A Herdeira Da Máfia

21 XXI. A New Start.


Eu estava brava a um ponto que mal podia medir, tudo que eu queria era fugir dali depois de ver o real motivo por Anthony não ter me dito a verdade: sua esposa. Parece ridículo, eu sei, mas aquilo fez parecer que ela era mais importante do que contar a verdade a mim. Passamos semanas procurando alguma pista de quem pudesse ser meu pai e ele me ajudava como se não soubesse, me deixando fazer papel de idiota.

Meus pés doíam, mas eu ainda corria floresta adentro e Anthony gritava desesperadamente para que eu parasse. Sinto braços agarrarem minha cintura e grito como se minha vida dependesse disso para que ele se afastasse. Estava agindo feito uma garota mimada, mas a raiva falava mais alto que qualquer bom senso.

— Eu não vou te soltar enquanto você não me escutar. – Murmura Anthony e aos poucos vou tentando me acalmar entre longas arfadas.

— Você mentiu para mim. – Grito o empurrando para longe, mas sem a intenção de correr agora. Eu queria a verdade.

— E sinto muito por isso, mas quero que se ponha em meu lugar. – Pede ele calmamente. Vê-lo assim tão calmo me irritava ainda mais.

— Já tentou se colocar no meu lugar também? – Pergunto espantada por ele querer que eu me sentisse culpada por estar brava.

— Mais vezes do que pode imaginar, acredite. Eu iria te contar a verdade, mas tive medo que você agisse como está agindo agora! – Exclama Anthony finalmente se alterando e aos poucos me acalmei em seus braços, me jogando no chão. Ele não ousou me soltar, e acabou se sentando ali comigo. – Me desculpe, está bem?

— Por que eu deveria te desculpar? – Pergunto ainda sem encará-lo.

— Porque todos merecem uma segunda chance, Hannah. Inclusive eu. – Murmura em resposta. – Eu não sabia sobre você até pouco tempo atrás. Se eu soubesse sobre você e Chloe, teria ido atrás das duas e juro por Deus que tiraria ela daquela vida e você estudaria em um lugar bem melhor do que aquele. Mas eu não sabia.

— Quando ficou sabendo?

— Quase cinco meses antes da explosão do bordel.

O barulho de tiro me faz tropeçar assustada e me apoiar em uma parede no canto. Viro-me dando de cara com o homem que me ameaçava agora a pouco no chão, segurando sua arma destravada. Olho para a sacada das quitinetes no andar de cima e vejo a sombra de um homem. Podia sentir seu olhar pesado sobre mim, mas não podia identificá-lo. Não podia vê-lo, somente o cano de sua arma. Vários homens saem desesperados do local e corro na direção oposta, subindo vários lances de escada até chegar ao lugar onde ele há poucos segundos atrás estava.

Aconteceu rápido. Uma explosão no bordel fez eu entrar na quitinete mais próxima e fechar os olhos com força. Sentia meu corpo fraquejar. Todos os meus ossos serem simplesmente derrubados com um simples sopro enquanto eu saia do local. Fogo. Tudo em volta não passava de chamas.

— Você estava lá. – Minha voz sai embargada, e eu finalmente ouso encará-lo, seus olhos demonstravam desespero e ele parecia escolher bem as palavras para me dizer algo. Talvez porque eu estava descontando toda a raiva que eu sentia nele. O mundo parecia ter caído sobre minhas costas e me sentia caindo gradativamente sem nada que pudesse amortecer minha queda. Era a realidade dando apenas um aperitivo para mim. Algo me dizia que havia mais. Muito mais.

— Eu estava, mas sua mãe pediu que eu ajudasse você primeiro. Não sabia da bomba e se soubesse teria priorizado ela e não você. – A vontade de chorar aumenta mais uma vez — Fiz uma promessa para Chloe. E estou tentando cumprir ela, acredite. Você é a minha filha e eu não deixo filho meu para trás. Muitos dos meus inimigos se viraram para você por ser indefesa. Por isso pedi que Logan cuidasse de você.

— Logan? – Aquilo me atinge fundo como um soco no estômago. Tudo o que aconteceu foi por um decreto de Anthony... Me senti um lixo.

— Ele precisava ganhar minha confiança. Estava do lado inimigo a muito tempo e cuidar de você foi a melhor coisa que Logan fez por mim. Não podia ficar mais grato.

