–Você realmente planeja matar Rick sem que eu saiba? Tipo, como a neve apagando todo o fogo? -eu escolhi as palavras cuidadosamente, enquanto avançava devagar.
Josh continuou quieto. Eu estava quase espumando de tanta raiva dele. Ele não ia fazer nada de mal para Rick, não sem antes passar por cima do meu cadáver. Eu, idiota, ainda estava caindo nos truques que Josh plantava em minha mente.
–Você me fez confiar em você.
–Ai. Meu. Deus. -Lottie se afastou.
–DIGA SE ISSO QUE VOCÊ FALOU É VERDADE MESMO! -eu cheguei perto dele e começei a distribuir socos e tapas pelo seu corpo.
–Oddie, se acalme -Dougie pulou da cama e tentou me puxar para longe de Josh.
–Não, Dougie! Eu acreditei em você, eu pensei que você quisesse o bem e paz nesse mundo, mas você só quer guerra! VOCÊ SÓ QUER GUERRA, JOSH!
–Eu não quero guerra! -ele tentou afastar as minhas mãos, mas não conseguiu -Eu apenas quero Rick morto!
–ACABAR COM O FOGO É PEDIR GUERRA! — berrei.
–Claro que não! -dessa vez ele conseguiu agarrar meus pulsos.
–Na verdade, é sim, Josh.
Dougie falou isso, sério. Depois, soltou gentilmente as minhas mãos do aperto de Josh e me puxou mais para perto de si. Caminhamos em silêncio para fora do quarto. Andamos devagar, por causa da minha perna. Demoramos, mas chegamos nos jardins de trás do castelo. Essa parte era desconhecida por mim. Era simplesmente linda.
–Bem vinda ao Jardim das Estações -disse Dougie, na minha orelha.
–Ele é.. Perfeito.
–Olhe. Está dividido em quatro partes. Cada uma representa uma estação. Estamos no outono.
Olhei em volta. Ele e eu estávamos mesmo na parte do outono. Folhas caíam sem parar no chão, formando pequenos montinhos. A estação que estava a nossa esquerda era o inverno. Na direita, o verão. A nossa frente... A primavera. Uma estação linda, se você for ver. A primavera era um intermédio entre frio e quente. Ela era... A minha estação preferida.
–Gostaria de ficar em qual estação?
–Primavera, por favor.
Caminhamos até lá. O clima era muito agradável. Mesmo estando ali, nesse clima tão bom, eu estava preocupada. Josh faria mal a Rick, custe o que custasse.
–O que houve, Oddie? Está preocupada?
Eu me virei de frente para ele. Abri a boca para falar algo, mas a fechei. Repeti esse processo inúmeras vezes, mas as palavras não queriam sair. Ameaçei chorar, mas ao demonstrar o mínimo sinal disso, me denunciei. Dougie percebeu isso e me segurou contra si. Nesse momento, começei a chorar. Ele me apertou mais ainda.
–Josh vai fazer de tudo para ir atrás de Rick -resmunguei, chorosa.
–Sim, ele vai. Mas você conhece Rick. Ele é forte. Não vai ser capturado logo.
–Temos que impedir Josh. Temos que fazer com que ele saia de perto de Rick! Rick precisa ser protegido.
–Oddie, não...
–Ele não conseguirá sozinho, Dougie!

–O que está dizendo? É claro que ele vai. Eu o conheço a mais tempo.
–Não. Eu sinto algo de errado nisso. Josh tem forças. Rick está sozinho! Eu preciso de verdade ir falar com ele. Preciso vê-lo!
–Olha, não chore -ele afastou o meu rosto do seu ombro e o segurou -Se é isso que você quer... Eu vou tentar manter contato com Rick.
–Jura?
Ele secou duas lágrimas minhas, uma com cada polegar.
–Eu juro. Contanto que você...
Olhei curiosa para ele.
–Contanto que eu o que?
–Você precisa aprender alguns segredos para esconder os seus pensamentos de Josh. Ele fará de tudo para penetrar em sua mente e descobrir o que você pensa.
–Quando e como eu começo?
