Levantei-me, dessa vez não estava com dor de cabeça. Pulei da cama e fui direto ao banheiro, tomei uma ducha, corri para tomar o café da manhã. Minha mãe já estava lá, arrumada, apenas sentada lendo um livro de receitas velho.

–- Vamos Ciro, coma rápido, a consulta é as 8 horas, se apresse, não quero passar o dia todo no hospital! – minha mãe reclamava irritada, talvez por ter acordado cedo.

Comi apenas uma torrada e levantei, eu e minha mãe andamos até a garagem e fomos para o hospital no carro dela. O dia estava lindo, céu azul e um ar fresco, abri a janela do carro e deixei o vento pentear os meus cabelos, só queria fazer os exames e passar na casa do Rafael outra vez.

Chegamos ao hospital e esperamos um tempo, exatamente às 8 horas o meu medico apareceu, um homem alto e loiro, meia idade me atenderia. Ele chamou, eu e minha mãe e fomos até o consultório. Olhei no crachá dele: Doutor Eric, ele me atenderia.

Eu e minha mãe entramos no consultório e sentamos nas cadeiras brancas, logo depois, o Doutor Eric sentou-se a nossa frente, ele colocou papeis em cima da mesa, e me observou rapidamente.

— Então Ciro, como você esta? – ele perguntou simpático.

— Eu estou ótimo, pelo menos hoje estou ótimo. — eu disse em tom de brincadeira.

Minha mãe me observou com um olhar repressor.

— Pelo menos hoje? — ele continuou

— Sim, eu tive dor de cabeça dois dias seguidos, mas digamos que nos últimos dois meses, foram vários dois dias seguidos. — eu contei — Sem falar nas náuseas, tonturas.

–- Entendo... — ele disse enquanto anotava alguma coisa.

A consulta continuou, foi perguntando e fazendo coisas que os médicos fazem normalmente, minha mãe sempre com o olhar preocupado. Fiz vários exames, sangue, urina, fezes, o ultimo era a ressonância magnética.

Enquanto eu entrava naquela maquina branca e esquisita, ficava pensando em Rafael, eu queria sair dali logo para vê-lo, mas antes que eu percebesse o exame acabou e eu já estava indo para casa.

Deitei e dormi um pouco, o fato de ter acordado cedo para fazer o exame me cansou muito, dormi até as 14hr, levantei, tomei um banho e fui até a casa de Rafael, ele estava sentado na varanda, lendo o volume um do mangá de Bleach.


— Gosta de mangás capitão? — brinquei



— Bastante, principalmente mangás — ele respondeu



— Sabe, ainda estou curioso com o que você queria me mostrar ontem... — eu falei.



Realmente, estava curioso, eu conhecia Rafael há dez anos, não existia nada sobre ele que eu não sabia, fiquei realmente curioso.


— Não era nada de mais, só umas coisas sobre o Canadá. — ele disse, tentando desconversar de maneira nada convincente.

— Ah sim, eu acredito.

Ele riu enquanto virava a pagina do mangá.

Conversamos um bom tempo na varanda, a noite chegou e com isso, entramos na casa dele e fomos para o quarto, estranhei seus pais não estarem em casa.

— Onde estão seus pais? — perguntei

— Viajaram para Salvador, voltam na próxima segunda. — ele contou

Ele colocou o mangá em uma prateleira cheia de outros mangás que eu nunca tivera reparado, ficou observado os mesmos distraído. Andei e encostei-me nele, de modo com que suas costas tocaram o meu peito. Andei um pouco mais e o corpo dele colou com o meu, pude sentir seu corpo outra vez, beijei o seu pescoço, sua respiração ofegou.

Virei ele para mim puxando-o pela cintura, seus olhos encontraram os meus, não resisti nenhum segundo. O beijei, com toda luxuria possível. Agarrei-o e puxei para mais perto de mim, lambi delicadamente suas orelhas, ele gemia. Então me puxou para cama e começamos a nos beijar desesperadamente, como se não existisse amanhã. Ele puxou a minha blusa, deixando-me sem camisa, entre outros beijos tirei a blusa dele. O abracei, sentindo o seu peitoral, seu corpo ligeiramente menor que o meu, quando eu o abraçava, ele ficava completamente coberto por mim. Era como se eu fosse feito para protegê-lo.

Lentamente, ele foi tirando a minha bermuda, me deixando de cueca, passou a mão no volume que estava formado dentro da mesma, coloquei a minha mão sob a mão dele e fiz com que ele apertasse o volume, ele apertava enquanto me beijava.

Enquanto isso eu tirava a samba canção dele, deixando-o apenas de cueca, deitei por cima dele, de modo que minha barriga tocava a barriga dele, os volumes roçavam delicadamente. Coloquei a mão por dentro da cueca dele, tocando a sua bunda lisa, delicadamente, agarrei e puxei para cima, ele gemeu, logo tiramos toda a roupa e ficamos pelados, então, transamos.

Acordei com meu celular tocando, atendi.

“Alô?”

“São 22hr, vai dormir fora?” perguntou minha mãe

“Acho que sim mãe, algum problema?” respondi

“Onde filho?” ela perguntou

“Na casa do Rafael” falei

“Tudo bem filho, até amanhã” ela despediu-se.

Pelo menos não precisava pegar o resultado dos exames amanhã com ela, minha mãe faria aquilo para mim. Estava deitado de conchinha com Rafael, beijei o pescoço dele, acordando-o.

