
_ Muito além._ Traxex finalmente recuperava a voz._ Nas árvores do Grande Norte...onde existem as Florestas Frígidas e o Vale da Lua.
_ Oh.
Enchantress recuou, mas nem soube dizer o por quê. Nutrira alguma simpatia por Traxex desde que a resgatara das mãos da vampira demoníaca nas margens do rio, mas de repente, pareceu-lhe que a própria Traxex era mais perigosa do que aqueles que viviam na Floresta dos Mortos. Talvez fosse culpa das histórias sombrias que contavam a respeito daquele povo que mora onde tudo é frio e escuro demais. E da terrível e vingativa deusa que governa o inverno, a quem chamam de Galandine, a irmã obscura da deusa Avëim.
_ O que aconteceu?_ perguntou a Drow Ranger.
_ Você quase foi capturada pelos amigos malvados do Carl._ Enchantress explicou, tentando abandonar o medo súbito._ Aquela vampira malvada e o cão de caça. Nós o capturamos, sabe? Assim como capturamos o Carl.
_ Carl?_ perguntou Traxex.
_ É. O homem que você capturou. Chamam ele de Invoker, mas para nós ele é apenas o Carl. Ou Kael, se preferir.
Drow Ranger subitamente forçou-se a se sentar na rede de cipó e folhagens onde estivera deitada.
_ Eu preciso levá-lo para o meu rei. Onde está...onde está meu arco?
_ Nós o guardamos em segurança.
_ Eu preciso dele. Devolva._ Enchantress pôde sentir toda a arrogância de um elfo drow na voz de Traxex.
_ É claro que precisa. Venha comigo._ ela respondeu usando seu doce tom infantil.
Aiushtha guiou Drow Ranger por entre as belas árvores verdes da floresta. Sentiu-se mais tranqüila ao perceber que Traxex parecia impressionada demais com a relva verde, com as raízes vivas que se estendiam ao longo do chão e com os galhos cheios de folhas, flores e frutos.
Não demoraram mais do que alguns minutos para chegarem à clareira de Furion. Era um círculo perfeito no centro da floresta, rodeado de árvores. Uma grande e velha árvore onde uma porta fora esculpida esgueirava-se na outra borda da clareira. Em seus galhos retorcidos e cheios de fungos haviam gaiolas penduradas. Uma grande fada azul grunhia e berrava palavras obscenas para Enchantress quando ela se aproximou.
_ Vadia! Cãozinho de Furion! E quem é esta outra?_ berrou a fada azul.
Quando os olhos da fada se demoraram no rosto de Traxex, ela sorriu de um jeito malévolo.
_ Ah. Temos aqui uma maldita elfa da noite! Outra cadelinha para Furion? Aquele miserável desgraçado que...
Traxex estava bem o suficiente para encarar a fada de um modo meio assustador. Porém, Aiushtha foi quem pareceu mais assustada ao ver o olhar ameaçador da elfa. A fada continuou a berrar e xingar.
_ Perdoe-nos por isso. Essa é uma velha amiga, corrompida por um bruxo demoníaco que vive na Floresta dos Mortos, do outro lado do rio._ Enchantress explicou, olhando para a fada com pena._ Furion resgatou-a também. Mas...ela não volta ao normal. Já tentamos de tudo, mas ela simplesmente...está má.
“Irreversivelmente corrompida”. Foi assim que Furion se referira á fada azul, quando falara sobre ela com Enchantress. Mas Enchantress não perdia a esperança tão facilmente. À ela foi dada a tarefa de curar os feridos e resgatar os perdidos, e...pela primeira vez, ela encontrara alguém que não podia curar. Mas não iria desistir da fada azul. Não iria!
Furion apareceu à porta na árvore. Ele estava sempre sorridente e radiante, mas não desde que Traxex chegara. Parecia muito preocupado e distraído, absorto em pensamentos que ele não dividia com Enchantress. E ela sentia-se frustrada por isso. Afinal, eles eram ou não eram parceiros e protetores da Floresta Verde?
Quando o guardião shaman acenou para elas, Enchantress pululou até a árvore. As duas pararam diante da casa de Furion. Mais uma vez ele não sorriu. Olhou para cima e para o redor da clareira e murmurou desconfiado:
_ Aqui dentro. Já não posso me dar ao luxo de confiar em todas as criaturas que moram na nossa floresta.
Pareceu á Aiushtha que Furion estava sendo cruel, mas logo depois ela se lembrou de como as criaturas da Floresta dos Mortos poderiam ser traiçoeiras. Corvos, corujas e lobos atravessavam o Rio Vespertino para espionar a Floresta Verde, à serviço de um velho inimigo de Furion. Sem falar nas criaturas corrompidas, como a Fada Azul.