–Hã... Devemos tentar na outra semana, ou algo assim.
–Mas por que?
–Hoje você já está cansada demais. Foi mordida, e sua mente está confusa. Se você fosse treinar a sua mente ainda, ficaria praticamente esgotada. E não queremos isso, né?
Fiz que não com a cabeça.
–Podemos nos deitar, então? -pedi.
Ele ficou em silêncio por um momento. Sem esperar por uma resposta, eu me deitei no chão, na grama. Como Dougie ainda não havia se movido, eu dei três tapinhas na grama, ao meu lado, indicando para ele se deitar ali. Depois de uns segundos, ele resolveu se deitar mesmo. Ficamos uns segundos em silêncio observando o céu aberto, quando, de repente, o meu estômago resolveu roncar. Dougie me encarou.
–Está com muita fome? -indagou.
–Muita é apelido.
Podemos ir para dentro. Já deve ser quase hora do almoço.
Depois voltamos aqui?
–Se você quiser.
Nos levantamos, então. Mas eu não consegui andar. A minha perna estava doendo muito, e eu cairia no chão, se não estivesse ao lado de Dougie. Ele me pegou no colo e me carregou, então. Andamos muito, até que chegamos na sala de jantar, onde as refeições eram servidas.
Era simples, se comparada as outras do castelo. Haviam vários quadros nas paredes, com molduras simples, mas bonitas. No centro da sala, havia uma mesa. Nela haviam apenas seis lugares. Mesmo assim, era enorme. Os pratos, talheres e copos já estavam todos postos, e três dos lugares, já ocupados. As duas extremidades da mesa estavam vazias. Em um dos lados, estava sentada Tanya. A cadeira ao seu lado estava vazia, então supus que Dougie se sentaria lá. De frente para Tanya, estavam sentados Josh e Lottie.
Os três olharam diretamente para nós quaando sentiram a nossa presença. Sem dizer uma palavra, Dougie puxou a cadeira vazia de uma das extremidades com os pés, me colocou sentada e arrumou a cadeira em seu devido lugar. Após isso, se sentou.
Depois de uns segundos encarando o prato vazio, resolvi perguntar:
–Como as refeições são servidas?

–Você estrala os dedos e pede o que quer, em um dia normal -respondeu Lottie.
–Mas, num dia especial, tem que comer o que há -completou Josh.
Estamos num dis especial ou normal?
–Normal, claro -Tanya entoou.
–Eu realmente não sei o que pedir.
–Peça o seu prato preferido do planeta Terra: panqueca com recheio de frango -sugeriu Dougie.
–Como sabe que esse é o meu...
Eu interrompi a frase ao meio e abaixei a cabeça. É claro que foi Rick que falou isso para ele. Somente Rick sabia o meu prato preferido. Nesse momento, quase chorei, ali na mesa. Aquele lugar vazio... Ele pertencia a Rick, também. Senti Josh mover a sua mão na direção da minha, mas a afastei rapidamente. Fechei os olhos, com a cabeça abaixada ainda. Eu não queria falar nada. Pedi silenciosamente que as panquecas aparecessem na minha frente. Ouvi um suspiro vindo de Dougie e abri os olhos. Havia uma bandeja cheia delas na minha frente. Sorri levemente.
Em segundos, ataquei a comida.
Quase me engasguei, então ainda em silêncio, pedi que uma jarra de suco aparecesse, e apareceu, junto com um copo. Servi um gole e tomei. Estava uma delícia. Levantei a cabeça e percebi que Josh, Tanya e Lottie me olhavam com reprovação.
–O que foi? Fazem semanas que estou sem comer!
No mesmo momento, os três olharam para seus pratos. Pediram comida e bebida, e começaram a comer. Dougie fez o mesmo, porém, parecia que não estava com fome. Continuei atacando as panquecas e o suco, até que terminei a refeição. Agora, já estava mais que satisfeita. E com um tanto de sono, também. Esperei os outros terminarem para falar:
–Como a comida é feita? É por mágica ou alguém cozinha?
–Pelos dois modos, depende do dia.
Definitivamente, ficamos sem assunto.