— Fizemos isso mesmo? — Ele perguntou, com tom irônico

— Acho que sim, mas não foi tão ruim assim. — eu falei

— Claro que não, foi ótimo! — ele disse rindo

Passamos a madrugada conversando, transamos mais duas vezes, nossa relação estava ficando mais intensa, não sabíamos o que era, não rotulamos, na verdade nem tocamos no assunto, talvez tivéssemos esquecido. Quando acordei no outro dia, pensei em tocar no assunto, mas fiquei sem coragem, tive medo de estragar aquilo. Eu tocaria no assunto indiretamente da próxima vez que nós dois nos vicemos.

Ele levantou da cama antes que eu, foi direto para o banheiro, fui atrás dele e então tomamos banho juntos, acabamos transando outra vez embaixo do chuveiro. Quando terminamos o banho e a transa, tomamos café enquanto conversávamos sobre vários assuntos, reparei que eu observava o movimento que ele fazia com os olhos enquanto falava, observava a forma que ele lambia a boca quando terminava de falar uma frase longa, eram coisas que me faziam perder a percepção, eu já havia reparado tudo aquilo antes, quando ainda não tínhamos tido qualquer tipo de contato intimo e homossexual.

As 11 horas da manhã fui para casa, me despedi de Rafael com um beijo na testa e prometi voltar para dormir lá de novo no mesmo dia. Cheguei ao ponto e o ônibus chegou rápido, pela segunda vez, me alegrou um pouco mais aquele fato.

Cheguei em casa e eu parecia esta sozinho, “Mãe?” eu gritei, não ouve resposta. Subi as escadas e fui andando pelo corredor, passei pela porta do quarto de minha mãe e pude ouvir um som arrastado. Voltei um passo antes da porta e olhei para dentro do quarto.

Minha mãe chorava na cama.

Adiantei os passos e entrei no quarto, sentei ao lado dela, e a abracei.

— O que aconteceu? — perguntei enquanto alisava sua cabeça

— Eu assisti um filme triste — ela tentou mentir

— Um filme triste? Qual? — eu fingi acreditar.

Minha mãe não queria me contar o que aconteceu, e mesmo que eu a pressionasse ela não me contaria, já peguei ela chorando outras vezes, na época do divorcio com o meu pai, mas faziam quatro anos.

— É... Ah... Eu esqueci o nome, mas era muito triste meu filho. — ela disse.

Levantei da cama, talvez ela precisasse ficar sozinha por enquanto.

— Ta certo, mãe olha... Eu vou comer alguma coisa, quer um leite quente?

— Não, eu estou bem, acho que vou tomar um banho e dormi um pouco. — ela sussurrou mais triste que nunca.


Fui para meu quarto e deitei na cama, li um pouco do mangá que Rafael havia me emprestado, aquilo não chamava minha atenção, fiquei curioso pelo real motivo em que minha mãe chorava, depois de um tempo adormeci.



Acordei algumas horas depois, olhei no relógio ao lado de minha cama 03hr da madrugada, levantei e fui para cozinha, passei pelo quarto de minha mãe e a curiosidade invadiu minha mente. Entrei e olhei para os lados. Minha mãe dormia, ao lado da cama dela, um copo com um pouco de água e calmantes, ela não acordaria.



Procurei nas gavetas, no guarda roupa, olhei embaixo da cama, e não encontrei, não encontrei o resultado dos exames, desiste e desci as escadas pensando em fazer um sanduiche, passei pela sala e olhei o retrato que ficava em cima da mesa de centro, eu, meu pai e minha mãe, meu pai era loiro, olhos azuis, alto, tinha algumas sardas dos dois lados do nariz, era mais musculoso, comparado a ele, eu era magro com alguns musculos (o que era verdade) que eu, nós três estávamos no zoológico, ao fundo, podia se ver uma girafa com o pescoço meio torto.



Lembrei que minha mãe guardava a aliança dela na caixa que meu pai deu a ela quando se casaram, uma caixa que guardou uma sapatilha. Corri para o quarto e procurei pela caixa, onde ela esconderia? Olhei atrás do guarda roupa, peguei uma cadeira e coloquei do lado do mesmo e subi, olhei em cima do guarda roupa e lá estava, a caixa ao lado de um guarda chuvas e sapatos velhos.


Peguei e desci, coloquei as coisas de volta no lugar e fui para meu quarto, meu coração batia mais rápido enquanto eu abria a caixa. Dentro dela estava a aliança, e um papel. Peguei o papel e desdobrei.

“Resultados dos exames” eu li

Um aperto no meu coração, o que minha mãe não queria que eu soubesse? Eu esqueci completamente dos exames.

Comecei a ler, e meus olhos não se moviam para lugar nenhum quando li duas palavras, meu coração parecia ter parado de bater, eu parei de respirar, minhas mãos suaram.

Tumor cerebral.

Coloquei o papel de volta no lugar, e depois a caixa, voltei para meu quarto e sentei ao lado da janela, observei o céu, eu não conseguia pensar em nada.

Era como se fosse uma lei da física. A tristeza não pode ir embora, ela sempre volta, à tristeza nunca vai embora. Agora era como se um corvo andasse comigo o tempo todo.

Deve ter doido muito. Ela estava me criando sozinha, e agora eu poderia morrer e deixa-la definitivamente sozinha? Ela perdeu os pais, sendo filha única e não tendo nenhuma tia ou tio, perdeu o meu pai e eu tenho certeza que ela ainda o ama, eu posso ver como ela olha para ele quando ele vem me visitar. E agora a vida estava me tirando dela, de uma forma triste.

E o Rafael? Não conseguia pensar em como ele se sentiria, eu não sabia verdadeiramente o que ele sentia por mim. Agora eu sabia o motivo das dores de cabeça, náuseas, tonturas, tudo fazia sentido. Eu poderia até fazer quimioterapia, mas eles voltam não é? Eles voltam. Como a tristeza, eles nunca saem de você. Eu adormeci com medo enquanto olhava as estralas da janela do meu quarto.