Notas iniciais
Obrigada pelos comentários e favoritos. Boa leitura!

Horário do óbito…

Óbito…

Óbito…

As palavras continuavam ecoando na mente de Regina enquanto um aperto crescia em sua garganta. Os olhos castanhos arregalados ardiam, e as pernas sempre tão firmes, fraquejaram e ela caiu de joelhos no meio do quarto. Naquela noite, no ano em que a vida dela começara a mudar de tantas maneiras lindas, o destino decidira interferir e tirar a razão do seu sorriso de todos os dias. Nunca mais haveria um sorriso antes de um beijo. Nunca mais o coração dispararia com um simples “boa noite” sussurrado ao pé do ouvido porque Emma se fora.

— Regina.

Horário do óbito…

Óbito…

— Regina… Regina! — disse uma voz, mais alto.

Ofegante, Regina abriu os olhos e piscou rapidamente tentando se acostumar às luzes fortes acima. Ainda chorando e com a testa molhada de suor, ela se sentou na cama e jogou os lençóis para longe.

— Amor, você está bem?

Olhando na direção da voz, com o coração aos pulos, Regina levou a mão à boca e começou a chorar histericamente enquanto os braços de Emma lhe envolviam o corpo.

— Calma, meu amor…calma… — sussurrou Emma. — Ei, se acalme querida…

— Você estava morta… — ela choramingou, enquanto passava as mãos pelo rosto dela. — Você saiu e…sofreu um acidente…

— Amor, eu tô aqui. Foi só um pesadelo.

— Que horas são? — Regina perguntou, ainda trêmula.

— São 03h30 da manhã. Eu estava me arrumando para ir ao departamento…lembra que hoje terei que fazer a transferência de alguns presos?

— Lembro e não quero que você vá — disse ela, jogando-se em seus braços. — Estou com um mau pressentimento, Emma.

Emma tomou o rosto avermelhado de Regina nas mãos e enxugou suas lágrimas com os polegares. Olhando fundo nos seus olhos, ela abriu um pequeno sorriso.

— Foi só um pesadelo, amor…não vai acontecer nada, está bem?

— Promete?

— Prometo, meu amor…eu prometo. Agora volta a dormir porque ainda é cedo.

— Não sei se vou conseguir dormir…

— Então eu vou ligar pra Ruby e avisar que te deixarei lá, está bem? Não quero que fique sozinha pensando o que não deve — disse Emma, e por sorte, Ruby atendeu.

[…]

Ao lado de dois agentes, Emma caminhou em direção à viatura e em silêncio, se acomodou junto aos detentos no banco traseiro. Observando a paisagem enquanto pensava em Regina, ela nem percebeu quando o carro estacionou logo atrás de um outro veículo parado no acostamento.

— Me dê a sua pistola, Swan — disse um dos agentes, com o cano da arma direcionado a ela.

Em choque, Emma chegou a pensar que se tratava de uma brincadeira, mas esse pensamento rapidamente desapareceu quando os dois detentos se livraram das algemas e sacaram suas respectivas armas. Foi então que ela percebeu que nunca houvera transferência nenhuma, e que na verdade, aqueles dois homens que ela inocentemente acreditou se tratar de dois delinquentes, eram, na verdade, dois policiais disfarçados.

— Se fizer alguma gracinha, nós atiramos — disse um deles, e claramente assustada, ela retirou a pistola da cintura e entregou ao agente.

…

— O que está acontecendo? Por que estão fazendo isso? — Emma perguntou, enquanto era algemada.

— Você mexeu com quem não devia, e agora vai pagar por isso — disse o agente, abrindo o porta-malas.

Embora estivesse algemada, Emma ainda tentou reagir, mas foi impedida quando um dos policiais lhe acertou uma joelhada no estômago. Se contorcendo de dor, ela foi colocada no porta-malas e em seguida, o veículo que já estava banhado de gasolina, foi empurrado até despencar barranco abaixo.

— Vamos embora — disse um dos policiais.

— Não seria melhor esperar um pouco? — indagou um outro.

— Esperar o que? Que passe alguém e nos veja aqui? A essa hora, ela já está morta devido a queda e não vai demorar para que o veículo pegue fogo. Agora vamos antes que nos vejam.

[…]

— Anda, Regina…você termina esse quadro depois.

— Não posso. Dentro de uma semana ocorrerá uma exposição e preciso terminar o quanto antes.

— Eu prometo que compro um dos seus quadros, mas por favor, vem comigo — insistiu Ruby.

— Essa ansiedade toda porque vai comprar um presente pra Mérida?