— Para, por favor. – Peço baixinho e Anthony acata ao meu pedido.

— Hannah, precisa me...

— Eu entendi. Você tem uma esposa e pelas minhas contas, traiu ela com minha mãe. Parece que ela sempre vai ter o papel de puta nas histórias, não é? – Ironizo, minhas mãos impacientes mexendo na terra.

— Não foi isso que eu disse.

— Não precisa nem dizer Anthony. Blair ficaria brava com você se soubesse e pela maneira que você imaginou que eu reagiria, ela descobriria. Sinto muito ter feito você mentir para ela. – Sussurro e ele me puxa para mais perto.

— Fiz isso por ela, Hannah. Assim como temi a maneira como reagiria ao descobrir a verdade, temo que Blair reaja da mesma maneira. Mas ao contrário de você, talvez ela nunca me perdoe. E eu a amo. – Anthony pareceu sincero e por um segundo, me senti mal.

— Eu ainda não te perdoei. – Murmuro.

— Não?

— Talvez um dia eu perdoe, mas estou confusa demais hoje para pensar de forma coerente.

— Prometo contar a Blair o mais rápido possível.

— Demore o tempo que precisar, eu já não me importo com mais nada. – Digo me levantando e indo em direção ao carro de Logan que estava a poucos metros dali.

Parte de mim sentia que tudo que eu vivi foi uma grande mentira, seja em relação a Chloe, que nunca revelou sobre meu pai mesmo sabendo quem ele era, ou Logan, o cara arrogante que ficou bonzinho da noite para o dia e que eu admite, estava mexendo comigo de verdade. Outra parte dizia que era idiota pensar assim e que talvez, houve algo real nisso tudo. Estaciono vendo a movimentação de Logan na casa. Tudo que eu menos queria agora era encontrá-lo, mas desci do carro quando vi que ele notou minha presença ali.

— Hannah, você me assustou. Achei que chegaria antes de mim. – Ele sorri aliviado quando me vê entrando, mas eu o paro quase que imediatamente. — Está tudo bem? – Pergunta ele confuso quando me vê subindo as escadas sem dizer nada. Paro no meio dos degraus, encarando-o.

— Por que não pergunta para o meu pai? – Sussurro e seus olhos que até então demonstravam confusão, ligam uma coisa a outra e ele tenta correr até mim, mas sou mais rápida, entrando no quarto e trancando a porta.

— Hannah...

— Me deixa em paz, Logan. – Grito me jogando na cama e deixando tudo aquilo me consumir por dentro enquanto as lágrimas molhavam meu rosto.

Alguns segundos de silêncio e agradeci mentalmente por aquilo. Logan finalmente havia parado de bater na porta. Respiro fundo, tentando inutilmente parar de chorar. Então eu escuto o barulho da porta sendo arrombada e pulo assustada para o outro lado do quarto. O olhar dele era desesperador.

— Será que agora você pode deixar eu me explicar? – Diz ele tentando se aproximar, mas ao ver meu olhar indignado, dá um passo para trás vendo o quanto aquilo é uma péssima ideia.

— Ficou maluco? – Pergunto irritada.

— Fiquei. Você não tem ideia do quanto eu fiquei maluco. Quer ficar sozinha e chorar pelos cantos da casa? Tudo bem, mas não me coloque como o vilão da história como Anthony com certeza fez questão de colocar, eu aposto. – Murmura.

— Você sabia e não me disse a verdade quando teve a chance... Preferia ter a confiança dele do que a minha.

— É isso que ele disse para você? Agora ele é o certo da história? – Questiona e eu dou de ombros.

— Eu não sei, não sei em quem acreditar.

— Acredite em mim, droga. – Grita ele se irritando. – Acredite quando eu digo que senti algo por você desde que te investiguei e senti vontade de acabar com cada um daqueles estudantes idiotas que te humilharam no seu baile. Acredite quando eu digo que senti medo e fui covarde tratando você mal porque todo mundo com quem me importo se machuca. Acredite em mim, Hannah, quando eu digo que eu quis a confiança de Anthony sim, mas nunca passei por cima de você e dos seus sentimentos para isso.

— Por que está gritando comigo?

— Porque é isso que eu faço quando alguém com quem eu me importo está agindo feito uma idiota.

— Para, por favor. – Grito de volta me encolhendo na parede desejando poder ultrapassá-la e ir direto para outro cômodo.

