A Herdeira
30 A suspeita
Anita se sentiu indisposta o restante do dia e não desceu para jantar. Heitor foi informado, mas imaginou que naquele dia ela simplesmente não queria a companhia dele. Maria Cesárea foi levar uma sopa para Anita no quarto.
- Vossa Majestade está muito pálida – reparou a governanta.
- Vomitei várias vezes, não consegui comer mais nada.
- Por isso vim te trazer essa sopinha, vai te dar forças, como é leve, vai parar no estômago. Você sente mais alguma coisa?
- Não, só enjoo e fraqueza.
- Será que pegou alguma doença no Brasil? Pode ser de mosquito! Ou no navio? Dá sempre tantas doenças virais...
- Pode ser, na melhor das hipóteses.
- Credo, Anita! Então qual seria a pior das hipóteses?
- Eu estar grávida.
- E por que isso seria ruim? Não é tudo o que Heitor quer?
- Seria uma alegria enorme, se fosse filho dele.
Maria Cesárea se surpreendeu:
- Anita, não vai me dizer que...
- Que eu sou uma traidora, uma devassa, uma mulher casada sem escrúpulos – falou Anita, caindo em pranto.
Maria Cesárea a abraçou:
- Não, minha menina. Eu te conheço desde pequenininha, eu sei que você não é nada disso.
— Sou sim. Eu traí o meu marido no Brasil e agora posso estar grávida de outro homem. Já imaginou o impacto disso no reino?
- Não vou negar, vai ser um golpe e tanto para Heitor. Apesar de tudo, do comportamento dele, eu sei que ele te ama muito.
- O que eu faço, Maria Cesárea? Um aborto?
- Não, jamais – disse ela se benzendo – isso é um pecado que Deus não perdoa.
- O meu adultério já não foi um pecado imperdoável?
- Mas, matar uma vida, acabar com a vida do seu filho, é muito pior! Do adultério você já se arrependeu...
- Eu estou perdida! Se não fosse por Vitória, eu pegava as minhas coisas e voltava para o Brasil.
- Você acha que o pai do seu filho o assumiria?
- Eu não sei. Ele jurou que me amava, mas não sou nenhuma garota ingênua. Ele pode ter dito isso só para me levar para cama. Eu estava magoada, carente... me deixei levar. Mas, hoje enxergo que não o amo. Foi um erro, um grande erro num momento de vulnerabilidade que pode ter resultado em consequências catastróficas.
- Você acha que o Heitor lhe mataria se soubesse?
- Eu não sei. Ele poderia fazer, se quisesse. A Lei de Seráfia admite a execução para vingar adultério.
- Meu Deus do céu, Anita! Imagine o trauma para Vitória se isso acontecesse.
- Morrer seria o de menos, talvez eu mereça. O pior seria a dor que eu causaria à minha filha, tudo que eu mais amo nessa vida.
- Vamos nos acalmar, estamos apenas fazendo suposições. Nada confirma que você esteja grávida. Mal estar estomacal é comum, pode ser algo que você comeu e fez mal, pode ser uma virose ou uma doença tropical, vamos esperar para ver.
- Seria castigo de Deus. Tantos anos sem engravidar do meu marido e de repente numa inconsequente noite de amor acabar grávida.
- Uma vida enviada por Deus nunca pode ser chamada de castigo.
- E que nome você daria a isso?
- Anita, por que você não diz ao Heitor que o filho é dele?
- Porque eu não me deito com o meu marido há muito tempo!
- Então o seduza, leve ele para cama, depois diga que engravidou.
- A criança nasceria prematura? Ele iria acreditar?
- Acontece.
- Olha, eu estou com a cabeça quente, enjoada e fraca. Como você mesma disse, melhor aguardar, pode não ser gravidez, talvez eu nem possa gerar, como Heitor já me jogou na cara várias vezes.
- Quanto mais você esperar, mais prematura a criança terá que nascer, caso você realmente esteja grávida.
- Não seria justo com Heitor.
- E seria justo com você?
- Eu mereço todos os castigos.
- E Vitória? Iria respingar nela.
Anita nada respondeu, caindo em prantos novamente. Maria Cesárea já ia se retirar, mas Anita a chamou:
- Prometa que não contará isso para ninguém?
