A Herdeira Da Máfia

19 XIX. What you always dreamed.


Eu não olhava para os jurados sentados a poucos metros a minha frente. Poderia facilmente imaginar a velha sala de espelhos que havia no bordel. Apenas eu e o som. Apenas eu e a dança. Não era tão difícil quando minha mente criava aquele ambiente ao meu redor. Milhares de borboletas foram jogadas dentro do meu estômago e suas asas batiam frenéticas acompanhada das milhares de batidas do meu coração.

Todo o meu corpo parecia apenas uma leve pena enquanto eu dava piruetas e saltos. Mesmo não conseguindo controlar muito bem a respiração, continuei sorrindo, porque era aquilo que eu mais amava. Aquilo era o que me fazia ter certeza do quanto eu estava viva. Demorei uns dez segundos para notar que a música já havia acabado e paro bruscamente finalmente focando meus olhos nas pessoas a minha frente. Quando a mulher iria dizer algo, ouço o barulho de alguém batendo palmas ao fundo.

— Perfeito. Ela está dentro... – Um garoto, que parecia ser poucos anos mais velho que eu, aparece das sombras com um sorriso estonteante no rosto. Seus cabelos eram castanhos e tinham um ar bagunçado. Os olhos no mais belo tom de mel, os lábios cheios e o corpo atlético. Quando dou por mim, ele já está próximo dos jurados.

— Filho, creio que tem um belo motivo por estar atrasado. — Sussurra a mulher loira de olhos claros e expressão nem um pouco receptiva.

— Preguiça, não tem motivo melhor que esse... Agora que escolhemos a garota, podemos ir para Nova York ainda hoje? – Pergunta ele sem deixar de me encarar e meus olhos se arregalam.

— Luke, eu não acho que ela esteja...

— Adequada? Fiz algo de errado? – Por incrível que pareça, eu tive a coragem de interromper um dos jurados e me arrependi quase que imediatamente.

— Você não fez nada de errado, eles que são péssimos jurados. – Responde o tal Luke e eu seguro uma risada.

— Hannah, não é? – Diz a mulher se levantando e eu assenti mecanicamente. – Você tem talento e potencial, algo que nenhum de nós aqui pode negar. É muito boa, mas não estamos procurando pessoas boas, estamos procurando pessoas excelentes. Parece uma daquelas dançarinas aposentadas que voltaram a dançar recentemente.

— Eu parei de dançar um tempo sim e não faz muito tempo que voltei a fazer o que amo...

— Você não é a única que ama a dança, querida. As mais de cem garotas que vieram antes de você também amavam... Sinto muito, mas a academia não serve para você. – Murmura ela e respiro fundo a encarando com a cabeça erguida e assentindo tentando não demonstrar a fraqueza a ela.

— Obrigada pela chance. – Sussurro antes de me virar para sair dali.

— Não, espera aí. – Grita o garoto subindo no palco e me puxando delicadamente pelo pulso. Um arrepio inconveniente percorre meu corpo e ele pareceu notar. – Você acaba de dizer que ela é boa não é? A academia está aí para fazer uma garota boa se tornar excelente, ou está subestimando o que pode ensinar para ela? Se não me engano, disse que ela tem potencial...

— Luke, sua mãe está certa... – Murmura um homem ajeitando os óculos.

— Você é só o capacho dela, se ela disser que odeia as mulheres, é provável que você nunca mais durma com uma. – A mãe de Luke o encara com verdadeiro ódio. – Disse que me queria aqui para ajudá-la. Agora que meu pai morreu, eu estou no comando daquela academia, não você. E eu a quero estudando conosco.

Ele me encara e não pude deixar de olhá-lo com uma certa admiração, agradecendo-o mentalmente por aquele gesto, afinal, ele estava enfrentando a própria mãe para que eu entrasse na academia, quando eu não tinha ideia se o faria. Ela respira fundo, olhando paras os outros três companheiros que pareciam convencidos com o discurso de seu filho. Aqueles pequenos segundos pareceram longas horas. Seus lábios se curvam em um meio sorriso e ela suspira derrotada.

— Tudo bem. Ela está dentro. Espero que não faça eu me arrepender disso Hannah Thierry. – Murmura lançando um olhar mortal para o seu filho e chamando os seguranças. – Fechem as portas, já temos as escolhidas.

Saio do palco pegando uma das garrafas de água que eles ofereciam no final da audição e dou um belo gole sentindo meu corpo se relaxar. Parte de mim não conseguia esconder o sorriso no rosto, mas outra sabia que eu não teria passado se não fosse pela solidariedade do garoto, e senti uma vontade enorme de voltar para casa e dançar até meu corpo não aguentar mais. Vou até o vestiário colocando a roupa que usei para vir para cá e saio do teatro em direção ao carro de Logan.

