A Filha De Hermes
2 Conheço um nobre problemático.
Notas iniciais
Acordei meio atordoada. Eu estava deitada numa maca, em uma espécie de enfermaria ou, para melhor dizer, em uma espécie de enfermaria para mendigos. Tipo, eu não quero dizer que o lugar só havia mendigo, que é sujo e mal cuidado e tudo mais. Quero dizer que era simples demais.
A enfermaria era feita de madeira, com camas em todos os corredores. Nem tinha corredores. Era só uma parede no meio. E provavelmente, do outro lado, tinha mais camas. Havia mesinhas com seringas, potes de remédio e tal. A maioria dessas mesinhas era assim. Havia uma mesa, um pouco maior que as outras, com torrões de açúcar em cima – ou sei lá o que- e um cantil com uma bebida que parecia suco de abóbora. E só de olhar para o suco de abóbora, na minha mente, meio que apareceu um flash back de um menino me fazendo tomar esse suco. Ele disse:
-Vai te fazer se sentir melhor.
Acho que só isso. Fora do flash back, vi uma cabeceira do lado da minha cama, que tinha um copo com o suco de abóbora. O gosto devia ser muito ruim, amargo. Coisas como essa me deixaria com um gosto estranho na boca e a garganta seca, mas eu não sentia nada disso. Apenas um gosto agradável como o café que minha tia faz.
Perto da cabeceira, havia um menino sentado num banquinho. Ele mexia freneticamente os dedos, depois eu percebi que ele estava mexendo num monte de peçinhas – parafusos, molas, metal etc-. O garoto tinha cabelos pretos encaracolados, uma feição de elfo (parecida com a minha) e aparentava ter uns 15 ou 16 anos. A pele era um tanto escura, mas nem tanto. Eu não conseguia ver a cor dos olhos. Eu poderia ter achado ele um pouco atraente. Um pouco.
Ele usava uma camiseta laranja, escrita “Acampamento Meio sangue” e uma figura de um homem-cavalo (como se chama mesmo? Minotauro? Ah não... É centauro) cavalgando e com uma flecha encaixada num arco, e usava um suspensório. Ele usava jeans com cortes no joelho e tênis preto.
Por um momento estranho, eu pensei no meu hamster. Sei lá por que. Enfim...
Eu me sentei na cama, com a cabeça doendo e um pouco tonta. O menino me viu acordando e disse:
-Então a bela adormecida acordou? – ele sorriu e parou de mexer na geringonça que construía e colocou-a em cima da cabeceira. Consegui ver os olhos dele, que era castanho escuro penetrante.
-Não sei onde estou, não sei quem é você, tenho muitas perguntas e...
-Calma aí, apressada. – ele me interrompeu. – Você está no Acampamento Meio Sangue e eu sou Leo Valdez. Mais perguntas, de preferência sem pressa?
-Tá legal. Será que, fazendo um grande favor, a senhoria poderia me dizer o que diabos seria Acampamento Meio Sangue? — perguntei
-Senhoria? – ele disse, com um tom de sonhador. – Gostei disso. Bom, o Acampamento é basicamente um acampamento de verão para meio-sangues. Meio sangues é basicamente uma pessoa meio deus e meio humano, se a vossa senhoria gostaria de saber.
-Então o que estou fazendo aqui? – falei- quer dizer, nesse meu estado eu não estou me sentindo nem um pouco divina, quem lhe dera ser metade deusa.
-Eu não sei explicar essa parada toda de deuses e seus filhos para os novos semideuses que chegam ao Acampamento e tudo mais. Talvez Annabeth te explique melhor. – ele pegou sua geringonça da cabeceira e voltou a mexer nela. Depois dessa super explicação que ele me deu, me ignorou completamente. Comecei a ficar com raiva.
Olhei para as minhas roupas. Ainda usava as mesmas de antes, shorts jeans e uma camiseta com estampa do Homer Simpson. Só agora tinha percebido a atadura no meu braço, onde fui atacada pela mulher-cobra. Como um sobressalto, lembrei de que fui atacada por uma mulher cobra e de que ela me chamou de semideusa. Metade humana, metade deusa. O que diabos estava acontecendo?
Levantei da cama e encarei o tal Leo Valdez.
-Cara. – eu disse, com um tom severo- eu não sei o que está acontecendo, não sei a onde estou. Só sei que fui atacada por uma mulher-cobra enquanto ia pra casa. Minha tia deve estar desesperada com meu sumiço, seja lá quanto tempo eu fiquei nessa droga de enfermaria. Eu estou com um braço latejando e quase nem o sinto, e você ainda me faz essa SUPER HÍPER EXPLICAÇÃO na qual me faz me sentir ainda mais confusa. Eu não sou de ficar mandando em ninguém e também não peço com educação as coisas pras pessoas que me fazem perder a paciência, mas ou você me explica o que está acontecendo – cerrei os punhos- ou terei que tomar uma atitude.
Leo me olhou, com os olhos brilhando num transe ou sei lá o que. Tanto faz.
-Ual – disse, ainda transe ou sei lá o que- ahm, quer dizer... – ele balançou a cabeça- Desculpe, é que realmente não sei explicar essas coisas. É confuso. Vou tentar explicar, tudo bem? Não precisa tomar nenhuma atitude que prejudique a minha saúde e minha beleza...
-Da qual você não tem.
-... mas mesmo assim, vou tentar explicar. Semideuses são filhos de deuses gregos ou romanos. Os deuses descem a terra, se apaixonam por mortais e tem filhos, que são chamados assim. Os semideuses, nós, ahm, temos um cheiro...
