Notas iniciais
Ultear, a jovem desconhecida da carruagem, adentrou as portas da Oki-ya arrastando a menina pelo braço. Essa ainda portava cílios molhados pelas lágrimas de sofrimento, derramadas ao descobrir que sua tão amada mãe fora morta. E pelas mãos do homem que um dia chamara de pai.
A arroxeada segurou o pulso da criança ainda mais apertado, parando de supetão.
–Agora, Amaya... Pare de chorar! Irei apresentá-la para a Okaa-san desta Oki-ya... Não diga nada, apenas obedeça-a e eu irei responder as perguntas por você. Estamos entendidas?
–S-sim...
Amaya esfregou os olhos levemente, secando os resquícios de água de seu rosto. Ultear a fitou e não conteve um impulso momentâneo, abraçando-a fortemente.
–Escute... Sei como se sente. Minha mãe morreu à quatro anos, deixando-me juntamente com meus dois irmãos. Cada um seguiu seu caminho sozinho. Lyon, o do meio, tornou-se um grande Daimiô*, enriquecendo rapidamente. Gray, o mais novo, está estudando em Hargeon à mando do próprio Imperador Igneel. E eu me tornei uma Gueixa e estou feliz...
–M-mas... Gueixas não são aquelas moças que vendem seus corpos em troca de dinheiro?- a loirinha perguntou inocentemente.
Ultear fez uma careta de descontentamento.
–Não. Sabe o que significa “Gueixa”, Amaya? -recebeu um aceno negativo- Significa “artista”. Nós vendemos nossas habilidades na dança, música... Nada mais que isso. Não somos Oirãs*, ou Kagemas*, muito menos esposas. Nenhuma Gueixa deve dar à seu cliente mais do que o prazer de sua companhia... A mulher que vive sob proteção de uma Oki-ya, se o fizer, não honra o kimono que veste. Entendeu?
–Sim...
–Ótimo. Agora vamos.
Após soltar a menina, a arroxeada levantou-se e sorriu. Amaya corou e lhe dirigiu um gesto parecido, mas muito envergonhado. Ultear voltou a pegar em seu braço mais gentilmente, levando-a para dentro da casa. Andou por alguns corredores, esbarrando com algumas mulheres. A garotinha pôde ver jovens de todas as idades circulando em kimonos e yukatas coloridos pelo lugar. Não viu um homem sequer.
Parou quando a mais velha ajoelhou-se no chão de frente à uma porta.
–Okaa-san... Trouxe a mocinha...
–Entre de uma vez, Ultear- a voz irritada e levemente embargada por bons copos de sakê soou vinda da porta.
A mulher levantou-se graciosamente do chão e estendeu uma das mãos à Amaya. Após colocá-la de pé, Ultear abriu a porta de correr, revelando a figura de uma senhora. Tinha cabelos de um tom de cor-de-rosa, claro pela idade já avançada, olhos grandes e vermelhos, muito bem destacados pela sombra escura. Estava sentada em uma almofada, dedilhando levemente um sangen, hora ou outra bebericando um pouco de sakê e fumando. Vestia um kimono azul e verde elaboradíssimo, que havia sido manchado por algo vermelho.
Quando ambas convidadas adentraram a porta da sala, Polyushka levantou os olhos das cordas do sangen e as fitou intensamente, os orbes vermelhos analisando a figura acuada da lourinha.
–O que diabos é isso, Ultear? Uma caipira catadora de arroz? Tenho certeza que havia lhe pedido uma mocinha que tivesse um cheiro melhor do que o de um baiacu!
–Okaa-san... Ela é filha de Layla...
Ao ouvir o nome, a rosada levantou-se bruscamente, derrubando algumas cinzas no kimono. Caminhou em passadas longas, mas ainda sim elegantes, na direção de Amaya. Levantou as bordas das roupas mal amarradas que a garota vestia, exibindo as pernas pálidas, quase sem um fiozinho de pelo amarelo. Virou-a de costas e desatou a faixa que segurava precariamente os panos em volta da menina, deixando-a, pela segunda vez no dia, completamente nua. E ela, novamente, tapou os seios com os braços, corando furiosamente sob o olhar atento da mais velha. Teve seus joelhos, braços e nádegas apalpados, sendo medidos com exatidão.
–Realmente, se parece muito com Layla... Bem, já é muito tarde para devolvê-la à seu pai. Vai ficar aqui e servirá à nossa Oki-ya e irá para a escola. Irei transformá-la na maior Gueixa deste país. Será aclamada em todos os lugares e desejada... Fará história e ganhará milhões...
