A Filha do Dono
21 O passado de Do Contra pt. l
Notas iniciais
Lá estava eu entre as crianças do primário.
Era fácil me reconhecer de longe, eu era o único que tinha os olhos bem escuros enquanto o resto das crianças tinha castanho ou azul.
Outra coisa que era bem fácil de notar era o meu cabelo, aquele tenebroso cabelo estilo tigelinha (Que por sinal eu odiava, mas minha mãe me obrigava a usar porque era "fofo").
Também era o único ali com o nome estranho..."Maúricio".
Fala sério, isso é nome de velho, eu sei que um dia serei ancião mas não precisa me dar o nome de um pra eu usar a vida toda né?
Era o meu primeiro dia de aula e eu não conhecia ninguém da escola, era só eu e o Alucinado, que era meu ursinho de pelúcia de um olho só, pois um dos olhos dele tinha caído ao longo do tempo (Eu devia ser uma criança problemática pra colocar o nome de um urso de pelúcia de alucinado).
Estava sentado naqueles tatamis que as professoras forram no chão pras crianças se sentarem, brincando com o Alucinado, até que duas crianças se aproximaram de mim.
Era uma garotinha bem novinha assim como eu, tinha os cabelos escuros e presos em duas maria-chiquinhas, estava usando um vestido branco com um casaco jeans e uma fita na cabeça, eu nem ligava pra roupas na época (Até hoje eu não ligo muito, a não ser que seja uma gostosa usando mini-saia), mas ela estava bem bonita.
O garoto parecia ser um maloqueiro daqueles que o pai não assume, usava uma camiseta da Ramones e uma calça jeans preta, junto com uma touca cinza.
Mesmo ele estando parecendo um favelado, eu senti uma inveja enorme dele, porque a roupa dele pelo menos era BONITA, a minha era estilo aqueles mauricinhos filhinhos de papai.
Eu usava uma camiseta azul e xadrez com um casaco de manga curta por cima e uma calça jeans.
Os dois olharam um para o outro e voltaram a me olhar.
A garota finalmente tomou coragem e perguntou se eu queria brincar com eles, eu estava com um pouco de medo de fazer novas amizades porque grande parte da minha vida foi só eu e o meu irmão Mauro (Nessas horas eu agradeço por me chamar Maúricio), mas como não queria ficar ali sozinho, fui com eles.
A menina se apresentou e disse se chamar Magali, e o garoto disse se chamar Antenor Júnior, mas que eu podia chamá-lo de Cascão, pois todos os seus amigos o chamavam assim.
Essa é outra hora que eu agradeço por me chamar Maúricio.
Nós sentamos em um círculo e a Magali e o (Argh) Cascão não tiravam os olhos um do outro, talvez eles se gostassem ou talvez estavam com fogo mesmo.
Estávamos brincando de boa, ou melhor, eu estava brincando de boa, porque a Magali e o Cascão ficavam apenas cochichando no ouvido um do outro e caindo na risada.
Eu não gosto quando as pessoas ficam cochichando perto de mim então eu disse que quem cochicha o rabo espicha.
Me achei o fodão por ter dito aquilo, mas a Magali retrucou dizendo pra eu comer pão com lagartixa.
Se fosse hoje em dia eu teria retrucado mais, dizendo:
Lagartixa Jururu
Enfia ela no teu cu.
Mas na época eu era inocente então eu fiquei quieto e eles continuaram conversando.
Eu já estava ficando estressado com tudo aquilo, mas quando fui me levantar pra sair o Cascão me chamou, eu virei pra trás e cruzei os braços.
Eles se levantaram e ficaram me olhando por alguns segundos, até que Magali finalmente teve coragem de quebrar aquele silêncio dizendo "Por quê você tem cabelo de menina?".
Eu acho que aquilo não estava no script deles, porque Cascão olhou pra ela com os olhos arregalados e depois começou a rir.
Eu fiquei constrangido, eu mesmo odiava meu cabelo mas em todo o lugar que eu ia sempre me achavam fofo e ficavam passando a mão.
Eu não sabia o que responder então fiquei quieto, Magali começou a rir também e gritou bem alto "Gente, olha esse menino, ele tem cabelo de menina".
Todas as crianças pararam o que estavam fazendo pra me olhar, começaram a se aproximar de mim com um olhar de psicopata, parecia que eu era uma aberração de circo ou coisa assim.
Elas começaram a gritar juntas "Cabelo-de-menina, cabelo-de-menina" apontando pra mim e rindo.
Eu fiquei muito triste, aquela magricela metida nem me conhecia e fazia aquilo comigo.
Minha tristeza se transformou em raiva, então eu empurrei a Magali e ela caiu sentada, eu tinha certeza que não tinha doído mas ela começou a chorar, se escandalar mesmo.
Cascão se aproximou de mim e disse que ia falar pra professora, depois disso ele saiu dali e outro menino de cabelo preço e meio dentuço disse "Além de ter cabelo de menina fica batendo nos outros" uma menina loirinha de cabelos enrolados e presos em um rabo de cavalo também retrucou "Que foi? Tá com inveja do cabelo dela?", todas as crianças riram com esse cometário, mas elas começaram a se afastar quando uma mulher bem alta de cabelos castanhos presos em um coque complicado, usando um óculos fundo de garrafa e um vestido rodado chegou: Era a professora.
Ela me perguntou porque eu tinha batido na Magali, e eu tentei me defender explicando que ela tinha trazido aquela multidão de pirralhos pra zoar o meu cabelo de comercial de shampoo, mas ela nem quis me ouvir e disse que se eu colocar a mão, eu perco a razão.
Eu fiquei muito bravo, sentei no chão, cruzei os braços, enchi as bochechas de ar e fiz o maior bico do mundo.
A professor nem ligou, e disse que dá próxima vez eu ia pra diretora, mostrei a língua assim que a mocreia deu as costas.
Magali que antes faltava morrer de chorar, enxugou as lágrimas em um segundo e começou a rir, não só riu como gargalhou.
Cascão também não conteve o riso.
Os dois pegaram na mão um do outro, me mostraram a língua e saíram dali saltitantes e risonhos que nem João e Maria.
Eu não pude segurar o choro, as lágrimas escorreram do meu rosto e eu fiquei com o rosto inchado depois, de tanto chorar.
Continua...
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