A Foz das Carpas
6 Destinados na areia
Notas iniciais
O olhar de Yamato recaiu sobre cada um dos três que ali estavam, começando por Tanishi, quem jazia inerte com os joelhos prostrados sobre a grossa areia, um pergaminho meio aberto largado por sobre suas coxas e uma expressão engraçada de quem comeu e não gostou que parecia flutuar entre dor, confusão, surpresa e... indignação?
Yamato não era exatamente bom em ler as pessoas.
Ainda assim não precisou de mais do que um palpite para conseguir ler perfeitamente as expressões de Koiko: testa franzida, olhar afiado, sobrancelhas levemente erguidas, mãos nas laterais própria cintura, queixo levemente enrugado, semblante fechado.
A impaciência e a irritação em pessoa.
Independente disso, Yamato gastou seu tempo com os olhos sobre a impaciente figura, absorvendo cada detalhe antes de finalmente tornar seu olhar para o último da fila.
E um sorriso sardônico imediatamente se abriu em seu rosto.
Poucas vezes ele esteve tão próximo do caçula dos Kouzuki, mas ele já sabia que ele não era flor que se cheira.
Mesmo agora, vê-lo encara-lo com o rosto levemente inclinado e as os olhos praticamente fechados enervava-o, mesmo que seu rosto estivesse plano e não esboçasse qualquer reação à sua figura, algo dentro do seu peito parecia gritar para que ele acertasse um soco dos muito bem dados na fuça do homem.
E essas cicatrizes na cara do sujeito só aumentava essa vontade que ele sentia de partir pro braço contra ele...
E assim, mantendo um sorriso malicioso no rosto, Yamato voltou a andar, dando mais alguns passos na direção do grupo até que sua clava se arrastasse pela areia quando as águas finalmente ficaram para trás.
Com um simples movimento de seu braço direito ele arremessou sua caça para o alto, deixando que a gigantesca carpa caísse no chão logo atrás de si, fazendo um estrondo e estremecendo levemente o solo de baixo de seus pés, erguendo a clava para que esta se recostasse em seus ombros e soltando a espada que estava firme em seus dentes, segurando-a com a mão que antes segurava a carpa.
—Exibido.- queixou-se Koiko, levando uma de suas mãos para a rosto como se isso de alguma forma fosse dar-lhe um retoque de paciência.
—Para sermos justos, o que ele fez foi bem impressionante.
—O que, caçar um peixezinho dentro d'água? A gente acabou de fazer isso e não estamos nos gabando.
—Não seja tão exigente, ele o fez sozinho...
A conversa continuou, mas Tanishi já não estava prestando atenção à ela, focado em desamarrar o tecido de suas calças que estava amarrado à sua coxa, pouco acima de seu joelho e lentamente esticando a perna rasgada de sua calça para que ela cobrisse a sua ferida por inteiro, derrubando sem se importar o pergaminho que carregava.
Sentiu os músculos de sua face se contraírem conforme as expressões de dor passavam por seu rosto, deixando escapar alguns grunhidos aqui e ali, mas sem chamar muita atenção dos outros dois que estavam entretidos demais em sua conversa para darem-lhe qualquer atenção e de Yamato que seguia focado no seus colegas.
—Ora ora, vejam só! Se eu não topo com um grupo de conspiracionistas baratos logo depois de uma boa sessão de pesca?! O que um Kouzuki estaria fazendo ao lado de dois rebeldes em tempos tão duros para a dinastia?- pronunciou-se Yamato, coçando suas têmporas com a empunhadura de sua espada, como quem refletia profundamente sobre aquilo que ocorria diante de seus olhos.
—Conspiracionistas baratos?!- a indignação de Koiko era quase visível em sua voz. —O que a dinastia Kouzuki faz ou deixa de fazer não me interessa. Se esse pedaço de fim de mundo chamado Wano me interessasse o bastante para conspirar, já teríamos sangue escorrendo pelas ruas!- ao final de suas palavras Koiko inclinou seu corpo levemente para frente, desafiando o homem que já estava à meros passos do grupo.