— Hannah. – Ouço a voz de Luke me chamando ao longe e paro me virando em direção a ele.

— Oi... – Sussurro quando ele já estava próximo o suficiente.

— Não dê ouvidos a minha mãe, ela acha que ninguém consegue ser melhor do que ela já foi um dia. – Ele sorri e eu não pude deixar de sorrir de volta.

— Obrigada, eu acho.

— A gente se vê amanhã? – Pergunta ele e um vinco se forma em minha testa.

— Amanhã?

— É... No aeroporto, queremos chegar cedo em Nova York para o concerto que alguns alunos irão fazer a noite desejando boas-vindas aos novatos. – Murmura e meu sorriso desaparece.

— Claro. Até amanhã. – Minha voz saiu entrecortada enquanto entrei no carro e pisei no acelerador.

Lá estava eu contra a parede e um turbilhão de emoções sem ter ideia do que fazer.Eu não podia abandonar aquele que estendeu a mão para mim quando eu estava no lugar mais escuro que minha alma pôde chegar. Quando tudo parecer nunca ter uma solução ou até mesmo um final feliz. Mal conseguia prestar atenção no trânsito e agradeci mentalmente pela rodovia estar calma. Coloco uma música no máximo, sentindo aquela velha vontade de chorar. Aquele era meu sonho.

Desde pequena, cresci contando histórias a Allan e minha mãe sobre como eu teria uma vida brilhante sendo dançarina e artista. Como eu ganharia o suficiente para sustentar todos aqueles que amo e tirar Chloe daquela vida. A morte havia tirado ela daquele lugar, e aquilo foi algo que eu não pude impedir.

Não podia abandonar Logan.

Mas no fundo, eu sabia que não poderia depender dele a vida toda. Eu precisava ser independente. Dona do meu próprio nariz e despesas. Jamais poderia viver daquela maneira para sempre. E não sei a quanto tempo ou quando começou mas houve um momento em que toda aquela vontade de encontrar meu pai simplesmente desaparecera. Não era como se ele fosse me aceitar na vida dele do nada depois de descobrir minha existência. Aquilo era como se eu esperasse viver um conto de fadas, algo que eu sabia que não existia. Foi uma dose de realidade, mas fiquei feliz em ter aberto os olhos.

Entretanto, a vontade de saber quem ele era ainda fazia de mim, uma garota completamente dependente desse mistério. Estaciono em frente a minha casa e desço do carro desejando que Logan não tivesse chegado para que eu pudesse chorar e tentar ao menos refletir um pouco mais sobre o assunto. Abro a porta dando de cara com alguém que jamais pensei voltar a ver na minha vida. Por impulso, abro a porta da cristaleira que havia ao me lado, retirando a arma dali, a destravando e mirando na mulher que eu passei a odiar com todas as forças.

— Como descobriu que eu estava aqui? – Perguntei em fúria.

— Hannah, querida, você não teria coragem. – Sussurrou.

— Meu dono me ensinou a atirar. Você não me conhece mais Stella, não sabe do que eu sou capaz. – Grito.

— Não atiraria por um único motivo: Carl. – A voz dela era suave e abaixo a arma quase que imediatamente.

— Aconteceu algo com ele?

— Não, mas teria acontecido se você não tivesse ficado do lado dele quando o mesmo veio visitá-la aqui sem minha permissão. Carl comentou comigo onde você morava e passei três meses trabalhando e juntando algumas economias para vir até aqui. Quando cheguei naquela mansão, uma garota disse que você havia se mudado e assim que estava indo embora, a vi saindo com um carro luxuoso para fora da cidade e segui essa estrada de terra até aqui.

— O que você quer? Dinheiro? – Balbucio. – Tentar conquistar minha confiança de novo? Isso nunca vai acontecer.

— Eu estou aqui em respeito à Chloe e como forma de agradecimento pelo que fez ao meu filho. Estarei eternamente em dívida com você. Ajudei Charlie a te vender por ele, Hannah. E sinto muito por isso.

— Vá logo ao ponto ou eu juro por Deus que atiro em você. – Minha voz sai embargada e ela pareceu notar.

— É sobre seu pai, Hannah. Eu sei uma maneira de você descobrir quem ele é.

Engulo em seco, deixando todas as barreiras que criei em minha volta para me defender dela caírem gradativamente.