A Guerra em outro Mundo.
8 Capítulo 8
Ah, que saudades de um banho digno, demorado e quente. Isso me fazia muita falta nesses dias. Havia sangue seco na minha pele e nas roupas. As roupas, estavam rasgadas. Na verdade, eu estava usando apenas uma camisola branca, que mal batia na cintura. Eu preecisava trocar de roupas. E principalmente de pele, se fosse necessário, e se eu pudesse. Me acabei no banho, esfregando cada centímetro possível do meu corpo. Depois, me enrolei em um roupão. Hoje, não tive escravas me ajudando a me vestir. Percebi a um canto, um par de roupas íntimas (um sutiã com bojo e uma calçinha pretos) com um pequeno bilhete em cima. Reconheci a caligrafia quase imediatamente, não sei por que. Sentidos. Era de Josh. Dizia:
"Use isso apenas, e se enrole no roupão, depois, peça para a escrava que está do lado de fora da porta do banheiro onde é para você ir."****
Eu fiz o que o bilhete mandava, um pouco insegura sobre se era para fazer isso mesmo ou não. Vesti o roupão e perguntei para a escrava que estava ao lado da porta do banheiro, do lado de fora, onde era para ir. Silenciosamente, ela me chamou para acompanhá-la. E eu o fiz. Caminhamos por longos minutos, até que as minhas pernas se cansaram. Ela me puxou para mais adiante, onde me deixou na frente de uma porta particularmente ampla.
–Seu quarto -disse ela, se reverenciando e saindo dali.
Hesitando, eu entrei.
–Primeiramente, vamos tirando esse roupão...
Josh chegou por trás de mim, e gentilmente abriu a 'cinta' de tecido do meu roupão. Depois, deslizou as mãos pelos meus ombros, braços e mãos, puxando o roupão junto. Em segundos ele estava no chão. Ótimo. Eu estava quase nua na frente de Josh, e podia quase ler a mente dele nesse momento. Com boas intenções ele não estava. Com um pouco de força, ele me virou de frente para si e permaneceu perto.
–Você tem uma aparência muito melhor depois de um banho, sabia? -ele cheirou o meu pescoço, de leve.
–Terei uma melhor depois de fazer curativos -falei, friamente.
Ele ficou em silêncio.
–E... Se esse é o primeiro passo, não quero saber qual é o próximo.
–Não se preocupe em relação a isso, não há nada de segundas intenções, por enquanto.
–Devo confiar em você?
–Essa resposta você tem que encontrar por si mesma.
Me virei de costas para ele e analisei o quarto. Havia uma cama de casal, com lençóis escuros e macios. Havia uma mini-cômoda de cada lado da cama, e mais cômodas e prateleiras espalhadas pelo quarto. Caminhei até chegar na cama e me deitei nela. Momentaneamente, fechei os olhos. Não havia barulho no quarto.
–Vai demorar para a sessão de curativos?
Ele ficou em silêncio.
Abri os olhos, e vi que ele estava me observando, com um olhar um tanto esquisito. Ergui um pouco a cabeça e o encarei. Pensei "Vai demorar, sério?" Ele piscou duas vezes e avançou na direção da cama. Subiu pela parte dos pés, e avançou sobre mim. Não parou até que seu rosto ficasse a centímetros do meu.
–Então?
–Feche os olhos.
–Fechar? -fiquei confusa.
–Isso, fechar.
Fiz o que ele havia mandado, um tanto preocupada. Ele não parecia estar querendo curar meus machucados, infelizmente. Suspirei e estremeci, enquanto ele passava as mãos de leve pelo meu corpo. Onde ele tocava, ficava melhor. Os cortes se fechavam, os hematomas se curavam e a minha pele clareava novamente. Não sei se era por que essa era a área mais machucada, ou se era só por charme, mas Josh se demorou pelos meus pulsos e mãos. Abri os olhos e o vi inclinado sobre mim, novamente.
–Como fez isso comigo, Josh?
–Hã... Domínio da cura.
–Aprendeu recentemente?
–Alguns dias antes de você vir para cá pela primeira vez.
–Vou ter algum efeito colateral?
–Sono, talvez. E fome. Muita fome.
–Com fome já estou -franzi a testa.
–Mas infelizmente, a hora de comer aqui já passou. Durma.
