A Filha Da Magia
16 Capítulo 16 - Rebelião De Mortos
Notas iniciais
Seguimos pela porta do meio, que se transformou num corredor escuro e frio. Mais uns passos e se transformou na entrada da casa de Hades. Era um caminho pedregoso, envolto por jardins de flores que nunca vi na minha vida. A casa era uma mansão, na verdade. Com os telhados em forma de “/” e a aparência de um castelo, sem torres, mas com gárgulas estranhas. A casa era de mármore preto, parecida com o chalé de Hades no Acampamento Meio-Sangue.
Assim que Hades pisou na escadaria pequena que levava à porta de sua casa, suas vestes mudaram. Ele passou a vestir uma túnica negra com... Aquilo eram rostos?
Rostos retorcidos com dor e agonia se mexiam aqui e ali na túnica. Quando entramos na casa do deus dos mortos, o que não faltavam ali eram crânios humanos. Uma mulher — viva — estava parada, nos observando.
— Perséfone, mulher! — repreendeu Hades — Faça uma cara mais... Receptiva para nossos convidados! — ordenou o deus.
— Não tenho que fazer cara nenhuma para esse... Seu filho. — disse Perséfone. Ela mexeu nos cabelos e saiu da sala de estar.
Hades foi mais adiante e subiu três degraus, e sentou em um trono todo rodeado de crânios humanos. O deus colocou uma mão apoiando o queixo.
— Então... — ele falou — porque vocês vieram aqui?
— Viemos resgatar Hécate, já lhe contamos isto, pai. — disse Nico.
— Ah, claro. Tanto tempo vivo que minha memória está começando a falhar... Eu preciso de uma dose de ambrósia de vez em quando. Ser um deus não é nada fácil, sabe? — ele perguntou.
Eu fiquei calada. Hades gargalhou.
— É claro que vocês não sabem, vocês não são deuses... Mas voltando ao assunto, Hécate não está aqui.
— Como assim, minha mãe não está aqui? — eu questionei.
— Na verdade, ela estava há pouco tempo. Ela deu uma saidinha. — disse Hades.
— Saidinha? — eu perguntei.
— É... Eu a convidei para passar férias aqui e ela aceitou. Tudo bem, quatro semanas é pouco, mas foi tudo o que meu irmão Zeus permitiu. Quem precisa de férias é ele, vou falar com ele para ver a Carteira de Trabalho Divina, a nossa famosa CTD. — ele disse.
Famosa para vocês, eu pensei.
— Mas isso quer dizer que Hécate ainda está no Mundo Inferior? — eu perguntei.
— Sim.
— Mas... E a profecia? — perguntei, incrédula.
— Recite para mim, minha futura nora, a profecia. — pediu Hades.
Tente me lembrar dos versos e, ignorando o “minha futura nora” de Hades, comecei a recitar:
— “Uma meio-sangue, filha da deusa menor
filha da Magia, para se expressar melhor.
A filha da Magia e o filho do Mundo Inferior se juntarão nesta jornada,
para resgatar a deusa da Magia aprisionada.
Enfrentarão dificuldades, pois nada é fácil,
a filha da Magia precisará ser esperta e ágil.
Mas uma surpresa os aguardará, ao final da missão:
eles decidirão, de serão a desgraça do Olimpo, ou não.”
— Muito bem... — disse Hades — a profecia disse que Hécate estava aprisionada. Mas... Aprisionada aonde? Aqui é que ela não estava. Façam um seguinte: obrigado por virem me visitar e tudo mais, agora vão procurar Hécate que foi dar um rolezinho por meu reino, e vejam se ela está aprisionada... Em qualquer tipo de prisão.
Ao mesmo tempo, um toque estridente de um celular tocou.
Hades balançou a mão, e um celular apareceu nela. Hades atendeu:
— Alô, Caronte? Está tendo uma rebelião de mortos? Sim, eu sei... Sim, prossiga. Hmm, a fila está muito lenta mesmo. Mas o que eu posso fazer? Ressuscitar meu pai Cronos para acelerar o tempo eu não posso. Terá que tomar conta disso amigo — falou o deus. — Como assim, não vai? — Hades colocou a mão na cabeça — Eu te dou um aumento de três dracmas de ouro no seu salário. Certo, tchau.