—Justamente por isso!- falou ele quase que imediatamente após a fala de Koiko. —"Já teríamos sangue escorrendo pelas ruas e bla bla bla", você não tem andado muito pelas ruas se acha que elas estão limpas!- apesar da gravidade de suas afirmações, Yamato as fazia com um enorme sorriso de empolgação plantado no rosto e tom de graça na voz.
—Você que não tem andado muito pelas ruas certas, Yamato-san.- interrompeu o Kouzuki com os olhos fechados e uma mão em seu queixo, antes de abri-los, olhos de um profundo negro encarando os castanhos de Yamato. —Não importa o quão pacífico seja o país, sempre haverá sangue sendo derramado em algum lugar. É tudo questão de equilíbrio e o desejo natural que os homens têm pela violência e pelo conflito. Não tem como evitar que as coisas sejam assim, tudo o que podemos fazer é manter distância das ruas sujas de sangue e seguirmos em frente, afinal, o que realmente importa é vivermos como pudermos e da melhor maneira possível de acordo com o que a vida nos entrega, não estou certo?
O rosto do homem se abriu num sorriso singelo e fino enquanto que os olhos do mesmo voltavam a se fechar. Ele então deu alguns tapinhas nos peitos descobertos de Yamato assim que este finalmente alcançou.
—Além do mais, eu jamais armaria contra a minha própria família, estou certo!
Ele rapidamente recolheu seu braço quando um leve vento o acertou, indicando que Yamato quase cortara sua mão fora num veloz balançar de sua espada de cima para baixo, acertando a areia ao invés da carne, fazendo um pequeno punhado de areia se erguer de onde ele acertara com o impacto do golpe.
—Corta essa de "eu amo minha família" e todo o papinho motivacional! Guarda essa merda pra quem acredita porque eu não compro teu barulho!- o lábio inferior de Yamato se contorceu em desgosto. —Até parece que o caçula dos Kouzuki que sempre foi negligenciado estaria feliz em servir como um vira-lata obediente! Não, você tá mais para uma raposa esperta, vigiando na espreita!, uma cobra à espera de dar o bote, e quando você tentar o seu pequeno golpe de estado, pode apostar que eu estarei lá!
A resposta de Yamato fora servida com as chamas da batalha ardendo em antecipação no seu olhar.
Quanto à isso, Koiko riu. Uma gargalhada curta, mas sincera. —Quem vê assim até acha que você está interessado em ajudar os Kouzuki! Nah, eu sei que você só quer ver a confusão começar pra sair batendo depois do primeiro tiro. Kouzuki? Rebelde? Estrangeiro? Culpado? Inocente? Não, você não se importa com nada disso, tudo que você quer é sentir a adrenalina da batalha e a sensação de cortar os adversários mais fortes. Ou pelo menos o maior número deles que você conseguir encontrar.
Os olhos de Koiko recaíram sobre a falecida carpa que sequer tinha as armas para se defender mas fora morta pela simples dificuldade que seria caçar um peixe tão grande dentro da água, onde ele tinha vantagem.
—O que te importa é o desafio, você só finge estar ao lado dos Kouzuki para poder "proteger" sua "princesinha".
Constatou, arrumando outra vez sua postura e estufando o peito para que ele desafia-lo à negar sua lógica.
Mas a resposta pegou-a completamente desguarnecida.
Soltando tanto sua espada — que já estava fincada ao chão — e sua clava, deixando-a cair sobre as areias da praia com um leve estrondo.
No tempo que levou para Koiko piscar em sua surpresa, Yamato já estava ao seu lado, com o cotovelo apoiado em seu ombro e olhando-a de cima pra baixo com um olhar travesso e um sorriso sugestivo.
