A Filha do Senador
20 Capítulo 20
Notas iniciais
— Está mais calma? — Emma perguntou, enquanto lhe afagava os cabelos.
— Sim… — murmurou Regina, puxando o rosto dela para junto do seu.
— Você é tudo o que eu vejo, Regina — disse Emma, beijando-lhe os lábios suavemente. — Tudo que eu ouço, tudo com que sonho. Eu nunca seria uma filha da puta com você.
— Desculpa, amor — disse a morena, encostando a testa na dela. — Quando eu me apaixonei por você, eu tentei reprimir meus sentimentos porque tinha medo de que você não fosse…real. Tive medo de que ninguém conseguisse ser tão mágico como você é pra mim. Isso ainda me assusta. Você ainda me assusta — ela revelou, tocando-lhe o rosto gentilmente. — E então eu vi aquelas fotografias e todos os meus medos vieram à tona. Meu coração quis acreditar em você, mas o medo tomou conta da minha cabeça. Perdoe-me por duvidar de você.
Emma lhe segurou o rosto com ambas as mãos e roçou os lábios no topo da sua cabeça. As pontas dos dedos percorreram-lhe as faces enquanto o olhar tão devoto se fixou diretamente na boca dela.
— Obrigada por acreditar em mim — Emma disse.
— Obrigada você por não desistir de mim — respondeu Regina, cobrindo-lhe o rosto com seus beijos.
Mais uma hora se passou até que elas finalmente se vestiram e deixaram o quarto. Assistindo TV, Ruby suspirou aliviada quando se aproximaram, e o sorriso que ambas exibiam, deixava claro que a paz reinava entre elas.
— Estou muito feliz que tenham feito as pazes, mas da próxima vez, fechem a porta do quarto — disse Ruby, pegando sua bolsa em cima do sofá.
— Para onde está indo? — Regina perguntou.
— Vou almoçar com Mérida. Porque vocês não vem junto?
— É uma ótima ideia. Não é, amor? — disse Regina, e sorrindo, Emma assentiu.
[…]
No dia seguinte, Emma recebeu os resultados da análise feita no resto da bebida em que ela havia ingerido junto com Zelena. Como havia suspeitado, os resultados apontaram a presença de uma substância chamada escopolamina, geralmente usada para fins criminais.
A pedido de Regina, Emma aceitou esquecer o assunto, embora sua vontade fosse procurar Zelena e acertar as contas com ela.
Alguns dias se passaram após a reconciliação que só serviu para que Regina se desse conta de que ela e Emma eram como dois ímãs, colados um ao outro desde o início; até mesmo quando ela ameaçara separá-las, Emma as mantivera juntas.
— Sua ideia de nada serviu! Minha filha continua com aquela maldita mulher! — exclamou Henry, andando de um lado para o outro dentro da sua sala.
— Regina está enfeitiçada por essa morta de fome. Acho que nada do que fizermos servirá para separá-las — disse Robin.
— Não tenha tanta certeza disso…por bem ou por mal, minha filha voltará para casa e terá a vida que eu sempre sonhei e planejei para ela. Nem que seja a última coisa que eu faça.
[…]
Segurando o controle da TV e um copo com água, Emma teve seus pensamentos interrompidos pelo toque da campainha. Consultando o relógio de pulso, ela se perguntou quem seria aquela hora, já que ela não estava esperando ninguém e Regina também não. Alguns dias depois da confusão envolvendo Zelena, elas resolveram que era hora de dividirem um só teto, e a pedido de Regina, Emma aceitou se mudar para o apartamento dela.
Largando o controle no sofá e o copo d’água na bancada do bar, ela caminhou devagar até a porta e se espantou ao ver Cora Mills no hall de entrada.
— Minha filha está? — ela perguntou.
— Sim senhora — disse Emma, afastando-se para que ela entrasse.