- É claro, Anita! Você conhece a minha lealdade. Eu jamais abriria a minha boca para destruir a sua família, ainda mais que amo Vitória como se ela fosse a minha neta.
- Gratidão, minha amiga.
Maria Cesárea deu um beijo na testa de Anita e disse:
- Fica com Deus, minha menina. Reza, pede o amparo de Deus. Também vou rezar por você.
Nos dias seguintes, o mal-estar continuou, às vezes melhor, às vezes pior. Heitor imaginava que tudo era desculpa para ela se afastar dele e não procurava vê-la, a fim de respeitar a vontade dela.
Certo dia, na inauguração de uma nova ponte na cidade, enquanto Heitor discursava no púlpito da Praça, Anita ao seu lado, começou a sentir tontura. Era um dia ensolarado e menos frio. Ela abriu o casaco, sentia um calor fora do normal. Não adiantou, a visão foi escurecendo e ela sentiu suas pernas perderem as forças. Por pouco não caiu no chão, tendo Heitor a amparado pouco antes disso. Todos os presentes se assustaram, fotógrafos registraram. Heitor pegou a esposa no colo. Os guardas reais abriram passagem na multidão para que o casal real chegasse ao carro. Foram rapidamente levados ao Palácio.
Heitor entrou com Anita nos braços, fraca, mas já acordada. Vitória viu a mãe e se assustou:
- A mamãe tá doente? Ela vai morrer?
- Não, minha filha. A mamãe teve um mal estar, porque esquentou mais do que o normal lá fora. Mas, ela já vai ficar bem – respondeu Heitor.
O mordomo vinha entrando na sala e Heitor deu ordens:
- Chame o médico que sempre nos atende e leve Vitória para as aulas, das quais ela deve ter fugido.
- Claro, Majestade.
- Eu não vou voltar para aula com a mamãe passando mal, quero ficar com ela – protestou Vitória.
- Agora não é a hora, querida. Quando a mamãe melhorar, eu te chamo, te prometo – falou Heitor.
O mordomo pegou Vitória no colo e saiu com ela chorando.
Heitor deitou Anita confortavelmente na cama, afofando seus travesseiros e mantendo a cabeça dela elevada:
- Como se sente? Melhorou um pouco? Dói alguma coisa?
A preocupação estava estampada nos olhos dele. Ela respondeu, fraca:
- Estou fraca, mais nada.
- Você está pálida, isso muito me preocupa.
- Você realmente se preocupa comigo?
- Você ainda duvida disso?
Os dois trocaram um olhar profundo. Heitor segurou a mão de Anita com força, depois levou-a aos lábios e depositou um beijo terno. Foram interrompidos pelo médico:
- Com licença, Vossas Altezas – fazendo uma reverência – Por sorte eu estava bem perto e pude chegar rápido.
- Graças a Deus. Muito obrigado, Doutor – agradeceu, Heitor.
- Vossa Majestade pode nos dar licença para que eu examine a Rainha?
- Claro, depois me diga o que ela tem e como será tratada. Estou muito preocupado.
Heitor saiu e o médico mediu a pressão de Anita:
- Está baixa, você teve uma queda de pressão, por isso o desmaio.
- Deve ter sido o calor, Doutor.
- Pode ser...
Ele ouviu o coração, o pulmão e apalpou a sua barriga. Perguntou:
- Você sente dor quando toco?
- Não.
- Em lugar nenhum?
- Não.
- Você tem tido esse mal estar com frequência ou foi apenas hoje?
- Eu acho que foi apenas o calor com o fato de eu não ter tomado o desjejum hoje.
- Por que não tomou?
- Não tinha fome, estava um pouco enjoada.
- Esses enjoos estão se repetindo?
- Às vezes.
- As suas regras estão vindo normalmente?
- Eu não sou muito regulada, é sempre normal atrasar um pouco. O meu ciclo é maior que 30 dias.
- A sua barriga me parece um pouco inchada, mas você me diz não sentir dor.
- Não sinto.
- Teve febre recentemente?
- Não que eu tenha notado.
- Eu suspeito de algo, mas preciso pedir permissão à Vossa Alteza para fazer um exame ginecológico.
