Notas iniciais
Surpresa!

Era de tarde quando, sozinha no acampamento Lia decidiu que já estava na hora de ir. Havia andado de um lado para o outro várias vezes desde que o movimento de suas pernas voltara e sua cabeça trabalhou muito durante esse tempo também.

Lia aproveitou a manhã inteira ao lado de Tristan, com seu sorriso, sua risada e sua voz. Contou a ele mais coisas sobre si mesma, da sua vida na ilha, e o deixou fascinado com o funcionamento do comércio humano.

Mas o momento havia chegado e foi com essa certeza que o coração de Lia se comprimiu ao ver Tristan se aproximar com um cacho de fruta em uma das mãos, sorridente.

Sorrindo de volta ela foi até ele.

— Isso que chama de comida?

Ele riu se fingindo de magoado.

— Entrei numa briga sangrenta por essas frutas com cinco macacos e é assim que sou recebido? – deu passos para trás ameaçando voltar.

Lia riu e o interceptou pelo braço, segurando o mesmo. Tristan riu de volta, gostando do som do seu riso e da sensação do seu toque. Parcialmente reconciliados eles sentaram na margem da cachoeira, agora que a garota já podia se locomover, e terminaram o cacho em minutos.

E esses minutos foram os mais dolorosos para ela.

— Como está a ferida?

Lia engoliu o último pedaço de fruta antes de responder.

— Bem melhor – tocou no corte em sua barriga – acho que já consigo continuar.

As palavras deixaram Tristan em alerta.

— Continuar?

Tomando fôlego e virando-se para o garoto ao seu lado Lia o olhou nos olhos, sentindo seu peito pesar a cada palavra que sabia que precisava dizer.

— Tristan, muito obrigada por tudo. Por cuidar de mim e me tirar da caverna, nunca vou esquecer o que você fez. Mas agora preciso salvar os meus amigos.

— O que está dizendo? – ele murmurou, cético.

Ela não podia estar dizendo o que ele acreditava que estava. Não podia ser.

— Eu vou atrás de Nagisa e da tripulação que foi capturada.

O tritão soltou um suspiro de exasperação, mas Lia permaneceu firme.

— Não, eu não vou com você.

O sorriso triste dela cortou o coração do tritão.

— E eu não me atreveria a pedir isso a você. Você me ajudou quando mais precisei, não o colocaria em perigo comigo por capricho.

— Você pode morrer.

— Eu sei.

Lia sorriu, um sorriso com diversas emoções que nem mesmo ela conseguia identificar, e fez o corpo de Tristan se contrair.

— Eu salvei sua vida para você jogá-la fora de novo?

A jovem manteve a cabeça erguida e rebateu-o com os olhos e dentro deles estava a maior determinação que Tristan já havia visto.

— Eu agradeço tudo que fez por mim, mas a minha vida é minha.

— Eu sei – ele suspirou derrotado – não há nenhuma chance de você voltar atrás?

Lia balançou a cabeça negativamente, mas por dentro sua consciência gritava em alarde. Na verdade, ela estava morrendo de medo.

Medo do que estava por vir, medo de sua mãe. Medo por Pierre e os outros, medo por Ana. Mas principalmente medo por si mesma. No momento em que o soldado a havia atingido na batalha dentro da caverna e ela sentiu que iria morrer, nada foi pior do que saber que estava cheia de arrependimentos.

E não poderia fazer mais nada.

Entretanto, ela não morreu e não esqueceu da sensação de ser engolida por tudo que deixou de ser e fazer. E agora faria o que fosse preciso para trazer Pierre de volta porque seu maior arrependimento era não o ter ajudado.

— O que pretende fazer?

Lia piscou e viu o garoto virar-se para ela com um olhar sério. Dando de ombros ela abriu um sorriso tímido.

Ela não fazia ideia.

— Não sei.

Tristan balançou a cabeça e colocou a mão sobre ela olhando incrédulo para a jovem a sua frente.

— Como vai conseguir resgatar eles? Você não sabe chegar lá e não sabe um terço dos perigos que podem estar no meio do caminho.

Lia o fitou concordando com suas palavras, mas não recuou. Com um suspiro alto e estridente Tristan se levantou, afastando-se da margem e da garota. Os olhos dela permaneceram cravados no chão até onde ele estivera segundos atrás, sem reação.

Seu peito doía, mas ela sabia que era a coisa certa a se fazer. Jamais abandonaria Pierre como ele não a abandonou. Nem mesmo que Tristan fosse embora e a odiasse para sempre.

E por um momento essa hipótese a magoou profundamente.

O que estava acontecendo com ela?

— Eu não acredito em você – o garoto resmungou e os olhos de Lia finalmente foram para ele.

