Notas iniciais
Obrigada pelos comentários e favoritos. Boa leitura!

Alguns dias se passaram e embora tentasse, Emma não conseguia avançar em sua busca por alguma prova que pelo menos pusesse em dúvida o caráter do senador, assim como o caráter do chefe do departamento de polícia. Pelo que ficara sabendo, Graham, seu único amigo no departamento havia sido transferido para outra cidade cujo nome não fora revelado. Mas apesar de tudo, seu relacionamento com Regina continuava sólido, ela só não sabia até quando.

— Emma, eu tenho um amigo advogado muito competente e ele poderá te ajudar a desmascarar o senador — disse Ruby.

— Procurar um advogado significa denunciar Henry Mills e o chefe do departamento — Emma falou, suspirando em seguida. — Eu não quero fazer isso sem provas.

— A corregedoria investigará se você fizer a denúncia, Emma.

— Não confio neles…

— Então em quem você vai confiar? Como conseguirá fazer com que os culpados paguem?

— Ruby tem razão, Emma — Mérida se pronunciou. — Sozinha será difícil conseguir provar alguma coisa, mas se denunciá-los, as pessoas competentes investigarão. Nem todos são filhos da puta.

— É…acho que vocês tem razão.

— Então vamos agora mesmo denunciá-los — Mérida falou, e de súbito Ruby e Emma assentiram.

Foi então que elas quase perderam o fôlego quando, ao abrir a porta, depararam-se com meia dúzia de policiais plantados no corredor da cobertura onde morava Ruby. Por um instante, a confusão cruzou o rosto de Emma, mas desapareceu quando a própria raiva a invadiu ao se dar conta do que estava prestes a acontecer.

[…]

— Emma foi presa? — indagou Regina, o rosto exibindo a mais pura expressão de choque. — Mas por quê? Do que a acusam?

— Conspiração contra o senador do estado — disse Ruby. — Também a acusam de ter forjado a própria morte e um monte de coisa…ela está encrencada.

— Não vou permitir que ela fique presa — disse Regina, pegando a bolsa e se dirigindo à porta.

— Para onde está indo?

— Vou falar com meu pai — dito isso, ela se retirou.

Em poucos minutos Regina adentrou o escritório onde o seu pai passava a maior parte do tempo desde que tornara pública sua suposta doença. De súbito, Henry empalideceu quando constatou a forma perturbada com que ela invadiu seu aposento. Em silêncio, ele a encarou desconfiado.

— Emma está presa acusada de…

— Eu sei — ele a interrompeu. — Os canais televisivos não falam de outra coisa.

— Foi você que inventou essa história de conspiração?

— Até quando serei o culpado por tudo de ruim que acontece com essa mulher?

Um silêncio tenso tomou conta do aposento antes de Henry piscar os olhos pesadamente e voltar a se acomodar em sua cadeira. Regina o fitava calada, atingida pela profundidade da tristeza que parecia nublar o rosto dele. Sentiu-se mal por quase acusá-lo de algo que talvez ele não fosse culpado.

— As câmeras de vigilância em torno da mansão capturaram alguém circundando os arredores, como se estudasse a propriedade. A polícia foi informada e descobriu que Emma Swan está viva, e que aparentemente planejava meu assassinato.

— Emma seria incapaz.

— Não é assim que a polícia pensa.

— Tire-a da cadeia, papai.

— Eu não posso fazer isso.

— É claro que pode! — ela exclamou, num tom exaltado. — É hora de mostrar que seu arrependimento é verdadeiro e que teria feito diferente no passado.

Um instante de silêncio e Henry assentiu, assim como concordou em se dirigir naquele exato momento à delegacia onde Emma se encontrava detida. Ainda que supostamente não houvesse uma denúncia de Henry, o delegado de polícia afirmava que Emma permaneceria detida durante toda a investigação, afinal de contas, segundo ele, havia uma suspeita de conspiração contra outros políticos.

Incrédula e abalada, Regina pediu autorização para falar com Emma. O coração afundou ainda mais no peito ao vê-la trancada numa cela. Aproximando-se, Regina respirou fundo, mas de maneira irregular enquanto olhava nos olhos dela.

— Regina, o que faz aqui? Esse lugar não é pra você, amor — disse Emma, segurando-lhe as mãos em volta das grades.

— Nem pra você — disse ela, a voz trêmula de desespero. — Eu vou encontrar um jeito de te tirar daqui, meu amor.

— Vai dar tudo certo, querida. Eu vou sair daqui… — replicou Emma, aflita, vendo o medo estampado no rosto dela.