— Mas é claro. Você sabe que sou um desastre quando se trata de escolher presentes — disse ela, e antes que Regina pudesse responder, o som da campainha interrompeu a conversa. — Pode deixar que eu abro — Ruby falou, e tão logo a porta foi aberta, Regina deixou cair os apetrechos que trazia nas mãos quando seus olhos cruzaram com a figura do chefe do departamento de polícia onde Emma trabalhava. Inevitavelmente, imagens do pesadelo que tivera invadiram sua mente, e em silêncio, ela rezou para que Emma estivesse bem.

— Senhorita Mills, posso falar um minuto com a senhorita? — ele perguntou, adentrando o cômodo quando Ruby se afastou para que ele entrasse.

Engolindo em seco, Regina não conseguiu formular nenhuma palavra, mas manteve os olhos fixados nos dele, enquanto o coração parecia querer explodir no peito.

— Bom… — ele começou. — Sei que a senhorita é companheira da agente Swan e…

— Onde está Emma? — ela o interrompeu, a voz embargada e os olhos marejados.

— A agente Swan sofreu um acidente essa manhã e…

— Emma…eu quero saber onde está Emma! — ela gritou, não contendo o pranto.

— Infelizmente, ela morreu.

Com os olhos encharcados de lágrimas e o coração pesado de tanta dor, ela se recusou a acreditar nas palavras daquele homem, e num ataque de fúria, ela lhe esmurrou o peito diversas vezes.

— Mentira! Mentira! — gritava ela, enquanto o golpeava e o empurrava para fora do seu apartamento.

— Senhorita, eu sinto muito…

Em choque e sem conseguir segurar as lágrimas, Ruby se aproximou dela e a puxou para junto de si. Os braços trêmulos de Ruby envolveram seu corpo e as duas caíram de joelhos e choraram juntas.

— Meu Deus, não…não pode ser…não Emma… — ela murmurava, enquanto a vista se borrava em lágrimas.

Um vazio jamais sentido antes invadiu o seu peito, e apesar da notícia que acabara de receber, ela não queria desistir de Emma. Mas em algum lugar no fundo da sua mente, sussurros nocivos lhe diziam que ela se fora para não mais voltar.

— Bom…com licença, senhoritas — disse o delegado, se retirando em seguida.

Poucos minutos após a saída dele, Cora Mills apareceu para reconfortar a filha. Os jornais de todo o país transmitiam o que sabiam sobre o acidente, e as imagens exibidas nas reportagens se resumiam ao que restou da viatura.

— Querida…vai ficar tudo bem… — Cora sussurrou, afagando-lhe os cabelos.

— Ela não pode ter me deixado, mamãe…não pode. Ela me prometeu… — disse ela, o coração palpitando com tanta força que seus dedos tremiam.

Além de Cora, Mérida apareceu e assim como elas, não conseguia acreditar que sua melhor amiga havia partido. Amparada pelos braços de Ruby, ela afundou o rosto no pescoço dela e chorou silenciosamente.

[…]

Um dia se passou e foi o suficiente para que as autoridades dessem por encerradas as investigações sobre as causas daquele acidente no qual uma agente da polícia havia morrido. Questionado sobre o fato de Emma estar sozinha na viatura, o delegado informou que era apenas uma medida de segurança um agente acompanhar o trajeto da transferência dos presos para o caso de algum imprevisto surgir no caminho. Alegou também que Emma dirigia o veículo porque seu colega de trabalho Graham Humbert, acabou perdendo a hora àquela manhã e por esse motivo, não estava ao lado dela. Embora soubesse que nada disso era verdade, Graham confirmou a história.

No final do dia, ainda que não houvesse o corpo, um funeral foi realizado e todo o departamento se encontrava de luto pela perda da mais nova agente de polícia de Boston: Emma Swan.

…

De volta ao seu apartamento, Regina se jogou sobre a cama, física e mentalmente exausta, tentando controlar a respiração, o tremor do corpo e as lágrimas que não paravam de descer dos seus olhos. A mente girava, sem controle, tentando prever cada cenário impossível.

— Eu sabia…eu pedi para que ela não fosse… — balbuciou Regina, enquanto seu rosto era acariciado por Cora.

— Pelo menos ela se foi fazendo o que amava, filha.

— Ela não podia ter me deixado. Não depois de tudo o que passamos para ficarmos juntas. Ela não podia! — Regina gritou, entregando-se a mais uma crise de choro compulsivo.

Por dolorosos minutos, ela ficava em silêncio, e então a dor explodia em seu peito, seguida de uma torrente de lágrimas. Um manto de tristeza a envolvia.

