A Guerra em outro Mundo.
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Eu estava cansada disso.
Três meses.
Pura angústia e sofrimento, fome e solidão.
Rick havia me escondido naquele lugar por três meses, mas não dava mais. Todos os dias, três vezes ao dia, ele descia até lá embaixo e me perguntava "Você vai vir para o nosso lado, sim ou não?" e eu sempre respondia "Não!" . Rick me torturava mentalmente um pouco, e depois saía da sala.
Hoje eu estava disposta a fugir, mas Rick não dava trégua. Uma hora eu estava com muito sono e decidi dormir, mesmo sentada. Mal fechei os olhos, uma cena apareceu na minha mente. Quase tudo na paisagem era branco.
–Oh, que bom! Finalmente consegui me conectar com você!
–Josh? -perguntei.
–Como você está? -me perguntou ele.
–Como espera que eu estaria?
–Por favor, Oddie, me diga onde você está. Apenas me diga onde, e eu vou te buscar -Josh.
–Depois de três meses resolve fazer algo? Não, obrigada, não preciso de ajuda nenhuma sua -retorqui.
–Mas....
–ME DEIXE EM PAZ! -gritei, me libertando do sonho.
Abri os olhos. Estava de volta a sala secreta, e Rick estava entrando no cômodo. Ele puxou uma cadeira e se sentou na minha frente, me encarando por uns segundos. Eu o encarei de volta. Até que ele resolveu falar:
–Sabe, acho que você nunca vai me dizer sim.
–Por que não? -perguntei docemente.
–Quer dizer que você... -Rick estava quase perplexo.
–Vou fazer o que quiser, mas preciso me libertar dessas amarras, não? -disse, com uma dose de charme.
Rick pareceu considerar a minha proposta. Soltou as cordas que prendiam o meu corpo e me ajudou a levantar. Com as forças que restavam, eu o empurrei lentamente na direção da parede. Ele se surpreendeu com isso, mas não me parou tão cedo. Apenas quando eu o encostei na parede foi que ele segurou as minhas mãos. Olhou para mim com um brilho estranho nos olhos e disse:
–O que pensa que está fazendo?
–Só...queria perguntar uma coisa.
–O que quer? -ele segurou as minhas duas mãos com uma e com a outra acariciou o meu cabelo.
–Por que...por que nunca perguntou antes se eu queria te ajudar? Por que teve que ser assim?
–Oddie...
–Não, apenas me responda isso -pedi calmamente, libertando uma das minhas mãos e acariciando a nuca dele.
Ele fechou os olhos com o toque. Eu, lentamente fiquei na ponta dos pés. Fechei os olhos novamente e me preparei. Eu o beijei firmemente. Ele me segurava como se eu fosse o item que salvaria a sua vida, e eu, o agarrava como se fosse algo importante. Eu estava com muita pena dele. Preparei o meu domínio sobre os elementos e tentei pensar em algo que pudesse me ajudar a deter Rick. Senti um formigamento nas minhas mãos, e em segundos, ele parou o beijo.
–O que...? -perguntou ele.
Mas ele não pôde fazer nada. Ele estava para agir, quando eu o dominei. Ele havia ficado duro como uma estátua, e parado os seus movimentos. Como ele estava quase derretendo tudo, eu abri rapidamente a porta do cômodo e a tranquei pelo lado de fora, levando embora a chave. Dentro da casa, procurei alguns móveis pesados que pudessem ajudar a deter Rick, e suando, os carreguei até a porta, barrando-a. Saí correndo da casa e pela primeira vez em muito tempo, respirei o ar puro.
O sol quase me cegou. Coloquei as mãos na frente dos olhos, e pedi para que eu conseguisse me adaptar logo a esse clima, mas muita coisa não foi precisa, pois logo uma nuvem cobriu o sol e eu pude andar livremente. Tentei achar algum caminho, mas não me lembrava de nada. Tentei imediatamente achar Tanya, Lottie, Dougie, ou até mesmo Josh, mas parecia impossível. Nessa hora, eu desejei que um deles, qualquer um aparecesse ali, no meu lado, agora. Fechei os olhos e pedi com intensidade. Quando os abri, Tanya e Josh estavam ali. Eu não sabia se ficava feliz ou se chorava.
