A Guerra em outro Mundo.
12 Capítulo 12
Fiquei perambulando pelas sombras do jardim, na Primavera. Após um momento, passei pelo Verão. Depois, decidi passar pelo Outono. Olhei temerosa para o Inverno. Algo me puxou para lá, e sem tentar resistir, me deixei levar. Estava fazendo muito frio. Tremi sem parar e tentei sair dali, mas uma força invisível me impediu.
–O que você faz desacompanhada aqui, a uma hora dessas, pequena Oddie? – perguntou Josh, aparecendo de relance entre as escuras árvores do Inverno.
–Estou andando, apenas – respondi friamente – Afinal, esse castelo praticamente é meu. Isso também é proibido, agora?
–Não. Apenas é estranho. Onde está Dougie?
–Não faço a mínima ideia de onde ele esteja.
–Por que está ofegante? – ele se aproximou.
–Não estou ofegante – falei rapidamente.
–Por que está se afastando?
–Não estou m...
Parei de falar, pois as minhas costas bateram com força em uma árvore dali. Bati tão forte, que interrompi o que falava com um gemido um tanto alto demais. Em menos de uma piscada de olhos minha, Josh já estava me prendendo entre si e a árvore. Ele se manteve perto do meu corpo, e deixou seu olhar fixo no meu. Não desviei o olhar, desta vez, mas resisti a tentação de beijá-lo, agora. Eu poderia estar com raiva ou medo dele, mas bastava um olhar que eu me derretia. Felizmente, agora eu não queria beijá-lo. Céus, o que Rick havia feito comigo? Senti Josh enviar ordens para mim, mas era como se elas não atravessassem as minhas barreiras.
–Se você quer isso, vai ter que me conquistar não me obrigar, Josh.
–Não estou lhe obrigando.
–Está sim, e eu não gosto disso.
Ele me avaliou um pouco. Depois, falou:
–O que Dougie fez com você esta noite? O que será que vocês fizeram trancados naquelas quatro paredes, e ainda por cima, logo ali na Primavera?
–Ficou nos observando? Deve saber o que estávamos fazendo, então.
–Quero ouvir isso vindo de você.
Então ele queria jogar? Eu sabia jogar. Enquanto mexia na sua jaqueta (o que eu achava inútil para Josh usar) e na gola de sua blusa, fui falando:
–Fizemos lá dentro praticamente tudo que fizemos aqui fora – dei de ombros – Você sabe. Quase chegamos a quebrar a cama, lá dentro. Deve ser triste para você saber que prefiro Dougie.
–Você não gosta de Rick?
–Claro. Mas antes Dougie do que você.
–Prefere Dougie mesmo? Por que está cedendo ao meu charme, então?
–Você não tem charme. Apenas é persuasivo.
Rapidamente, ele me puxou para um beijo. Não foi um dos melhores que ganhei dele, mas foi bom. Não foi duradouro, pois eu consegui me afastar alguns segundos. Por sorte, não?
–E você, é mentirosa – disse Josh.
–Como?
–Você não resiste. Não oferece resistência! Você quer isso, não importa de quem venha. É um de seus desejos mais obscuros.
Ele me encarou. Senti que ele estava fazendo um Raio X da minha memória. Epa! Dos meus pensamentos também. E tenho certeza de que Rick ainda estava lá no fundo. Droga! Não tentei afastar Josh. Ele saberia o que estava acontecendo.
Como eu ia me livrar dessa?
Fechei os olhos. Desejei não estar ali. Senti uma força deixando cada parte do meu corpo e indo se concentrar na minha cabeça. Houve um forte estralo dentro de mim e senti tudo clarear, por um momento.
Abri os olhos.
Josh havia sumido dali. Não enxerguei nada, a não ser neve. Fui forçada a fechar os olhos novamente. Caí no chão, de joelhos. Eu não sei o que havia feito, mas a minha cabeça estava explodindo de tanta dor. Gritei o mais alto que pude para que viessem me salvar, mas ninguém veio. Caí deitada no chão e comecei a me debater.
Na medida dos meus movimentos, comecei a afundar na neve. Neve ia se depositando acima do meu corpo e me fazendo quase parar de respirar. Não conseguia me levantar dali, por mais que tentasse. Estava ficando sem ar nos pulmões. Apavorei-me mais.