— Amor, você sabe onde estão os meus sapatos pretos que comprei ontem? — ecoou a voz de Regina, vindo do corredor.
Ela surgiu na sala olhando para baixo enquanto ajustava seu relógio de pulso. Percebendo que a namorada não fazia ideia de que tinham visita, Emma pigarreou, certificando-se de que fosse alto o bastante para lhe chamar a atenção.
— Mamãe?
— Podemos conversar, Regina?
— Vou deixá-las a sós, com licença — disse Emma, se retirando em seguida.
Após a saída de Emma, o silêncio pairou no ambiente, e cruzando os braços Regina assentiu, perguntando-se quando sua mãe chegaria ao assunto.
— Me perdoe por não tê-la procurado antes — Cora disse, a voz estava embargada e os olhos marejados. — Seu pai não permitiu e…eu não queria piorar uma situação que já estava ruim.
Mesmo com dificuldades para lidar com o sentimento de abandono que rondava o seu coração, Regina sabia que guardar mágoa não seria bom pra ninguém. Tentando ocultar o ressentimento que ainda sentia, Regina a encarou por um instante antes de lhe estender os braços num gesto de aceitação. Trêmula, Cora respirou fundo e soltou o ar enquanto abraçava o corpo de sua filha com firmeza. As lágrimas rolavam livres pelas suas faces enquanto palavras de perdão eram sussurradas num tom quase inaudível.
— Obrigada, querida. Tudo o que eu mais desejo nesse mundo é a sua felicidade, e se isso significa viver ao lado dessa moça, então seja feliz.
— Eu a amo, mamãe…e gostaria muito que papai entendesse e aceitasse isso.
Afastando-se alguns centímetros para observá-la, Cora lhe acariciou o rosto ao mesmo tempo em que lhe enxugava as lágrimas. Um sorriso amargo se formou em seus lábios e um tanto aliviada, ela puxou Regina com delicadeza para se sentar ao seu lado.
— Quero que você saiba que eu não concordei com a decisão do seu pai em lhe tirar o carro, o ateliê…
— Não se preocupe, mamãe. Eu estou trabalhando e o que eu ganho dá pra me virar.
— Tome…não quero que lhe falte nada e nem que use esses transportes públicos. Pode ser perigoso e…
— Mamãe, por favor. Como eu disse, trabalho e tenho meu próprio dinheiro. Não se preocupe…com ou sem transporte público, Emma está sempre comigo. Mas e a senhora…como está? Como tem passado?
— Sinto sua falta em casa, sinto falta da família que éramos…mas estou bem.
Uma longa conversa aconteceu entre elas e a contragosto, Cora se despediu e se foi. Depois de acompanhá-la até a porta, Regina se dirigiu ao quarto onde Emma terminava de se arrumar para ir ao trabalho.
— Você fica tão sexy com esse distintivo e essa pistola na cintura — Regina comentou, enlaçando-lhe o pescoço com seus braços.
— É mesmo? Obrigada pelo elogio — disse Emma, beijando-lhe os lábios. — Como foi com sua mãe?
— Bem…como eu havia imaginado, papai a proibiu de me procurar.
— E não proíbe mais?
— Ela veio sem ele saber.
— Bom, o importante é que você e ela se entenderam.
— Eu a convidei para jantar com a gente essa noite, já que papai viajou ontem e só volta amanhã. Tudo bem pra você?
— Claro, amor. Agora eu preciso ir — disse Emma, cobrindo-lhe o rosto com pequenos beijos. — Comporte-se e qualquer coisa, ligue pra mim.
— Está bem, meu amor. Acompanho-te até a porta.
[…]
— Emma, o delegado quer falar com você — Graham avisou, tão logo ela se acomodara em sua sala.
— Vou lá saber o que ele quer. Obrigada, Graham.