–Ah, pelos Céus, você está de volta! -Tanya veio correndo me abraçar. Eu retribuí o abraço.
Quando ela me soltou, dei uma olhada para Josh. Ele apenas acenou a cabeça para mim, mas passados uns segundos, a curiosidade tomou conta dele.
–Como escapou de Rick? -perguntou.
–Apenas o destraí, o congelei, digamos, e fugi de lá. Por que? -respondi rudemente.
–Ele deve estar furioso -observou Tanya -Vamos logo dar o fora daqui, antes que ele resolva aparecer. E uh Oddie, você precisa de um banho!
Josh riu pelo nariz e eu lancei um ollhar mortal para ele. Ele se calou, e então Tanya nos fez dar as mãos. Sumimos dali e aparecemos na frente do castelo dos elementos. Dessa vez, não havia Rick nem escorpiões. Dougie e Lottie estavam lá, nos esperando. Eles iam nos cumprimentar, mas Tanya disse que era para deixarem as regalias para depois, e nos mandou preparar cada um um elemento. Como Rick não estava ali, representei o fogo por ele. Juntamos os cinco elementos, e o portão se abriu, revelando o mais belo castelo já visto. Eu passei pelo portão, mas os outros foram impedidos de entrar por uma barreira invisível.
–Droga de barreira -resmungou Lottie.
–Vai ter que nos autorizar a entrar, Oddie, nos chamando nome por nome -disse Dougie.
Respirei fundo, e comecei.
–Tanya, eu permito a sua entrada. Lottie, eu permito a sua entrada. Dougie, eu permito a sua entrada. Josh... -pensei um minuto — eu...permito a sua entrada -completei.
Agora estávamos entrando pelas enormes portas de carvalho. Todos suspiraram o ar do castelo, mas eu permaneci quieta. Me perguntaram o que eu queria fazer, eu disse que um banho seria a melhor opção. Em segundos, me levaram a uma banheira cheia de água morna e todos os tipos de espumas. Eu me esfreguei durante alguns minutos, depois fiquei apenas boiando. A espuma estava quase acabando quando eu saí da banheira. Duas escravas trouxeram uma toalha e me secaram. Depois, trouxeram roupas íntimas, e um vestido, como aqueles usados na grécia antiga. Eu o vesti. Elas arrumaram o meu cabelo em uma trança e me perfumaram. Pronto. Uma Oddie novinha em folha.
Segui para fora, onde Tanya e os outros estavam me esperando. Todos ficaram quietos um minuto quando eu entrei. Dougie foi o primeiro a me abraçar e me dar o apoio que eu deveria ter ganhado nesses três meses, depois Lottie, aí Tanya. Eles saíram dali, disseram que iam realizar suas funções no castelo. Me deixaram ali, com Josh.
–Por que está tão distante hoje? -perguntou ele.
–Você sabe porque. Eu estive sozinha nos últimos três meses, e antes de ser presa em cativeiro, fiquei sabendo de uma coisa. Nada boa -falei, com voz superior.
–O que? -Josh.
–Por que nunca me disse que nunca mais voltarei para o planeta Terra, Josh?
Ele ficou uns momentos quieto e sem se mexer, depois tomou um gole de ar e ia responder, mas eu o cortei.
–Você vai me dizer que não falou por que queria me proteger, ou que eu iria me assustar muito ao ouvir, é isso? -falei.
Ele abaixou a cabeça.
–Era isso, não era? -insisti.
–Foi isso sim -disse ele, finalmente.
–Por que? -perguntei, bem lentamente.
