Notas iniciais
Obrigada pelos comentários e favoritos. Boa leitura!

Emma estacionou poucos metros antes do restaurante onde Regina se encontraria com um cliente. Embora não se orgulhasse do que estava prestes a fazer, ela não poderia permanecer com a dúvida atormentando-a cada vez que seus olhos capturavam um fio de mentira refletido nos olhos de Regina.

— Sua reserva, senhorita? — questionou a recepcionista, e em resposta, Emma exibiu seu distintivo.

— Preciso falar com o gerente — disse ela.

— Me acompanhe, por favor.

Emma não conseguiu acalmar seu coração acelerado quando seus olhos pairaram sobre a mesa composta por Regina, Robin, o senador Henry Mills e sua esposa Cora. Ela continuou observando a linda mulher que tinha invadido seu mundo e se apossado do seu coração, porém, uma discreta tossida do gerente fez com que ela desviasse o olhar.

— Sou Archie Hopper, gerente do restaurante. Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, claramente preocupado.

— Preciso ver a lista de reservas — ela falou a primeira desculpa que apareceu em sua mente.

— Mas por quê?

— Só para garantir que a noite seja tranquila nesse estabelecimento. O senhor preza pelos seus clientes, não?

— Sim, claro que sim. Aqui está a lista.

Por alguns instantes, Emma esqueceu a lista de reservas e se perdeu na direção em que Regina se encontrava. Todos sentados à mesa esboçavam largos sorrisos, mas o que realmente lhe chamou a atenção, foram os carinhos trocados entre Robin e a mulher que ela imaginou que fosse sua.

— Estão comemorando o noivado da filha — Archie falou, ao notar que ela mantinha o olhar fixo na direção deles.

— Noivado? — indagou Emma, tentando ignorar a alteração na voz e o súbito aumento em sua temperatura.

— Sim…o próprio senador me disse assim que chegou. Está feliz da vida…mas claro, é a única filha…

O gerente continuou a falar e apesar de encará-lo, Emma não conseguia ouvir uma só palavra do que ele dizia. Uma dor torturante começou a pulsar pelas suas veias, manifestando-se como um câncer terminal.

…

Mordendo o lábio, Regina tentou controlar o pânico que a invadiu quando os seus olhos castanhos cruzaram com os olhos verdes de Emma. O ar ficou pesado e as mãos frias e trêmulas pousaram sobre as próprias coxas. Incapaz de mover um músculo, ela sentiu o coração se apertando no peito enquanto Emma caminhava apressadamente em direção à saída. Impossibilitada de correr ao seu encontro e lhe explicar a situação, ela só podia rezar para que Emma compreendesse.

[…]

Passava das sete horas da manhã quando Mérida serviu uma xícara de café para sua melhor amiga. Emma, ainda descrente do que presenciara na noite passada, sorvia o líquido quente e amargo aos poucos, na esperança de que a bebida forte afastasse seus pensamentos de Regina.

— Estava lá…a família completa comemorando o noivado dela — Emma murmurou, apertando a xícara com uma força desnecessária.

— Eu nem sei o que dizer, Emma…

— Não precisa dizer nada — ela falou, levantando-se em seguida.

— Acho que você não está em condições de ir ao trabalho — disse Mérida.

Uma batida à porta interrompeu a conversa. Ao abri-la, Mérida deu de cara com Regina, e antes que pudesse se manifestar, ela adentrou o imóvel sem ser convidada e quase perdeu o fôlego quando se deparou com os brilhantes olhos verdes de Emma fixos nos seus.

— Precisamos conversar — Regina falou.

Apesar de não querer lidar com nenhuma desculpa esfarrapada que ela estava prestes a dar, não havia como ignorar a sua presença. Com os braços cruzados, Emma sorriu mas sem o menor indício de diversão.

— Estou ouvindo — disse ela. — Qual será a mentira dessa vez?

— Emma…as coisas não são como você está imaginando, por favor…me escute.

— Ah, não? Como uma tola, eu acreditei em você, em nós duas juntas — rosnou ela, claramente magoada. — Quando foi que você voltou com ele?

— É um relacionamento de mentira, Emma. Por favor, acredite em mim.

— Mas que merda você está dizendo?

— Foi a única forma que encontrei para… — ela engoliu em seco, buscando coragem para continuar. — Meus pais estavam desconfiados de mim, imaginando que Ruby e eu tínhamos algo. Então eu conversei com Robin…me assumi para ele e falei que estava apaixonada por alguém. Ele entendeu e aceitou manter esse falso relacionamento comigo diante dos meus pais — Regina explicou, suspirando pesadamente. — Se eu não te falei antes, foi porque temi a sua reação.