Estava quase fechando os olhos e me entregando para a morte quando senti uma força estranha no meu corpo. Ouvi uma voz falando dentro da minha cabeça. Não sabia se conseguia reconhecê-la.
‘’Levante-se’’ disse a voz.
‘’Não consigo’’ respondi, derrotada.
‘’Consegue sim. Vamos, se esforce’’.
Em alguns segundos, algo moveu o meu braço esquerdo para cima. Depois, o braço direito. Após isso, as pernas. Eu não estava controlando o meu corpo. Essa força impulsionou todo o meu corpo para cima. Cuspi toda a neve que estava na minha boca e fiquei de joelhos, apoiada no chão com as mãos.
Alguém me salvou da neve!
Me levantei do chão e comecei a andar para fora do Inverno. Quando cheguei na Primavera, um corpo foi atirado ao chão, perto de mim. Não consegui explicar como, mas acho que esse corpo saiu de dentro de mim.
Ah não.
Ah não...
–O que fez comigo? – berrei para Josh.
–Salvei você daquilo, oras! – gritou ele de volta, ainda no chão.
–Você fez aquilo!
–Claro que não.
–Você está louco? Você estava lá naquele momento. Depois...você sumiu.
–Eu não estava lá – ele se levantou e limpou a sujeira das roupas, de cara feia – Eu a salvei.
–Certo. Como? – eu ri.
–Eu a possuí.
–O QUE?
–Você é surda, Oddie? Eu possuí você.
–Como pôde fazer isso?
–Eu só...
–PREFIRO MORRER A SER POSSUÍDA POR VOCÊ!
Falando isso, eu saí correndo de perto dele. Em segundos, estava fora do jardim. Por sorte, Josh não me seguiu. Agora já estava amanhecendo. Uma forma um tanto escura estava passando pelas portas do castelo. Era Dougie. Eu o alcancei rapidamente. Me joguei nos seus braços, chorando.
–O que houve? – perguntou ele me apertando contra si – Por que você está tão fria?
–Foi Josh – solucei – Ele. Ele me...Me...
–Ele possuiu você? – ele segurou meu rosto levemente enquanto falava.
Tremendo, fiz que sim com a cabeça. Dougie não perguntou nada a mais para mim, apenas me abraçou mais forte ainda. Era bom ter alguém ali que me entendesse, que ficasse quieto quando eu não queria falar mais, e que simplesmente me abraçasse. Nessa hora, uma pequena parte de mim riu, imaginando se ele poderia me proteger dos perigos do castelo.
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–Oddie, por que está tão quieta? – perguntou Tanya.
Estávamos eu, ela e Dougie sentados numa espécie de sofá, em uma sala ampla do Castelo. Eu ainda estava presa a Dougie em um canto do sofá e Tanya estava na outra extremidade. Eu estava tremendo de frio ainda, e muito quieta. Ainda estava em choque por causa da possessão de antes.
–É culpa de Josh, Tanya – disse Dougie, calmamente.
–O que ele fez?
–P...possuiu – balbuciei – Ele me...me...
–O que? É impossível, é contra as regras do castelo!
–Ele fez – disse Dougie.
–Qual foi o motivo?
–Oddie não quer falar sobre isso – Dougie deu um tapinha de leve nas minhas costas – Não agora.
–Eu quero – falei.
–O que? Vai...contar?
–Não. Eu quero vê-lo.
–Josh? – Tanya pareceu confusa.
–Não. Rick. Eu o quero.
A tensão ficou grande. Dougie e Tanya se entreolharam rapidamente e claramente ficaram desconfortáveis. Eu sequei meus olhos, me levantei do sofá e fiquei de frente para eles, de pé.
–Qual é o problema com isso? Vocês não fazem ideia do que eu estou passando.
Dougie me lançou um olhar de incompreensão e Tanya expressou pena em seus olhos.
–Estamos passando por uma situação difícil no momento, Oddie – disse ela – Fazer Rick entrar aqui seria suicídio.
–Não falei de eu entrar aqui, falei de eu sair para vê-lo.
–Outro caso de loucura.
–Vocês vão aceitar a imposição de Josh assim, de mãos abertas? Ele não manda em nada, aqui. Esse castelo aqui e o reino não deveriam ser meus?
