Eu imaginava a morte como alguém mais sombrio, talvez mais velho. Mas aquela pessoa que estava na minha frente, era uma criança, tinha no Maximo 12 anos de idade. Sua voz ainda confundia se era de um menino ou de uma menina, fruto da puberdade. Olhei para meu pai incrédulo. Ele andou e abriu a boca para falar alguma coisa para a Morte.

— Você não cresceu nada, seu garoto brincalhão! – meu pai falou como se fosse alguém que ele gostasse muito e estive muito feliz em ver.

Apertei os olhos de forma desconfiada.

— Você envelheceu, acho que vou lhe ver umas três vezes nessa vida Erick! – falou com um sarcasmo afiado.

— Não fale isso, e se eu me suicidar? Não vou precisar da sua ajuda.

A Morte gargalhou.

-- Muito bem pensado. – o garotinho analisou. – Mas como esta você e sua esposa? Seu filho esta com saúde?

Os olhos de meu pai brilharam de raiva, ele controlava um sorriso falso, vi ele apertando os punhos fechados.

-- Estão ótimos, meu filho esta alto, esbelto, bonito. Não esta vendo? – meu pai respondeu, tentando manter a calma.

O garotinho virou o rosto para mim, me mediu com os olhos, sorriu e andou até a minha cama, depois se jogou e ficou deitado de lado, apoiando a cabeça na mão, colocou a foice que carregava presa em suas costas por uma corda, na cama.

A Foice tinha um cabo de pelo menos 1 metro e 60 centímetros. A lamina era de pelo menos 55 centímetros e era prata, eu vi o meu reflexo antes dele a colocar em cima da cama.

-- Ele tem seus olhos e cor de pele. –- ele disse. – porque me chamaram?

Meu pai sentou-se na cadeira em que antes eu estava sentado.

-- Precisamos fazer um acordo, para meu filho. – ele começou a falar. – ele esta com...- A Morte interrompeu meu pai

-- Ele esta com um tumor cerebral e bla, bla, bla, eu sei disso tudo. O que me admira é você ter a coragem de fazer o pacto com o seu filho apaixonado. – ele questionou ironicamente. – será que a historia irá se repetir? – ele falou e depois riu.

Meu pai me olhou serio. Aquilo com certeza não estava nos planos dele.

-- Apaixonado? – ele perguntou serio.

-- Muito. – eu disse com medo

-- Isso é um problema. – temeu.

Problema? Pensei.

-- Então, o que vocês querem que eu faça? – perguntou a Morte coçando a cabeça e se contorcendo confortavelmente na minha cama.

-- Nós queremos que retire o tumor. Só isso. –- meu pai explicou

A Criancinha finalmente levantou-se e andou pelo quarto lentamente, enquanto cutucava o teclado do meu computador, parecia pensar.

-- Isso custa muito caro. – ele disse.

-- Por quê? É só retirar uma doença, simples. – meu pai argumentou.

-- Sim, mas diferente da outra vez, a doença esta no negociante, isso torna tudo diferente. Da ultima vez, você queria salvar outra pessoa, as consequências foram poucas. Deixe-me dizer. Da ultima vez, você queria apenas atrasar a morte de alguém, então o preços que você pagou foi ficar sem sua esposa durante o tempo de vida da pessoa que você salvou, ou pelos menos até o tumor voltar, agora que ele voltou, você pode voltar para os braços dela.

“Mas dessa vez o próprio negociante esta pedindo para salvar alguém da morte, esta pedindo para ser salvo definitivamente, isso requer um pagamente definitivo. Por isso, digamos que vai sair mais caro. “— ele falou enquanto parecia ficar feliz com a possibilidade de me fazer sofrer.

Desesperei-me brevemente.

— Por favor, não tire a pessoa que eu amo de mim, por favor. — eu supliquei

A criança gargalhou, gargalhou e gargalhou, como se eu tivesse contado uma piada extremamente engraçada que a faria ficar feliz pelo resto da noite.

— Eu lembrei da ultima vez, quando afastei seu pai e sua mãe, aquilo foi realmente, divertido. — ele lembrava e ainda ria um pouco enquanto enxugava as lagrimas de risos. — Mas não, não vou fazer a mesma brincadeira duas vezes, pode ficar feliz, pelo menos por enquanto.