O tritão estava com a mochila que Pierre lhe dera para levar durante o caminho até o coração em seu ombro, provavelmente com comida, e uma lança improvisada de madeira presa a ela. Sob o olhar de Lia ele ergueu a sobrancelha.

— Vamos ou te deixo para trás.

Lia sorriu, riu e se levantou. Tudo que repetiu para si mesma sobre Tristan não ir com ela para o bem dele evaporou e as desculpas de que tudo bem ele odiá-la e ir embora perderam o sentido.

Sem pensar em mais nada ela se lançou sobre ele, o abraçando, e Tristan lentamente a envolveu em seus braços, retribuindo. Um sorriso de lado surgiu em seu rosto com a reação da garota.

Entre seus cabelos ele sussurrou:

— Eu jamais a pediria para não ir.

Ela se afastou o suficiente para olhá-lo nos olhos e sorriu, sentindo com ainda mais intensidade todas as reações que estes lhe causavam.

— Obrigada.

— Não me agradeça – murmurou tirando os braços ao redor dela – estou com raiva de você.

Lia olhou para ele com um sorriso ainda mais alegre, ignorando aquelas palavras, e voltou a abraçá-lo, sendo correspondida com mais força. O cheiro floral e marinho dos cabelos dela preencheu os sentidos do tritão e ele pediu internamente que tudo ficasse bem. Que tudo desse certo.

— Não me agradeça – repetiu baixinho – não enquanto não estiver longe e salva.

•••

— Você realmente conhece essa floresta.

Tristan sorriu de lado, na dianteira, driblando mais um galho baixo de árvore. Eles estavam seguindo em direção à caverna de acesso submarino da ilha, localizada em seu centro, e passaram por vários obstáculos até ali, com o tritão prevendo e desviando deles.

Desde de areia movediça à animais mais selvagens que o urso.

— Quando eu disse que a conhecia não acreditou em mim?

— Acreditei – ela o seguiu pulando um tronco no chão – só achei estranho já que você não parece sair muito à superfície.

Tristan a olhou com a sobrancelha erguida, em questionamento, e Lia fez uma careta ao ter que explicar sua fala.

— Você não tem bronze nenhum. Sua pele é branca demais e...

— Então quer dizer que gosta de homens com bronze?

Ele lhe sorriu brincalhão.

— Não estávamos falando disso! – retrucou quase tropeçando numa raiz.

Tristan riu baixo e em seguida fez sinal de silêncio, apontando para a frente.

— Estamos chegando.

Lia ficou alerta e viu, entre alguns arbustos, a caverna que o tritão havia falado. Era diferente da que Nagisa os havia atraído para sua armadilha e bem mais próxima do mar. Eles se enveredaram juntos para mais perto, e com a ajuda de Tristan a jovens subiu num galho de árvore para ter uma melhor visualização do local.

Assim que Tristan sentou do seu lado no galho grosso a jovem teve certeza de que a resposta para aquela pergunta não teria sido nem sim nem não. Ela gostava sim de homens bronzeados, mas gostava do corpo do garoto do jeito que era, apesar de ser branco demais.

— Essa é a entrada – anunciou Tristan, tirando-a de seus pensamentos.

Lia assentiu e olhou através das folhas grandes a sua frente. Na parede cindida da caverna, que ela notou ter uma entrada bem menor que a outra, se encontravam dois homens altos e fortes dispostos em ambos os lados. Vestiam armaduras grandes e azuladas, iguais aos homens que atacaram seu grupo. Dois guardas.

— Ela está protegida.

— É claro que está. O melhor momento para entrarmos vai ser a noite, quando eles estiverem sonolentos. Por hora o mais indicado vai ser esperarmos em algum lugar.

Sorrindo de lado para a jovem Tristan piscou.

— E eu tenho o lugar perfeito.

•••

— Como você encontrou essa caverna?

Lia olhou maravilhada para o pequeno buraco que se mostrou uma caverna ampla por dentro. Tinha o ar úmido e quando Tristan organizou uma fogueira próxima a parede Lia notou, que do outro lado, corria a água de um rio suavemente para dentro das rochas.

— Exploração. Costumo sair da água para cá quando não tenho nenhum chamado do palácio. Essa ilha é grande e cheia de segredos.

Ela chiou em concordância, ainda olhando ao redor, vendo as paredes molhadas e algumas gravuras cravadas nelas.

Primeiro Lia encontrou a imagem de um grande animal marinho, com um corpo grande e o pescoço longo. Parecia uma girafa gorda com barbatanas, mas o desenho parecia tanto um rascunho que ela não teve certeza se era realmente do mar ou da terra.