Amaya fitou a rosada que escrevia seu futuro de uma forma quase insana... Polyushka não parava de andar de um lado para o outro, gesticulando a todo o momento. Os orbes vermelhos brilhavam intensamente enquanto as palavras saíam de sua boca, uma enxurrada de informações que deixava a menina completamente perdida. Ultear mantinha um semblante calmo e impassível, ouvindo tudo o que sua “okaa-san” dizia.
–Ultear... Leve-a para o andar de cima. Deixe-a sob os cuidados de Levy, ela saberá o que fazer. Ah, e Amaya é um nome comum de mais. Arrume outro para ela
–Sim, okaa-san.
A morena voltou a puxar Amaya pelo braço, levando-a, sem muita resistência, até uma estreita escada que dava acesso ao andar superior do casarão. Subiu nos quatro primeiros degraus e abriu um alçapão, de onde uma tênue luz vinha.
–Levy-chan... Ainda está lendo este pergaminho?
–Desculpe, estou louca para ver como acaba... –uma voz infantil soou do quarto, deixando Amaya curiosa.
–Ah, o que faço com você? Bem, recebemos mais uma menina hoje e a okaa-san pediu para que você cuidasse dela.
Logo depois disso, Amaya pôde ouvir o som de algo caindo no chão e uma reclamação baixinha. De repente a cabeça de uma menininha que aparentava ter sua idade surgiu do alçapão. E, daquele momento em diante, tanto a loira quanto a azulada souberam que ambas seriam inseparáveis...
–Como se chama?- Amaya perguntou.
–Sou Levy. Levy McGarden! E você?
–Sou... Uh...
–Esta, Levy-chan- Ultear a interrompeu- É Lucy Heartfilia.
***
Dois anos depois.
Magnólia, Fiore.
Lucy adentrara as portas da Oki-ya às pressas. Havia sido retirada da aula de canto pela própria Polyushka, que a arrastara de volta para casa o mais depressa possível, alegando que tinha algo para lhe mostrar. Porém, parou de correr quando avistou a figura imponente de uma jovem mulher de longos cabelos branco e belos olhos azuis.
–Quem é, okaa-san?
–Essa é Mirajane Strauss, uma das mais desejadas Gueixas desse país.
A loura engoliu em seco, aproximando-se lentamente da albina. Mirajane lhe sorriu calorosamente, fazendo-a corar. A mulher caminhou até ela e examinou-a brevemente. Lucy deu graças aos céus que, dessa vez, não precisou ficar nua.
–Estou muito satisfeita com o que vejo, Polyushka-san. Eu a quero.
A menina não entendeu o que estava se passando ali. Confusa, fitou as feições bonitas da mulher, que lhe abraçou.
–Lucy... Mirajane será sua Onee-san daqui para frente. Será ela quem a instruirá do como se tornar uma Gueixa de verdade. Tudo o que fizer terá implicações para ela também. Cometa algo de errado e sua irmã cairá em desgraças...
–Não a assuste assim. Venha Lucy, vamos começar.
***
–Importa-se de me acompanhar esta noite, Lucy? Irei apresentá-la oficialmente como minha irmã à meu Danna.
–Seu o que?
–Meu Danna. Ele é quem me patrocina de agora em diante, não mais a Oki-ya a que pertenci. Se tiver sorte, daqui alguns anos, encontrará um também.
A menina assentiu, adentrando um aposento juntamente com a irmã mais velha. Esta prendeu-lhe os cabelos em um coque alto e firme e os enfeitou com um pente simples. Vestiu-a com um kimono liso da cor bege e prendeu-o com um obi branco.
Lucy ajudou-a a se aprontar, enquanto Mirajane lhe ensinava a usar todos os adereços que uma Gueixa deveria dominar com perfeição. Por sorte, a albina assegurou que, com o tempo, a menina aprenderia.
Depois de prontas, tomaram uma carruagem cedida pela Oki-ya e encaminharam-se para uma das casas de chá mais famosas de toda Magnólia. Lucy respirava fortemente pela boca, completamente amedrontada pela situação inusitada que vivia no presente momento. Esfregava as mãos a todo o instante, não contendo a avalanche de sentimentos que inundava seu estômago. E se fizesse algo errado? Mirajane cairia em desgraça?