-Bom ou ruim? – perguntei, interrompendo-o. Ele hesitou.
-Sei lá. Continuando, temos um cheiro que atrai monstros mitológicos, tipo a dracaenae que te atacou, e os monstros tentam nos matar, ou nos jantar, tanto faz. E esse cheiro, só começa a ficar forte aos 13 anos, mais ou menos. Tem alguns semideuses, como eu e a minha amiga Piper, que só percebe que é um semideus com mais de 13 anos. Mas em todo o caso, só há um lugar seguro para nós, ou dois, que é o Acampamento Meio Sangue e o Acampamento Júpiter. Aqui, nós somos treinados para nos defendermos de monstros no mundo mortal. Alguma dúvida?
-Eu sou filha de um deus? Como assim? Eu não devia ser, sei lá, mega poderosa e divina pra ser filha de um deus? Eu sou uma problemática! Tenho hiperatividade e transtorno de déficit de atenção, e não tenho amigos. Que eu saiba, filha de um deus deveria ser bem melhor do que isso. Deveria ter cabelo legal, pele brilhante e...
-Por acaso eu tenho cabelo legal e pele brilhante? – ele disse, me interrompendo- eu sou um semideus, e acho que não tenho um cabelo legal e pele brilhante. Nem sou super poderoso e divino. Nenhum semideus é assim, tão... foda. Eu também tenho TDAH, e pra completar sou disléxico. A maioria dos semideuses tem TDAH e dislexia e isso eu não sei explicar o por que.
Eu poderia ter perguntando mais coisas, ter falado que tinha entendido ou que queria conversar com a tal Annabeth para entender melhor essa bagaça toda. Mas, ao contrário disso, eu falei:
-Seu cabelo é bem legal.
Leo corou.
-Ahm... o quê?
Dessa vez, eu que corei.
-Nada.
-Ady, né? Grover te trouxe pra cá e explicou o que aconteceu. – ele perguntou.
-Aham. Na verdade, Adália. Mas prefiro Ady, por que sim.
Leo esbanjou um sorriso. Ele ia dizer alguma coisa, mas um menino entrou na enfermaria. Ele tinha cabelos pretos, olhos verde-mar e era alto. Usava uma camiseta igual a do Leo e jeans surrados.
-Acordou? Finalmente. – o garoto disse. De repente, percebi que era esse o garoto que tinha me dado o suco de abóbora. – Ela já foi reclamada?
-Reclamada? Como assim reclamada? – cruzei os braços- por que alguém iria reclamar de mim? Eu só fiquei deitada nessa...
-Não, não. – o garoto me interrompeu- ninguém reclamou de você. Estou perguntando se o seu pai ou mãe divino já te reconheceu como filha. Ahm, o Leo pelo menos te explicou sobre os deuses?
-É, mais ou menos. Explicou que eu sou uma semideusa e blá blá. Isso aí eu já entendi. Só não sei quem é meu pai ou minha mãe.
-Você não conheceu nem um dos dois? – perguntou, depois hesitou- quer dizer... se você conhecesse seu pai, poderíamos dizer que você é filha de uma deusa, e se você conhecesse sua mãe...
-Meu pai seria um deus. –completei.
-Sim. Está entendo rápido. Bom, sou Percy Jackson. E você deve ser Ady?
-Adália Manson. Mas prefiro Ady.
-Eu ia cuidar de você agora, mas como já acordou, vou dar aula de esgrima. Prazer em te conhecer. – Percy disse, esticando a mão para mim.
-Tá legal. – eu disse, apertando a mão dele, que foi em direção a porta e saiu.
Leo foi até a mesa grande, com os sucos de abóboras e torrões de açúcar. Ele pegou o suco e deu a mim.
-Parece ruim, mas não é, ok? – ele disse- Néctar é uma bebida dos deuses, que faz os semideuses se recuperarem automaticamente. Mas não tome muito, por mais que seja delicioso. Não queremos ninguém se transformando em cinzas.
-Isso é suco de abóbora? – perguntei, olhando com nojo pro néctar.
-Não, oras. É néctar. Tome.
Eu assenti e peguei a bebida da mão dele. Por uma fração de segundos, pensei que o gosto seria de bosta de cavalo batido em liquidificador junto com abóbora (não que eu já tinha experimentando bosta de cavalo). Mas quando eu tomei, tinha gosto do café com leite que minha tia fazia pra mim. Aquele com espuminha e tudo. Eu me senti muito bem, como se pudesse correr 100 km ou lavar a gaiola do Joseph Milton milhares de vezes, sem sentir o cheiro das cacas dele. Eu sei que parece nojento, mas é verdade. Enfim.
-Como se sente? – Leo perguntou.
Eu ia falar: “como se pudesse lavar a gaiola do meu hamster muitas vezes, sem sentir o fedor.” Mas hesitei, claro. Seria estranho se eu falasse isso. Mal conheci o garoto e ele já iria pensar que eu tenho problemas mentais? (o que não é totalmente mentira). Acabei dizendo:
-Como se pudesse dar um soco no Chuck Norris sem quebrar a mão.
-Isso é ótimo, eu acho. Então – disse, colocando o cabelo atrás da orelha. – a vossa senhoria me daria a honra de me conceder sua companhia, para lhe apresentar o nosso nobre Acampamento? – ele estendeu a mão, com um gesto antigo e me reverenciou.
-É claro, nobre Leo. Mas, por favor, chega dessa viadagem.
Leo riu.
-Vamos lá.
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