Logo depois viu pequenas figuras espaçadas ao longo da parede, tomando conta de boa parte dela. Eram dezenas de sereias e tritões, representados pelas longas caudas e o corpo esguio. No meio da multidão de seres marinhos havia uma criança, com sua cauda curta quase deteriorada pelo tempo.

— Esses desenhos são meus – a voz do garoto a despertou e Lia virou surpresa para ele – venho aqui desde pequeno. Eram meu passatempo nas pausas do treinamento do palácio.

Ela olhou mais uma vez para as imagens que cobriam a rocha. Aquela criança era ele.

— Você me contou como era seu treinamento, mas nunca como foi ele para você.

A fala de Lia fez Tristan sorrir melancólico e ela entendeu, pela primeira vez em todos aqueles dias juntos, que a tristeza que o cobrira naquela noite na beira da cachoeira não era por tê-la salvado.

Era por outra coisa.

— O que é tão doloroso para você?

A voz da jovem soou próxima e Tristan a olhou, agora agachada ao seu lado, com os braços cobrindo a frente do corpo. Ela o olhava curiosa, mas empática. E foi lembrando do rosto dela na noite em que desabafou com ele que o tritão a encarou nos olhos.

— Nasci e cresci órfão. Fui jogado para ser treinado como todos os outros órfãos da cidade. Eu nunca tive escolha. Nunca tive voz sobre quem e o que queria ser.

— Você não queria ser general?

Ele negou com a cabeça.

— Eu não queria nada disso. Só queria ter sido livre.

Sentando no chão seco ao lado do garoto Lia assentiu. Ele suspirou enquanto contava sobre sua vida no mar. Desde os dois anos treinando, servindo, sendo um peão. A posição de general nada mais foi do que reflexo de obediência cega e foi ali que ele percebeu que toda sua vida era uma mentira.

Ele era uma mentira.

— Eu te entendo.

— Sei que sim – o garoto sorriu, cabisbaixo, sendo retribuído por Lia – naquela noite percebi o quão parecido somos.

Lia delicadamente deitou sua cabeça no ombro de Tristan que se remexeu para melhor acomodá-la. Ficaram em silêncio por alguns instantes observando o fogo começar a ganhar força logo a sua frente.

Era estranho que, com tão poucos dias juntos, Lia se sentisse tão próxima dele. Tristan foi tudo que ela teve durante os momentos entre dormir e acordar, dor e febre, e ter ele ali parecia tão natural.

Lá fora o sol lentamente começava sua trajetória de descida e a água dentro da caverna gorgolejava competindo com o som das lascas secas de madeira se partindo na fogueira. Lia fechou os olhos ouvindo-os e sentiu com prazer o cheiro do tritão chegar até ela. Forte, aconchegante e doce.

— Naquela noite eu senti que finalmente, em toda minha vida, alguém me entendia – ela sussurrou, baixo, mas a caverna levou suas palavras em bom tom para o garoto ao seu lado – e é muito triste, eu sei que é, viver por tanto tempo preso numa vida que você não escolheu.

Os olhos dela procuraram os dele e o tritão rapidamente encontrou os seus com os esverdeados. Eram bonitos, eram intensos e acima de tudo eram sinceros. Ele quis se afogar naqueles olhos.

— Mas você é forte, Tristan. Eu consigo ver isso só de olhar para você. Ver seu rosto marcado – ela tocou suavemente na cicatriz no maxilar do garoto – e seus olhos.

— Eu sou forte.

Lia sorriu.

— E agora você é livre.

A voz de Tristan falhou quando ele pensou em repetir o que Lia havia acabado de dizer. Livre. Sim, ele era livre agora. Salvar Lia cortou seus laços com o palácio. A partir daquele momento sua antiga vida podia ficar para trás. Ele era livre.

Ainda com os olhos dentro dos dela sua própria consciência negou aquelas palavras. Ele podia estar se sentindo livre agora, com Lia e a ilha que sempre o acolheu ao seu entorno, mas quando voltasse para o mar junto com ela, quando voltasse à cidade que traiu, não seria mais livre.

Se fosse perdoado usando-a como ela lhe dissera voltaria ao cárcere na guarda, se não, seria morto. O futuro era sombrio, mas Tristan agradeceu pelos momentos de liberdade que tivera junto a garota ao seu lado. Se não fosse ela, e por ela, ele jamais saberia a sensação de liberdade. Tristan não a abandonaria. Ele não queria fazer isso.

Sorrindo e vendo a expressão dela suavizar após segundos em silêncio ele assentiu vagarosamente memorizando cada traço do rosto de Lia dentro si.

Obrigado, quis dizer, mas não disse.

— Eu sou livre.