Traxex seguiu-o de boa vontade, mas Enchantress também olhou ao redor da clareira. Viu o farfalhar de asas de um pássaro grande de rapina se aproximando e soube instantaneamente que estavam realmente sendo vigiados. Quando passou pela porta da casa-árvore de Furion, viu-se em uma pequena sala circular. Toda a iluminação vinha de um grupo de vagalumes que rodopiavam de boa vontade em torno de uma pequena flor de lótus pendurada no teto alto. Não haviam muitas coisas na casa de Furion. Aqui e ali, haviam pilhas de objetos estranhos. Dois esquilos se deliciavam com as frutas em um cesto de vime. Uma grande esfera de pedra rosa cintilava sobre uma mesa, perto de uma pilha de pergaminhos amarelados. E havia também uma gaiola, onde uma criatura grotesca rosnou para elas assim que Traxex passou pela porta.
_ O hostil cão dos Gêmeos._ disse Furion._ Nós o capturamos durante o seu resgate, senhora elfa.
Bloodseeker era como o chamavam, lembrou-se Enchantress. Um monstro à serviço dos deuses bebedores de sangue, os Gêmeos Esfoladores. Porém, suas armas mágicas não estavam com ele, na gaiola, o que a deixou mais segura. Sem as lâminas e aprisionado, Bloodseeker era apenas uma fera raivosa, rosnando para elas cada vez que se mexiam.
_ E onde está o outro? O homem de pupilas brancas?_ perguntou Traxex.
_ Ele foi levado pelos sacerdotes do Mestre-Elfo enquanto você dormia._ explicou-lhe o guardião._ Não pudemos impedi-lo, pois ele é o senhor do bosque Nightsilver, um elfo de muito poder. Ele pretende condenar Carl por crimes que ele cometeu outrora.
_ Não podem!_ Drow Ranger ralhou friamente._ O sangue deste Invocador pertenceu ao meu povo. Ele será julgado pelas mãos dos drow de Guënash.
_ Nós compreendemos. E pretendíamos devolver-lhe o Invocador, pois há muito tempo desde que ele nos traiu e tem traído muitos de seus amigos. Mas não há nada que possamos fazer.
Traxex olhou para o Bloodseeker.
_ E quanto a ele?
_ Estou usando tudo o que sei para obter respostas desta criatura. Ele é cego, segue os instintos animais e apenas segue ordens. De quem são as ordens eu não sei. Mas posso afirmar que não são apenas ordens dos deuses Gêmeos.
Aiushtha estivera calada até então, mas não conseguira parar de pensar no que significavam todas aquelas coisas. Aqueles...sinais.
A Floresta Verde sempre fora muito quieta. Vez ou outra, invasores se atreviam a tentar cruzar o Rio, carregando o mal da Floresta dos Mortos para o lado de cá. Mas agora...quase todos os dias Enchantress recebia notícias que a faziam sentir medo. Não era qualquer medo bobo. Era temor e mal pressentimento. Quase como se soubesse que algo terrível estava se aproximando. Furion também sentia o mesmo e algumas semanas antes, estiveram conversando sobre isso. Ele descobrira que um velho inimigo seu estava tramando maldades entre as árvores mortas do outro lado do Rio Vespertino. E desde então, muita coisa havia acontecido. As invasões tinham aumentado, as criaturas verdes estavam sendo corrompidas e boatos estranhos sobre monstros e sombras se movendo do lado de cá do rio deixavam todos alertas. A própria aparição de Traxex parecia ser um mau sinal.
_ A mim não interessa esse outro._ Drow Ranger falou._ Diga-me onde encontro este Mestre-Elfo. Irei reinvindicar o direito de sangue do Invocador.
Furion lançou um olhar preocupado á Enchantress e ela devolveu-lhe outro, igualmente assombrada.
_ Entendemos que você quer sua vingança, mas o Mestre-Elfo não é alguém que devemos confrontar.
_ Não peço sua permissão ou seu conselho, guardião. Peço que me diga onde eu o encontro. Agradeço pela sua hospitalidade e pela ajuda de sua amiga_ Traxex olhou rapidamente para Aiushtha._ Mas eu venho de onde venho por causa deste homem. E o levarei comigo, custe o que custar.
A determinação na voz da elfa era curiosamente admirável. Enchantress encarou-a com um pequeno sorriso entre os lábios, mas o sorriso se desfez assim que Furion recomeçou.
_ Bem, você sabe que...os elfos negros que habitam desde lado do Rio menosprezam o povo drow, não sabe? Suas palavras serão pouco eficazes com ele. Os Elfos Abençoados não enxergam honra ou luz nos drows.
_ Não interessa a mim o que os elfos do bosque pensam sobre nós. Apenas interessa a vontade de meu rei e ele exige que a justiça pelo assassinato do príncipe seja feita.
“Então o Carl anda matando príncipes?”, pensou Enchantress. Traxex buscava por justiça, e justiça lhe era devida. Decidiu que diria à ela onde encontrar os elfos Nightsilver, mas não diria enquanto Furion estivesse por perto.
_ Lamento, senhora elfa. Não posso ajudá-la nisso._ Furion também tinha um tom decidido._ E eu entendo que deva partir.
Ele se afastou para um canto escuro da sala, remexeu em uma grande arca de pedra e trouxe um grande arco e a aljava com um punhado de flechas.