- Eu não estou grávida! – disse Anita, reunindo forças e se sentando na cama.
- Para termos certeza de que não está, preciso fazer esse exame, verificar o seu útero.
- Eu não permito, eu não quero!
- Entendo que Vossa Majestade possa estar um pouco nervosa pelo mal estar. Mas, eu preciso fechar o diagnóstico, o seu marido está esperando, pode ser uma excelente notícia para ele e para o Reino...
- Eu já disse que foi apenas o calor e a falta de alimentação, já me sinto bem. Vá embora!
- Está bem, a Rainha é quem manda, sou seu fiel súdito – fazendo uma reverência.
O médico recolheu seus equipamentos, fechou a maleta e saiu do quarto, desejando melhoras para Anita. Heitor esperava aflito na antessala:
- E então, Doutor? O que a minha mulher tem? É grave?
- Não me parece nada grave, mas não pude fechar o diagnóstico, porque a Rainha não me permitiu fazer todos os exames necessários.
- Mas, o senhor ao menos suspeita de alguma coisa, certo?
- Eu suspeito, mas não quero criar uma expectativa que pode não se confirmar.
- Eu preciso saber. Sou seu Rei e exijo que me diga do que suspeita.
- Está bem, mas reforço que é apenas uma suspeita. Ao meu ver, sua Rainha está grávida.
Heitor riu:
- Impossível!
- Por que Vossa Majestade acha isso? Vocês são jovens, são casados, não seria de se surpreender se acontecesse...
- O Senhor tem razão. Acontece que estamos casados há muitos anos e, depois de Vitória, não conseguimos mais conceber.
- Isso acontece, a medicina ainda não sabe explicar o motivo. Pode ser uma causa transitória de infertilidade de um dos cônjuges, que acaba se resolvendo com o tempo. Já vi vários casais assim, inclusive que tentaram por muito tempo, sem sucesso e sem problemas claros de fertilidade, que quando relaxaram e deixaram para lá, acabaram engravidando.
- Está certo, muito obrigado Doutor – apertando a mão do médico – Fale com o meu tesoureiro para que lhe pague a consulta. O meu mordomo vai lhe encaminhar até a sala dele.
- Qualquer coisa, estou à disposição. Recomendo que sua esposa se alimente bem, pois me informou que está em jejum, o que pode ter contribuído para o desmaio.
Heitor entrou no quarto, encontrou Anita sentada, recostada à cabeceira da cama. Suas faces tinham retomado o tom rosado natural e saudável. Heitor sentou-se ao lado dela na cama, dizendo:
- Vejo que está melhor.
- Sim, estou. O que o médico lhe disse?
- Que não pode fechar o diagnóstico, mas que tem uma suspeita absurda. De qualquer forma, recomendou que você se alimente, pois está em jejum. Vou pedir para Maria Cesárea lhe trazer algo leve e nutritivo. Também prometi à Vitória que a deixaria vir lhe ver quando você melhorasse.
- Pobrezinha da nossa filha, assustou-se tanto ao me ver mal.
- Pois é, vou chama-la logo.
Heitor se levantou e deu um beijo na testa de Anita, saindo.
Maria Cesárea levou um lanche para Rainha, que o comeu ouvindo as perguntas infinitas da filha, as quais respondia entre uma mordida e outra.
No dia seguinte, o mal estar da Rainha era notícia em todos os jornais de Seráfia, com fotos da Rainha desmaiada, caindo, sendo amparada e carregada pelo marido. Heitor viu e orientou ao mordomo:
- Não quero que Anita veja nada disso nos jornais, ela ainda está se recuperando e não deve se sobressaltar.
Nas matérias, os jornalistas levantavam várias hipóteses: sérios problemas de saúde da Rainha, doença adquirida nos trópicos e até mesmo de gravidez.
O mordomo Baltazar respondeu:
- Garanto ao Senhor que irei instruir todos os criados para que esses jornais não cheguem de forma alguma à Rainha. Fique sossegado, Majestade, o jornal de hoje enrola do peixe de amanhã.
- Muito obrigado, Baltazar.
O mordomo se retirou e Heitor ficou matutando: “Seria possível que Anita estivesse grávida? Se estivesse, não seria dele. Anita seria capaz de traí-lo dessa forma?”.
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