A Herdeira Da Máfia
22 XXII. Come Back Home.

Três anos depois...
Sabe aquele sorriso que não sai do seu rosto quando seu sonho se torna realidade? Quando você acorda e fica se beliscando não acreditando que aquilo é mesmo verdade? E também tem aquela vontade de chorar durante a noite. Não um choro de tristeza, e sim, da mais pura felicidade. Faz três anos e eu ainda não consigo acreditar que nesse meio tempo, uma variedade de coisas incríveis tem acontecido comigo. Era como se eu estivesse em uma espécie de coma e tudo aquilo não passasse de uma miragem e se realmente for isso, eu não quero acordar nunca mais.
Graças a Elle, mãe de Luke, que eu pensava que fosse uma pessoa rígida o tempo todo, precisou de apenas dois anos para fazer de mim uma dançarina profissional. Durante os concertos que produzia, convidava instrutores famosos que sempre me davam dicas no final da apresentação durante as festas que fazíamos para comemorar o sucesso da apresentação. Meu cachê por mês é enorme. Nunca gasto tudo que tenho, pois desde que nasci, aprendi a viver com pouco. Então o que sobra – que não é pouca coisa, acabo doando para instituições de caridade e também envio para Stella para pagar uma boa escola para o pequeno Carl, pedindo a ela total sigilo quanto a isso.
Vivo mantendo contato com Allan para ter certeza de que Stella tem cumprido com o acordo. Ele finalmente decidiu seguir meu conselho e fazer administração em uma boa universidade. É bom ter o seu sonho realizado, mas quando o seu melhor amigo está feliz também, pelos mesmos motivos que você, a felicidade se duplica. Descobri o número de Taylor através de Allan – que teve tempo de pedir quando se conheceram, o que não me surpreende, e sempre que ela precisa, eu ajudo, o que não é muito comum.
Passamos horas conversando em cada ligação que fazemos e mesmo que minha cabeça peça rigidamente que eu não faça isso, meus instintos falam mais rápido e lá estou eu perguntando tudo sobre Logan. Seja sobre seu passado ou sobre como ele está agora e o que tem feito. Odiava sentir falta dele, porque segundo Taylor, Logan tem agido naturalmente voltando a ser o cara grosso de sempre – sinais claros de que o mesmo não sente falta de mim.
Vendo agora, do lado de fora dessa “situação”, noto que Logan já se preocupou comigo de verdade, e talvez tenha até sentido algo por mim, mas não na mesma intensidade que eu. Entretanto não sente minha falta porque é Heather que ainda está instalada em sua mente tão complicada. Taylor comentou comigo sobre essa antiga relação entre os dois e mesmo não querendo contar demais, acabou contando tudo ara mim em uma madrugada ou outra.
Ela também era filha de um mafioso e ambos compartilhavam uma paixão por corridas ilegais. O relacionamento deles era bastante “aberto” e sempre foi algo mais carnal do que emocional. Heather teve uma queda por Ethan – meu irmão mais velho que ainda não tem ideia disso, e Logan já quis adicionar Sophie na sua lista imensa de garotas com quem já ficou (afinal, ela era provavelmente a única que nunca foi para a cama com ele, filha de um pastor renomado e que sempre levou as coisas à risca – já imagino o relacionamento entre ela e Ethan). Os dois amavam fazer apostas para irritar o casal. Tive vontade de rir ao ouvir como Logan era, afinal, não foi esse homem que eu conheci.
Pergunto a Taylor sobre Lola também, que anda preocupada já que Meredith sumiu desde que quase morreu pelas mãos de Logan e não manteve contato nenhum com a família. Falei algumas vezes com Lola também, em uma tentativa falha de reanimá-la, mas nada dá certo. Nesses pequenos momentos, me sinto mal por não estar lá, com elas. Agora estou me arrumando, passando uma maquiagem fraca no rosto, dando destaque aos lábios com um batom vermelho bem forte.
Coloquei um vestido preto colado ao corpo com longas mangas rendadas. Um loubotin cobre boa parte dos meus pés e apesar de estar atrasada para o evento, estava esperando uma ligação de Anthony. Ele sempre me ligava, antes e depois do concerto. Por fim, me liga por volta das duas da manhã para me desejar uma boa noite. Apesar de nossa distância, quebramos algumas barreiras e finalmente dei uma chance para perdoá-lo. Ele era meu pai e querendo ou não, jamais poderei mudar isso.
— Pronta? – Pergunta Elle entrando no quarto depois de dar duas leves batidas na porta.
— Ainda não. Meu pai não me ligou hoje. Já estou ficando preocupada. – Comento e ela suspira pesadamente. Tanto Luke quanto sua mãe sabiam de toda a minha história de cor e saltiado. Logicamente, eu ocultei boas partes como ser filha de um mafioso e seus vários inimigos estarem contra mim e, atualmente, me procurando até no inferno.
— Talvez ele tenha tido algum problema na empresa, mas nada demais. – É... Eu também menti sobre Anthony ser um grande empresário.