–Sim, mas apenas após a sua ascensão.
–E QUANDO ESSA DROGA DE ASCENSÃO VAI ACONTECER?
Derrotada, caí no chão exatamente onde estava. Comecei a socar o chão com os pés e com as mãos, chorando. Poderia parecer muito infantil essa atitude, mas eu o fiz. Pacientemente, Dougie me puxou pelos braços, para deitar de volta no sofá. Mas antes, ele se levantou e deitou a minha cabeça no seu colo. Ficou acariciando meus cabelos e secou as lágrimas que iam caindo, agora em menor quantidade. Tanya o ajudou a me acalmar, cantando uma canção de ninar. Achei isso estranho, mas nada comentei. Ela me parecia familiar.
–Oddie? – disse Tanya, me trazendo para a realidade.
–Sim?
–Eu gostaria de compartilhar uma imagem, uma lembrança minha com você.
–Sobre o que? – me sentei no sofá, lentamente.
–Sobre o seu passado. No tempo em que sei pai era vivo.
–Somente nós duas vamos?
–Dessa vez, Dougie poderá vir junto.
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Havíamos dado as mãos e desaparecido dali fisicamente. Quando aparecemos na lembrança, um grande raio de sol iluminou o meu rosto. Soltei a mão de Tanya, mas continuei segurando a de Dougie, levemente. A grama do lugar era verde e bem cuidada.
–Em que época de Rabdash estamos? – perguntei.
–Algum tempo após o seu nascimento. É por isso que a grama está verde – Dougie sorriu.
–Onde estávamos?
–Logo ali, após a árvore.
Enquanto caminhávamos, Tanya me explicava que não poderíamos nem falar nem tocar neles, pois era apenas uma lembrança. Tentei me conter quando chegamos lá, mas foi impossível ficar quieta.
Estavam todos lá. Todos, menos meu pai nesse momento. Eu podia ver Rick, mais jovem e mais feliz, Dougie e Lottie, ambos calmos e Josh, um tanto impaciente. Tanya estava de costas para eles, segurando uma criança no colo. Me aproximando mais, pude ver eu a criança era muito parecida com o meu Eu atual. Uma menina pequena, de olhos e cabelos castanhos e pele um tanto pálida.
Soltei a mão de Dougie por um momento e deixei ele e Tanya para trás, enquanto chegava mais perto para avaliar melhor os corpos que ali estavam. Cheguei a tempo de ver o Eu passado de Rick chegar próximo do bebê e encará-lo, docemente. Nesse momento, meu coração bateu mais forte. O que ele ia fazer?
–Posso? – perguntou ele.
–Não. Não tocarás nela por um bom tempo.
–Você não pode impedir o que o futuro guarda Tanya – rosnou Rick, acariciando o rostinho da bebê.
–O futuro talvez não, mas sim o presente. Não toque nela.
–Ora, Tanya, não seja tão dura com ele. Rick só está sendo gentil.
Nesse momento, Josh tentou disfarçar uma risada, mas o homem que ali chegou lhe lançou um olhar mortal. Com satisfação, vi Josh abaixar a cabeça e se calar. Espere. Eu conhecia esse homem de algum lugar. A sua voz e aparência eram conhecidas. Cuidadosamente, ele pegou o meu Eu bebê do colo de Tanya e o segurou contra si. Depois, o ergueu um tanto. E disse:
–Houve um tempo, no início da criação de Rabdash, em que havia apenas deuses e deusas habitando o planeta. Um deles, era uma das mais importantes. Odítia, a deusa dos raios e das tempestades. Você vai ganhar seu nome em homenagem à ela. Odette, princesa de Rabdash, futura rainha após a sua ascensão.
Imediatamente após ouvirem isso, Josh, Rick e Dougie levantaram a cabeça e encararam o bebê, fixamente. Lottie também olhou, mas não com tanto brilho nos olhos. Tanya fez o mesmo. Estranhei esse comportamento de todos. Meu pai segurou o bebê contra si mais um momento, e após isso, se afastou com ele. Eu olhei para Tanya atual e percebi que ela estava sozinha.
–Onde está Dougie? – perguntei.
–Voltou para o mundo real. A partir desse momento, eu gostaria que você visse a lembrança sozinha, para entender.
