A Herdeira Da Máfia
18 XVIII. So... I Dance.

Logan não estava errado quando disse que era uma casa no campo. Achei um pouco distante da casa de Anthony, mas se ele diz que aqui é seguro, nunca irei discordar. O lugar era lindo, com verde por onde quer que eu olhasse... Um lago não muito grande ao lado da casa vitoriana que ainda ficava um pouco escondida entre algumas árvores.
Ela era amadeirada e o andar de cima é completamente visto através dos vidros. As janelas repletas de detalhes deixavam todo o lugar ainda mais aconchegante. Parecia exatamente como a casa que minha mãe adorava descrever para mim quando o sono e o cansaço me consumiam.
Ela dizia que um dia, teríamos uma casa como essa. Por alguns segundos, senti meu coração se apertar e parecia que ela estava em todo o lugar. Seja no lago, alimentando aves, ou jogando água nas plantas... Era como se finalmente aquele simples sonho tivesse se realizado.
Logan estaciona em frente a casa e sai do carro, dando a volta e abrindo a porta para mim, observo seu rosto completamente neutro, agradecendo silenciosamente por aquele gesto. Ele parecia medir todos os seus atos e sua mão estava inquieta. De impulso, seguro-a com carinho lhe lançando um sorriso nervoso enquanto ele me guiava para dentro. O lugar era ainda mais confortável por dentro, e menor do que parecia visto do lado de fora. Logan sai para buscar as malas me dando alguns segundos para me acostumar com o meu mais novo lar. Não demora muito para ele retornar.
— Você está bem? – Pergunta notando algum vestígio de tristeza em meu rosto. Ele fecha a porta da casa, trancando-a com cuidado.
— Quem está por trás de tudo isso? O que eu fiz para eles quererem a mim? – Minha pergunta sai em uma voz embargada pela vontade de chorar. Eu só queria que tudo aquilo acabasse.
— Confia em mim? – Encaro ele por alguns segundos, confusa por ele ainda não ter ideia do quanto confiava nele. Algo que ele conquistou aos poucos. Quebro nossa distância o abraçando e sendo correspondida.
— Completamente. – Sussurro.
— Então acredite quando eu digo que isso tudo vai acabar. – Murmura contra meu pescoço.
— Era essa consequência que você mencionou antes de nos beijarmos?
— Desistiria de mim se fosse?
— Nunca. – Ele segura meu rosto com as mãos, me guiando em direção aos seus lábios. Aprofundamos o beijo e só nos afastamos por alguns segundos quando o interrompo. – Promete para mim que Taylor e Lola ficaram bem na mansão?
— Você tem a minha palavra.
Eu não tive tempo de me despedir delas, e talvez eu devesse porque não sei quando poderei vê-las de novo. Segundo Logan, elas saberem do local onde eu estava se tornaria uma ameaça. Sentiria falta da presença delas. Talvez mais do que eu vá admitir, mas Lola me lembrava muito Chloe e aquilo me motivava a continuar lutando pela minha própria vida cada vez que alguém aparecia com o objetivo de me matar. Logan e eu ficamos ali deitados no sofá, conversando aos poucos sobre coisas aleatórias e não demora muito para que eu pegue no sono.
Aos poucos, fui conhecendo cada canto daquela casa minúscula. Anthony havia realmente preparado tudo para que eu me sentisse bem enquanto passássemos um tempo lá... Havia uma sala de espelhos, onde eu podia voltar a treinar minha paixão por dança. E outra que havia várias prateleiras de livros. Era para ser o escritório de Logan, mas aos poucos fui fazendo daquele lugar, um espaço meu também.
Não demorou muito para que eu começasse a deixar todos os cômodos da casa parecidos um pouco mais comigo. Já não havia mais espaço para as milhares de telas que eu fazia por semana. Em três meses, as paredes estavam preenchidas por artes feitas por mim, e desenhos do lago – algo que eu amava fazer.
Logan tentava passar o máximo de tempo comigo. De uns tempos para cá, notei que, quando ele queria, conseguia ser o cara mais legal e engraçado que já conheci. E aos poucos, ele deixara aquela pose de grosso e frio de lado. Ás vezes ele tinha que sair e eu me ocupava na sala de espelhos.
Passei tantos dias olhando aquele som, ouvindo aquelas músicas tão familiares e não demorou muito para eu voltar a dançar como antes. O primeiro dia fez com que eu passasse até mesmo a noite dançando. Meus pés simplesmente não conseguiam mais parar. Enquanto organizava o guarda-roupa do meu quarto, vejo a folha amassada de propaganda. Academia de Artes e Dança de Nova York – Vagas abertas – Oferecemos bolsa de estudos. Guardei ela desde então e hoje era o grande dia. Os jurados estavam em uma cidade não muito longe daqui e eu não tinha ideia do que fazer. Escondo o panfleto ao ouvir o barulho da porta sendo aberta.