— Espera aí, Regina…deixa eu ver se entendi… — disse Emma, aproximando-se em passos lentos e ameaçadores. — Para todos os efeitos, Robin é o seu noivo e com ele você se exibe pelas ruas de Boston, pelos restaurantes com a família feliz toda reunida. Muito bem…mas e eu, Regina? O que eu sou nessa história? Uma filha da puta que trepa com você quando te dá na telha?

Sentindo-se presa na escuridão do olhar dela, Regina temeu que o seu coração parasse por um instante enquanto Emma cuspia as palavras num tom brutal e desprezível.

— Não, amor…não… — ela murmurou, aflita, sem tentar esconder a dor que a esmagava. — Eu te amo, Emma…eu só preciso que você me entenda, por favor…

— Eu entendo, Regina…entendo seu medo de se expor. Eu entendo tanto que aceitei manter um relacionamento às escondidas com você, e sabe por quê? Porque te entendo e porque te amo. Mas você com ele, eu não vou tolerar.

— Por Deus, Emma…eu já te expliquei que é uma farsa…

— Não me interessa! — vociferou Emma. — Você acha mesmo que aquele imbecil vai se contentar com isso? Acha que ele não se aproveitará da situação para te beijar? Para te tocar? Você acha que eu sou idiota, porra? Porque se acha, está redondamente enganada.

— Será só por um tempo, Emma…eu só preciso de um tempo para encontrar uma forma de conversar sobre isso com meus pais, por favor…

— Não é de tempo que você precisa — disse ela, invadindo-lhe o espaço pessoal. — O que você precisa é amadurecer, Regina. E enquanto isso não acontecer, não volte a me procurar.

— Você está terminando comigo? — ela perguntou, os olhos transbordando em lágrimas.

— Não posso terminar o que nem começamos…e sabe qual é a parte mais triste disso tudo? É que, enquanto eu ficava aqui contando os minutos para que você chegasse, não tinha me dado conta de que você já havia partido.

— Emma, eu imploro…por favor, não me abandone… — ela suplicou. Com poucas passadas, Regina a alcançou e sem a menor intenção de deixá-la sair, agarrou-a pelo braço. — Eu te amo…eu te amo como nunca amei nessa vida.

— Mas pelo que parece, esse amor não é suficiente para você lutar junto comigo — disse Emma, seus olhos verdes fuzilaram os olhos castanhos dela. — Eu te amo, Regina. Mas estou cansada de lutar sozinha. — dito isso, Emma abriu a porta e se retirou.

Sentindo as pernas fraquejarem, Regina cambaleou para trás e acabou encontrando o sofá onde cuidadosamente ela se sentou. Levando a mão direita à boca na intenção de abafar o choro, ela se sentia derrotada e arrasada pela agressão provocada por aquele término.

— Eu sinto muito… — disse Mérida, comovida com o estado em que Regina se encontrava. — Quer um calmante?

— Não, obrigada… — ela respondeu, enquanto enxugava as lágrimas, ao mesmo tempo em que se levantava e com passos lentos, caminhou em direção à porta.

Quando o elevador chegou ao térreo, ela deixou o prédio e rapidamente entrou no seu carro. As mãos trêmulas alcançaram o volante, e aquele tremor nada tinha a ver com a baixa temperatura.

…

— Regina? O que aconteceu? — indagou Ruby, tão logo abriu a porta. Em resposta, Regina se atirou em seus braços desabando em um pranto compulsivo. — Regi, o que houve? — Ruby perguntou mais uma vez, enquanto Regina se desvencilhava do seu abraço e caminhava lentamente até o sofá.

Desabando sobre o móvel, ela cobriu os olhos com as mãos e tentou se recompor. Seus nervos estavam em frangalhos e ela só desejava desaparecer.

— Emma terminou comigo…me deixou… — ela disse, fungando.

— Cacete! Como é que é? — indagou Ruby, perplexa. — Mas…por quê?

Depois de relatar o que havia acontecido, Regina caminhou sem vontade até o banheiro, lavou o rosto com água fria a fim de aliviar a tensão e um pouco da dor de cabeça que ela sentia naquele momento. Retornando para a sala, ela se sentou ao lado de Ruby mas, se manteve em silêncio.

— O que você vai fazer?

— Eu não sei, Ruby. Sinceramente, eu não sei.

— Você não pode continuar com essa farsa. Até porque, cedo ou tarde os seus pais saberão.

— Eu preciso pensar…

— Eu sinto muito amiga…eu sinto muito — Ruby falou, acolhendo-a entre seus braços.