—Tá, tá. Sangue, batalhas e politicagem, nada disso importa, indo direto aos negócios, senhorita, apesar de eu ser um adepto e defensor dos direitos individuais, devo dizer que é um crime andar por aí desse jeito! Talvez te interessasse ter uma aula ou duas sobre conduta e bons costumes com o Yamato-senpai aqui!
Piscando mais algumas vezes em sua confusão, Koiko olhou para baixo, percebendo finalmente que seu kimono havia se desfeito, completamente destruído da cintura pra cima e aos frangalhos da cintura para baixo, deixando boa parte de suas grossas coxas expostas e os seus pequenos, porém perfeitamente arredondados seios completamente à mostra.
—Bela comissão de frente, por sinal.- o comentário lascivo de Yamato, no entanto, caiu em ouvidos surdos, pois Koiko não mais prestava atenção aos seus arredores.
Sua visão havia enegrecido e ela já não era capaz de enxergar nem ouvir nada, completamente inerte em si mesma, seu rosto queimando mais a cada segundo e uma vergonha cada vez maior crescendo dentro de si, se transformando em nada além de raiva.
—Oh, quem diria que a grandiosa Koiko seria tão tímida!- provocou o homem com uma risada escarnia, mas logo ele se interrompeu ao notar com a sua visão periférica que os dois outros membros do grupo se afastavam lentamente. —Pessoal-
Mal tivera tempo de concluir sua única palavra proferida quando sentiu um enfurecido punho acerta-lhe em cheio no espaço que existe entre os lábios e o nariz, fazendo-o cambalear alguns passos para trás antes de cair em cima de sua própria bunda.
Tudo girava ao seu redor e ele mal conseguia diferir esquerda de direita de tão atordoado.
—EU VOU TE MATAR!
Ainda desorientado ele conseguiu flagrar Koiko erguendo Tanishi pelo pescoço, este completamente trêmulo nas mãos da mulher.
—E EU AINDA ESTAVA PREOCUPADA COM VOCÊ! "COMO SERÁ QUE ELE VAI SE SAIR NO MUNDO LÁ FORA?!", "AS COISAS ESTÃO PERIGOSAS, ELE VAI FICAR BEM?", "ELE NÃO TEM HABILIDADES DE COMBATE, VAI ESTAR PERDIDO SE PRECISARMOS LUTAR!" E VOCÊ ME DEIXA PASSAR UMA VERGONHA DESSAS?!
De onde estava Yamato conseguia enxergar que os cabelos laranjas de Koiko combinavam com o profundo tom de vermelho que predominava em seu rosto, contrastando fortemente com o branco-papel da palidez de Tanishi, que jazia livido e mole no agarre de sua companheira, sendo balançado no ar como simples pedaço de pano.
—m-me descu-
—SEM DESCULPAS! O QUE VOCÊ FEZ É IMPERDOÁVEL!
—so-socorr-o!-!!
Tudo se silenciou quando o quebrar de um graveto pareceu ecoar misteriosamente naquela paisagem à céu aberto.
Koiko lentamente virou seu rosto, um brilho vermelho-sangue no olhar, flagrando um kimono laranja em franca disparada para longe, em direção à um lugar seguro.
Mas não havia, no entanto, um lugar seguro sequer no país de Wano enquanto Koiko estivesse atrás dele.
Largando seu companheiro de cabelos esverdeados, a mulher disparou tão rápido quanto uma bala na direção do fugitivo, se jogando no chão e derrapando para poder acerta-lhe um chute rasteiro no meio de suas canelas, derrubando-o de peito nas grossas e duras areias da praia.
—Argh!!- antes que ele pudesse reclamar da dor em sua perna, sua raivosa companheira montou-lhe as costas, a mão esquerda atravessando pela frente de seu rosto — dedos fincados na pele de seu rosto tão profundamente quanto garras — e a mão direita segurando uma tanto próxima da parte de baixo dos braços do homem — mirando o coração do homem por entre suas costelas — enquanto seus lábios sussurravam por entre dentes extremamente afiados para o descendente da realeza.