— Quer que eu pare? Por quê? Não é você que quer a verdade? Aí está ela, bem na sua frente. Está feliz agora?

— Não. – Sou sincera engolindo os vários nós que se formavam em minha garganta.

— Então somos dois. – Responde ele finalmente respirando fundo. – Tudo era mais fácil quando você não sabia de nada.

Avanço sobre ele o empurrando para fora do quarto, e não demora muito para que ele acate ao meu pedido. Enxugo algumas lágrimas com as costas das mãos, em uma tentativa inútil de tentar espantá-las. Marcho para a sala onde eu pintava e tranco a porta, rezando para que Logan não entrasse feito um doido. Temia dizer algo mais idiota e a solidão agora caia perfeitamente bem para a situação. Pego os vários desenhos rasgando um por um e jogando os quadros longe.

O barulho me agradava porque era daquela maneira que eu me sentia, sendo rasgada de dentro para fora. Chorei por minha mãe. Porque ela morreu e porque ela viveu. Chorei por Anthony. Porque ele pode perder a mulher ao contar a verdade e porque ele é meu pai, mas eu não consigo me sentir filha dele. E por fim, chorei por Logan. Porque eu acreditei que ele fosse minha única família e porque, nesse exato momento, eu o deixei desnorteado e aquilo me destruía.

Não sei por quanto tempo fiquei chorando, mas acordei sobre o sofá desconfortável daquele cômodo. O sol iluminando todo o lugar e dando ampla visão do estrago que eu fiz. Abro a porta devagar e depois de checar tudo, tive a certeza que Logan não estava ali. Tomo um banho gelado respirando fundo. A porta arrombada do meu quarto só comprovava que tudo aquilo foi real. Ligo para um táxi, pego uma pequena mala e coloco poucas roupas ali. Infelizmente, precisaria pegá-las. Ouço a porta se abrindo com força. Termino de fechar a mala e sigo o barulho alto de vidros se quebrando. Bato na porta de Logan devagar, mesmo com ela aberta, somente para chamar sua atenção.

— Me desculpe por ter agido feito uma idiota ontem. – Digo usando as mesmas palavras que ele.

— Não queria ter dito aquilo. – Sussurra.

— Tem muita coisa que eu não queria ter dito também, mas... – Respiro fundo. – Eu disse.

— Hannah, eu...

— Tudo bem, Logan. Você estava certo. – Murmuro e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ouço o barulho do táxi buzinando lá fora.

— O que está acontecendo?

— Aconteceu tanta coisa ontem que não tive tempo de falar que eu fiz uma audição para conseguir uma bolsa na Academia de Artes e Dança de Nova York. Consegui a bolsa. – A expressão de Logan era neutra e eu queria saber o que ele pensava agora. – Peguei poucas roupas e tem um táxi me esperando.

— Hm... – Era tudo isso que ele conseguia dizer? Sinceramente, eu esperava algo diferente, mas não demonstrei isso.

— Logan... – Me aproximo dele, mas o mesmo continuou parado. – Se você quiser que eu fique, não hesite em dizer. Não hesite em mostrar isso para mim, porque... Eu fico. Sem hesitar.

Ele respira fundo.

— Vá embora. – Logan diz aquilo muito rápido sem precisar de tempo nenhum para processar a situação, o que me pega de surpresa.

— Então é isso que você quer? – Pergunto segurando mais uma vez o choro. Seria possível haver mais lágrimas? Logan dá de ombros, como se aquilo não tivesse importância. Toda a sua grosseria e prepotência parecia ter retornado da noite para o dia. – Tudo bem. Eu embarco em vinte minutos. Não que você vai perder tempo pensando sobre o assunto, mas como toda garota sonhadora, vou esperar por isso... Adeus, Logan.

Saio dali pegando as malas e indo para fora dali. O taxista oferece ajuda e eu agradeço lhe entregando a mala e entrando no carro. Peço para que ele pare na casa que há na frente e ele acata meu pedido. Meus olhos não desgrudam dos de Logan que me observava ir embora no andar de cima, através dos vidros. Desço do carro quando o homem estaciona ali e por coincidência, Anthony estava do lado de fora, sentado na varanda. Ele se levanta ao me ver.

— Estou indo embora. – Sou direta e digo antes que ele possa dizer algo. – Não quero passar a vida toda dependendo de vocês e é a minha chance de realizar um sonho.