[…]

O som do telefone celular vibrando em cima da mesa trouxe Emma de volta para a realidade. Era a quinta chamada que recebia de Regina, e até então, nenhuma havia sido respondida. Ainda que rejeitar suas ligações e mensagens exigisse todo o seu autocontrole, ela manteve sua promessa e não aceitou reatar aquilo que ousou chamar de relacionamento. Regina havia se transformado numa dor diferente de tudo o que ela já havia conhecido. Felizmente, as horas se passaram depressa e quando se deu conta, já estava deixando o departamento.

— Emma, o que está fazendo? — indagou Mérida.

— Encontrei o apartamento que estava procurando e amanhã mesmo estarei me mudando para lá — disse ela, enquanto colocava suas roupas dentro de uma mala.

— Eu fiz algo errado? Olha, se foi por causa do que eu falei sobre a Regina…

— Mérida, isso não tem nada a ver — Emma a interrompeu. — Eu sempre deixei claro que ficaria aqui somente por um tempo, não a vida toda.

— É, eu sei. Mas estava gostando da sua companhia.

— Eu também gosto da sua companhia, mas preciso ter o meu próprio lugar, entende?

— Claro que entendo. Bom, deixa eu te ajudar com isso.

— Obrigada.

— Emma…sei que não é da minha conta…mas você não pretende voltar com ela?

— Não desse jeito. Isso não é um relacionamento.

— Ela ficou arrasada depois que você saiu…

— Eu sinto muito, mas desse jeito não dá — Emma falou, suspirando em seguida. — Minha lealdade sempre foi primeiro para ela, mas a dela nunca deixou de ser primeiro para os outros, deixando-me num distante segundo lugar.

No dia seguinte, conforme havia planejado, Emma deixou o apartamento de Mérida para se instalar em seu novo lar. Largando as malas em um canto qualquer do quarto, ela sentiu seus olhos arderem e as lágrimas brotarem no exato momento em que sua mente vasculhou na memória, as lembranças dos planos que sozinha planejara para ela e Regina. Após enxugar as lágrimas, ela se dirigiu ao departamento de polícia, e embora estivesse mergulhando de cabeça no seu novo trabalho, Regina permanecia em seus pensamentos como uma sombra que nunca a abandonava, simplesmente pairava por ali todo o tempo.

— Emma… — Graham lhe tirou de seus devaneios. — A filha do senador está aí te procurando.

— Diga que eu sai pra atender uma ocorrência…

— Eu já disse que você estava. Desculpa…

— Tudo bem então.

Enquanto caminhava ao encontro de Regina, Emma não deixou de notar os olhares curiosos e sugestivos em sua direção. Poucas pessoas sabiam que ela havia trabalhado como segurança particular da filha do senador, mas muitos, apesar de sua discrição, suspeitavam de sua orientação sexual e talvez começassem a fazer suposições sobre ela e Regina. De sua parte não haveria qualquer problema em relação a isso, já que em momento algum ela sequer cogitou esconder de quem quer que fosse, sua sexualidade. Porém, o mesmo não se podia dizer de Regina.

— O que faz aqui? — Emma perguntou. — Suas…“visitas” podem atiçar a curiosidade das pessoas, não acha?

— Fui te procurar e sua amiga me disse que você se mudou. Onde está morando agora? — ela indagou, ignorando o comentário.

— Não creio que seja da sua conta.

— Emma, por favor…eu estou sofrendo sem você…

— E você acha que eu estou explodindo de felicidade?

— Então volta pra mim, eu te imploro.

— Não enquanto você continuar desfilando com aquele imbecil.

— Eu já te expliquei…

— Não quero suas explicações! Quero uma atitude de verdade. Você tem vergonha dos seus próprios sentimentos.

— Não, Emma…

— Sim! Sim, Regina! Você é covarde.

— Você só está querendo me machucar agora — disse ela, engolindo com dificuldade.

— Quer saber de uma coisa? Talvez eu esteja mesmo! — Emma exclamou, num tom baixo, porém ameaçador. — Talvez eu esteja querendo te machucar tanto quanto você está me machucando. Então é isso, eu vou continuar firme na minha decisão e espero que a minha ausência a machuque a cada minuto, tanto quanto a sua ausência vai machucar a mim — dito isso, Emma deu meia volta e retornou para o seu posto.

Tentando esconder o choque explícito em seu rosto, Regina caminhou apressadamente de volta para o carro, e só depois de dirigir alguns metros, ela permitiu que as lágrimas finalmente escapassem dos seus olhos.