Chegando mais perto, Regina pressionou seus lábios contra os dela. Os olhos marejados não conseguiram reter as lágrimas por muito tempo. Foi então que Emma sentiu o gosto salgado misturado ao doce dos lábios dela, e esse fato a destruiu por dentro. Nada para ela era mais doloroso do que ver Regina sofrendo.

— Vou contratar o melhor advogado para que…

— Regina, amor… — Emma a interrompeu. — Fica tranquila. Um advogado amigo de Ruby vai cuidar de tudo — acrescentou, a fim de tranquilizá-la, e antes que Regina pudesse responder, um agente interrompeu a conversa.

Após a curta despedida, Regina deixou a delegacia ao lado do pai. O coração desacelerou, mas uma dor esmagadora a atingiu ao mesmo tempo enquanto os olhos verdes nervosos de Emma sondavam sua mente. Seus devaneios foram interrompidos quando a mão de Henry lhe tocou o ombro.

— Falarei com alguns contatos e logo ela será liberada, está bem? — disse o senador, e ao receber um sorriso agradecido de Regina, um suspiro de alívio foi liberado por ele.

Henry estava ciente de que Emma não permaneceria muito tempo na cadeia, ainda que seus contatos na corregedoria e nos departamentos de polícia fossem tantos. E seria através de um dos seus contatos naquela delegacia, que Emma sairia do caminho de sua filha para sempre.

— Filha, para onde vai? Você acabou de chegar com seu pai e já vai sair? — indagou Cora.

— Eu preciso falar com Ruby, mamãe. Não vou demorar — respondeu Regina.

— E não pode falar por telefone?

— Mamãe, por favor.

— Filha, com a história dessa moça que estava morta e agora não está mais. Essas acusações de conspiração…

— As acusações são falsas.

— Tudo bem, querida. Mas por favor, não volte muito tarde.

— Não se preocupe, mamãe. Eu não vou demorar.

[…]

— Onde está Regina? — Henry perguntou, enquanto sentava-se à mesa.

— Disse que precisava falar com a amiga Ruby, mas até agora não voltou — Cora respondeu, analisando as horas em seu elegante relógio de pulso.

…

Uma chuva pesada desabava aquela noite em Boston, e através dos vidros delicados das janelas, Henry e Cora olhavam as pesadas gotas que caiam, enquanto esperavam por notícias de Regina. Segundo Ruby, o contato com sua melhor amiga aconteceu apenas pela manhã, quando ela a informou sobre a prisão de Emma. Esse fato só fez crescer a angustia que sentiam, e em meio ao desespero, o senador pensou em contatar a polícia, mas se deteve ao receber uma misteriosa ligação.

— Alô? Quem está falando? — ele perguntou, a voz tão trêmula quanto a mão que segurava o aparelho.

— Escute bem, senador…eu estou com a sua preciosa filha. Portanto, pense mil vezes antes de acionar a polícia — disse o desconhecido.

— Por favor, não a machuque! Apenas diga quanto quer e…

— Eu não quero o seu dinheiro, não preciso dele. Mas é claro que para devolver sua filha, eu vou querer algo em troca.

— Diga o que quer, mas pelo amor de Deus, não a machuque — suplicou Henry, sob o olhar desesperado de sua esposa.

— Emma Swan em troca da sua filha.

— O que? Mas…

— Amanhã ao meio dia eu ligarei para organizarmos a troca. E lembre-se, se a polícia tomar conhecimento disso, sua querida filha será uma mulher morta — e então a ligação foi encerrada.

…

— Henry…por favor, não me diga que…

— Regina foi sequestrada, Cora. Nossa filha está nas mãos de um psicopata maldito!

— Não pode ser, meu Deus — ela murmurou, esvaindo-se em lágrimas.

— Fique calma, querida. Nós vamos ter a nossa filha em casa, eu prometo.

— Meu Deus, Henry…pague o que eles pedirem, mas por favor, eu quero a minha menina de volta.

— Não sei como poderei pagar o que estão me pedindo.

— Não importa quanto estão pedindo…

— Não é dinheiro que estão pedindo, Cora! — ele a interrompeu. — Eles querem Emma Swan em troca da nossa filha — disse ele, e a expressão perplexa e chocante no rosto dela, curiosamente, pareceu suavizar.

— O que você vai fazer?

— Vou falar com ela a respeito disso. Veremos se ela realmente ama tanto a minha filha como diz amar.

— Ela está presa e por sua culpa.

— Assim como tive o poder de colocá-la na cadeia, tenho também para retirá-la.