—Você precisa correr mais rápido do que isso se quiser escapar de mim.- um arrepio gélido passou por todo o corpo do homem ao sentir a respiração quente sobre sua nuca. —Últimas palavras antes de eu te morder até a morte?
Tremores incontroláveis se apossaram do corpo da vítima da mulher que já se preparava para o abate.
Quando uma crise de riso pareceu tomar conta de Yamato, chamando a atenção de todos de volta pra si.
—Qu-quer dizer que- mal conseguia articular meia dúzia de palavras de tanto rir. -quer dizer que você não tinha percebido?!
—Não fale como se fosse uma piada!- indignou-se a ruiva. —Eu quase me afoguei! É perfeitamente normal que eu não perceba esse tipo de coisa!
O que só contribuiu para as risadas do homem que já rolava de tanto rir.
—E-e eles estavam aproveitan- ele engasgou no meio de sua frase.
—Não aja como se você não tivesse se aproveitado da situação também.- o tom de voz de Koiko agora era tão gélido quanto às profundezas do mar.
—Que perfeito!- comentou por fim Yamato ao final de sua asfixia.
—Talvez eu deva matar você primeiro.
Ao final de sua frase ela pisou sobre o corpo que não cansava de rolar de um lado para o outro, encarando Yamato de frente, o gelo de sua voz conflitando com o fogo de seus olhos.
—Koiko-san é assustadora!- Tanishi ouviu seu companheiro se aproximar, sua voz tremendo e dentes batendo uns sobre os outros com a frieza da adolescente.
—Po-pode apostar...- Tanishi tremeu na base, recordando-se de todas as vezes que ele a viu lutar, reforçando sempre que não era uma boa ideia tira-la do sério.
—Ahn?!- a dupla congelou ao perceber que a atenção dela se voltou para eles novamente. —O que vocês estão cochichando ai?! Eu ainda não ouvi vocês se desculparem!
—Mas eu me desculpei!- contestou Tanishi.
Ao que fora recebido com um olhar assassino e um sorriso psicótico de sua contra parte.
—Oh! Então quer dizer que você acredita que eu estou errada?!
—Ahh! Nã-não! Muitíssimas desculpas!- respondeu ele imediatamente se afastando à ponto de quase deixar a praia.
—Oh, deus! Tenha piedade de minha alma e perdoe meus pecados, pois sinto que o meu fim está próximo e somente dor me espera em meu caminho!
Ajoelhado e de testa colada ao chão, trajando nada além de uma curta tanguinha que mal cobria-lhe as vergonhas, com suas vestes laranjas perfeitamente dobradas à sua frente desculpou-se o último companheiro de Koiko.
—Tsc! Poupe-me de assistir uma cena vergonhosa dessas!- dispensou ela, voltando-se para Yamato que finalmente controlava suas risadas.
—Ah! Esse dia está ficando cada vez melhor!- disse ele se levantando. —Primeiro eu consegui passar um bom tempo com a minha garota, depois um bom passeio pela capital e por fim, depois de uma bela pesca em Kibi, uma peróla dessas em...- olhou para cima por um instante, tentando se localizar. —Hakumai.
—Uhum, noroeste.
—Isso não faz sentido! Como vocês conseguem dizer aonde vocês estão simplesmente olhando o sol?!- protestou Koiko, deixando para lá toda a questão de sua nudez, resumindo-se à cobrir seu dorso com os braços cruzados.
—Você foi arrastado de Kibi até aqui?!- a indagação dessa vez veio de Tanishi, ignorando totalmente a geolocalização estranha que Yamato parecia ter.
—Arrastado não, aquela coisa fugiu e eu tive que nadar atrás.
—Oh, essa é uma grande demonstração de habilidade para natação.- respondera o outro, terminando de vestir seu torso, mal cobrindo uma tatuagem com o símbolo da família Kouzuki sobre o umbigo.
—Que se dane que ele sabe nadar! Como vocês conseguem se localizar só olhando para o sol, cacete?!