Enquanto se dirigia à sala do delegado, Emma não estava muito certa de que aquele chamado era algo agradável para ela. Desde que seu relacionamento com Regina se tornara público, algo pareceu mudar no comportamento do delegado para com ela, e segundo Graham, a amizade entre ele e o senador do estado era a razão para aquela mudança de comportamento.
Duas batidas à porta e ela teve autorização para entrar.
— Pois não, delegado…
— Swan, preciso de você aqui amanhã bem cedo — disse ele. — Dois vagabundos serão transferidos para o presídio amanhã e como alguns colegas estão de férias, você completará o grupo.
— Sim senhor.
— Bom, como a transferência ocorrerá as quatro da manhã, você está liberada para ir embora e descansar. Pode ir.
— Com licença — disse ela, se retirando em seguida.
Passava das quinze horas quando a porta se abriu e Emma adentrou à sala. Surpresa, ela foi cumprimentada por Cora que bebericava um chá ao lado de Regina.
— Resolvi vir mais cedo — disse Cora, direcionando seu olhar à Emma. — Espero que não se incomode.
— De maneira nenhuma, senhora Mills. Fique à vontade — Emma falou.
— E você, porque chegou tão cedo hoje? — indagou Regina.
— Fui escalada pra fazer a transferência de dois presos amanhã cedo. Bom, vou tomar um banho, com licença.
Um banho rápido, porém relaxante e em poucos minutos Emma já se encontrava na cozinha dando início aos preparativos para o jantar. Virando-se com uma frigideira na mão, ela encarou Regina e sua sogra que se aproximavam entre conversas e sorrisos. Orgulhosa, Emma fez um movimento de pulso, fazendo a massa saltar igualmente como um chef treinado faria.
— Sou muito talentosa, né? — ela perguntou, num tom brincalhão.
— E muito exibidinha também — comentou Regina, antes de explodir numa gargalhada ao lado de Cora quando Emma repetiu o movimento e a massa acabou caindo no chão.
Naquele momento em diante, Regina preferiu assumir o controle a ter que correr o risco de ter sua cozinha destruída por Emma.
As três se sentaram na sala de jantar para uma saudável refeição caseira onde quase todos os pratos consistiam em apenas saladas, e embora detestasse saladas, Emma relaxou um pouco, apreciando mais a conversa do que a comida.
— Obrigada por receber minha mãe com tanta simpatia — disse Regina, juntando-se a Emma na cama.
— Não precisa agradecer, meu amor.
— Claro que precisa. Sei que ela jamais te receberia assim.
— Tudo o que eu faço é por você, Regina. Saiba disso.
— Eu sei…agora me fala, que história é essa de fazer transferência de presos?
— Alguns colegas estão de férias e o delegado me colocou pra compor o grupo.
— Tenha cuidado, está bem?
— Os presos estarão algemados, amor. Nada vai acontecer.
[…]
— Hum que cheirinho bom de panquecas — disse Ruby, enquanto depositava um beijo no rosto de Regina. — Onde está Emma?
— Foi comprar algumas frutas antes de ir para o trabalho. Mas já tem um bom tempo e ela ainda não voltou… — disse Regina, virando-se para encarar a amiga. — Estou ficando preocupada.
— Certamente ela está metida em algum engarrafamento, fica tranquila.
Embora tentasse, Regina não conseguiu evitar que uma angustiante inquietação se apossasse dela. Pela terceira vez, ela discou o número de Emma e suspirou contrariada quando a secretária eletrônica informou que estava fora de área ou desligado.
— É, deve ser o trânsito… — disse ela, tentando se convencer de que Ruby tinha razão.
O som da campainha lhe interrompeu os pensamentos, mas não trouxe nenhum alívio quando ela abriu a porta e deu de cara com dois policiais.
— Senhorita Mills? — um deles indagou.
— Sou eu — disse Regina.
— Podemos falar um minuto com a senhorita?
— Claro… — ela disse, hesitante. — Aconteceu alguma coisa?
