Notas iniciais
–... Natsu Dragneel...
Em choque. Era assim que quem entrasse na casa de chá definiria a gueixa loira que havia se sentado ao lado do rapaz na cabeceira da mesa. Os olhos castanhos arregalados denunciavam seu assombro, a boca pintada de vermelho formava um perfeito “o”.
O rapaz, por sua vez, a encarava de volta. Seus orbes escuros esquadrinhavam o rosto coberto por pó da moça, analisando sua expressão assustada. Ela lhe era estranhamente familiar...
A garota foi tirada de seus devaneios quando sentiu seu braço ser cutucado de leve. Engoliu em seco e desviou os olhos da figura imponente do príncipe, encarando a pequena Levy à seu lado, que lhe lançava um “O que é isso?” silenciosamente.
Sorridente, voltou sua atenção aos outros homens, que mal pareceram perceber seu desconforto.
–Sou Lucy... Será um prazer entretê-los esta noite. Levy poderia, por favor, me ajudar com as bebidas?
Sem esperar pela resposta, Lucy se levantou e caminhou rapidamente até a sala ao lado. Apoiou as costas contra a madeira fria da porta, tentando controlar sua respiração. Logo Levy a alcançou, parando defronte a amiga, colocando as mãos na cintura.
–O que foi aquilo? Estava encarando o herdeiro como se vislumbrasse um Oni*!
–Lembra que eu lhe disse sobre um garotinho...? Aquele a quem Mira-nee me apresentou uma noite antes de irmos para Hargeon?
A baixinha arregalou os olhos.
–Lucy! Não me diga que está apaixonada pelo príncipe?
A loira bufou.
–Não estou apaixonada por ele, Levy-chan... – ela reclamou, virando o corpo e começando a preparar o chá.
Jogou alguns paus de canela na mistura que borbulhava, enquanto observava Levy empilhar os utensílios sobre uma bandeja, resmungando...
–Pode enganar a você mesma. Lu-chan... Mas não a mim. Aquele rapaz simplesmente é o motivo de você chegar onde está.
–Levy-chan... Mesmo que eu admitisse amá-lo, o que não estou fazendo, não poderia acontecer nada mesmo... Sou uma Gueixa e ele é o príncipe...
O peso daquelas palavras a atingiu, que finalmente percebeu que não poderia ficar com o rapaz. Além do mais, ele não era mais aquele garotinho risonho que lhe dera o belo colar de dragão, que por acaso estava usando naquele momento...
Não. Ele crescera naqueles dez anos e se tornara um homem imponente, o herdeiro do trono...
Ela também crescera, se tornara uma Maiko e, em breve, uma Gueixa.
Lucy Heartfilia e Natsu Dragneel não haviam nascido para ficarem juntos.
E essa realidade feria Lucy de tal forma que sentia atingir os ossos...
Suspirou, colocando o chá no bule e o empilhou sobre a bandeja de Levy, contando com o ótimo equilíbrio dela. A loira, ao contrário da amiga, não era lá um exemplo de coordenação motora.
Enquanto a Mcgarden saia da sala, Lucy selecionou uma garrafa do melhor sakê, enquanto tomava coragem para seguir a amiga...
“Mas que droga, Lucy! Deixe de ser ridícula e enfrente isso! Ele nem se lembra de você!”
Respirando fundo, colocou um sorrisinho nos lábios e saiu, caminhando em direção à mesa.
Juvia distribuiu os copos entre os homens calmamente, enquanto disfarçava o desconforto por ter de aturar a carranca e a falta de vontade de iniciar um diálogo de um dos homens da guarda, o moreno brutamonte, Gajeel Redfox.
Detalhe: Aquele rapaz simplesmente odiava Gueixas...
–E então, senhores... Imagino que fazer parte da guarda real seja realmente perigoso... — a baixinha começou, depositando uma quantidade generosa de sakê no copo do terceiro homem, que já se encontrava levemente embriagado...
–Não é tão terrível... –o Redfox resmungou, entornando o copo. –Só temos que manter esse idiota longe de encrencas, enquanto gozamos da boa vontade do imperador, desfrutando do bom e do melhor...