–O que? – perguntei, mas Tanya havia sumido. Prestei atenção no que acontecia, agora.
Os Eus passados de Lottie e Tanya haviam saído atrás do bebê e do rei de lá. Pensei na hipótese de seguir eles, mas decidi que não o faria. Fiquei ali, de pé, ouvindo a discussão que se criava entre Josh e Rick. De vez em quando, Dougie opinava.
–Então já está armando táticas para seduzir Oddie, mesmo ela sendo uma recém-nascida? – indagou Josh.
–Estou apenas me prevenindo. Ao contrário de você, que prefere trapacear para vencer.
–Eu não faço isso.
–Ah, faz sim. Desde sempre. Desde a sua ascensão. Você é sacana, não é? Não é essa a função da neve, enganar?
–Acha mesmo que ela ficará com você? – perguntou Dougie. Os dois que estavam discutindo o encararam.
–Como assim?
–Quer dizer... Tudo sempre acaba em frio ou calor. Nunca se pode saber como vai acabar. O tempo gosta de pregar peças em todos.
–Você está encarnando o espírito de Angel? – riu Josh.
–Talvez, sim.
–Angel é uma traiçoeira. Não devem se misturar com ela – Rick cuspiu no chão.
Eu me perguntei quem seria Angel, agora.
–Você fala isso para se fazer de santo na frente de lorde Turunen. Você sabe que ele não aprova acordos com ela.
–E daí se ele não aprova? Eu não odeio Angel por causa dele.
Rick e Josh estavam quase se estapeando, mas o meu Eu passado havia voltado para fora, engatinhando. Estava indo na direção de Dougie. Não havia prestado atenção nem em Rick nem em Josh. Ambos estavam surpresos por isso. Dougie pegou o bebê no seu colo e ficou brincando com ele. O bebê estava dando tapinhas de leve no seu rosto. Após um momento, o bebê esticou os braços na direção de Rick. Esse, lentamente avançou na sua direção e a pegou no colo. A segurou firmemente, para que ela não caísse. Ela passou as suas mãos minúsculas pelo rosto dele. Ele fechou os olhos em resposta.
–Ottie – disse a bebê, quando viu Josh se aproximar.
Rick se admirou.
–Como?
–Ottie. Osh nã. Onde Ottie?
Rick e Dougie se entreolharam.
–O que ela quer? – indagou Josh.
–Acho que ela não quer você, Josh – disse Dougie, se divertindo – Ela quer...
–OTTIE! – gritou feliz a bebê, quando viu Lottie chegar.
–Ela falou meu nome? – disse Lottie, animada.
–Não se admire, ela disse o meu antes – mentiu Rick, rindo.
Era bom estar ali, com todos eles no passado. Todos estavam com caras felizes, exceto talvez Josh, pela rejeição que acabara de acontecer. Tudo estava bem, até que uma nuvem de chuva começou a avançar lentamente. Todos os guardiões ficaram apreensivos. Logo, Tanya e lorde Turunen voltaram até ali. Não entendi o motivo de tamanha preocupação, era apenas uma nuvem de chuva normal.
–Ele está se aproximando – disse papai.
–Mas não seria cedo demais para a vinda dele? – perguntou Lottie.
–Angel disse que ele viria logo – disse Dougie.
–Angel está ajudando ele a vir – cuspiu Rick.
–O que é uma grande mentira.
–Como assim, Josh?
–É contra as leis do planeja ajudá-lo a retornar.
–Não é somente uma lei que proíbe Angel de fazer algo.
–E...
–Parem de discutir, vocês dois – ordenou lorde Turunen à Rick e Josh, que se calaram.
–O que ele pode fazer, se chegar mais cedo? – perguntou Lottie.
–Uma destruição. Maior do que tudo já visto.
–O que faremos? Odette é apenas um bebê – disse Dougie.
Todos olharam para o meu Eu passado, que ainda estava no colo de Lottie. Mesmo sendo um bebê, eu já pressentira o perigo.
Antes que meu pai pudesse responder, eu, Odette atual, voltei para o presente em Rabdash. Após esse final mal explicado para a lembrança, imaginei que eu mesmo teria de achar uma resposta para a pergunta que Dougie fizera.
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