—você é realmente incrível...- comentou quase que como uma lamúria Tanishi, seu semblante se fechando e seu cenho se franzindo.
—Sim, sim, eu sei, eu sou demais, agora, voltando para o que importa, o que vocês, estão fazendo aqui, tão longe de casa e em uma situação tão suspeita?- perguntou observando como as roupas dos três já não passavam de farrapos e estavam completamente encharcadas.
Para não mencionar que Koiko estava praticamente nua.
Imediatamente os músculos de Tanishi se enrijeceram e sua mente correu por milhares de cenários e palavras em busca de uma desculpa que pudesse acobertar à perfeição a situação em que seu grupo se encontrava.
Mas seus colegas foram mais rápidos.
—Estávamos caçando suspeitos, você sabe, limpando Wano da escória rebelde de uma vez por todas.
—Sim, sim, nenhuma escória rebelde por aqui, trabalho bem feito, próxima parada: Ringo.- concordou Koiko, acenando com a cabeça algumas vezes antes de estreitar os olhos para o horizonte como se procurasse por alguém suspeito.
O QUE ELES ESTÃO PENSANDO?! POR ACASO ELES ACHAM QUE YAMATO É ALGUM IDIOTA!? gritou para dentro, no fundo de sua indignação.
—Oh, sim! Caçando rebeldes! Como eu não tinha pensado nisso antes?!- respondeu com os olhos arregalados de espanto e batendo o punho direito sobre a palma da mão esquerda, como quem acabara de ter uma epifania. —Certo! Próxima parada: Ringo! Aqui vamos nós!- ergueu o punho como quem lidera um exército.
ELE ACREDITOU?! pensou mais perplexo do que aliviado.
—Ah, não! Não precisa se preocupar em nos acompanhar! Nós três conseguimos lidar com o lixo sozinhos!- objetou Koiko, segurando na junção de seu cotovelo direito com a mão oposta e contraindo o músculo de seu braço para demonstrar sua força enquanto que o moreno do grupo acenava com a cabeça em concordância, com os olhos fechados e uma mão em seu queixo.
Isso, isso! Não precisamos de ajuda! Vá embora! implorou mentalmente
—Oh, claro! Vocês são fortes o bastante sem mim! Eu só ia atrapalhar!- a resposta complacente veio acompanhada de um sorriso envergonhado enquanto ele coçava a nuca, bagunçando seus cabelos albinos. —Ah! Por sinal, como vocês se molharam tanto e rasgaram a roupa de vocês?
Rápido, Tanishi! Pense em alguma coisa! estava a ponto de murmurar qualquer desculpa.
—Não é nada demais! Nós acabamos estragando nossas roupas porque tivemos que afogar um peixe suspeito agora à pouco, mas isso já passou!- respondeu com um sorriso o Kouzuki — cujas vestes alaranjadas eram às únicas intactas — balançando sua mão como se não passasse de um assunto bobo.
AFOGAR UM PEIXE?! Tanishi quase se sentiu ofendido por Yamato.
—Ah, certo, certo! Se vocês já afogaram o peixe então não há nada que eu possa fazer!- acenou para eles, dando as costas para o grupo e mandando uma ligeira continência como despedida. —Até mais!- falou por fim, começando à se afastar com um estranho sorriso no rosto.
ELE REALMENTE ACREDITOU?! Imediatamente o trio suspirou de maneira aliviada.
—CORTA ESSA!- Yamato repentinamente gritou, voltando-se à eles de maneira agressiva.
NO FIM ELE NÃO ACREDITOU!! Foi o pensamento que ecoou na cabeça dos três.
—Até parece que a senhorita Koiko daria uma foda pelo governo Kouzuki!- ao que Koiko respondeu simplesmente dando de ombros, pouco se importando com a verdade por trás de suas palavras. —E VOCÊ! Você é MUITO SUSPEITO! Tudo sobre você parece errado! Até o seu jeito de respirar parece suspeito!- a cada palavra proferida Yamato batia a ponta de seu dedo contra o moreno de sorriso simpático e olhos fechados que não se importava em responder. —E se tem uma coisa que eu sei que Ho'Kitsune Tanishi não é, é caçador de samurais! Então, de-sem-bu-chem.
