A Herdeira do Oceano
14 Fundo do mar
Notas iniciais
A sensação térmica foi menos dez graus, mas segundos depois de uma queda livre na água tudo se tornou um pouco mais suportável quando Lia foi expelida do buraco pelo qual descera. O suspiro dela, já estabilizada na água, se transformou em bolhas e usando seus poderes ela conseguiu enxergar onde estava.
De cima rochas iam em funil até o final do tubo que havia atravessado e logo abaixo, além do oceano infinito e azul, a direita de si, se erguia uma imensa floresta de algas que subia e se estendia até sumir de vista.
Era como a floresta que Lia vira na ilha, com folhas grandes, mas seu verde escuro, sua quantidade e altura deixavam tudo sinistro. A pele da jovem se arrepiou com o pensamento, mas no instante seguinte o corpo de Tristan caiu ao seu lado e ele sorriu travesso.
Lia sorriu para ele de volta, com superioridade por ter conseguido entrar, e o mesmo riu. Olhando para os lados o tritão avaliou o local e deslizou os olhos pela imensa floresta de algas que se alongava tanto para cima quanto para os lados.
— O mais seguro é contornarmos essa floresta. Ela é espessa e tem alguns parasitas irritantes.
— Parasitas?
Virando de volta para Lia mais uma coisa o chamou a atenção.
— E precisamos nos livrar dessas pernas.
A jovem olhou para suas pernas que balançavam com dificuldade para mantê-la de pé e concordou, observando admirada quando Tristan fechou os olhos no momento seguinte e lentamente seu corpo começou a ser coberto por finas escamas. Os cabelos se tornaram mais agitados e a pele ganhou um brilho maior.
As pernas foram se dissolvendo em espuma para dar lugar a uma cauda longa e de tom azul marinho. Ele bateu ela duas vezes antes de abrir os olhos e quis rir ao ver a expressão surpresa de Lia.
— Sua vez.
Retomando a compostura ela também fechou os olhos, tocando suavemente no colar de búzios em seu pescoço. O pedido foi o mesmo que fez quando entrou pela primeira vez debaixo da água, mas o vórtice que arrematou seu corpo foi muito mais forte que da última vez.
Diferente da mudança do tritão a de Lia foi de uma vez só e assim que seu corpo se viu livre do vórtice praticamente tudo havia mudado.
Suas pernas se transformaram em uma cauda rubra, sua roupa cedeu lugar para a nudez e os cabelos, que já estavam ruivos, cresceram para além das suas costas, flutuando na água ao redor dela como uma nuvem, se enroscando vez ou outra em seus braços. A pele de Lia novamente estava coberta de escamas e Tristan se admirou com tamanha beleza.
Ela piscou surpresa pela transformação, rodando e tentando enxergar até onde seu cabelo ia, mas não demorou muito tempo se perguntando o que havia acontecido para seus cabelos mudarem de novo pois a reação de Tristan a tirou totalmente desses pensamentos.
Assim que ela o olhou, ainda com as orbes saindo do verde fluorescente para o tom normal, o moreno sentiu o coração palpitar.
Com um sorrisinho de lado ele fez uma reverência exagerada e Lia riu.
— Divindade.
— Não seja bobo. E então, o que faremos agora?
Ela bateu a cauda e ficou de frente ao garoto rapidamente. O mesmo tentou evitar olhar para sereia a sua frente, sentindo seu corpo reagir a aproximação de forma bastante excitada.
Sua própria forma marinha, ele percebeu, o deixava com muito menos controle sobre seu corpo. E a forma marinha dela o atraia muito mais do que minutos atrás na superfície, quando já estava completamente seduzido por ela, percebeu.
Pigarreando ele virou de costas para Lia, tentando fugir da nudez da mesma como também o fez na cachoeira, e ela sorriu para si ao notar o vermelho no rosto do moreno. Com um estalar de dedos a jovem cobriu seus seios com o material mais próximo de couro que conseguiu conjurar, do mesmo tom vermelho de sua cauda.
— Vamos contornar essa floresta, pelo Sul – ele indicou uma direção – e chegamos à cidade. Precisamos ser rápidos porque vai levar muito tempo e...
Tristan, com toda uma postura de instrutor, foi lentamente enquanto falava virando de volta para Lia. Primeiro a viu novamente coberta e em seguida, quando elevou seus olhos, algo o fez paralisar. A jovem o olhou confusa e antes que pudesse arriscar bisbilhotar o que ele via foi agarrada pelo braço.
— Mudança de planos, nade.