O sorriso dela foi delicioso para o moreno que inconscientemente se aproximou dele, deixando seus rostos próximos o suficiente para ambos sentirem o toque da respiração um do outro. Lia sentiu o estômago se agitar e sua garganta ficar seca.

Ele olhou da boca dela para os seus olhos, lentamente, e a garota ficou parcialmente tonta em expectativa.

Não sabia se a expectativa de um beijo deveria gerar tantas emoções, mas aquela estava deixando-a louca. Ela queria beijar Tristan desesperadamente naquele momento. Muito mais do que quis beijar Kevin durante aqueles dias no mar ou qualquer um de seus namoradinhos da ilha.

O desejo de Lia era tão intenso que ela sentia a ponta de seus dedos formigarem e tinha certeza de que não estava usando qualquer poder naquele momento.

Os olhos azuis brilharam também com desejo, mas Tristan se afastou antes que Lia decifrasse o que seu dono estava sentindo e com a distância todo o corpo da garota murchou, dormente. Deixando-a desapontada e mais racional.

Talvez ele não fosse beijá-la e sua cabeça fantasiou coisas demais desde o momento em que o vira. Tentando arrumar desculpas para si mesma enquanto voltava a deitar no ombro do moreno para esconder o rubor em sua face ainda quente Lia fechou os olhos com força.

Não era momento de pensar em romance quando estavam prestes a entrar em território inimigo. Prestes a enfrentarem os perigos que Nagisa lhe poupara até ali. De enfrentar sua mãe.

Tristan se afastou com relutância tentando também afastar a vontade de beijar Lia. Vê-la ali, tão exposta, tão intensa e entregue o deixara estranhamente agitado. E seu corpo agiu sozinho.

Mas de volta a sua consciência ele sabia que não poderia fazer isso com ela. Lia era uma Deusa e ele um tritão renegado. Ela tinha pessoas para salvar, pessoas importantes, e ele sabia que não podia se dar ao luxo de mudar o foco naquele estágio do seu resgate.

Todas essas desculpas pareceram fajutas demais quando a jovem voltou a deitar em seu ombro, compreendendo que a conversa já havia acabado, e ele se ressentiu por não ter feito nada. Por não ter aproveitado sua liberdade de uma outra forma.

Entretanto aquele sentimento não durou muito quando a abertura da caverna escureceu e o sol cedeu para dar lugar a lua, lançando a noite fria sobre a ilha.

•••

Passar pelos guardas foi mais fácil do que Lia imaginou e depois de uma distração entre as folhagens, que fez ambos saírem de seus postos, a dupla deslizou para dentro da caverna.

Na parte interior, depois de um longo corredor de terra, havia uma sala grande e arejada. Não havia nada em cima de suas cabeças e o céu reluzia para eles de uma abertura enorme metros acima, com a luz da lua iluminando o lugar.

As pedras que cobriam as paredes e o chão eram polidas e negras, e rochas penduradas nas paredes indicavam um altar próximo a parede oposta e foi para lá que a dupla seguiu. Tristan foi na frente e verificou sobre o mesmo o dispositivo de abertura, um botão com um símbolo retorcido.

Tristan explicou que aquele era o símbolo de Nagisa, com o círculo simbolizando sua aliança com o mar e as linhas retorcidas ao redor dele seu pacto com os seres marinhos. Lia observou atenta o mesmo que se iluminou num tom azulado quando a mão do tritão pairou sobre ele.

Após acioná-lo no meio do salão negro se abriu um círculo perfeito na rocha com seu interior transbordando uma água turva. Lia olhou para o garoto no instante que ele também o fez e sorrindo Tristan desceu do altar.

— Pronta para nadar um pouquinho?

Lia abriu um sorriso duvidoso para ele e olhou receosa para a água que balançava agitada pela abertura do fosso, aparentando estar sendo movimentada por algum dispositivo interno.

— Como nunca estive – fingiu animação e Tristan riu.

Lado a lado ele deu o primeiro passo, se agachando na borda. A garota o observou e ameaçou se aproximar também, mas quando a água ameaçou molhá-la recuou.

Fria.

Tristan sorriu provocador.

— Está com medo de água, Lia?

Fazendo uma careta para ele e novamente encarando a passagem a ruiva tomou fôlego.

— Nos vemos lá embaixo, tritão.

Correndo e tentando não pensar na temperatura da água Lia pulou dentro do buraco e foi imediatamente sugada por ele. Água esguichou para cima e Tristan, seguindo-a, afundou na imensidão azulada. Deixando o salão com apenas a brisa fria da noite como convidada.

Notas finais
E aí, alguma dúvida sobre a história, os personagens, etc? Alguma dica, crítica ou esporro? Olha lá hein, quem cala consente!