— Hannah, eu juro que, quando voltar, tudo será diferente. – Sussurra e eu assenti entendendo o que ele queria dizer com aquilo.

— Como eu tinha dito... Demore o tempo que precisar, não acho que deva ser eu a te pressionar. – Murmuro dando de ombros. Ele então entra em casa, pedindo que eu esperasse alguns segundos e rapidamente ele aparece com um celular luxuoso nas mãos. – Anthony, não acho que...

— Eu insisto. Quero ter contato com você. – Balbucia aquele pedido indireto. Então me puxa para um abraço. – Pode estar longe, mas ainda é perigoso para você. Tenho contatos lá, basta um toque e envio quantos homens forem necessários atrás de você.

Sorri.

— Obrigada.

— Boa sorte, filha. – Aquelas palavras me fazem sorrir. Era a primeira vez que eu ouvia, e processava aquilo, depois de muito tempo. Era como se o vazio que minha mãe deixou fosse aos poucos preenchido.

Entro no carro e entrego o endereço do aeroporto para o taxista. Apesar de ter pensado que minha vida era uma grande mentira, pude notar pelos olhos de Anthony que eu estava enganada. Havia algumas verdades.

Não posso negar o amor que minha mãe teve por mim e se existe um céu, talvez ainda tenha. Não posso negar que, mesmo conhecido Anthony muito pouco, sei que ele cumpre uma promessa e quando diz que tudo será diferente, de fato, será.

Mais expectativas habitam em minha mente. Mas eu não queria pensar nisso agora. Finalmente eu estava indo realizar um sonho meu de tanto tempo e mesmo deixando claro que desistiria por Logan, estava ansiosa em ir. Quer dizer, parte de mim estava. Uso o celular que Anthony me dera, ligando para Allan e lhe contando sobre essa novidade. Queria ter me despedido dele melhor.

Saio do táxi avistando Luke que se oferece para pagar a viagem e eu o agradeço. Ele já havia comprado tudo e o voo não atrasou muito, por sorte. Havia mais três garotas que ganharam a bolsa e todas demonstravam mais ansiedade que eu. Então eu escuto ela... A mãe de Luke avisa que estava na hora e caminhamos em direção a um segurança. Antes de entrar e ir em direção ao avião, olho para trás. Me xingo mentalmente por estar fazendo isso, por estar esperando algo que não iria acontecer.

— Preparada? – Luke chama minha atenção e dou um sorriso de leve.

— Tenho que estar. – Sussurro para mim mesma.

Entrego a passagem para um dos seguranças e caminho em direção ao avião. Coincidentemente, meu assento era ao lado de Luke e ele parecia mais animado do que eu.

— É, acho que vou gostar de Nova York também. – Digo baixinho observando a janela do avião após finalmente prestar atenção no que ele falava.

— Vou fazer de você a melhor dançarina da academia, Hannah. – Balbucia esperando alguma resposta minha e eu o encaro.

— É um belo recomeço. – Volto a encarar a janela do avião e uma lágrima solitária cai em meu rosto. Eu realmente esperava vê-lo por aqui.

Ele corria como se sua vida dependesse disso e agradecia mentalmente por ser bom quando o quesito era velocidade sobre quatro rodas. Heather era passado e talvez Logan só tenha notado isso agora que estava perdendo Hannah. Então ele estaciona e corre pelo aeroporto sem se importar com as pessoas achando que ele era um maluco. Logan para observando o painel do aeroporto, não podia acreditar no que estava vendo então foi até uma das funcionárias ali.

— O voo para Nova York... – As palavras desaparecem com facilidade.

— Acaba de partir. – Diz ela com um sorriso no rosto de maneira educada.

Era isso.

Ele havia a perdido. Hannah foi realizar o seu sonho e levou uma parte dele com ela sem que o mesmo percebesse.

“Você estava realmente surpreso quando ela deixou todas as suas memórias para trás?
Ela nunca disse que estava doendo, mas que garota quer dizer que esta bem quando diz isso?

E ela está chorando e ela está morrendo para que você possa levá-la para casa
E ela não quer um espaço, ela só quer ser procurada
E que você mostre que ela não está sozinha

É claro que ela quer atenção porque você nunca diz
O quanto ela significa para você
Não deveria ser novidade que ela quer ser importante para você
Então não banque o idiota” – Kathryn Dean (I Told You So)