Ao término de suas palavras ele cruzou os braços numa postura que mimetizava à de Koiko e olhou para cada um dos três rostos à sua frente à espera de respostas.
E num suspiro foi Koiko quem retomou a palavra.
—Nós estávamos investigando algumas cavernas subaquáticas próximo da Capital das Flores quando acabamos sendo arrastados por um Rei dos Mares completamente escroto.
Tanishi suspirou, vendo que não havia mais como esconder ou mesmo sentido em fazê-lo.
—O que vocês estavam investigando?
—Estávamos procurando por ovas.- Tanishi respondeu.
—Ovas? Pra quê? Pro Tsurus?- Yamato franziu a testa, tentando entender o objetivo por trás disso.
—Procurávamos por ovas de carpa.- retomou a palavra o Kouzuki do grupo.
—É, daquelas que sobem às cachoeiras.- completou Koiko.
—Hm... pra quê... ? Não acho que vocês queiram começar à trabalhar com contrabando.
—Nós íamos vender. Essas ovas valem bastante no mercado negro.- respondeu Tanishi, chamando a atenção de Yamato para si.
—E o que vocês iam fazer com o dinheiro?- perguntou por fim o homem grisalho, erguendo a mão para já impedir que Koiko respondesse, olhos colados em Tanishi.
E com um suspiro, ele ergueu seus olhos para encarar os de Yamato e responder.
—Nós íamos vender para Bakuto e usar o dinheiro para fugir de Wano.
E o silêncio imperou por meio minuto, Tanishi remexendo a perna machucada enquanto a ansiedade crescia em seu estômago ao passo que Yamato o encarava de maneira completamente séria.
A crescente tensão só foi cortada quando o mais velho dos dois sorriu um sorriso cheio de dentes, bagunçando os cabelos esverdeados do outro.
—Eu já sabia, tentando sair do país escondido sem nem me contar, hein?! Como eu imaginava! Eu conheço meu irmãozinho como a palma da minha mão!
Um filete cinzento de fumaça subiu do topo da cabeça de Tanishi e seu rosto se avermelhou por completo quando seu irmão mais velho o abraçou.
Sempre achou embaraçoso as demonstrações de carinho exageradas dele.
Principalmente em público.
Pôde ouvir Koiko suspirar cansada por trás de todas às palavras de apoio e amor de seu irmão.
E ela enfim retomou a palavra.
—Bem, agora que você sabe sobre o nosso segredo, o que você pretende fazer? Para o seu bem, é melhor que a sua escolha de palavras envolva algo como "vou ficar de bico calado". Não cheguei até aqui pra por tudo à perder por um tagarela. Sequer estou disposta à correr esse risco.
A ameaça por trás das palavras da mulher foram muito bem captadas por aqueles que as ouviram.
—Ahn?! Como é!? Se coloque no seu lugar, mulher! Quem é você pra tentar ameaçar o grande Yamato-sama?! E por que eu deveria confiar em vocês em primeiro lugar? Quero dizer, eu vou ajudar meu irmãozinho em tudo nessa vida, se ele quer sair do país, ele já está fora! Mas por que eu deveria ajudar a mulher-macho de Wano e a cobra-Kouzuki também?
Cada palavra fora proferida por Yamato com um pesado toque de desdém em sua voz.
—Do que você me chamou?!- mal era possível ouvir as palavras espremidas por entre os dentes de Koiko enquanto ela finalmente descruzava os braços — pouco se importando em expor seus seios — para sacar suas espadas curtas.
—Mah, mah, não se preocupe, Koiko-chan isso não passa de uma ameaça vazia vinda de um homem igualmente vazio que não vale o ar que gastou para nos ameaçar.- provocou o outro ofendido, suas palavras contrastando como tochas no escuro ao sorriso calmo que o mesmo carregava no semblante.