O tritão puxou Lia com força e rapidez e ela só conseguiu ter o vislumbre trêmulo de uma imensa criatura se aproximando deles vinda do mar aberto. Ela era grande e tinha um longo pescoço e automaticamente a garota se lembrou dos desenhos de Tristan dentro da caverna.
Mas a figura atrás deles era mil vezes maior e parecia muito mais perigosa do aquele rabisco infantil. Os pelos de Lia se arrepiaram e medo foi injetado em suas veias. Em segundos ela não precisou ser puxada, nadando a todo vapor ao lado do tritão.
Os sons da criatura eram abafados pela pressão oceânica, mas se aproximavam rapidamente, como se seu enorme corpo não sofresse nem um pouco pelas correntes. Ele estava nadando tão rápido quanto eles e logo os alcançaria.
Quando a floresta de algas se tornou o único caminho a seguir Lia e Tristan, juntos, mergulharam nela dando as mãos para não se perderem em meio as folhas longas e molengas. Tudo se tornou um caos na visão de Lia e apenas a cauda de Tristan a mostrava que ela o seguia, assim como as mãos entrelaçadas.
Seu coração estava acelerado, de um jeito extremamente ruim, e sua cauda, enganchando vez ou outra em algas, partindo-as no processo, a atrasava mais do que gostaria.
Mas o animal não pareceu se atrever a seguir a dupla dentro daquele inferno verde e depois de bons minutos nadando eles pararam para respirar no meio da confusão de algas.
Tristan estava próximo de Lia, próximo demais, gritou os sentidos dela, mas ambos tinham pouco espaço entre a vegetação e ela nada podia fazer. Então, recuperando a respiração praticamente apoiada nele com uma das mãos e todo o outro braço a jovem tentou voltar a raciocinar.
O garoto retomou a respiração com rapidez e analisou o entorno procurando sua localização. Conhecia bem demais aquela floresta de algas traiçoeiras e estar ali dentro, perdidos, não seria nada bom para ambos. Frio correu sua espinha.
— O que raios era aquilo?
Tristan riu da indignação na voz da jovem que o olhou interrogativa, próxima o suficiente para ser beijada.
Com rapidez ele afastou esse pensamento.
— É um dos monstros marinhos menos conhecido. Ele não tem nome aqui embaixo, mas acredito que vocês o chamem de dinossauro? Ele é bastante antigo.
Ele pareceu pensar.
— Como é o nome daquele lago que teve uma aparição dele? – pensou alto.
Os olhos de Lia se arregalaram e ela afastou as mãos de Tristan para cobrir a boca, fazendo o garoto rir.
— O monstro do lago Ness?
— Isso! Esse mesmo. É um dos preferidos de Nagisa e ela tem controle sobre eles nessa parte do oceano. Lembra das linhas retorcidas no símbolo?
Ela assentiu temerosa.
— Pois bem, é um pacto com todos os seres marinhos. Incluindo monstros como aquele.
— Então ela já sabe que estou aqui?
O garoto fez uma careta.
— Se não sabia, agora vai saber. Ele também é os olhos e ouvidos dela aqui em baixo. Costuma circular ao redor da cidade para se alimentar de sereias e tritões que acabem saindo dos domínios da Deusa, seja para fugir ou por descuido.
Novamente Lia olhou espantada para o tritão, porém com repulsa ao invés de surpresa no rosto.
— E ela deixa?
A expressão e o olhar de Tristan a responderam mesmo antes de sua voz.
— É claro que deixa. Esse é o acordo deles. E esse é um dos piores vassalos que ela tem. Os dentes dele conseguem partir os ossos na primeira mordida e seu estômago...
Lia chiou, cobrindo a boca de Tristan com as mãos, fazendo-o olhá-la e sorrir.
— Eu realmente não preciso saber disso. Estamos seguros já, não me faça pensar no que poderia ter acontecido se não tivéssemos escapado.
Lentamente ele abaixou as mãos dela com a sua.
— Talvez não estejamos tão seguros quanto você pensa.
Lia balançou a cabeça e revirou os olhos, fazendo os cabelos avermelhados sacudirem algumas algas próximas.
— O que foi agora? Tem mais monstros grandes, feios e com dentes enormes aqui?
Ela olhou para os lados teatralmente e Tristan sorriu, divertido, mas antes que pudesse responder o corpo de Lia foi puxado para baixo com rapidez.
Sem pensar ele tentou segui-la, nadando, mas ela afundava cada vez mais e mais rápido e o desespero nos olhos dela o enchiam de angústia.
— Parasitas – rosnou nadando com o máximo de força que conseguia.