A Arrogância daquela criança me deixava furioso. Mas era curioso, a Morte era uma criança. Isso me fazia pensar que nós éramos como os brinquedos, e a Morte brincava conosco como se brinca com bonecos, e as vezes crianças quebram brinquedos.

— Quais são as tarefas? — meu pai perguntou.

— Bem, tenho duas em mente. A Primeira é achar essa garota e trazer ela até mim.

Ele tirou do bolso a foto de uma garota, branca, com olhos violetas e os cabelos ondulados e brancos, seus lábios eram vermelhos e perfeitos, faziam quase o formato de um coração e levemente fartos, aquela foto despertou minha bissexualidade.

—Onde ela esta? — eu perguntei.

— Tome isso — ele jogou um papel colorido na minha mão, nele estava escrito “Circo voador, o espetáculo que espanta a tristeza.” — O ingresso te levara ao circo assim que o espetáculo começar, não se preocupe.

Guardei no bolso.

— A segunda tarefa é encontrar a cura para mordida de lobisomem. Seu pai pode cuidar de uma forma de te levar até lá. — ele falou. — A ultima tarefa será dada quando você fizer as duas primeiras, eu estarei de esperando na sala branca, seu pai também deve conhecer este lugar. Mas agora, eu estou indo, estou com fome e com sono, tchau.

O Garoto andou até o meio do pentagrama, pegou a moeda que eu deixara cair no chão, e beijou, logo sumiu. A morda quicou no chão.

Sim, eu acreditava agora. Acreditava no que meu pai disse, acreditava que o único motivo da separação dos meus pais era eu, acreditava que talvez eu tivesse uma chance de sobreviver, acreditava que eu tinha que me afastar de Rafael, pelo menos por enquanto...

Olhei para meu pai e esperei ele dizer alguma coisa, mas ele não disse nada, se aproximou e me abraçou.

— Tudo vai dar certo. — ele sussurrou nos meus ouvidos.

Eu chorei outra vez, eu sentia nojo de mim, por sentir pena de mim mesmo, eu não tinha medo de morrer, eu tinha pena. Não queria deixar ninguém, esta parte de mim era egoísta, porque eu não queria deixar de viver alguns momentos com eles, não estava com pena de deixa-los apenas porque eles poderiam sofrer, mas porque eu não viveria mais, e eles sim. Eu tinha vergonha, vergonha de tudo aquilo.

Meu pai fez outro símbolo no chão, desta vez com giz, desenhou um circulo e dentro do mesmo um triangulo e dentro do triangulo tinha três pequenos símbolos, o da ponta direita do triangulo parecia ser uma meia lua, da ponta da esquerda um pequeno circulo com um ponto no meio, e na ponta de cima o símbolo do signo de Áries.

Meu pai terminou de desenhar e bateu uma mão na outra para tirar o giz que restou das mãos. E ficou parado olhando o circulo que tinha feito, parecia analisar se estava bem feito. Der repente caiu em si e mandou eu me aproximar.

— Esperaremos sua mãe dormir e partiremos. — ele disse.

Pensei em Rafael.

— Não, eu tenho que me despedir de alguém. — eu cuspi aquelas palavras, como se fosse um suplico.

— Filho, não temos tempo. Você ouviu a Morte, ela disse que você vai morrer no dia 22 de Julho, estamos no dia 15 de abril, falta pouco tempo. Logo o chamado do Circo vai chegar, temos que te treinar e fazer aguentar os sintomas da doença pra poder lutar. — meu pai negou, seu rosto estava serio.

— Eu sei que tenho pouco tempo, mas eu só preciso me despedir dele, eu amo muito pai! — eu falei, eu confessei, agora meu pai sabia da minha sexualidade.

— Ele? — ele falou, sua voz não mostrava nenhuma emoção.

— Sim, eu amo um garoto, me desculpe. — falei.

Meu pai riu simpaticamente.

— Eu não ligo filho, eu vivo em dois mundos, existem monstros e criaturas horríveis, sei de vários segredos dos dois mundos e você acha que eu ligaria para a sua sexualidade? Que eu ficaria triste com isso? Eu te amo, e não importa em que situação você esteja, eu sempre vou te amar. — ele confortou-me enquanto segurava meus ombros e olhava nos meus olhos, depois me puxou e me abraçou.