–Aqui?
–Isso -ele se deitou ao meu lado.
–Com você -falei, lentamente.
–Não há nenhum problema, né?
Me aquietei. Ele me puxou para mais perto de si, e aproveitei a deixa para me aninhar. Fiquei de costas para Josh. Ele me puxou para mais perto, e deitou a sua cabeça nos meus cabelos. Sinto dizer que logo fiquei calma. Mesmo não confiando em Josh... Havia algo nele que me atraía agora. Senti-me envergonhada. Em menos de uma hora da minha 'separação' de Rick, eu estava assim, com Josh. Realmente, eu não gostaria de estar assim. Eu não conseguia sentir nada de diferente dentro de mim, na minha mente, mas pensava que Josh estava me controlando, de alguma maneira. Não era totalmente minha vontade o que estava acontecendo agora.
Mesmo tendo relaxado um pouco, fiquei pensativa antes de dormir. Será que Rick viria mesmo me visitar nos sonhos? Ele realmente se esforçaria ao máximo para me resgatar do castelo? E caso ele me encontrasse e nós fugíssemos, Ele tomaria todo o cuidado prometido com o meu corpo e comigo? Essas eram perguntas que me deixavam confusa. Talvez era isso que Josh estava implantando em minha mente.
Agora, depois de deixar as minhas dúvidas pairando no ar, fechei os olhos. Adormeci sim, mas foi um sono muito pesado
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–Você tem certeza que quer fazer isso? — Tanya se aproximou de mim.
–Não vou ficar só me guardando sem se me auto-desafiar, Tanya -suspirei.
–Isso não vai ser um mergulho normal, Oddie -Josh falou.
–Eu sei.
–É um mergulho perigoso. A altura é muita. Você pode ficar com falta de ar no caminho. Aah, isso não é aconselhado! -Lottie bateu os pés, impaciente.
Eu apenas olhei para Dougie. Ele fez um sinal positivo com a mão direita, confirmando a sua possível ajuda.
Estávamos na área aberta da torre mais alta do Castelo dos Elementos, em Rabdash. Eu havia dormido a tarde e a noite toda, ontem. Agora era outro dia, de manhã. Eu não havia comido nada ainda, então em intervalos regulares de tempo, meu estômago roncava. Ventava ali, com a presença de Dougie, mas ele me ajudaria na hora da queda. O lago em que eu deveria cair parecia minúsculo se visto do lugar onde estávamos, e eu senti uma pontada de medo ao vê-lo. Acho que iria conseguir. A minha mágica estava despertando, e com isso, acho que a minha forma animal. É, Tanya havia me falado que por ser filha do rei de lá, eu deveria ter uma forma animal. Provavelmente, tendo contato com tal elemento, alguma forma animal se ative.
–Lhe darei a ajuda necessária, caso precise -disse Dougie.
–Precisa de algum impulso? — Tanya tocou o meu ombro.
–Hã... Acho que não seria uma boa ideia -Josh.
–Oddie?
–Acho que vou sozinha.
Fechei os olhos. Respirei fundo, e me lançei no minúsculo ponto d'água. Eu estava caindo de cabeça. Estiquei e juntei os meus braços acima da minha cabeça, e logo caí na água. Olhei para a parte de baixo do meu corpo: mal havia passado alguns segundos de contato com a água, e eu já havia ganho uma cauda de sereia. Era verde. Os meus cabelos haviam ganhado uma tonalidade verde, também. Tentei prender a respiração por um momento, mas fiquei com uma longa falta de ar. Resolvi liberar a respiração, e me assustei, pois estava engolindo água. Mas, o meu corpo não afundou e nem entrou água nos pulmões. Eu conseguia respirar normalmente, como se estivesse andando por terra firme. Tudo estava bem, até agora.
Eu realmente levei um susto quando vi um animal estranho parado ali, perto de mim.
Não estava com uma cara feliz, definitivamente.
Balançei a minha cauda para frente e para trás, lentamente, indo na direção contrária da do bicho. Ele notou o meu movimento e começou a avançar contra mim. Eu quase me desesperei. Aumentei a velocidade e começei a nadar na direção contrária, Mais rápido que um míssil. Emiti guinchos aquáticos muito altos. Acho que os outros guardiões não escutaram, pois não vieram ao meu encontro. Talvez o animal só quisesse paz comigo, ou fosse algum animal mandado ali à força para me mandar um recado ou algo assim.
