Aos poucos, os enjoos e o mal estar foram deixando Anita, porém, o fantasma da depressão voltou a assombrá-la. Não participava mais dos compromissos reais, levantando todo tipo de especulação nos jornais e fora deles.

Heitor realmente passou a se preocupar muito com o estado de saúde da Rainha, que não aceitava mais consultas médicas e passava os dias no quarto, mergulhada em tristeza. A única companhia que ela aceitava, eventualmente, era da sua filha Vitória, quando se forçava a sorrir um pouco.

Maria Cesárea levava as refeições, mas Anita não queria conversar, Heitor a visita com frequência, lia poemas para ela, beijava as suas mãos e sua testa, sentava-se ao lado dela na cama e passava os braços por suas costas, mas ela parecia alheia a tudo.

Quanto melhor ele agia com ela, mais ela se sentia culpada e mais se afundava na depressão. Certo dia, Heitor decidiu ter uma conversa franca com ela, imaginando que talvez assim ela reagisse:

- Anita, eu não aguento mais te ver assim, não vê que me parte o coração?

Ela nada disse, permanecendo com o olhar distante.

- É minha culpa você estar assim, não é? Eu agi feito um canalha, um imaturo. Eu me senti abandonado por você quando você decidiu ir para o Brasil, senti como se estivesse colocando um fim ao nosso casamento de maneira velada. Eu sofri demais, porque eu te amo muito, mesmo que você não acredite! Primeiro afundei na bebida, comecei a ir para festas e dali para as amantes, foi um pulo.

O olhar de Anita continuava distante e a face impassível.

- Eu me arrependo muito do que fiz. Eu deveria ter tentado me acertar com você e não interpretar as suas atitudes como uma rejeição a mim. Eu sei que te pressionei demais por uma gestação. Já temos Vitória e ela nos basta. Ela é nossa princesinha, nossa vida, nosso amor. Eu não deveria ter me importado tanto com a opinião e as ameaças do Parlamento. Eu sou um fraco!

Anita finalmente se manifestou:

- Eu também sou uma fraca.

- Diz isso por estar com depressão. Você não é fraca, sou sempre eu que faço as besteiras e te decepciono. Você é boa, era uma boa esposa antes de eu começar a te pressionar, é uma ótima governante, esperta, inteligente, cheia de ideias. Eu fui o responsável por apagar o seu brilho, querendo submetê-la à função de mãe, esposa e Rainha consorte, apenas. Quando, na verdade, você é Rainha regente. Vivemos num País machista e eu me deixei contaminar. Acho que sempre fui machista, na realidade.

Ele fitou o rosto dela, que parecia querer chorar. Ele continuou:

- Talvez seja tarde para mudar algo entre nós, mas quero que você saiba que desde que voltou, eu nunca mais me deitei com nenhuma amante. Eu não quis saber mais de mulher nenhuma, mesmo que não pudesse te tocar.

Anita falou:

- Eu te deixei livre para fazer o que quisesse.

- E eu usei essa liberdade para não fazer. Mesmo livre, é só com você que eu quero estar. A minha liberdade, a minha alegria, o meu amor estão com você.

- Eu não mereço o seu amor, Heitor.

- Merece sim, você é uma mulher incrível. Vamos fazer as pazes, foram brigas bobas, imaturas. Eu juro que não vou mais te pressionar para que engravide.

As lágrimas rolaram pela face de Anita e ela não aguentou mais segurar a verdade:

- Não pode me pressionar para que eu engravide, porque eu já estou grávida!

Heitor sentiu o chão fugir de seus pés, tonteou e teve que se sentar. Ela continuou:

- Entende agora por que não mereço o seu amor? Sou uma adúltera, uma traidora! Carrego um filho dessa traição em meu ventre. Eu preferiria morrer a te causar essa dor. Eu só não me mato por Vitória. Mas, se você quiser me matar, está no seu Direito.

Heitor nada respondeu, levantou-se e saiu batendo a porta. Chegou no seu escritório e serviu-se de uma boa dose de uísque. Virou o conteúdo sentindo a garganta queimar.

Nos dias que se seguiram, Heitor não foi mais ver Anita. Voltou para a bebedeira, as festas e as mulheres. Anita continuava em depressão, no quarto, na expectativa do que Heitor faria a respeito, talvez a matasse, talvez não, poderia apenas devolvê-la aos seus pais, na melhor das hipóteses.

Sabia que se tivesse que voltar ao Brasil, nunca mais veria a sua filha, o que dilaceraria a sua alma, de modo que a morte talvez fosse a melhor das hipóteses.

Sentia a barriga crescendo, um filho indesejado. Não conseguia amá-lo como amava Vitória.

Alguns dias depois, Heitor voltou ao quarto de Anita, puxou a poltrona para mais perto da cama e sentou-se, parecendo estranhamento calmo demais:

- Anita, a sua notícia me levou ao fundo do poço, senti vontade de morrer, de me atirar de qualquer ponte dessa cidade, de beber até dilacerar o meu fígado. Só a morte seria capaz de aplacar a dor que você me causou.

- Eu entendo – foi tudo que Anita conseguiu dizer, olhando para baixo, sem conseguir fitar Heitor nos olhos.

- A sua gravidez prova que o problema nunca foi seu, como eu cansei de lhe acusar. O infértil sou eu, está provado!

- Não diga isso, Heitor...

- Deixa eu continuar. Eu pensei muito sobre o que fazer com essa situação.

- Você vai me matar?

- Não.

- Me devolver aos meus pais?

- Também não.

- Então o quê?

- Você propôs o acordo de paz de vidas separadas e fachada pública, vamos manter, pelo bem de Vitória.

- E qual será o destino desse filho?

- O pai não o quer?

- Ele nem sabe, não vai saber, se depender de mim.

- Por que não?

- Porque não o amo, porque não quero nenhum vínculo com ele. Foi um erro pelo qual estou pagando muito caro. Eu estava vulnerável, magoada com você, me sentindo traída, mal amada, um nada como mulher. Aí ele foi se aproximando, me exaltando, me desejando, me mostrando que para ele eu era muito, enquanto para você, eu era nada. Foi uma única noite, o maior erro da minha vida.

- Você tem os próximos meses para pensar no que fazer. Eu te dou duas opções: Entregar para o pai ou encaminhá-lo para um orfanato. Seria demais para mim cria-lo como filho.

- Eu te entendo, não seria justo da minha parte exigir isso de você. Eu nada posso exigir nesse momento.

- Então, estamos combinados.

Heitor se retirou e Anita ficou reflexiva.