— Eu preciso de um telefone. Preciso falar com Regina…ela tem que saber que estou viva.

— Você não pode entrar em contato com ela — Milah falou.

— Por que não?

— Ela viria até aqui e eu serei descoberta.

— Você mantém esse lugar às escondidas?

— Foi a única coisa que me restou.

— Onde está o paciente com o qual você manteve um relacionamento?

— Está morto. Morreu em minhas mãos.

— Como?

— Ele estava doente…ele precisava ser operado e eu não pude deixar que outro médico cuidasse dele porque nenhum deles cuidaria tão bem quanto eu. Mas a operação não foi um sucesso e ele morreu…foi então que descobriram nosso relacionamento e suspenderam meu registro.

— Eu sinto muito…mas eu preciso falar com Regina.

— Você não vai falar com ela.

— Então irei hoje mesmo encontrá-la.

— E posso saber como fará isso? — indagou Milah, sorrindo ironicamente. — Você mal consegue andar. O ferimento na sua cabeça ainda está aberto. Você precisará de no mínimo quatro meses para se recuperar por completo! Nesse estado em que você se encontra, será um alvo fácil para o senador.

— Eu vou desmascará-lo!

— Certo…mas só um detalhe: você tem provas contra ele? Porque será a sua palavra contra a dele. E sem provas, talvez nem mesmo a sua amada Regina acredite que o pai dela está por trás de tudo isso.

Os olhos verdes de Emma fuzilaram o azul dos olhos da mulher à sua frente. Ainda que não quisesse admitir, Milah tinha razão. Ninguém acreditaria que o senador do estado estaria por trás daquela tentativa de assassinato. Talvez, nem acreditassem que o próprio delegado estivesse envolvido. Mediante aquela verdade, Emma sentiu seu estômago mergulhar num poço sem fundo. Pálida, ela fechou os olhos com força enquanto lâminas de ira dilaceravam seu peito, e a sede de sangue crescia em suas veias.

O silêncio se tornou sufocante enquanto Emma tentava ficar inexpressiva, mas apesar de sua tentativa, ela não conseguia. Era possível notar que ela estava prestes a explodir.

— Eu vou ajudar você, Emma — Milah quebrou o silêncio entre elas. — Vou te ajudar a se recuperar e garanto que em breve você estará pronta para enfrentá-los.

— Por que quer me ajudar? Porque está fazendo tudo isso por mim?

— Estou fazendo por você o que faria por qualquer outra pessoa. É o meu dever como médica.

[…]

— Regina, filha…você precisa se alimentar — dizia Cora, sentando-se ao seu lado na cama.

— Eu preciso acordar desse pesadelo… — ela murmurou. — Emma não pode ter me deixado…ela não pode ter morrido.

— Meu amor…você precisa aceitar que…

— Nunca! — Regina a interrompeu. — Nunca aceitarei a ausência dela…nunca.

5 meses depois…

— Fiquei sabendo da doença do seu pai. Como ele está? — indagou Ruby.

— Está bem…quer dizer, ele diz que está bem — disse Regina. — Ele me pediu perdão e disse que se pudesse voltar no tempo, teria feito tudo diferente.

— Pelo menos ele se arrependeu a tempo. E você o perdoou?

— Claro que sim, Ruby. Apesar de tudo, ele é meu pai.

— Tem razão…bom, os médicos disseram quanto tempo de vida ainda resta?

— Não…disseram que tudo depende apenas dele. Pode lhe restar algumas semanas, alguns meses…não se sabe.

— Eu sinto muito, amiga. E sua mãe? Como está com tudo isso?

— Mamãe está preocupada, assustada…por isso tenho ido visitá-los com frequência — disse ela, levantando-se em seguida. — Eu preciso ir.

— Tudo bem…se cuide. Te amo, viu? — Ruby falou, envolvendo-a num abraço apertado.

— Eu também amo você. Obrigada por tudo — dito isso, Regina se retirou.

Em pouco tempo Regina chegou ao cemitério onde estava sepultada a mulher que lhe mostrou o verdadeiro significado da palavra amor. Embora não houvesse corpo, a lápide estava lá, com o nome dela gravado no mármore. Regina engoliu as lágrimas enquanto fragmentos dos momentos vividos ao lado de Emma rodavam em sua mente. Uma fina chuva começava a cair mas ela não moveu um músculo. Permaneceu ali, de pé, o olhar fixado na lápide enquanto esperava um sinal, um sussurro de vida, qualquer coisa que dissesse que Emma voltaria. Mas nada aconteceu. Foi então que os pensamentos danosos a alertaram sobre os anos que se arrastariam, um após o outro, com nada além de pesar pela mulher que ela amara mais do que a si mesma.