Mas ele me alcançou, e mordeu o lado esquerdo da minha cauda. Eu urrei de dor. Esse urro foi mais alto que os guinchos de antes. Os meus ouvidos doeram, mas a minha cauda era o pior. O lago estava se tingindo de vermelho com o meu sangue que caía. Eu estava afundando mais e mais. Em um momento, ouvi um barulho na água. Alguém havia se jogado no lago, e estava me protegendo do animal. Estava formando uma barreira protetora. Aproveitei a deixa e fiz força para chegar na superfície. Em pouco tempo, consegui. Me forçei para fora d'água, mas não consegui sair. Senti um par de mãos fortes me puxando. Esse mesmo par de mãos me deitou em seu colo. Segurou o meu rosto por um momento. Quando abri os olhos, percebi que não era Josh, e sim Dougie. Ele me segurou por mais um momento.
–O que houve lá no lago, Oddie? -sussurrou.
–Ele... Ele me mordeu na... -gaguejei.
–Na cauda?
Fiz que sim com a cabeça, tremendo.
–Foi um corte superficial, por sorte, mas você vai ficar com... Sequelas.
–Vou ficar assim, para sempre?
Ele riu.
–Não. Você vai voltar com as suas pernas normais logo, logo. E, quanto ao machucado....a sua perna vai levar um certo tempo para se recuperar.
–Eu não sinto.
–O que?
–As minhas pernas. Cauda! Quero dizer... O que eu quero dizer é que não consigo sentir nada da cintura pra baixo.
–O que? -ele arregalou os olhos.
–Nadinha de nada.
–Como... Como isso...
–Eu vou ficar bem, Dougie? -agarrei a sua blusa.
–Você vai sim, claro. Eu só... Não sei como isso foi acontecer.
Eu ia dizer mais alguma coisa, mas fomos interrompidos por um momento de ação de Lottie e Josh. Os irmãos estavam, com muito esforço, tirando o animal que havia me mordido da água. Com um aceno, Josh o congelou. Ele caiu imóvel perto de onde Dougie e eu estávamos. Gritei, mas nada aconteceu. O gelo continuou ao seu redor, intacto. Ele não tentava se libertar de nada.
–O que fez com ele? -sussurrei.
–Apenas o congelei -respondeu ele, um tanto friamente.
–Não. Você vai fazer algo mais -teimei.
–O que houve aqui? -Tanya se aproximou de nós.
–Oddie foi mordida -disse Lottie, saindo da água- Por esse animal -ela apontou para o pedaço de gelo no chão.
–Como assim mordida? -Tanya correu ao meu socorro -E que tipo de animal é esse?
–Um animal que consegue resistir a altas temperaturas -Josh estava com nojo.
Todos se entreolharam significativamente. Eles sabiam de algo, que eu não sabia.
Pedi para Dougie que me levasse para dentro, pois eu estava cansada, e com fome. Ele hesitou um momento, mas depois me deitou suavemente no chão, se levantou e me pegou no colo. Em silêncio, caminhou na direção do castelo, comigo. Eu ainda estava com a minha cauda, mas, na medida que avançávamos e o meu corpo se secava, as minhas pernas voltaram ao normal. Eu me inclinei para perto da mordida, e vi que boa parte da minha perna havia sido arrancava. Quase desmaiei, mas a minha parte racional me comandou agora. Ao invés de fechar os olhos, apenas me inclinei para trás novamente.
–Eu não vou me recuperar -suspirei- Nunca.
–Que besteira. É claro que não.
–É muito grave.
–Aos seus olhos, pode parecer. Mas para nós, não é. Como eu disse antes: é um ferimento superficial.
–Não, não é.
–A sua perna está conseguindo se mexer?
Incrivelmente, agora ela estava. Fiz que sim com a cabeça. Ele riu.
–Eu disse que ia melhorar logo.