— Bom…encontramos um documento seu na carteira de Emma Swan e suponhamos que vocês…
— Por favor, vá direto ao ponto — Regina o interrompeu, lutando contra o vazio que lenta e sorrateiramente invadia seu corpo. — Onde está Emma?
— Ela sofreu um acidente de carro e foi levada para o hospital em estado crítico.
Regina tentava respirar enquanto o caos dominava tudo à sua volta. Uma torrente de lágrimas caía de seus olhos e as imagens de Emma ferida se formavam em sua mente, fazendo surgir uma dor de cabeça brutal.
Ao lado de Ruby, ela se dirigiu ao hospital e tão logo saltou do carro, correu em direção à emergência. Com os olhos já inchados de tanto chorar, ela se apoiou no braço de Ruby em busca de equilíbrio.
— Ela vai ficar bem, Regina…calma… — dizia Ruby, tão assustada quanto.
Quando chegaram à UTI, o médico gentilmente esclareceu a situação de Emma, deixando claro que não havia garantias de que ela sobreviveria.
— Pelo que parece, ela estava sem o cinto de segurança e sofreu uma grave lesão na cabeça. O pulmão foi perfurado pelas ferragens e algumas costelas foram quebradas. O cirurgião dará notícias mais seguras quando acabar a operação — o médico explicou.
Sentindo o corpo amolecer e o coração ser partido ao meio, Regina foi conduzida por Ruby até uma sala de espera. Alguns minutos depois Mérida apareceu, e embora procurasse nos olhos dela e de Ruby, Regina não conseguiu encontrar nenhum lampejo de esperança dentro deles. Sobressaltada, ela se levantou da cadeira quando o cirurgião entrou na sala.
— Por ora, conseguimos controlar a hemorragia interna e estamos fazendo o possível para que ela responda aos estímulos — disse o cirurgião. — O estado dela é bastante crítico.
O silêncio que pairou no ambiente foi o suficiente para que Regina sentisse o desespero tomar conta da sala. Afundando de volta na cadeira, ela cobriu o rosto banhado em lágrimas com as mãos enquanto o medo a envolvia e uma saudade enorme preenchia seu peito. Resistindo a dor, ela finalmente tomou coragem e entrou no quarto onde a mulher que amava parecia repousar. Com dificuldade para respirar, ela deu um passo à frente, hesitante, o coração quase escapando do peito. Em passos lentos, Regina alcançou a cama e tocou a mão dela. Não havia calor, muito menos movimento. A necessidade de beijá-la invadiu o seu corpo, mas o tubo enfiado na boca de Emma a impedia.
— Por favor, Emma…não me deixe, não me deixe…eu preciso de você, amor… — ela sussurrava, tentando abafar o choro com a própria mão.
Ao mencionar novamente sua fala, ela recuou sobressaltando-se assustada com o som de um alarme em um dos aparelhos. Engolindo em seco, Regina cambaleou para trás quando uma enfermeira entrou às pressas no quarto.
— Parada cardiopulmonar! — gritou a enfermeira, enquanto tentava reanimá-la.
Com os olhos arregalados de medo, Regina ouviu a emergência ser anunciada nos altos falantes enquanto um médico acompanhado de mais duas enfermeiras entravam correndo na sala.
— Preparando para o choque…pronto! — exclamou o médico, enquanto uma das enfermeiras colocava dois enormes adesivos sobre a pele dela.
Um choque…e o corpo de Emma saltou. Outro choque, e o corpo dela saltou outra vez. Olhando para o monitor, o médico pediu que fosse aplicada 1 miligrama de adrenalina, mas nada parecia surtir o efeito esperado.
Chorando histericamente, Regina desviou o olhar do corpo inerte de Emma e se fixou no monitor. O coração comprimiu em seu peito quando as ondas em picos da tela se transformaram numa linha reta.
— Horário do óbito: 11h23 — disse o médico.
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