A Foz das Carpas
5 Sombras de um céu sem nuvens
Notas iniciais
As águas do mar estavam agitadas, onda atrás de onda eles eram empurrados de um lado para o outro, engolindo goladas pós goladas de água salgada.
Os braços de Tanishi pareciam pesar como se fossem aço e como tal não pareciam se mover.
Suas pernas se recusavam a responder à seus comandos, tentando chutar a água para baixo com mais esforço do que ele poderia lidar.
Uma longa e aguda fisgada persistia em permanecer seu joelho ferido e ele parecia condenado à afundar como uma pedra, tentando de alguma forma salvar a si mesmo e a Koiko.
Restava apenas a esperança de alguma forma alcançar a praia. Era ele quem sabia nadar, afinal, se ele não fosse capaz de nadar por dois, que esperança teriam no mundo lá fora?
Ainda assim, ele afundou, Koiko afundando consigo, nada além da imagem da água a frente de seus olhos, o mar preenchendo-lhe os pulmões por completo e de repente tudo se apagou em desesperança.
E quando tudo estava perdido, seu salvador veio socorrer-lhe novamente.
Não soube precisar o exato momento em que fora tirado da água, tampouco soube como mensurar a real distância que havia entre o ponto de seu afogamento e a praia, mas uma coisa era certa: ele estava alucinando.
Ao menos era o que ele achava quando recobrou a consciência e se deparou com a cena de si mesmo nos ombros de seu amigo enquanto Koiko descansava debaixo dos braços do mesmo, ambos carregados como se não fossem nada além de sacos de batata a serem entregues numa cozinha qualquer, enquanto que o Kouzuki — cujo o Kimono, outrora laranja, agora estava marrom devido ao sangue — simplesmente andava pela superfície da água como se ela não passasse de um terreno acidentado por onde ele poderia andar desde que tomasse cuidado.
Sendo justo, ele corria a toda velocidade enquanto os carregava para um local seguro, mas ainda assim, ele não deveria ser capaz de andar sobre as águas como se elas estivessem congeladas debaixo de seus pés, deveria? Seria ele um outro usuário do Rokushiki?
Antes que pudesse sequer indagar-lhe sobre o caso, no entanto, viu-se lançado à alguns quantos metros no ar, seus amigos ficando cada vez menores conforme ele se distanciava da dupla.
Mal teve tempo de piscar antes de sentir a dura areia atingindo-lhe ao cair de costas sobre elas.
Chegou a gritar de dor, mas o impacto tirou de seus pulmões todo ar que ali havia.
Revirou-se e remoeu-se em sua agonia, mas não havia qualquer razão para reclamar, pois enquanto agonizava, podia ouvir os passos apressados de seu companheiro e a prioridade em seus gritos.
—Aguente firme, Koiko! Estamos quase lá, você não pode desistir agora!- ao final de seus dizeres ele deitou Koiko o mais gentil e rapidamente possível sobre as mesmas duras areias que feriram as costas de Tanishi. —Vamos lá! Vamos! Vamos! Vamo... !- pôde ouvi-lo fazendo os primeiros socorros para tentar tirar Koiko do mundo dos mortos de seu afogamento.
Enquanto testemunhava a massagem cardíaca, bem como a respiração boca-a-boca de seus companheiros, Tanishi também tentava recolocar algum ar em seus pulmões, enquanto que pesadas lágrimas caíam de seu rosto(tornando respirar uma tarefa ainda mais difícil).
Eles quase haviam morrido porque ele não havia conseguido cumprir sua função, percebeu ele à tempo de enfim respirar de novo.
Simultaneamente Koiko cuspiu para fora a água que havia se alojado em suas vias respiratórias, voltando finalmente a vida com uma série de tossidas e arfadas.
Recusando-se à encarar a vitima de suas falhas, Tanishi resignou-se à fechar seus olhos com tanta força quanto podia, recostando sua testa nos grossos grãos de areia num choro silencioso, envergonhado de si mesmo.
Respirou fundo ao ouvir a areia mover-se e sentir a aproximação, preparou-se para que o preço de suas falhas fosse cobrado, mas ao invés disso, recebera não mais que alguns tapinhas amistosos nas costas.
—Bom trabalho me salvando lá atrás, boia.- para a sua surpresa, isso foi tudo o que Koiko disse antes de jogar-se de costas contra a areia para respirar um pouco mais.
—O q- virou-se ainda chocado, tentando entender como era possível que Koiko dissesse isso sem o uso de ironia, mas de imediato desviou os olhos.
—Nada de se gabar só porque eu não consigo nadar.- foi a resposta firme de sua contraparte.
—Mas isso não faz o menor sentido!
—Quando as moças terminarem de namorar teremos que nos apressar!- ao longe a afirmação provocativa do verdadeiro salvador de Koiko fora ouvida. —Baseado na posição dessa estrela, estamos em algum lugar ao norte de Hakumai. Onde você disse que era o ponto de encontro com o contato do Bakuto, Tanishi?