[…]

— Mamãe, o que aconteceu? Onde está papai? — indagou Regina, claramente preocupada.

— Está no quarto, filha. O médico já o examinou e o medicou — disse Cora, enquanto enxugava as lágrimas.

— Fique calma, mamãe. Venha, vamos ver como ele está.

Respirando fundo, Regina caminhou ao lado da mãe até o quarto onde seu pai repousava. Levando a mão à maçaneta da porta, ela sentiu um aperto no peito ao ouvir os gemidos de dor de Henry. Cora tapou a boca com a mão na tentativa de abafar o choro, enquanto Regina, segurou as lágrimas e abriu a porta.

— Papai, como está? Como se sente? — Regina perguntou, sentando-se ao lado dele na cama.

— Eu estou bem, querida. Feliz com a sua visita — disse ele, esboçando um meio sorriso.

— Vai ficar tudo bem, papai…

— Regina, minha filha…sei que não me resta muito tempo de vida, e eu não queria morrer sem realizar o meu sonho de conduzi-la ao altar.

— O que está dizendo, papai?

— Robin te ama…aceite se casar com ele. Eu quero morrer sabendo que minha preciosa filha ficou em boas mãos.

— Papai, por favor…

— Você será feliz com ele, filha. E eu morrerei em paz…

Imersa em seus pensamentos, Regina olhou fixamente a figura do seu pai debilitado sobre a cama, e compadecida pelo estado em que ele se encontrava, ela tomou uma decisão que esperava não assombrá-la durante cada minuto que passasse acordada, pelo resto da vida.

[…]

— Obrigada por tudo, Dra. Milah…

— Por favor, me chame apenas de Milah.

— Está bem, Milah. Obrigada por tudo…sem a sua ajuda, a essa altura eu estaria morta.

— Tenha cuidado. O senador é um homem poderoso e tem muitos aliados. Apesar de agora estar com os dias contados…

— Não me importa se ele está com os dias contados por causa da suposta doença que os jornais não cansam de falar…ele vai pagar pelo que me fez…todos eles vão pagar — disse Emma.

— Se precisar de alguma coisa, pode me procurar.

— Obrigada, Milah…até algum dia — dito isso, Emma se retirou.

Os cabelos presos por baixo do boné e os óculos escuros foram o suficiente para que Emma se arriscasse a procurar Regina em seu apartamento. Os pés pareciam ter criado vida própria, mantendo-a naquele caminho incerto rumo ao que esperava ser um novo começo com o amor de sua vida. Conforme ela atravessava a portaria, o nervosismo aumentava, alimentado pela expectativa. Emma não sabia qual seria a reação de Regina ao reencontrá-la depois de quase seis meses de ausência, tempo em que certamente ela chorara e sofrera pela sua “morte”.

Engolindo em seco, ela bateu à porta e cada batida pareceu ecoar o palpitar feroz do seu coração. Minutos se passaram sem que houvesse uma resposta, então ela bateu de novo, com mais força e vontade.

— Atende, por favor… — ela recitou, como numa prece, tocando a campainha dessa vez. — Por favor — murmurou mais uma vez, tocando novamente a campainha.

Recuando alguns passos, ela sentiu as costas baterem na parede. Seus olhos estavam fixos na porta do apartamento de Regina, enquanto as lembranças dos momentos vividos ao lado dela rodavam em sua mente. Por fim, Emma decidiu ir embora e procurá-la em outro lugar.

…

— O que acha de dormir aqui essa noite? — indagou Ruby, enquanto distribuía pequenos beijos pelo pescoço de Mérida.

— Você está me convidando pra dormir ou pra fazer outra coisa?

— Bom, nós podemos fazer algumas coisas e depois dormir…quer dizer, eu não estou te pressionando para que você…para que nós façamos…você sabe… — disse ela, sentindo as bochechas queimarem.

— Eu quero — Mérida murmurou, tomando-lhe o rosto em suas mãos para logo em seguida, pressionar os seus lábios contra os dela. — Não aguento mais… — acrescentou, roçando a ponta do nariz pelo rosto de Ruby.

— Então me diga — sussurrou Ruby. A voz gentil e ao mesmo tempo dominadora. — Quando você não aguenta mais, o que isso significa? — ela perguntou, se abaixando para beijar o pescoço dela.

— Significa que estou molhada — Mérida revelou.