A albina tentava tranqüilizar a jovem, divertindo-se levemente ao vê-la tão desesperada. Lucy era realmente uma menina ingênua, achando que Mira realmente estava colocando muita responsabilidade em suas costas. A moça, como irmã mais velha, queria apenas o bem da criança. Afinal, adquirira grande afeição por ela. A amava como uma irmãzinha... Talvez até mais do que sua verdadeira irmã.
Abandonaram a carruagem na porta do estabelecimento. Lucy tentava equilibrar-se sobre o par de getas, o que era algo extremamente difícil, afinal, a menina não era lá um exemplo de coordenação motora. Mirajane ofereceu uma das mãos a ela, crente de que a loirinha cairia a qualquer momento. E, com certeza, não gostaria que ela o fizesse na frente do jovem príncipe. Aceitando a ajuda da albina, adentraram o lugar.
A menina logo reconheceu o cheiro de incenso, chá e sakê. Seus olhos passaram por todas as pessoas que povoavam a casa, eram desde mulheres jovens da idade de Mirajane, até homens velhos de aparência esquelética, porém, ainda sim, nobre e solene. As mulheres, vestidas em seus elegantíssimos kimonos de seda coloridos e maquiadas fortemente com pós de arroz e lábios tingidos de vermelho, passeavam de um para o outro, entretendo os diversos senhores acomodados nos futons. Lucy nunca se sentiu tão atraída por alguma coisa quanto estava pelo universo magnífico das Gueixas.
Mirajane caminhou calmamente até o local onde um homem estava sentado. Era loiro, alto e forte, de braços musculosos e ombros largos. Quando ele se virou, Lucy pôde perceber olhos azuis e firmes, porém, quando postos sobre a silhueta da albina, mudavam para calorosos e amigáveis. Ainda assim, o que mais lhe chamara a atenção naquele rosto bonito fora a cicatriz em forma de relâmpago.
–Laxus-san... Konbanwa*- a albina ajoelhou-se ao lado do homem, que deu-lhe um sorriso torto.
–Konbanwa, Mirajane-san. Espero que tenha gostado do yukata que lhe mandei esta semana...
–Oh, sim! Foi muita bondade sua dar-me um presente como aquele. Muito obrigada.
O loiro assentiu, sorrindo. Foi então que fitou a figura da menina parada mais atrás da albina, que parecia envergonhada e amedrontada.
–Quem é a menina? Veio com você?
–Sim. Esta é Lucy, minha mais nova aprendiz...
–É realmente encantadora, como sua irmã mais velha. Aproxime-se e sente, por favor.
Lucy, em passos trêmulos, caminhou até o lado esquerdo da albina, que lhe sorriu, acalmando-a. Foi então que percebeu mais duas pessoas na mesa. Uma era um homem grande e robusto, de cabelos escarlates e olhos verde-musgo. A outra era um rapaz magricela de aparentemente sua idade, cabelos rosados e arrepiados e olhos parecidos com os do ruivo.
–É um prazer estar em sua companhia, senhor- Mirajane abaixou a cabeça em sinal de respeito para com o imperador.
Lucy a imitou, baixando os cílios longos e loiros. Ouviu um riso alegre vindo do homem, levantando levemente a cabeça para olhá-lo.
–Não é necessário tudo isso, menina. Deixe-me olhar para você...
Lucy levantou o rosto e fitou-o diretamente nos olhos, um erro grave se fosse cometido por outra pessoa. Porém, no momento em que o homem fitou os orbes castanhos, seu peito foi tomado por uma paz e tranqüilidade de forma avassaladora.
–É realmente uma menina belíssima. Tenho certeza que será uma grande Gueixa quando ficar mais velha.
A loirinha corou. Desviou os olhos para o menino ao lado do ruivo, que lhe fitava de forma intensa. Ele havia franzido as sobrancelhas e feito um biquinho nos lábios, praticamente estava sobre a mesa, tentado olhá-la melhor. Porém, logo se endireitou e sorriu.
–Otou-san... Ela é um anjo?- ele perguntou inocentemente.
O ruivo gargalhou quando percebeu o rosto ainda mais corado da menina. Ignorou a pergunta feita e pediu que Mirajane os servisse. A albina levantou-se e foi preparar o chá, deixando Lucy sozinha com os homens.
–Então Lucy-chan... Está gostando da escola?- foi Laxus quem perguntou.
–Sim. Realmente, o universo das Gueixas me atrai mais a cada dia que passa. Sinto-me honrada em fazer parte disto...
Laxus assentiu, sorrindo. A menina parecia ser mesmo adorável.
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