— Obrigado pai. — só consegui dizer aquilo, enxugando as lagrimas nos meus olhos.

No dia seguinte acordei as 9hr e sai bem cedo para me despedir do Rafael, eu tentaria não dizer tudo a ele. Fui andando aquele dia, fiquei pensando sobre tudo que estava acontecendo, vivi 19 anos acreditando que lobisomens e criaturas sombrias eram coisas de filmes e livros, e agora eu teria que lutar contra algumas delas para poder sobreviver.

Me aproximei da varanda da casa dele, ele não estava lá daquela vez. Não estava lendo o terceiro volume do mangá. Bati na porta, eu estava com vontade de chorar. Quando eu ia bater a segunda vez, ele abriu a porta, seus olhos brilharam ao me ver, meu coração bateu mais rápido ao ver a felicidade contida nele ao me ver. Nos olhamos por um ou dois segundos antes de nos abraçarmos desesperadamente.

Era como se ele soubesse que eu estava partindo.

— Você não deu noticias de novo. Parece triste, tem alguma coisa acontecendo? —ele perguntou, sua voz máscula, mas meiga me deixava manso.

— Aconteceu... Olha... — comecei a chorar. — Eu vou ter que ir embora por um tempo, mas eu prometo voltar — ele também começou a chorar quando falei “ir embora” — E eu quero que você continue aqui, me esperando, porque eu vou voltar e nós dois vamos ser felizes, porque eu estou indo por você, porque você me da forças pra me sustentar, pra fazer o que irei fazer. Eu te amo, nunca esqueça isso, e caso eu não voltar. ­— tirei a moeda do contrato do meu bolso, meu pai me disse que não era mais útil para mim e nem para ele. — guarde isso com você, eu te amo muito! — minha voz falhou quando disse que o amava.

Coloquei a moeda na mão dele e beija a testa, ouvi o carro de meu pai buzinar antes de um “filho”, ele conhecia o caminho da casa de Rafael por me levar e me buscar quando eu era pequeno.

Dei um passo para trás para sair dali. Rafael segurou o meu braço com força e falou firmemente.

—Eu vou te esperar.

Corri chorando como um bebê na direção do carro de meu pai, e entrei, sentei no banco do carona. Olhei para a varanda e Rafael chorava apoiado na porta, em sua mão direita a moeda e na esquerda o mangá, provavelmente o volume três, olhei para ele uma ultima vez antes de virar a esquina.

Voltamos para casa, e minha mãe estava colocando a mesa do almoço, meu pai a beijou na minha frente, eu me surpreendi.

— Quando foi que vocês dois reataram? — eu perguntei rindo

— Na noite passada, durou a noite toda na verdade. — meu pai falou como se estivesse se vangloriando.

A duvida me veio na cabeça, eu nasci, meu pai ficou sabendo do meu destino, poderia ter feito o contrato quando eu era bebê, mas fez há quatro anos, quando se separou de minha mãe, porque?

Minha mãe estava radiante, terminou de colocar a mesa e todos sentamos, nós nos servimos e comemos alegremente. Parecia que não estava acontecendo nada, mas na verdade, o problema era eu, eu era o ponto fraco deles, o de Rafael, o de minha mãe, do meu pai, assim como meu pai era o ponto fraco de minha mãe e minha mãe o de meu pai, assim como eles dois eram os meus pontos fraco.

Era disso que se tratava os sentimentos humanos, de pessoas. Pessoas que você gosta, pessoas que você odeia, pessoas que são indiferentes para você. Os sentimentos despertam por causa de experiências e experiências são causadas por pessoas.

Fiquei ouvindo as historias engraçadas de meu pai e de minha mãe por pelo menos 2 horas na mesa e depois no sofá enquanto ouvíamos a radio local, a chuva começou a cair lá fora, tornando tudo mais agradável, assistimos filmes, series, vivemos como uma família por algumas horas, então, chegou a hora de se deitar, eu fui para o meu quarto e escrevi uma carta, como meu pai havia mandado.

“Querida mamãe,

Espero que não fique com raiva de mim e de meu pai, mas estamos partindo, por pelo menos três meses, meu pai disse que tem a solução para o tumor, não vai fazer diferença se você acredita ou não, eu vou morrer da mesma forma.

