A Galinha Psicocótica
16 Lampião e Galinha Bonita
Notas iniciais
— Esse será nosso segredo, Emílio. Eu vou te trazer paz, finalmente. — Prata disse essas palavras soluçando, com uma lágrima correndo em sua bochecha, mas esboçando um sorriso esperançoso, por finalmente acreditar na inocência de um menino inocente.
— Oxe, Prata, tá certo. O sinhô é um omi de ôro.¹⁻²
Prata, desde a morte de Pombal, não tem mantido tanto contato com os Mungunzá, portanto ele não sabia da venda do sítio. Pouco depois de sair da sala onde Emílio estava, porém, ele resolve ligar para seu Chico, depois de pegar seus pertences, para falar que pretende tirar seu filho da clínica em breve; ligou também para fazer média e perguntar como o pobre homem estava:
— Ôxe, seu Prata, o que devo a honra?
Prata percebera a voz embargada de Chico e resolvera adiar as boas novas, sobre o estado do seu filho:
— O que houve, meu bom homem?
— O sítii tá assombrado, cumpade. Rô vendê ele.
— Mas por que, seu Chico? Você não queria ficar com ele, pra tentar reerguê-lo? Vai desistir tão fácil do que é seu?
— Eu sei que é difícii, cumpade, mais é mió assim, me livrá disso... Tá morreno uma ruma de gente aqui e é mió saí, vai que sô o próssimo.
— Não, não venda ainda. Você não está bem, deixe eu falar com o Valdo.
— Pronto. — respondeu Valdo, depois de pegar o celular das mãos fragilizadas de um homem desesperado.
— Seu pai não pode tomar nenhuma decisão no estado atual dele. Ele falou que o sítio está amaldiçoado, o homem não está bem. É melhor você ficar à frente do sítio nesse tempo, tomar as decisões pelo seu pai até ele melhorar. Fale com o comprador e peça mais tempo.
— Tá certo. E o que o sinhô diz pra gente fazê? Essa situação tôda... tá muito é da istranha, Seu Prata... Num é di Deus não... essa genti toda morrendo...
— Vocês ainda devem ter parentes em Fortaleza. Vão passar um tempo com eles, se afastar das memórias ruins do sítio. Imagino que esteja sendo difícil com tantas coisas acontecendo... mas uma hora isso acaba, muitas dessas mortes foram azar e outras...
— O sinhô tá certo, seu Prata. Obrigado. As ôtra foram o manin... eu sei...-
Prata mordeu o lábio, segurando a verdade por entre os dentes. Valdo não acreditaria... ele estava lá quando o irmão morreu.... ou melhor, foi morto.
— Olhe, seu irmão está doente... eu sei que é difícil, mas não foi culpa dele... é a doença, Valdo, a doença... — ainda naquele corredor branco, Prata olha pra sala onde Emílio estava, que sai acompanhado de uma enfermeira. Um sorriso, um aceno e uma lágrima acompanham a visão de Prata daquela cena. Era melhor dizer isso, insistir na insanidade, dizer algum nome médico complicado que eles não entenderiam e dizer que o hospital mental faria sua parte para ajudar o rapaz a ser uma pessoa melhor.
— Ôxe, mas tem qui sê duente mermo, pra avê de matá a pópria famia. Intão o sinhô acha que ele vai saí e vai melhorá?
—Sim, Valdo, ele irá.
Jessie não tinha muitas opções de entretenimento ali, a não ser bolar planos para fazer Chico sofrer e matar Aviner. Como sempre, a cocosa ficou perto de Valdo, pra saber do que poderia vir a acontecer e, na pior das hipóteses, vir a alterar seu plano; aquela era a única diversão dela³.
Depois de ouvir que Valdo tomaria a dianteira das decisões do sítio, que o sítio não seria vendido e que ele e seu pai iriam pra capital passar uns dias ela cacarejou⁴, num misto de alívio e despeito: teria que deixar o sofrimento de Chico para depois, mas estava bem em saber que seu lar não seria vendido para um caubói gordo, baixinho e bigodudo casado com um faqueiro.
— ... e o Prata toméim disse que o manim tá duente, paim! Que ele num matô puquê quis! Manin tá duente, vai mióra, Te anima!
Prata e Emílio, os dois únicos humanos que sabem do seu segredo, parecem estar trabalhando juntos agora, um erro não calculado por Jessie; sua sede de vingança havia cegado-a para essa possibilidade que poderia ter efeitos terríveis. Aquele animal de sangue quente sentiu sua espinha gelar, mas quando chegasse a hora ela estaria preparada. "Se me atacarem *cocó* eu vou atacar", pensou.
*****
Uma semana havia se passado. Valdo e Chico estavam na casa de parentes, sensibilizados com a situação dos dois. Antes de viajarem, no entanto, Valdo comunicou a Aviner sua decisão: pediu mais um tempo, uns quinze dias, para chegar a uma conclusão sobre o sítio da família.
Mesmo com o pedido de Valdo, o gordo louco por galinha e dinheiro havia dado o aval para o início das obras, pois aqueles caipiras nunca tinham visto tanto dinheiro na vida, uma mixaria para aquele caubói bigodudo; para os lucros não existe empecilho, e ele estava confiante que teria aquele sítio para si.
Depois de alguns dias levando material para o sítio, começou a construção das futuras instalações de mais uma granja Regivine⁵. Jessie, seus pintos, as outras galinhas e os patos não gostaram nada daquela barulheira toda que adentrava a noite. Aquela construção precisava acabar.
"É muita gente *cocó*", pensou Jessie, "não darei coconta² de todos eles sozinha.". Sem conseguir dormir, Jessie então começa a vagar pela granja, pensando alto:
— Como parar a construção disso? Eu e meus filhotes precisamos dormir.
— Jessie, não é isso? — uma voz não galinácea, mas também não humana, fora ouvida. — Você é bem famosa entre os animais daqui.
— Q-quem está aí?
— Ninguém muito importante, só sua parceira.
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