Quando Lia sentiu sua cauda ser agarrada, não por mãos, mas por algas o alerta do tritão fez bastante sentido em sua cabeça, e com seu corpo agora sendo arrastado para as profundezas de uma floresta sombria e assustadora ela não sabia se preferia a morte rápida com o monstro marinho de dentes enormes ou aquela com algas assassinas.
Tristan a acompanhava praticamente de igual pra igual e estendeu a mão para ela agarrar. Mas assim que Lia quase conseguiu alcança-la algas cravaram-se em ambos os seus punhos, afastando-a do garoto e prendendo suas mãos próxima ao corpo.
Os olhos de Lia procuraram desesperados pelos dele e como na última vez em que se viu frente a morte, ela sentiu arrependimento. Mas naquele exato momento, com a visão dos cabelos negros revoltados a sua frente e os olhos azuis que tanto admirou em sua recuperação, o que emergiu foi o arrependimento de não ter jogado tudo pro alto e beijado Tristan naquela caverna.
De não ter mergulhado no desejo que sentiu por ele.
Que sentia.
Os parasitas forçaram o aperto ao redor dela fazendo Lia gritar de dor. Sua cauda e suas mãos estavam completamente presas e as algas começavam a de esgueirar tapando sua boca.
Agora, sendo praticamente amordaçada pelas algas, sem nem mesmo conseguir falar tudo que ela tinha era a imagem de Tristan ficando para trás na floresta sombria enquanto era engolfada para o fundo e algas começavam a fazer uma barreira entre eles, envolvendo-a num casulo.
Que droga.
Lia tentou morder a alga que comprimia sua boca, raivosa, mas a folha não cedeu e ela se debateu, tentando se soltar. No escuro do casulo de folhagem ela conseguia ouvir a voz de Tristan chamando por ela e as pancadas dele usando a lança de madeira contra a parede que a envolviam.
Os parasitas haviam parado de puxá-la para baixo, ela notou, e respirando fundo se concentrou no som da água ao seu redor e na voz de Tristan. Sorrindo ela expirou e inspirou fundo, gostando da forma como seu nome saia da boca do tritão. Sexy. Forte. Poderoso.
Ela era uma Deusa, sua consciência gritou e tomando mais um longo e lento fôlego Lia se concentrou naquela realidade.
Uma Deusa. Forte. Poderosa.
Lia tinha poder suficiente, se não ainda mais, para se livrar daqueles parasitas e nenhum desespero podia nublar novamente aquela realidade. Então ela desejou e todo seu corpo queimou aceitando o pedido. Seus cabelos longos se agitaram vibrando em vermelho e iluminando a escuridão de seu cárcere. Os olhos se abriram fluorescentes e as algas que a prendiam começaram a perder força.
Suas mãos foram soltas e sua boca liberta. A cauda ficou livre e lentamente a barreira de algas foi se abrindo e caindo, fraca, ao redor.
Do outro lado estava Tristan e Lia sorriu para ele, vitoriosa, mas tudo que o tritão conseguiu fazer foi nadar até ela e apertá-la contra si o mais forte que podia, esquecendo da lança que flutuou ao lado deles.
O contato entre os corpos foi quente e forte e os braços do garoto a mantiveram por longos segundos grudada a si, enquanto a percepção de que ela estava bem se assentava em sua cabeça.
Lentamente os cabelos perderam luminescência e Lia abraçou Tristan com o dobro de força sentindo seu calor e seu cheiro envolvê-la por inteiro.
Depois de toda a adrenalina sua consciência voltou a trabalhar e com o pensamento de que beijar Tristan subitamente era muito extremo até mesmo para a situação que estavam vivendo, ela afundou em seus braços.
— Graças aos Deuses você está bem.
— Eu sou uma Deusa também, se não se lembra – ela murmurou contra o peito dele e sentiu quando o mesmo riu, mesmo que o humor estivesse enrijecido pela preocupação.
— Graças a você, minha Deusa, graças a você.
Lia quis aliviar a tensão com o comentário, mas a resposta do garoto a deixou ruborizada e sem jeito, e ela afundou ainda mais no esconderijo que era o peito dele.
As algas ao redor se agitaram, insatisfeitas, e as mesmas que haviam sido atingidas pelo poder de Lia e a libertado agora preparavam uma revanche. Sentindo esse movimento modular a água ao seu redor a garota deu um último aperto em Tristan, se afastando o suficiente para olhá-lo nos olhos.
E com toda sua autoridade divina, e olhos de um verde fluorescente, ela ordenou:
— Vamos.