—Oh... quer brigar, é?- foi a resposta imediata do outro, reerguendo sua clava da areia e andando calmamente na direção do outro, um sorriso empolgado de canto enquanto ele apontava sua arma diretamente para o rosto de sua desavença. —Não há palavra conhecida sobre a força de Kouzuki Menma, mas eu acho que terei que espanca-lo um pouco antes de descobrir do que valem as provocações de uma cobra.
Tanishi se colocou na frente de seu irmão, abraçando seu dorso numa parva tentativa de para-lo em seu caminho ao passo de que o sorriso antes escondido no canto agora se expandia de maneira diabólica por todo o rosto do Ho'Kitsune.
—Parem com isso, vocês dois! Agora não é hora pra isso!- disse enquanto seus pés eram arrastados, pela areia.
Por outro lado, Koiko se colocou na frente de Menma, braços cruzados sobre seu busto desnudo e uma carranca séria plantada no rosto, como se a sua mera presença nesta posição fosse o bastante para impedir quaisquer intenções do moreno de avançar.
Em resposta, Menma ergueu suas mãos em sinal de rendição, seu sorriso nunca deixando seu rosto e suas pálpebras sempre fechadas.
—Whoa! Não se preocupe! Longe de mim querer lutar contra um "herói de guerra".- disse ele, abrindo levemente os olhos. —"Yamato, A Besta Demoníaca"... aparentemente dão um nome legal e uma recompensa pra qualquer idiota nos dias de hoje...
—Oh! Então você realmente quer cair pro braço comigo?! Devo admitir, você tem bolas! Nesse caso, vamos resolver agora. A cobra e a besta numa luta sem regras até que um morra ou desista. O que você me diz?
Ao fim de suas palavras Yamato parou, pressionando sua clava contra areia quente da praia, deixando-a perpendicular ao chão, soltando-a apenas para mudar a posição de suas mãos, assumindo assim uma postura pronta para o combate enquanto seu irmão seguia movendo suas pernas contra a areia, tentando de alguma forma afasta-lo da briga(conseguindo nada mais do que cavar um buraco).
—Até seria interessante...- começou, seu sorriso se desmanchando e um tom pesado tomando conta de sua voz enquanto que um toque de tédio surgia em seu olhar desinteressado. —Mas seria rude de minha parte humilhar o irmão de um amigo no campo de batalha quando não há necessidade de lutar. Além do mais, demoraria muito te levar pra um médico, não temos tempo à perder.
—Exatamente. Caso as crianças não tenham percebido, não temos tempo pra briguinhas infantis agora. Agora que finalmente conseguimos a ova, estamos muito longe da Capital das Flores e sequer sabemos onde é o ponto de encontro com o contato do Bakuto.
Impôs Koiko, não deixando espaço para questionamentos de nenhum dos dois lados, mesmo que um destes já tenha concordado.
Com um crispar de sua língua Yamato cedeu, relaxando sua postura, recuando um passo — fazendo Tanishi cair de cara — e levando sua clava de volta para o ombro.
—Justo quando ele tava se mostrando de verdade vocês resolvem cortar o clima...- reclamou com um suspiro. —Bom, bom... ok. Contato do Bakuto, vocês dizem?
—Ah, sim!- exclamou Tanishi, emergindo da areia enquanto corria para o esquecido pergaminho, casualmente jogado alguns metros de onde estavam. —Devíamos nos encontrar com ele essa tarde! Ele já deve estar nos esperando! Droga, eu me esqueci completamente do lugar que ele tinha marcado! Se pelo menos eu conseguisse encontrar o local certo nesse maldito pergaminho!
Reclamou ele com um leve desespero na voz enquanto encarava as letras que ele mesmo havia escrito à procura de respostas.
—Pode esquecer. Esse tipo de gente não gosta de ficar esperando, se vocês marcaram pra agora ele já deve ter ido embora.- disse Yamato olhando para o horizonte continente a dentro.
