A Inocente Malicia Da Morte
3 A Morte
Nesse mesmo momento, percebi a fragilidade de um ser humano. Qualquer um pode dizer que é frio o suficiente pra cuspir em um “eu te amo” verdadeiro, mas as pessoas se fragilizam quando estão perto de alguém que amam, todos nós temos um ponto fraco que anda por aí, alguém que apenas ao citarem o nome, varias coisas passam em nossas cabeças, o nosso coração dispara, ou até mesmo ficamos felizes quando ficamos sabendo que aquela pessoa vai estar no mesmo lugar que a gente, ou as vezes medo. Nosso ponto fraco não é somente alguém que nos faz feliz, com certeza pode ser alguém que nos faz muito mal, quando estamos sendo cobrados por pessoas que sempre querem além do que você pode oferecer, quando estamos apanhando emocionalmente de alguém que gostamos muito e só de ouvir aquele nome, vem a vontade de chorar e o coração aperta de uma forma surpreendente, quando estamos ao lado de alguém que amamos, mas nunca vamos ter. Mas pontos fracos nos fazem humanos.
O sussurro de Rafael me fez desmoronar, eu não estava mais com coragem para dar-lhe adeus, não faria aquilo. Pelo menos não agora, eu esperaria um pouco mais.
–- Eu gosto de você, dês do começo da nossa adolescência, dês do dia em que dormi em sua casa e ficamos conversando até tarde sobre besteira, quando eu tinha 13 anos, por favor, eu não estou falando isso da boca pra fora, eu pensei muito antes, e não consegui chegar a uma conclusão, os meus pensamentos me levavam a pensar em nunca te deixar, e eu acho que isso é amor não é? Permanecer, mesmo quando alguém que nós amamos nos obriga a partir. – ele desabafou.
Como eu poderia... Como eu poderia deixar de lado, alguém assim? Eu lutei contra a vontade, mas acabei falando o que não devia.
–- Eu também te amo Rafael, eu te amo muito. – eu declarei-me enquanto o abraçava.
Entramos na casa dele e conversamos sobre varias coisas, enquanto eu estava com ele esquecia da minha maldição, esquecia de tudo. Começamos a jogar vídeo game, perdi 3 partidas seguidas, fomos na cozinha e cozinhamos macarrão instantâneo, misturamos com varios ingredientes, é claro que a mistura ficou terrível, não conseguimos comer.
Depois deitamos no sofá, ele deitou com a cabeça por cima do meu peito, eu acariciei a sua cabeça, enquanto assistíamos um filme de comedia romântica qualquer, aquele dia fez toda a tristeza que eu estava sentindo ir embora.
Meu celular despertou, 18:30.
Era hora de eu ir embora, conversei algumas besteiras com ele, depois beijei a testa dele e logo depois um beijo leve na boca, fui embora, da próxima vez que nos encontrássemos, eu não poderia fugir. Eu teria que ter coragem pra deixar ele ir, eu não tinha o direito de leva-lo ao sofrimento comigo.
Quando cheguei em casa, vi um homem com cabelos cor de ouro sentado na poltrona da sala, era meu pai. Corri e o abracei por trás.
–- Só assim pra você aparecer não é? – brinquei
–- Brincando com uma coisa seria dessas Ciro? – ele falou sorrindo
Meu pai era o tipo de pessoa em que você poderia se apoiar quando o mundo estivesse desmoronando. Ele sempre aparecia com um sorriso confortante no rosto, depois de qualquer tragédia que fosse eu nunca o vi chorar. Era um homem bastante misterioso, por exemplo, ele não contou a minha mãe o motivo da separação, ele simplesmente acordou um dia e disse que queria divorcio, apenas isso.
— Seu pai chegou duas horas mais cedo, coisa rara. – minha mãe disse feliz.
Duas xícaras de chá estavam sob a mesa, eu esperava que eles estivessem passado essas duas horas conversando.
— Não brigaram não é? – eu brinquei enquanto sentava ao lado de minha mãe no sofá que ficava de frente para a poltrona e a mesa no meio.
— Impressionantemente não, colocamos a conversa em dia, soube que passou no curso.— meu pai disse depois de beber um pouco de chá. – Seu chá continua maravilhoso Danni. – meu pai elogiou, com um sorriso no rosto.
— Obrigado Erick. – ela respondeu, com uma voz seca.
Meu pai colocou a xícara na mesa, olhou para mim.
— Preciso falar com você a sós.
Minha mãe levantou as sobrancelhas.
— Certo.
Levantamos e fomos para meu quarto, meu pai fechou a porta e virou-se para mim.
— Vou te contar porque me separei de sua mãe. – ele revelou enquanto tentava não olhar em meus olhos, não entendi aquilo.
Meu pai sentou-se na minha cama, eu puxei a cadeira giratória que ficava na mesa do computador e puxei para frente dele, sentei-me.
— Sua mãe e eu nos conhecemos e nos apaixonamos muito jovens, casei com ela com 18 anos, ela tinha apenas 16, arrumei um trabalho e aos 23 eu e ela já tínhamos nossa casa. Eu amava, e ainda amo muito a sua mãe, eu a salvei quando ela ficou órfã, ela não tinha familia, ficou morando como e meus pais um tempo, os pais dela morreram em um acidente de carro, ela sofreu muito na época. Então, eu procurei um emprego, e depois pedi ela em casamento. Mas quando você nasceu, eu pedi para um amigo meu olhar o seu futuro. Eu queria saber se você teria sucesso na vida.