— Oi. – Cumprimentei Logan ao sair do meu quarto dando de cara com o mesmo.
— Trouxe aquela torta do Nanny’s que você adora. – Murmurou colocando várias sacolas sobre a mesa e retirando a torta de uma delas. Mordo o lábio inferior sentindo o cheiro delicioso daquela sobremesa.
— Como eu senti falta dessa torta. – Balbucio me aproximando dele.
— Eu também senti falta da última vez, sabia? – Dou uma risada ao me lembrar do dia que comi o último pedaço de torta, que era de Logan. Dou de ombros, me aproximando dele, mas o mesmo rapidamente se afasta indo em direção da cozinha e pegando uma colher, abrindo o pote e mordiscando um pedaço da sobremesa. – Isso está muito bom.
— Logan... – Reclamo arrancando dele uma risada. Aquela risada se tornara rotina e eu adorava. – Eu também quero.
— Uma pena. – Faço beicinho e então, em um movimento rápido, tomo a torta dele e saio correndo pela casa. – Ei, volte aqui.
Entro no meu quarto e seguro a porta para que ele não entrasse, mas era impossível comparar a minha força com a dele e não demora muito para que meus braços se cansem e ele entre me pegando pela cintura e arrancando a torta de minhas mãos.
— Só um pedaço... – Peço fingindo uma voz embargada. – Logan.
— O que é?
— Há algo que eu possa fazer para... Você sabe...
— Não sei... Me deixe pensar. Acho que tenho uma ideia... – Sussurra se levantando da mesa e se aproximando de mim.
— Tem é? – Arqueio a sobrancelha e ele sorri maliciosamente, colocando seus braços em volta do meu corpo, me puxando para mais perto. Podia sentir sua respiração em meu rosto e seu hálito de hortelã. Quando dei por mim, nossos lábios estavam colados um no outro, e ele aprofundava ainda mais o nosso beijo. Sinto todo o meu corpo se relaxar enquanto nossas línguas exploravam a boca um do outro. Nossos lábios estavam em um perfeito encaixe e me afasto somente para sorrir.
— Eu preciso ir... – Sussurra.
— Sei disso. – Ele pega sua jaqueta que estava jogada no sofá. – Logan... Eu estava pensando em... Sei lá... Sair um pouco.
— Tudo bem, pegue o meu carro. – Murmura.
— Espera... Não vai ficar bravo ou dizer que vai pedir para alguém me seguir? – Pergunto confusa.
— Grampeei o carro para que pudesse sair de vez em quando.
— Claro. Até mais tarde.
— Não se esqueça que, ainda assim, tem que tomar cuidado. Até. – Logan sai após pegar alguns documentos.
Guardo todas as compras que ele fizera e como o último pedaço de torta que ele havia me deixado. Não demora muito e vou para o pequeno escritório, organizando algumas tintas e pintando a paisagem que havia do lado de fora da casa. Aquilo me dava paz. Tomo um banho relaxante e procuro as chaves do carro de Logan, após colocar uma roupa confortável e pegar o panfleto da Academia de Artes e Dança de Nova York. Eu não tinha nada a perder, somente a ganhar, caso eu passasse. Apesar de não ter ideia se teria coragem de abandonar Logan, aquele que se tornara minha única família. Caminho até a garagem entrando no carro e saindo dali.
Não demoro muito para chegar na pequena cidade, mas havia muitas garotas lá, todas surtando com a ideia de conseguir a bolsa e realizar sonhos não muito diferentes do meu. Eles alugaram um teatro e as pessoas que quisessem participar tinham que se inscrever rápido e entrar pelos fundos, para colocar uma roupa de balé. Por sorte, havia alguns mercadores que estavam vendendo para as garotas que, como eu, se esqueceram de trazer. Entro em um vestiário colocando a roupa rapidamente e vou em direção à sala de espera. Demorei mais esperando, do que realmente para chegar até aqui, mas enquanto isso eu tentava apenas relaxar para que tudo ocorresse bem.
— Hannah Thierry. – Ouço uma voz grossa e observo que o cômodo já estava quase vazio e apenas quatro garotas ainda esperavam a sua vez. Me levanto seguindo o homem até o palco do teatro. Haviam quatro jurados, dentre eles, apenas uma mulher, que me encarava entediada.
— Olá... Meu nome é...
— Sabemos qual é o seu nome, simplesmente dance. – Murmura a mulher e encolho os ombros, assentindo. – Está preparada?
— Sim. – Sussurrei apesar de não ter tanta certeza assim. Caminho até o centro do palco e fecho os olhos. Podia facilmente imaginar minha mãe ali, em uma das cadeiras vazias me encarando com certa admiração mesmo que os jurados dissessem que eu não estava adequada a entrar para uma das melhores academias de dança e arte. Ela admirava minha coragem de estar ali. Abro os olhos com um sorriso nos lábios.
Então eu danço.
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