De onde falava, Tanishi mal podia distinguir os traços de seu rosto. Quando ele chegou tão longe? Como era sequer possível que ele se movesse tão rápido e tão silenciosamente? E por que teria ele feito isso em primeiro lugar?! Ele não poderia querer dar-lhe os créditos por salvar Koiko, poderia?
—Essa "estrela" é o Sol, sonso!- Koiko apontou o óbvio, gesticulando com as mãos para o céu azul e com poucas nuvens de uma tarde ensolarada de Wano.
—Sim, exato. Hakumai, Norte, Noroeste mais exatamente. Estamos bem longe da Capital, se não nos apressarmos, podemos perder a hora pra falar com o contato de vocês, onde era o ponto de encontro?- enquanto falava, ele se reaproximava do grupo, olhar desviado para o céu, mesmo que seguisse focado neles.
—Eu... eu não sei... me lembro vagamente de onde era o ponto de encontro, mas não tenho certeza... eu tinha tudo anotado na minha bolsa, mas... eu a perdi...- respondeu timidamente Tanishi, sua voz saindo mais baixa a cada palavra, a vergonha de mais uma falha queimando-o diante de seus companheiros.
—Tudo bem, nós vamos conseguir descobrir de alguma maneira.- era a resposta que estava para sair dos lábios de Koiko quando a bolsa que Tanishi sempre carregava consigo chocou-se contra sua cabeça.
—Ai! Ei! Onde você achou ela?! Como você a pegou?- perguntou ele esfregando seu cenho ferido, meio impressionado com a capacidade do homem, meio chateado pela devolução rude.
—Cê deixou cair quando esbarramos com aqueles caras da CP0.- explicou ele.
—CP0?! Eles eram da CP0?!- espantou-se o jovem.
—O que é CP0?- Koiko olhava de um para o outro, tentando pescar na expressão de um deles algo que lhe dissesse o que estava acontecendo.
—Não importa, é assunto da minha família, depois eu me resolvo com eles, será que dá pra adiantar? Se não nos apressarmos vamos acabar perdendo a hora.
—Ah! Verdade!
E assim Tanishi voltou sua atenção para a sua bolsa e o que havia dentro dela.
Nada bom, pra variar.
Era de se esperar que sua bolsa não estivesse em bom estado depois de tudo o que ele passou — ele já era grato por ainda ter uma bolsa -, no entanto, isso não muda o quanto ele tinha perdido nessa manhã.
Metade de seus pergaminhos haviam simplesmente se ficado pelo caminho e do que sobrou, metade fora completamente arrasada pela água, mesmo que ele tenha se precavido à ponto de veda-los antes de trazê-los.
Suas cordas extras haviam sumido, assim como a marmita que ele havia trago.
Das moedas de ouro e prata que tinha no começo, só três de cada restavam, seus berries estavam encharcados e o arroz que tinha consigo havia diminuído consideravelmente de volume.
Por que tinha que ter três moedas em Wano, afinal!? Uma não era o suficiente?! E como só alguns pergaminhos conseguiram se salvar!? O que havia de errado com essa bolsa?! Por que a faca estúpida que seu pai havia lhe dado não havia sumido também!?
Seus pensamentos foram cortados quando do mar ao lado deles um barulho estranho foi ouvido.
Voltou sua atenção para as águas, assim como fizeram seus colegas, bem a tempo de verem um pequeno volume de água se erguer à uns bons metros mar adentro antes de retroceder de volta para o mar, só para se erguer ainda maior logo depois, repetindo o processo, sempre subindo e descendo, crescendo em volume a cada reerguer.
—E-ei, o que tá acontecendo? Não me diga que aquele Rei dos Mares continua vivo?!- por mera precaução Tanishi se afastou das bordas, não querendo estar próximo do caos caso as coisas piorem.
—Não, aquele eu matei, tenho certeza.- foi a resposta do Kouzuki, facas em mãos.
—O que quer que seja, não vamos sofrer tanto dessa vez.- Koiko parecia confiante por de trás de toda a raiva em sua voz, sacando sua espada curta enquanto que se agachava, em posição de luta.
No mar, o volume que se erguia já era maior que uma pequena casa, sempre diminuindo e aumentando, como se imensas bolhas de ar simplesmente escapassem do solo aquático, gerando ondas cada vez maiores naquela pequena parte do litoral.
E enfim, o volume de água subiu pela última vez, a água caiu pela última vez, revelando o que parecia ser uma carpa branca do tamanho de uma pequena colina, porém desta vez, o peixe já estava morto.
Sangue escorria de seu cadáver e era possível identificar algumas Wakizashis fincadas ao corpo do animal, além de uma enorme ferida que se estendia de um lado ao outro de corpo, expondo as vísceras de seu interior.
No entanto, mesmo morto, o animal não parava de se mover na direção do grupo, ficando cada vez maior.
Até que logo abaixo da criatura vinha seu carrasco e o motor por trás de sua locomoção: um homem trajando de kimono branco e com um cinturão de Yokozuna saiu das águas, revelando-se para os três com uma clava numa mão, sua caça na outra e uma espada longa firmemente prasa aos lábios.
E eles o reconheceram imediatamente, Tanishi sendo o primeiro a quebrar o silêncio.
—Ya-Yamato?!
—Yo
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