— Olhar o meu futuro? — perguntei intrigado.
— Sim. Meu amigo é um oráculo. — meu pai revelou.
Tive vontade de rir, mas decidi que esperaria ele contar toda a historia para me jogar no chão e morrer de rir, ao invés de morrer com um tumor na cabeça.
— Sim, ele consegue prever o futuro de qualquer pessoa que ele tocar, mas só até o momento da morte. — ele continuou
— Mas é claro, não existe vida após a morte. – questionei
— Mas é claro que existe, o que você acha que nos provoca calafrios atrás do pescoço? — ele falou em tom de brincadeira.
Eu rir baixinho.
— Meu amigo viu que você só viveria até os quinze anos, e aquilo me enlouqueceu, eu não poderia contar a sua mãe, porque ela não sabia do meu trabalho. E eu preferia manter ela segura sem contar nada. Eu trabalhava como uma espécie de entregador de encomendas, desde mundo, para o mundo reverso. O mundo reverso é o lugar onde todas as criaturas, da fantasia da humanidade esta contidos, é claro, eles não são menos reais que nós, alguns deles arrumam um jeito de passar e viver aqui legalizadamente, outros fogem e cabe a mim, empacota-los e leva-los de volta ao lugar deles.
“Flho, toda e qualquer historia que você já ouviu sobre lobisomens, vampiros, fadas e qualquer criatura desse tipo é real, pessoas que viveram experiências com elas escreveram os livros, contaram as lendas, como forma de um aviso. Seres humanos normais só conseguem vê-los quando estão com medo. Mas você, você esta para morrer, e quem esta para morrer não só sente o medo o tempo todo, como tem o medo dentro de si.”
Meu pai estava ficando louco? Me controlei para não interrompe-lo, esperei ele terminar.
“Mas o oráculo assim como eu sabia que existia um jeito de atrasar a sua morte. Usando a moeda da morte, ela faz um acordo a Morte em pessoa, onde você deve fazer três favores para ela. Eu invoquei a morte, e fiz os três favores e atrasei sua morte em alguns anos, para quando você estivesse grande suficiente pudesse fazer outro acordo. Consegui fazer os dois trabalhos, mas o ultimo custou meu bem mais precioso.”
Pude ver lembranças terríveis invadirem os olhos cinzas de meu pai.
–- Sua mãe. A morte pediu que o terceiro trabalho fosse eu abandona-la e no momento que eu a abandonasse você ficaria curado. Então, eu pedi divorcio e só aparecia para te ver de vez em quando. Mas agora, você pode fazer um acordo e se salvar filho, não existe uma pessoa que você tenha um laço forte, o acordo não afeta laços de sangue, então ele não pode tirar nem a mim nem a sua mãe de você! – ele estava exaltado, falando com toda a esperança possível.
Levantei da cadeira e comecei a chuva de perguntas na minha mente. Como meu pai se tornou um empacotador? Quem era o seu amigo oráculo? Como eu poderia acreditar naquilo tudo?
— Eu preciso que você me prove pai, prove que isso tudo é real. — eu disse.
Seu rosto ficou serio, ele colocou a mão no bolso e tirou uma moeda de prata velha do bolso. Ele pegou o meu pulso e apertou, abrindo a minha mão, então colocou a moeda na minha mão, o quarto estremeceu, como se um breve terremoto tivesse passado, o ar ficou gelado.
Escrito pelo contorno em volta da “coroa” da moeda, uma coroa de espinhos, estava “Ut porta nulla viam mortis”, olhei para meu pai.
— O que significa? — perguntei
— A morte é só uma porta para um caminho sem volta. — ele disse
Espantei-me com a verdade contida naquela palavra.
–- Abra a mão. – mandou meu pai
Ele tirou um canivete do bolso e sem pestanejar cortou meu dedo indicador, um corte nada superficial. Mas pelo menos meu dedo ainda estava no lugar. O sangue escorria pela minha mão agora, meu pai mandou que eu fechasse a mão, para que o sangue tocasse melhor a moeda. Assim eu fiz, o sangue cobriu a moeda, e meu pai cortou a palma da mão, com o sangue fez um pentagrama no qual eu fiquei no meio. Ele começou a falar coisas em latim. O quarto ficou com o ar seco, como se estivéssemos no deserto debaixo de um sol escaldante. Comecei a suar quase imediatamente.
–- Feche os olhos. – meu pai disse.
Fechei-os, estava frio outra vez, e quase 10 segundos depois, um calor de novo, senti como se minhocas estivessem se movendo embaixo dos meus pés, depois vários insetos voando, senti cheiro de enxofre e de flores, ouvi a voz de pessoas chorando. Do nada, tudo parou.
–- Abra os olhos. – meu pai disse, ofegante.
E lá esta aquele garoto, seu cabelo negro como o meu era liso e brilhante, sua pele branca era como neve, seus olhos azuis claros invadiram a minha alma quando ele me olhou sorridente. Estava vestido com um terno preto, seu cabelo estava devidamente penteado, parecia estava vestido para um enterro.
Ele riu sarcástico.
— Eu achei que só precisaria te buscar no dia 22 de Julho, senhor Ciro. — disse a Morte.
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