Algumas horas se passaram e devido ao cansaço, ela acabou adormecendo. Após um demorado beijo na testa, Cora se dirigiu ao quarto de hóspedes tentando fazer o mínimo de barulho possível para não despertá-la. Entretanto, seus esforços foram inúteis e em poucos minutos, os olhos de Regina se abriram e buscaram a mulher que tanto amava, mas ela se fora. Nunca mais dormiria e acordaria ao seu lado.

Com os ombros caídos e o ânimo abatido, ela se dirigiu ao banheiro e quando acendeu a luz, encarou o próprio reflexo no espelho. Os olhos castanhos, antes tão cheios de esperança, não continham o menor sinal de vida. Seus dedos correram pelo próprio rosto, pálido e borrado de rímel. Eram sinais externos do seu coração doente.

Depois de lavar o rosto, ela retornou para o quarto e se deixou cair sobre a cama, com a esperança de conseguir algumas horas de sono, porém isso não aconteceu.

Segundos, minutos e horas se passaram enquanto ela encarava o teto rezando para que se tratasse de mais um pesadelo. Mas durante as horas que se seguiram, ondas de dor penetraram o seu coração e a realidade de que Emma havia partido para não mais voltar, lhe atingiu em cheio.

[…]

Os minúsculos raios de luzes que ultrapassavam as brechas da imensa janela de madeira, despertaram Emma de um sono profundo. Cada um dos seus músculos parecia contundido, mas a dor em nada se comparava a do coração ferido, maltratado. Chorando, ela inspirou fundo e tentou se levantar, mas recuou quando uma pontada de dor lhe atingiu em cheio, quase lhe tirando o ar dos pulmões.

— Não se mexa…

— Onde eu estou? — ela perguntou, tentando reconhecer o ambiente à sua volta.

— Você está na minha casa.

— E quem é você?

— Ninguém importante. E você, quem é? É uma fugitiva?

— Fugitiva? — Emma indagou, claramente confusa.

— Eu te encontrei num barranco aqui perto e você estava com as mãos algemadas.

— Eu sou policial.

— E por que estava algemada?

— Porque fui vítima de uma emboscada.

— Você teve sorte em ter caído longe…o veículo onde você estava explodiu.

— É, eu tive sorte — disse ela. — Qual é o seu nome? — Emma perguntou.

— Milah…meu nome é Milah.

— O meu é Emma. Há quanto tempo eu estou aqui, Milah?

— Alguns dias.

— Alguns dias? Porque tenho a sensação de que foi ontem…

— Olha, sinceramente eu não imaginei que você fosse sobreviver — Milah a interrompeu. — Você teve três costelas quebradas, algumas fraturas e um ferimento muito feio na cabeça. Sua febre era tão alta que chegava a me assustar.

— Você é médica?

— Sim, eu sou.

— E porque não me levou a um hospital?

— Você queria ir para um hospital?

— Não.

— Imaginei.

— Eu preciso ir ao banheiro.

— Sim, você precisa. Com cuidado, por favor…qualquer movimento um pouquinho mais forte, pode piorar a sua situação.

Com uma careta de dor e algumas lágrimas se formando nos olhos, Emma conseguiu levantar e apoiada a uma muleta e ao ombro de Milah, ela finalmente chegou ao banheiro. Seus olhos verdes percorreram o ambiente enquanto mentalmente ela se perguntava que espécie de lugar era aquele onde o amplo banheiro era totalmente adaptado para pessoas com necessidades especiais. Foi então que ela se deu conta de que suas roupas haviam desaparecido do seu corpo, e apenas uma bata lhe cobria a nudez.

— Vem, eu te ajudo — disse Milah, ajustando os suportes que envolviam o vaso sanitário.

— Você vai ficar me olhando? — Emma perguntou, tentando não se mostrar afetada pelo sorrisinho que aquela, até então desconhecida, lhe deu.

— Eu sou médica e você não é a primeira mulher que vejo sem roupa, que ajudo a usar o banheiro ou tomar banho — disse ela, aproximando-se em passos lentos. — Basta apertar esse botão e o suporte te ajudará a sentar sem que você precise forçar o corpo. E para levantar, aperte o botão oposto.

— Eu entendi.

— Estarei por perto…me chame quando acabar.

…

— Porque você tem todos esses equipamentos em sua casa? Aliás, porque transformou sua casa numa clínica? — Emma perguntou, enquanto Milah a ajudava a se deitar novamente na cama.

— Porque tive o meu registro suspenso quando omiti meu relacionamento com um paciente. E você? Porque foi algemada e atirada naquele barranco pra morrer?

— Porque me apaixonei pela filha do senador.