Tristan concordou de pronto e entrelaçando suas mãos ele pegou a lança de volta e seguiu Lia, se enveredando entre as algas enquanto os parasitas, ainda fragilizados, tentavam alcançá-los.
Ele não pensou em nada a não ser na segurança de ambos enquanto se arriscavam em meio aquele território hostil e alertava Lia sempre que algum movimento próximo se fazia suspeito atacando com a ponta da lança algas duvidosas.
Na dianteira Lia tinha visão privilegiada e, totalmente sincronizada com seus poderes, sabia exatamente quais algas eram parasitas e quais não eram. E lutava junto com Tristan, lançando impulsos para os parasitas que o garoto não conseguia afugentar.
Uma intuição sobrenatural guiou Lia em meio a floresta de algas, assim como lhe guiou de volta à Kevin naquele dia.
Tristan seguiu lado a lado com ela, sempre atento a possíveis inimigos quando não a observava de soslaio. A jovem nada falou desde que saíram do local do ataque e nem o precisou para ele entender que naquele momento ela era mais Deusa que humana.
Mais poderosa do que antes. Mais intensa. Mais forte.
Uma corrente elétrica envolvia o corpo de Lia e seus olhos estavam injetados de poder. Tudo nela gritava isso e a expressão em seu rosto fazia correr pelo corpo do tritão uma energia ainda maior.
Então juntos eles se esquivaram, atacaram e fugiram dos milhares de parasitas que os perseguia. E no instante em que eles despontaram para fora da floresta o último parasita se esticou, sem sucesso, se retraindo logo em seguida de volta para seus domínios.
Eles estavam salvos.
Desacelerando pararam, exaustos, retomando o fôlego com dificuldade. Tristan buscou o corpo da jovem atrás de arranhões ou feridas, mas além da fina cicatriz em sua barriga nada encontrou. Os olhos fluorescentes lentamente perderam o brilho e ela piscou sentindo o poder voltar a se acalmar dentro de si.
Era uma loucura sentir seu corpo tomado de energia e poder. Lia podia fazer tudo que quisesse e seus dedos ainda estavam formigando com tudo que usou minutos atrás para fugir. E o mais estranho era que seu estômago não doeu, ela notou, apesar de usar mais poder do que o fez no ataque ao navio pirata.
Vendo-a voltar a fechar os olhos o corpo de Tristan finalmente compreendeu que o perigo havia passado e ele suspirou aliviado. Eles estavam longe dos parasitas e salvos.
Ela estava salva.
Tristan não compreendia ainda a dimensão do desespero que o tomou quando Lia foi engolida pelos parasitas. Que eles iriam devorá-la lá dentro aos poucos e sugar cada fio de vida dela como o fez com tantos outros antes.
Ele já havia encontrado esqueletos e corpos semidevorados antes, em patrulhas ao longo da cidade, restos que flutuaram para além daquela floresta perigosa, e a lembrança deles o deixou em pânico. Lia não podia morrer assim. Ele não podia perdê-la assim.
Agora fora de perigo ele conseguia até mesmo respirar com mais tranquilidade e segurança. E foi alongando o corpo que ele viu, a alguns quilômetros de distância, logo após a muralha de corais furta-cor que a rodeava, a cidade que conhecia tão bem.
Seu coração apertou em apreensão.
— Mandou bem na direção Lia.
Ela olhou para Tristan confusa, voltando a sua postura normal, mas ao ter a mesma visão que o tritão soltou um audível uau que o fez sorrir.
A cidade submarina de Nagisa era fantástica tanto em cores como em tamanho. Tinha construções que lembravam prédios retorcidos e coloridos, altos o suficiente para ultrapassarem os mais altos edifícios terrestre.
Mas além disso havia luz, burburinho e vida. A cidade de Nagisa não era sombria e sinistra como ela pensou que seria, assim como a floresta de algas. Ali pulsava em energia e novamente a palavra veio na sua cabeça: vida.
— É incrível.
Os olhos dela brilharam com a visão.
— E aqui é só um pedaço do oceano em que estamos – Tristan respondeu, parcialmente orgulhoso – tem muito mais embaixo da água do que os humanos supõem.
Lia assentiu e olhou para o garoto ao seu lado. Seu coração acelerou e seu peito aqueceu. Ela deslizou sua mão de volta para a dele e sentiu que iria morrer quando ele a apertou de volta, sorrindo.
— Está pronta?
Tomando fôlego, coragem e um pouco do calor de Tristan Lia concordou e juntos eles começaram a seguir para a cidade em que Nagisa residia. A cidade onde seus amigos estavam presos. Onde ela confrontaria seu passado e seu futuro no mar.
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