— Ah... Claro. – Respondi nervosamente tentando não ser pega na minha própria mentira.
— Agora vamos! Todos estão ansiosos para ver minha nova estrela depois dela ter brilhado hoje no palco. – Diz ela já me arrastando para fora do quarto.
O lugar estava lotado e já do lado de fora, no longo corredor do hotel, vários fotógrafos que entraram de penetra estavam sendo guiados para o lado de fora até me verem ali, correndo desesperados em minha direção enquanto seguranças formam uma barreira em minha volta e ao lado de Elle, vamos em direção ao salão de festas no primeiro andar do hotel. Luke estava espetacular usando um smoking, já me esperando na entrada.
— Você está linda. – Murmura maravilhado estendendo sua mão para que eu a pegasse e me puxando para mais perto de si.
— Obrigada. Você também não está nada mal. – Ironizo arrancando uma risada de seus lábios. Era incrível a facilidade que eu tinha em arrancar um sorriso dele. Com Logan, isso nunca foi tão fácil. Odiava comparar os dois, mas era impossível não pensar nele enquanto eu estava com Luke.
— Queria poder beijar você agora. – Sussurra ele em meu ouvido e um arrepio percorre minha espinha. Eu e Luke temos tido algo. Não é nada emocional e odeio quando alguém tentar tachar aquilo como um relacionamento. Sentimos atração um pelo outro e acabamos com essa agonia. Sempre foi algo carnal, sem compromisso. Prefiro assim e Luke também não pensa diferente.
— Agora não, Luke... – Balbucio maliciosamente e ele sorri galante.
— Eu vou borrar toda sua maquiagem mais tarde mesmo... – Foi a minha vez de sorrir.
— No seu quarto depois da festa? – Pergunto baixinho.
— Sempre. – Ele diz me guiando para dentro da festa.
O local estava lotado de gente importante e Elle sempre fazia questão de me mostrar para cada um presente ali. Tentei manter o sorriso o máximo que pude, mas sempre que eu olhava o celular e não via uma ligação de Anthony, toda a tentativa falhava e Elle chamava minha atenção pedindo ao menos foco. Afinal, toda essa gente poderia me deixar literalmente no topo. E eu achando que já tinha chegado no auge do sucesso. Luke já havia me contado que sua mãe sofreu um pequeno acidente, sentia fraqueza nos calcanhares e por isso não podia dançar como antes. Talvez agora que ela tenha me encontrado, tenha jogado todas as expectativas que tinha para si sobre mim, por isso era rígida certa parte do tempo.
Quando finalmente tinha me deixado quieta no meu canto, sai da festa antes que pudesse notar minha ausência. Já fui direto para o quarto de Luke, tomando um banho quente, tirando a maquiagem e colocando um pijama fresco e confortável. Elle nunca desconfiou que Luke e eu tínhamos alguma coisa então o último lugar onde me procurava, era ali. Me deito na cama, agarrando um dos travesseiros com força. Pego o celular pela milésima vez naquela noite e ligo para Anthony que mais uma vez não atende. Tudo bem, talvez ele esteja ocupado. Só isso. Era o que eu tentava dizer para mim mesma centenas de vezes. Ouço o barulho da porta sendo fechada e me viro observando Luke entrar indo em direção ao banheiro.
— Conseguiu falar com ele? – Perguntou baixinho. Elle não foi a única a notar o número de vezes em que olhei o telefone.
— Não. – Minha voz sai em um sussurro.
— Talvez ele só esteja ocupado. – Murmuro tentando passar confiança.
— É, talvez. – Ou sei lá... Tenha sido morto por algum desses inimigos que o persegue. Meu coração se aperta só de pensar nisso.
Vou até o meu quarto somente para pegar um dos diários de minha mãe, Chloe. Eles vieram junto com sua carta e todas as noites, leio um pouco. A sensação de finalmente conhecer ela por completo era incrível. E sua história realmente não foi, em sua maioria, ruim. Cada trecho daquelas folhas comprovavam o amor que ela sentia por Christian. Era como se eu estivesse lendo um verdadeiro conto de fadas, só que sem a parte do final feliz. Não leio o diário por muito tempo, guardando o mesmo com cuidado quando vejo o corpo de Luke ao lado do meu.
— Podemos tentar ligar para ele mais tarde... Está tudo bem. – Murmura ele beijando meu pescoço e quando dou por mim, já estava sobre seu colo.
Os beijos de Luke eram carinhosos enquanto suas mãos decoravam mais uma vez cada curva do meu corpo. Rapidamente o beijo se intensifica e sinto minha intimidade pulsar quando suas mãos estão em minha coxa. Quando dou por mim, já estou sem o meu pijama e minhas mãos estão sobre o seu abdômen nu. Nossas línguas se entrelaçavam em uma dança deliciosa. Nos afastamos quando o ar nos falta.