–Ah, e comendo alguma Oirã depois do expediente... –o bêbado, Gray Fullbuster, deu um sorriso malicioso à Juvia, que desviou os olhos e corou. –Claro que qualquer putinha que quiser uma foda descente serve e, como bônus, muitas vezes nem precisamos pagá-las... Alguma voluntária aqui?
Lucy encarou-o, embasbacada, o que não passou despercebido por Natsu.
–Francamente... – a loira resmungou, recebendo o olhar do rapaz em retribuição.
–Disse alguma coisa, meu bem?
A Heartfilia o encarou em desafio por alguns segundos. Ela simplesmente abominava homens como aquele rapaz, que viam as mulheres como objeto de prazer carnal e nada mais...
“Ah, meu caro bushi*, existem muitas coisas que eu gostaria de dizer...”.
Infelizmente a fama de sua irmã estava em jogo ali.
–Perguntei se gostaria de mais um copo de sakê...
***
A noite passou até bem rápido. Logo Lucy foi convidada a fazer uma pequena apresentação no palco da casa de chá. Meio encabulada, ela se levantou do lado de Natsu e caminhou até o lugar, sendo seguida por Juvia, que tocaria como acompanhamento.
A loira logo começou, fechando os olhos. A voz doce e calma reverberava pelas paredes do lugar, chamando a atenção. O timbre fino de delicado, porém potente e firme encantava a todos que estavam no local, que pararam todas as atividades apenas para ouvi-la...
“- Para onde corre o rio?
E as pessoas também... Para onde vão?
Quando este caminho estiver chegando ao seu destino...
Desejo que se realize... Desejo que se realize...
Como num desabrochar da flor... "
Natsu encarava a figura da jovem Maiko com fascínio, os lábios vermelhos moviam-se tão delicadamente, o japonês arrastado do interior dava um charme a mais à bela canção...
"– Chore...
Sorria...
Um dia... Um dia com certeza...
A felicidade vai desabrochar como uma flor..."
Juvia fez um fundo leve com a voz, começando o acompanhamento com a harpa, baixinho. Sua voz era um pouco mais grave do que a da amiga, porém, igualmente suave. Os olhos azuis mantinham-se extremamente atentos aos movimentos firmes e delicados nas cordas do instrumento, não percebendo a atenção de certo rapaz, que a encarava enfeitiçado...
"– Para onde correm as lágrimas?
E o amor também... Para onde vai?
E em breve essa vida... Quero recebê-la...
Como uma flor."
Ambas formavam uma dupla perfeita. Levy as encarava sem piscar, sorrindo, praticamente esquecendo-se dos homens sentados com ela. Quanto ao homem rabugento que antes a encarava com certa irritação, agora se divertia com a alegria quase infantil da pequena...
"–Chore...
Sorria...
Um dia... Um dia com certeza...
A felicidade vai desabrochar como uma flor...
As flores podem sorrir com o que elas são...
Assim como as pessoas choram o que são...
Esta é a canção da natureza...
Dentro do coração... Dentro de nossos corações...
Vamos fazer desabrochar a flor."
Os olhos castanhos de Lucy passavam de pessoa por pessoa no pequeno espaço da casa de chá. Por fim, pousaram no rapaz de cabelos rosados e ali ficaram. Os orbes escuros se encontraram com os delas, mantendo o contato por todo o resto da canção...
Por todo o resto da música, nada existia.. Apenas aquele contato mágico...
"– Chore...
Sorria...
Para sempre... Para todo sempre...
Vamos agarrar a felicidade!
Chore...
Sorria...
Para sempre... Para todo sempre...
Vamos agarrar a felicidade...
Chore...
Sorria..."
Nada mais existia... E Lucy viu seu garotinho naqueles olhos...
– “Para sempre... Para todo sempre...
Vamos agarrar a felicidade... "
Ao fim, todos se levantaram para aplaudi-las. Sorridentes, ambas voltaram à seus lugares, assustando-se ao depararem-se com Mirajane acomodada entre Natsu e Gray.
–Boa noite... – a albina desejou, se levantando- Um pouco da atenção de vocês... Estou aqui para anunciar que os mizuages de algumas de nossas Maikos estarão em leilão a partir de amanhã...
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