Com os lábios abertos e a respiração entrecortada, Ruby sabia que apesar do desejo, Mérida esperava um beijo pequeno, mas a essa altura, ela não conseguiria beijar de leve e discretamente como vinha fazendo desde que começaram aquele relacionamento. Ruby queria algo mais que beijos, queria isso há muito tempo, e sem tanta delicadeza, ela a puxou para junto do seu corpo. Seus lábios mergulharam nos lábios dela e suas mãos se enroscaram nos cabelos longos e encaracolados. Os seios se pressionaram e um som de tesão e alívio escapou de ambas as bocas.

Mérida gemeu mais alto, e a excitação fez com que suas mãos agarrassem a cintura de Ruby com possessividade, puxando-a para mais perto. Perto o bastante para que pudessem sentir seus respectivos corações martelando no peito.

Depois de lhe tirar a camisa, Ruby a deitou delicadamente na cama e se deitou sobre ela. Seus lábios se moveram do canto da boca de Mérida para o queixo e depois subiram, finalmente percorrendo a curva da orelha.

— Você não faz ideia do quanto eu te desejo — sussurrou Ruby, mordiscando-lhe o lóbulo da orelha. — Penso nisso quase que obsessivamente — acrescentou, deslizando a ponta da língua pelo pescoço dela.

— Agora não precisa mais pensar… — disse Mérida. — Me faça sua — ela pediu, e enlouquecida, Ruby fez menção de lhe tirar a saia, mas recuou quando o som da campainha ecoou no quarto.

…

— Você não vai atender? — Mérida perguntou, tão ofegante quanto ela.

— Não… — murmurou Ruby, fechando os olhos com força mediante a insistência com que aquele ruído invadia o quarto.

— Talvez…seja importante. Não param de chamar…

— É a nossa primeira vez…nada é mais importante do que isso.

— Não vou conseguir ouvindo esse som.

— Uma hora vão cansar de chamar…

— Ruby, vai atender.

— Porra… — ela retrucou, levantando-se a contragosto.

Depois de abotoar a calça e vestir a própria camisa, Ruby atravessou a sala em passos pesados. Sua indignação era tanta que ela nem se deu ao trabalho de se aproximar do olho mágico, e num gesto ríspido, ela abriu a porta e quase desmaiou quando Emma ultrapassou os limites da porta como um furacão. Dando um passo incerto para trás, ela foi tomada pelo pânico no momento em que o olhar de Emma cruzou com o dela.

— Que porra é essa? — sussurrou Ruby, inclinando a cabeça em sinal de confusão, ao mesmo tempo em que esfregava a base das mãos nos olhos.

— O que foi Ruby? Parece que está vendo um fantasma — disse Emma, retirando o boné.

— E eu estou vendo! Você está morta…

— Quem está morta? — indagou Mérida, aproximando-se. — Oh, meu Deus! — ela exclamou, tapando a boca com uma das mãos enquanto os olhos arregalados se fixavam em Emma.

— Caralho, vocês duas vão ficar aí me olhando com essas caras? — questionou Emma, e mesmo em choque, Mérida se atirou em seus braços.

— Meu Deus, Emma…O que aconteceu? Onde você esteve todo esse tempo? — Mérida perguntou, e após alguns segundos em silêncio, Emma finalmente relatou todo o ocorrido.

…

— Minha nossa…nunca imaginei que o senador fosse capaz de uma baixeza dessas — comentou Ruby, perplexa mediante aquela história.

— O que você vai fazer, Emma? Já que a polícia também está envolvida nisso, a quem você vai recorrer?

— Não sei…eu preciso de provas pra poder me manifestar. Mas antes de tudo, eu preciso ver Regina e explicar o que aconteceu — Emma falou, levantando-se enquanto caminhava de um lado para o outro. — Eu a procurei no apartamento dela mas não a encontrei. Como ela está? O que tem feito todo esse tempo? — ela perguntou, estreitando os olhos quando Mérida e Ruby se entreolharam e nada disseram.

Foi então que os olhos de Emma capturaram o convite de design elegante e discreto. As palavras eram simples, e ela perdera a conta de quantas vezes o lera. Emma estava tão concentrada no convite que quase não notou quando Mérida se aproximou e lhe tocou o ombro em sinal de conforto. Erguendo os olhos do anúncio torturante, ela olhou para sua amiga e depois para Ruby. Seu corpo enrijeceu de tensão e uma raiva infernal queimou nos olhos dela e a mandíbula estremeceu. Exceto pela sua própria respiração acelerada, o silêncio pairava no ar, pesando sobre o seu coração.

— Isso não é verdade…não pode ser verdade… — murmurou Emma, engolindo em seco.

— É verdade sim, Emma — disse Ruby. A expressão claramente preocupada. — Regina vai se casar com Robin, e o casamento acontecerá amanhã.