Então melhor eu procurar uma forma, do que ficar sentado esperando a morte chegar. Por favor, não se sinta excluída por não saber mais do que estou te contando nesta carta, é tudo para te proteger, talvez quando voltarmos te contaremos tudo.

Meu pai pediu para dizer que te ama muito, e que sempre vai te amar, nunca deixou de te amar e tudo que ele fez foi para o nosso bem, ele também disse que seu sorriso é o único que ele nunca vai esquecer.

Atenciosamente, seu filho e seu marido que te amam muito.

PS: Caso eu não voltar, até o dia 22 julho, não me espere para o jantar.”

Terminada a carta, a coloquei em cima do meu travesseiro e fiz a mala, vesti a minha camiseta preferida, coloquei uma calça vermelha escura e um sapato cano alto preto com alguns detalhes marrom. Coloquei dentro da mala, roupas, uma foto de Rafael e uma foto de minha mãe, peguei lanterna, e outras coisas uteis para exploração em florestas.

Meu pai entrou pela porta trazendo a sua velha mochila preta, o pano estava velho e parecia que rasgaria com qualquer puxãozinho.

— O que é isso? — ele perguntou olhando para minha mala.

— É a minha mala ué — eu disse

— Pra onde acha que esta indo? Pro Canadá? — ele falou irônico.

Andou pelo quarto e pegou a mochila que ficava pendurada em uma maçaneta no guarda roupa.

— Coloque apenas o que você vai precisar nas missões, bussolas, comida, cantis, lanternas, não pegue nada que lembre o mundo humano.

— Mas e a lanterna? Os salgadinhos, biscoitos e refrigerantes que eu ia levar? — perguntei

— Não tem problema se ninguém ver você usando.

Fiz o que ele pediu, e terminei a mochila. Meu pai me esperava dentro do circulo que estava coberto por um tapete, ele usou o giz para reacender as partes que apagaram por causa do tapete.

Ele mandou que eu fechasse os olhos e começou a falar coisas em latim. Comecei a sentir como se estivesse na parte tensa da subida de uma montanha russa, depois de alguns segundos meu pai parou de falar as palavras e disse que eu poderia abrir os olhos, aos poucos, meu quarto foi se desintegrando, como se estivesse se passando vários anos e tudo estivesse envelhecendo, e no lugar do meu quarto, ia se construindo uma casa comum, os moveis nem muito novos nem muito velhos lembravam-me a casa de Rafael. O chão era de madeira e o teto também, quando dei por mim, estava em uma casa completamente diferente, as paredes pintadas de amarelo escuro, diferente do lugar onde estávamos antes, este lugar ainda era dia, e parecia ser pelo menos uma ou duas da tarde.

— Onde estamos pai? — perguntei enquanto observava a casa.

— Estamos no Purgatória, no Mundo Reverso, “Naquele lugar”, no mundo da fantasia, na terra do nunca, no pais das maravilhas, este lugar tem muitos nomes, mas eu gosto de chamar de Purgatória, combina mais com ele.

Olhei pela janela e vi pessoas normais passando, as ruas pareciam ruas normais, fiquei me perguntando o que existia de diferente.

— Não vejo diferença nenhum deste lugar, para o nossa mundo. — eu retruquei

— Melhor você comer um pouco, nossa viagem durou uma semana. — ele contou calmo

— Uma semana!? — gritei assustado.

— Sim, o tempo é o preço a se pagar pela viagem. — ele falou.

— Como assim? — perguntei

— O Circulo de transmutação que eu fiz converteu nossa matéria em energia, para poder viajar de uma dimensão para outra, mas toda alquimia tem uma lei, como tudo na vida. A lei da troca equivalente. O preço por pagarmos em converter nosso corpo em energia e direciona-lo para uma realidade paralela a nossa foi o nosso tempo, que no nosso caso é caso de vida ou morte. — ele explicou, para ele era simples.

— O tempo sempre é caso de vida ou morte. — eu disse, enquanto um sono e fome repentina me batiam, eu desmaiei e cai em um sofá logo atrás de mim. Dormi por algum tempo, não sabia como seria dali pra frente, mergulhei no único mundo que eu ainda me sentia seguro, nos meus sonhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.