_ Aqui estão as suas coisas. Está livre para ir, arqueira dos bosques de gelo.
Drow reverenciou-o educadamente e acenou com gratidão para Enchantress. Depois, seguiu para a porta atrás dela e despediu-se dizendo “Adeus”. Sequer olhou para trás.
_ Eu vou indo também._ disse Enchantress a Furion.
Ele olhou-a desconfiado, mas apenas concordou e disse:
_ Vá, Aiushtha. E tenha cuidado.
Ela pululou o mais rápido que suas frágeis pernas de cervo podiam levá-la. Drow Ranger era rápida como um trovão enquanto corria e só o que Aiushtha podia ver era o vulto sombrio de seu capuz e sua capa esvoaçando ao vento.
Criaturas levantaram vôo para seguir os passos das duas e Enchantress rodopiou sua lança mágica. Uma das criaturas respondeu com grasnadas altas e ameaçadoras e ela apertou ainda mais o passo.
_ Avëim, Senhora do Bosque e herdeira de Verodícia, proteja-me.
Se aproximou o suficiente para poder chamar por Traxex, mas o chamado foi desnecessário. Traxex a viu e retornou rapidamente e como se soubesse por que Enchantress voltara, disse com sua voz etérea:
_ Diga-me onde ele está.
_ Ele mora no bosque Nightsilver, ao leste daqui._ avisou Enchantress.- Tenha cuidado com os elfos de lá. Eles são gente orgulhosa e, ás vezes, perigosa.
_ Eu terei. Tem minha gratidão e a de meu reino.
Enchantress sorriu, mas Drow Ranger não. O que ela viu foi apenas uma sombra de gentileza nos olhos violeta e prata da elfa. Traxex não se demorou nem mais um segundo. Desapareceu com uma rapidez impressionante e Enchantress sentiu-se satisfeita em vê-la totalmente recuperada. Trabalhara nos ferimentos de Drow por alguns dias, fez de tudo o que conhecia para fechar aquelas feridas marcadas pelas runas dos deuses Gêmeos Bebedores de Sangue. Sua cura havia sido eficaz. Mas ainda sentia-se triste pela Fada Azul, que de nenhum modo parecia poder retornar ao que era antes.
Foi na Fada Azul que Enchantress pensou enquanto voltava para a clareira de Furion. Porém algo interrompeu seus pensamentos. As criaturas nas árvores estavam alvoroçadas. Pássaros e esquilos se abrigavam em tocas dentro dos troncos, temendo pela sombra que crescia no céu. Enchantress arregalou os olhos quando percebeu que estava anoitecendo. Anoitecendo às duas horas da tarde.
Ouviu ruídos estranhos mais adiante e soube imediatamente de onde vinha. A clareira de Furion. Apressou-se mais uma vez e saltitou o mais rápido que conseguia e viu as criaturas descendo das árvores. Coelhos, esquilos, pássaros e cervos corriam e voavam apavorados pela floresta. “Que agitação é essa?”, perguntou Aiushtha a si mesma. E o mau pressentimento alcançou-a outra vez.
_ Avëim, Senhora dos Bosques e herdeira de Verodícia, proteja-me._ repetiu.
A floresta instantaneamente pareceu se tornar negra. Uma nuvem de morcegos surgiu de algum lugar, zunindo ao passar por ela, batendo as asas freneticamente. Ela se desviou e agitou a lança pronta para atacar o que quer que surgisse. Mas os morcegos passaram por ela e mergulharm entre as árvores, juntos como um enxame de abelhas e seguiu direto para a clareira de Furion.
_ AVËIM, SENHORA DOS BOSQUES E HERDEIRA DE VERODÍCIA, PROTEJA-NOS!_ clamou.
A noite tomou o céu, mas não havia lua ou estrelas. O som terrível de uma marcha irregular de patas pesadas martelando o chão da floresta alcançou-a. As lágrimas desciam dos olhos de Enchantress, inexplicavelmente. Ela não queria chorar, mas era quase como se soubesse que não havia mais volta. “A Profecia do fim do Ciclo Verde...” uma voz dizia em sua cabeça. “Não!”, outra parte dela se recusava a acreditar. Mas estava escrito nos livros dos anciãos. A Noite Sem Lua, criaturas da noite na Floresta Verde e “a mensageira das terras do gelo”. Ela se lembrou. Os sacerdotes da antiga deusa suprema dos bosques, Verodícia, haviam profetizado a chegada de um tempo em que a Floresta Verde seria sombria e cheia de terrores.
Este tempo havia chegado. Mas Aiushtha só teve certeza disso quando alcançou a clareira de Furion. Clarões de trovões anunciavam uma tempestade. As árvores se misturavam com o branco de incontáveis fios de teia. Teia de aranha. Havia teia espalhada pelo chão e também ao redor da árvore-casa do guardião. A porta havia sido despedaçada e arrancada. E não havia o menor sinal de Furion. Apenas o terrível e assombroso eco do bater de asas de muitos morcegos e o martelar de incontáveis patas de aranhas.
_ Furion..._ Enchantress chorou._ Não...!
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