Josh, Lottie e Tanya saíram dali, antes pedindo licença a mim. Sobrou apenas Dougie e eu ali, sentados.
–Quer ir para fora ou quer se deitar, Oddie?
–Ir me deitar lá fora.
Ele levantou as sombrancelhas.
–Tenho certeza que é isso que quero. Quero ficar o mais longe possível desse castelo. Se possível, gostaria de sair para fora desses portões.
–Isso não podemos fazer.
–Por que?
–Mesmo que eu adorasse levar você para fora dos portões, não tenho autorização. Sem hesitar, você iria atrás de Rick.
–Antes que eu desse um passo, você me alcançaria! -me inclinei para frente.
–Infelizmente, não. Você está ficando poderosa.
–A minha perna está doendo.

Ele me lançou um olhar de "cale-já-a-boca", se levantou da cadeira, me tirou da minha e me carregou para fora, novamente, até o jardim. Me deitou no chão e se deitou ao meu lado. Após um minuto de silêncio, começou a falar:
–Eu estou me roendo de vontade de levar você para fora do castelo, para Rick. Ele já está mais que louco para te ver. Mas, se eu fizesse isso, nós dois seríamos considerados verdadeiros traidores, e Josh náo descansaria até ter nossas cabeças servidas em pratos, para toda a população de Rabdash.
–Ele poderia ir atrás de nós, mas não nos encontraria tão cedo. Até que nos encontrasse...
–Não.
Eu o encarei.
–Por que não?
–Você é poderosa, mas ainda não tem um corpo realmente imortal. Josh deve estar sendo possuído por algo. O ódio dele está enorme, e ele mal consegue o controlar. Ele mataria até você, em segundos, caso fosse necessário. Eu não quero que isso aconteça, e acho que nem você. Temos que esperar. Vou tentar manter contato com Rick o mais rápido possível. Tenho certeza que ele vai saber o que fazer. Com certeza, não vai querer fazer nada perigoso.
–Quem sabe?
–Isso, quem sabe? Mas por enquanto, você vai ficar aqui, e eu vou ficar de olho em você.
–Oh, realmente fico aliviada. É melhor você do que Josh.
–Você acha?
–Sim. Mas nada nem ninguém substitui Rick.
Eu me aninhei mais para perto de Dougie. Ele passou os braços pelo meu tórax e me puxou para si. Eu estava com muito sono, agora. Acho que com Dougie ali, me protegendo, eu conseguiria dormir tranquilamente. Tranquilamente eu quero dizer... Fisicamente. Não sei se ele conseguiria controlar os pesadelos que frequentemente interrompiam o meu sono.
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–Dougie?
–Sim?
–Você me conta uma história?
–Sobre o que quer que eu fale?
–Não sei. Sobre algo daqui de Rabdash, algo muito... Antigo?
–Quer saber como foi minha ascenção ao ar?
–Seria maravilhoso saber disso.
Já se haviam passado 15 dias da minha ida forçada até o Castelo dos Elementos, ali. Mais de duas semanas sem ver Rick. Todas as noites, eu acordava gritando e suando. Sempre tinha pesadelos. Dougie sempre levava uma cadeira a noite e se sentava ao lado da minha cama, para me ver dormir. Quando eu acordava, sentia braços quentes me envolverem. Sabia que não era Dougie. O abraço dele era diferente. Ele criava imagens na minha mente, de Rick me acalmando, como ele sempre fazia. De manhã cedo, eu sempre acordava chorando.
Agora, como todas as manhãs, tardes e boa parte das noites, eu e ele estávamos no Jardim das Estações. Sempre ficávamos na primavera, pois ela era realmente muito agradável. Ontem mesmo Dougie havia dito que a primavera era muito agradável. Ontem mesmo Dougie havia dito que a primavera era a estação preferida dele, também. É claro que eu havia ficado feliz com isso.
–Vai ser uma história realmente grande, Oddie.
–Temos todo o tempo do mundo, se quisermos.
–Quer saber a história desde o início?
–Quero saber desde o início do início.
–Então.. Vamos lá.