Na manhã seguinte, as sete horas em ponto, o senador do estado estacionava seu carro de luxo em frente a delegacia onde Emma permanecia detida. Seguindo as ordens do sequestrador, Henry ocultou todos os fatos das autoridades, e mesmo intrigado com aquela mudança repentina, o delegado deu ordem para que Emma fosse liberada.

— Eu preciso falar com você, Emma Swan — disse o senador.

— Decidiu me matar com suas próprias mãos? Por isso retirou as falsas acusações? — ela perguntou, esboçando um sorrisinho debochado.

— Entre no carro — ele pediu.

— Não vou a lugar nenhum com um crápula feito você.

— Por favor…a vida da minha filha depende disso.

Foi então que Emma percebeu que os olhos dele brilhavam mais úmidos do que o normal. Os olhos redondos, de olhar penetrante estavam tristes. Ela pôde ver a emoção retratada no rosto dele. Talvez de sofrimento e dor. Em choque, Emma tentou dizer algo, mas não conseguiu. O medo pareceu roubar sua voz e os pensamentos começavam a formar cenários assombrosos sobre onde e como estava Regina. Ainda em silêncio, Henry tentou esconder, discretamente, as lágrimas que começavam a descer rosto abaixo, e entre soluços, ele finalmente explicou o que aconteceu.

— Estou disposta a dar a minha vida por Regina, mas antes, você vai confessar tudo o que fez contra mim — disse ela, os batimentos acelerados e o sangue em disparada pelo organismo. — Vai confessar inclusive que sua doença é falsa porque realmente é falsa, não é?

Com a boca entreaberta num arquejo silencioso e os olhos arregalados e cheios de lágrimas, ele encarou Emma numa pilha de nervos e então assentiu. Não existia nenhuma doença e ele estava disposto a confessar tudo o que ela pedisse se esse fosse o preço para ter sua filha de volta.

No apartamento de Ruby, na presença dela e do advogado que registrou toda a conversa, Henry confessou ser o mentor da tentativa de assassinato contra Emma, ressaltando o nome de todos os envolvidos. A questão da falsa doença também foi revelada e ele sabia que tudo isso poderia lhe custar o cargo de senador, mas naquele momento, sua filha Regina era a prioridade.

— Os sequestradores ligarão ao meio dia para definir a troca — disse o senador.

— Não entendo — murmurou Ruby. — Porque querem você em troca e não dinheiro?

— Não sei e nem me interessa — disse Emma, embora tivesse quase certeza do motivo de ser a “moeda” de troca.

— Emma, isso é muito arriscado. A polícia deveria ser avisada — Mérida falou.

— Não! — Henry interveio. — Se a polícia ficar sabendo disso, minha filha morrerá — disse ele, e antes que alguém mais se pronunciasse, seu telefone celular tocou e finalmente, o sequestrador informou o horário e as coordenadas onde seria realizada a troca.

[…]

— Espere, aí! Você vai sozinha e desarmada? Emma, pelo amor de Deus! — exclamou Mérida.

— Dois seguranças do senador irão comigo para trazer Regina de volta — ela explicou.

— E você?

— Eu me viro, relaxa. É uma troca, não é? Eu vou e ela volta, simples.

— Emma…

— Mérida, por favor. Eu já decidi.

Através dos vidros escuros da janela do carro de luxo cedido pelo senador, Emma observava a paisagem e se perdia em pensamentos. Pedir para que ela não fosse tentar resgatar Regina era o mesmo que pedir que não a amasse, que não respirasse. Embora se mostrasse segura, Emma estava com medo, tanto pela vida de Regina quanto pela sua própria vida, mas, ao mesmo tempo, um fio de esperança pairava sobre ela, bem no fundo de sua alma. Sua estrada, apesar das camadas de felicidade, também era calçada por uma necessidade que somente Regina conseguia preencher, e por ela seria capaz de qualquer sacrifício, até mesmo o da morte. Segundo ela, vale a pena morrer se for por amor.

Uma angustiante inquietação se apossou dela quando o veículo parou no local informado. Ao lado dos dois seguranças do senador, Emma não dera nem três passos e seus ouvidos foram castigados com os fortes ruídos dos disparos que a princípio, ela não soube dizer de onde vieram. Com o coração quase saindo pela boca, seus olhos se arregalaram quando os dois seguranças caíram já sem vida junto aos seus pés. Olhando em sua volta, ela se deu conta de que dois homens armados se aproximavam por trás e por um instante chegou a pensar que sua vida acabaria ali mesmo, igualmente aos dois estirados no chão. Foi então que um golpe lhe atingiu a cabeça em cheio, e um segundo depois, o sol que estava prestes a se pôr desapareceu de suas vistas como num passe de mágica, e aquele final de tarde se transformou numa completa escuridão.