Agora, estávamos entrando pelas portas do castelo. Ele andou rapidamente, a partir desse momento. Caminhou até chegarmos naquele quarto onde dormi ontem a noite. Me deitou na cama e se deitou ao meu lado, em silêncio. Eu senti um peso esmagador no meu braço, e observei o meu corpo. As roupas que eu estava usando enquanto estava caindo no lago haviam sumido. No lugar delas, havia aparecido um vestido branco. Tinha vários tecidos o compondo, ia até os pés e tinha mangas compridas e grossas. Esse vestido me era conhecido. Eu me virei de frente para Dougie e o encarei, incrédula.
–Foi você que fez aquela mudança com as minhas roupas, naquela vez na floresta?
Ele fez que sim com a cabeça.
–Como você faz isso, Dougie?
–Sendo guardião do ar, sempre que quero, manipulo a névoa. E a névoa as vezes faz coisas e objetos desaparecerem. E no lugar dessas coisas, novas aparecem. Num piscar de olhos, sem sentir, posso fazer uma pessoa trocar de roupas, ou a sua aparência. Alguns não deixam. Outros, os fortes, criam barreiras para os meus poderes. Os fracos, infelizmente, não conseguem.
–E..então eu sou fraca? -gaguejei.
–Não é isso. Você se assusta fácil demais, demonstra o seu medo. Esse é o seu defeito fatal. Assim, fica fácil penetrar em sua mente e...brincar com você.
Me deitei normalmente na cama. Puxei o vestido para acima dos joelhos, pois a minha perna estava coçando, já. Fechei os olhos, suplicando por uma melhora, fosse mínima ela. Começei a ter calafrios. Tremi e me sacudi, em silêncio. Senti Dougie me observando.
–Somente Josh consegue me curar, Dougie?
–Eu conseguiria, mas talvez não com a mesma facilidade.
–Ele vai demorar para vir?
–Josh está ocupado demais com aquele animal, acho que nas próximas duas horas ele não vem.
–Eu aguento até ele vir?
Dougie fez que não com a cabeça. Suspirei.
–Você consegue fazer isso sem que eu sinta dor, Dougie?
–Sim.
–Então faça, se for necessário.
Ele se ajoelhou ao lado da minha perna. Dobrou a direita, para chegar mais perto da machucada, então a segurou de leve.
–Tem certeza que consegue fazer isso? -ele me encarou.
Mexi a cabeça afirmativamente e grunhi algo em resposta. Fechei os olhos. Arfei quando ele tocou o meu machucado. Doeu, claro, mas eu não ia gritar, gemer ou algo assim. Dougie fez um trabalho rápido, proferindo palavras rápidas, que não fizeram sentido para mim, mas sim para os machucados. Senti algo puxar um pedaço de pele para mais perto de outro,fechando o machucado em partes. Sangue parava de escorrer, pois o ar fazia as veias e artérias pararem de transportar sangue por um momento e se juntarem, perto dos ossos, fazendo o sangramento parar. A pele não se fechou totalmente, mas havia melhorado muito. A perna havia ganhado uma tonalidade roxa, mas nada mais.
–Ficou fantástico -observei.
–Sério?
–Sim. Não melhorou 100%, mas definitivamente, você fez um bom trabalho.
Rimos juntos.
O jeito que Dougie ria, calmamente, me fazia rir com gosto. Até que uma hora me peguei olhando para o seu rosto. Ele fez a mesma coisa comigo. Começou a avançar na minha direção, se inclinando sobre o meu corpo. Ele ia me beijar?* Eu acho que ia fazer isso mesmo, mas antes que os nossos lábios se tocassem, ouvimos a voz de Josh e Lottie do lado de fora da porta. Rapidamente empurrei Dougie para o meu lado e prestei atenção no que as vozes falavam.
Eram coisas nada boas.
"Você acha que ela tem o direito de saber?" indagou Lottie.
"Ela não tem direito a nada, nesse momento. Se ela souber disso, vai sair a procura de Rick, e não vai descansar até encontrá-lo"Josh revidou.
"Ela tem sim o direito de saber disso".
"Oddie não vai ficar sabendo que Rick está tentando entrar no castelo, Lottie" Josh abriu a porta do quarto no exato momento em que falava isso "Eu vou capturá-lo e matá-lo sem que ela saiba".
–Então é assim?
Josh olhou para mim, atônito, pois eu já estava de pé, numa posição de ataque. Eu estava mancando um pouco, mas nada me impediria de quebrar algum osso dele agora
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