—Essa não, o que vamos fazer?!- exasperou-se Tanishi.
—Vamos dar um jeito e falar diretamente com o Bakuto.- constatou Koiko como se fosse simples.
—Hm... difícil. Os irmãos problemas costumam andar pelas sombras... acho que seria difícil até mesmo pro Raizou-san saber por onde esses dois andam...- opinou Menma.
—Vocês estão com sorte.- de repente todos os olhos se voltaram para o semblante completamente sério de Yamato. —Eu sei exatamente onde Bakuto vai estar essa noite...
—Deixe-me adivinhar...- começou Koiko. —Você quer desafiar eles?
O comentário alarmou Tanishi de prontidão, o que só se agravou quando a postura séria de seu irmão se desmanchou num sorriso perverso.
—Claro! Bakuto " O Pródigo" e "A Morte Gorda" Tekiya... esses dois são infames por onde passam! Eu não perderia a oportunidade de testar minha força contra a lata de um deles por nada!
A ansiedade era visível na maneira como a mão de Yamato que segurava sua clava parecia estremecer com a mera menção de uma boa luta.
Koiko simplesmente suspirou enquanto Tanishi parecia ter entrado em curto, resmungando preocupações à uma velocidade tão grande que ele provavelmente estava lentamente perdendo alguns anos de vida.
—E então.- Menma tomou a palavra. —Pra onde vamos agora?
Não havia qualquer deixe de provocação na voz ou na atitude do moreno, ainda assim, Yamato crispou a própria língua, olhando com desprezo para o homem antes de continuar.
—Vocês vão descansar naquela casa.- disse apontando para um pequeno casebre que ficava no limite de onde terminava o amarelo da areia e começava o verde da terra. —Eu volto mais tarde com umas mudas pra vocês. Talvez algumas máscaras... vai servir pra disfarce.
Enquanto falava ele voltava à caminhar na direção mar, parando somente quando a voz de seu irmão voltou à ser ouvida.
—Disfarces? Pra que disfarces?- olheiras e rugas pareciam ter simplesmente brotado no rosto do adolescente com o surto que ele acabara de ter.
Yamato parou ao lado da carpa que pescara, pés já mergulhados na água. Olhando de volta para o grupo, mas especificamente para seu irmão, ele respondeu.
—Não muito longe daqui há um vilarejo chamado Shinkai. Ele é relativamente novo, um tanto sem lei e tem crescido muito nos últimos anos, tanto no número de moradores quanto no poder financeiro. Bakuto tá investindo muito em alguns negócios por lá, não é difícil encontrar ele pelas noites. Tudo por debaixo dos panos, claro.
—Em Hakumai? Eu pensei que o território dos irmãos problema fosse Ringo.- indagou Menma.
—Ringo é o território da mãe deles. Mas eles?- balançou a cabeça em negação. —Bakuto têm expandido para cá, abrindo casas de aposta, comprando prostíbulos, oferecendo serviços de proteção e agiotagem para as pessoas mais infelizes entre outros negócios sujos. Por outro lado, o único lugar de Wano que Tekiya não têm influência ainda é a Capital das Flores.
Deu de ombros por fim enquanto Menma franzia a testa, fechando-se em uma expressão pensativa.
—Mas...- Tanishi retomou. — Isso ainda não explica... por que precisamos nos disfarçar?
—Primeiro que a roupa de vocês tá um lixo e vocês precisam ter o mínimo de classe se quiserem estar ao lado do grandioso Yamato-sama!
Koiko bufou com a primeira resposta e ergueu uma sobrancelha com o sorriso sardônico que lentamente surgiu no rosto do homem de cabelos brancos logo depois.
—E segundo que tem um motivo para vocês, a dinastia, não saberem da existência daquele lugar... Shinkai é um ninho repleto de rebeldes! E cada um deles adoraria ter a oportunidade de corta a cabeça de um Kouzuki ou dois!
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