— Com certeza podemos ligar para ele mais tarde. – Minha voz sai acompanhada de um gemido e ele sorri malicioso, seus olhos mais escuros que o normal demonstrando o mais puro prazer.
Pousei minhas mãos em seus ombros largos, enquanto ele dava atenção aos meus seios. Não demorou muito para eu sentir seu membro me preenchendo. Luke era bom no que fazia, e sempre foi carinhoso comigo, o que me irritava era o fato de, mesmo dado todas as chances do mundo a ele, não consigo sentir nada além de atração. Agora que consigo diferenciar esses sentimentos bobos, sei que o que senti por Logan era amor. Um tipo de amor que talvez eu jamais sentisse por nenhuma outra pessoa.
Talvez seja esse o pensamento de uma pessoa apaixonada, mas parece tão real... Há alguns momentos em que abro os olhos e consigo facilmente ter uma visão de Logan ali, me beijando, me preenchendo e fazendo de mim sua. De todas as maneiras possíveis. Mas jogo todos esses pensamentos longe deixando claro que isso é injusto com Luke, mesmo que o que temos não fosse nada além de sexo sem compromisso. E era injusto comigo, alimentar as últimas esperanças antes que elas desistissem e fosse embora pelo ralo.
Já estava tarde, e meus olhos estavam abertos encarando o teto do quarto enquanto Luke dormia suavemente ao meu lado. Respiro fundo, checando o celular antes de me levantar e ir sorrateiramente até o meu quarto. Vou até o closet colocando um vestido preto acompanhado de um suéter vermelho e boina de mesma cor. Botas marrons de cano longo e uma meia calça transparente. Precisava ficar sozinha um pouco, longe de fotógrafos, Elle e Luke.
Saio do hotel pelos fundos, sabendo que haviam alguns homens acampados do lado de fora na tentativa de tirar uma foto que me comprometesse ou simplesmente algo para que pudessem vender de primeira mão. As ruas de Nova York não eram muito movimentadas nessas horas e decido pegar o metrô até um bairro mais afastado.
Sempre ia até lá quando queria ficar sozinha. Como os moradores estavam dormindo, o local era completamente silencioso e eu me sento em um banco pequeno que dava uma visão privilegiada de toda a cidade. Esse era um daqueles raros momentos em que eu sentia falta de casa. E da minha mãe. Agarro minhas próprias pernas e fico ali até observar o sol dar seus primeiros sinais de vida. Ouço o barulho do meu celular vibrando e quando vejo a imagem de Anthony na tela, meu coração dispara.
— Hannah, desculpe ter te acordado... – Diz assim que eu atendo a ligação. Ele estava conversando, o que era um sinal bom. Eu acho.
— Eu estava acordada, e mesmo se estivesse dormindo... Você não ligou! Me assustou. – Murmuro e posso facilmente imaginar ele sorrindo fraco do outro lado da linha.
— Me desculpe, aconteceu algumas coisas por aqui. – Sua voz agora saia como um sussurro.
— Sabia que alguma coisa tinha acontecido... Está tudo bem? – Pergunto preocupada.
— Você é a primeira a perguntar isso hoje. – Balbucia e um vinco se forma em minha testa. – Estou bem na medida do possível.
— Anthony...
— Nunca pensei que te pediria isso, mas temo que precise voltar. Se possível hoje de manhã mesmo. – Ele diz tentando parecer calmo.
— Claro, eu cancelo uns compromissos e compro uma passagem de ida e volta para...
— Não entendeu o que eu disse. Preciso que volte para casa, Hannah. – Ele é direto e eu engulo em seco. – Te explico tudo quando chegar, mas quero que esteja preparada. Contei a Blair e Ethan a verdade, e para piorar eles estão desconfiados sobre o motivo de estarmos cada vez mais em perigo. Decidi contar isso por último, somente quando estiver aqui assim solto a bomba para todo mundo.
— Certo, eu entendi a indireta. Sem perguntas até eu chegar aí. – Murmuro impaciente. – Vou tentar comprar as passagens agora pela internet e...
— Não se preocupe com isso, enviei um jatinho aí e em uma hora ele pousará. Benjamim aceitou te acompanhar até aqui.
— Benjamim? – Me lembro vagamente daquele nome nos diários de minha mãe.
— Ele é de confiança. Preciso que esteja aqui o mais rápido possível, Sophie encontrou um vestido para você, mas não tem certeza se é do seu tamanho.
— Vestido?
— Ela e Ethan irão se casar hoje.
Anthony já havia comentado comigo que apesar de jovens, teriam que se casar cedo para assumir sua máfia assim como eu. Deixei bem claro que não queria me envolver nesses negócios apesar de ser a herdeira de parte daquilo e ele concordou, pedindo apenas que eu fosse o braço direito dos dois em algum momento. Concordei, afinal, era melhor do que assumir todo esse império. Se ele decidiu que Sophie e Ethan iriam se casar agora é porque precisam assumir a máfia. E se isso é tão urgente...
Alguma coisa bem feia aconteceu.
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