Hades desligou o celular.
— Alguém tem três dracmas para me emprestar? Caronte quer o aumento adiantado e o orçamento aqui está meio que negativo. — disse Hades.
Depois de dar três dracmas para o deus dos mortos, que me agradeceu dando um abraço apertado, nós saímos da casa e Hades e caminhamos à procura de Hécate. Hades saiu de sua casa e foi brincar com Cérbero.
—————
Achamos minha mãe conversando com um morto nos Campos Asfódelos.
— Qual o seu número do Deathsapp? — ela o perguntou — Não conheço esse aplicativo, mas posso baixa-lo no Hermes Store. Eu tenho o Godsapp, por que você não baixa também?
Eu me aproximei.
— Mãe? — perguntei.
Hécate se virou para mim e disse:
— Olá.
Depois ela se virou e continuou a conversar com o morto, que a atravessou e continuou seu caminho sem rumo.
Hécate se virou para mim, como se estivesse acabado de me reconhecer.
— Sophie? — ela perguntou. Ela sorriu e veio me abraçar.
Eu já estava chorando antes dela me alcançar. Eu poderia pergunta-la qualquer coisa, mas a única que veio em minha mente foi:
— Porque você me abandonou?
Minha mãe segurou meu rosto em suas mãos e enxugou minhas lágrimas com seu polegar.
— Eu não te abandonei, filha. Eu precisei... Os deuses não podem ter contato com os filhos. Eu espero que você entenda, querida. — disse minha mãe.
Eu queria ficar com raiva dela, mas eu não conseguia. Afinal, ela era minha mãe. A mãe que eu nunca conheci.
Mas eu resolvi ir direto ao ponto:
— Mãe, você não estava presa?
— Presa? Ah, a profecia. Pela primeira vez, a profecia esteve errada, querida. Eu estava presa, sim, mas eu estava presa na minha conversa com o morto... O que vocês estão fazendo aqui?
— Viemos resgatar você porque pensamos que você estivesse presa. — disse Nico — Mas... Pelo visto, você não está. Pensamos que Gaia houvesse te sequestrado, mas não sequestrou. Clítio está à solta, indo acordar seus irmãos gigantes... A não ser que nossa aventura tenha sido...
— Uma distração. — eu terminei para Nico. Ele concordou.
Ao mesmo tempo, um arco-íris brilhou e Clarisse la Rue apareceu.
— Nós precisamos de vocês urgentemente. Tudo foi uma distração e... Os gigantes estão atacando o Acampamento. Pégaso e os cavalos alados estão ajudando os semideuses do Acampamento Júpiter a vir nos ajudar, mas temo que seja tarde demais. Clítio está no comando, engolindo nas sombras tudo o que vê pela frente... Precisamos de vocês! — uma bomba soou atrás dela e a mensagem foi apagada.
Eu olhei para Nico.
— Vou convocar os deuses. — disse Hécate. — Essa luta não será só de vocês.
— Sophie e eu iremos ao Acampamento Meio-Sangue. — Nico tirou da mochila o apito que Jason lhe deu.
Nico fez não-sei-o-quê com sua magia de filho de Hades, e voltamos ao beco sem saída. Nico soprou o apito, e nada aconteceu.
— O quê? — ele perguntou, sem acreditar muito no que havia acontecido.
De repente, os ventos começaram a se agitar e duas massas cinzentas começaram a descer do céu, rodopiando igual a um furacão.
Os venti.
Aproximaram-se de nós, balançando nossos cabelos e os soprando em nossos rostos. As massas cinzentas se aproximaram mais de nós até que já estávamos dentro delas. Uma me levantou, e a outra fez o mesmo com Nico. E numa velocidade impressionante, nos levaram até o Acampamento Meio-Sangue.
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