–Não sei por que -confessou Josh — e não pense que eu não tentei te ajudar. Esses três meses foram agoniantes. Todos os dias, mal conseguíamos dormir....
Eu o interrompi e avancei na sua direção, o abraçando fortemente. Ele retribuiu o abraço e ficamos assim por longos minutos, até que eu o deixei ali e fui conhecer o castelo, sozinha.
Um escravo havia me acompanhado. Ele me mostrou as entradas e saídas secretas do castelo, os vários cômodos, as salas de comando, e o mais belo: a sala dos elementos. Somente o dono do castelo (nesse caso, eu) podia entrar nele. Em cima de cinco mini pilastras dispostas em corma de círculo, estavam os elementos originais. O fogo original, a água original, o ar original, a terra original e a neve original. No centro do círculo, havia uma espécie de mistura de todos os elementos. Um sexto elemento. Eu andei até o meio do círculo e notei que havia uma inscrição na pedra, mas eu não conseguia ler nada. A toquei, e em segundos a pedra se iluminou. Pude ler: Télecs, o sexto e mais precioso elemento criado, juntando os cinco principais elementos de Rabdash.* Eu estava prestes a tocar o elemento quando um vento soprou meus cabelos e a minha mão para longe e uma voz sussurrou "Não está na hora, Oddette".
–Quem está aí? -perguntei, mas a voz e o vento tinham ido embora.
Saí da sala, um pouco atordoada, e vi o escravo a minha espera. Pedi que ele me mostrasse os jardins, e ele o fez. Havia uma bela piscina natural. Eu cheguei mais perto e percebi o erro. A água estava verde demais, forte demais. Aahnhn, o que Josh havia me dito? Rick estava tentando "contaminar" os outros guardiões. O que será que aconteceu com Lottie?
–Vá procurar Josh e diga que Lottie está Intoxicada. Diga que Rick conseguiu!- gritei para ele, enquanto saía correndo a procura de Lottie.
Entrei no castelo e corri no máximo de velocidade que pude. Esbarrei em mais escravos enquanto subia as escadas. Pedi desculpas e corri mais. Lottie estava numa ária sem proteção, erguendo as mãos para o céu e proferindo palavras sujas. Eu corri até ela e gritei:
–LOTTIE! O QUE ESTÁ FAZENDO?
–Psiu! Não a atrapalhe! -ralhou uma voz. Um escravo. Eu fiz uma cara estranha.
–Como ousa falar assim comigo? Quem é você?
–Deixa eu ver... Acho que não entendeu o que eu disse... -disse o escravo, dando dois passos para a frente. Eu dei dois para trás.
Em um piscar de olhos, o escravo se transformou em Rick. Não, era Rick o tempo todo disfarçado de escravo. Ele vinha andando na minha direção, e eu ia na direção contrária, para perto da varanda.
–Não faça isso -Rick ficou duro.
–Isso o que? -eu estava com ar de vitória.
–Ela está criando um lago para facilitar a entrada de meus guerreiros na batalha. Não a atrapalhe.
–Tarde demais -falei, tocando o ombro de Lottie.
Ela estremeceu com o toque e se virou para me encarar. Seus olhos estavam cor de prata, sem nada. Ela agarrou o meu ombro e lentamente me puxou para a beirada da varanda. Ótimo, eu ia escapar de Rick e morrer afogada. Rick tentava impedir Lottie, mas ela o jogou para longe sem o tocar. Ele havia desmaiado, quase. Eu estava a dois segundos da queda, quando ouvi um grito.
–LOTTIE, NÃO!
Mas era tarde demais. Lottie já havia me soltado. Eu estava caindo depressa demais, e ao mesmo tempo, lentamente. Podia ouvir os gritos lá de cima. Eu ia cair na água e não sabia nadar. Implorei a Deus que me ajudasse a sair inteira dali, e senti o ar sendo sugado de mim antes que eu caísse na água. Mas eu não caí. Eu havia desaparecido dali e aparecido em outro lugar.
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