A Exilada
28 Quarto 203
Notas iniciais
— Como você está? — Ela parecia realmente aflita, cerrando os punhos e andando de modo inquieto, pelo quarto 203 do Hospital Holland Reed, batizado em homenagem à um dos maiores heróis de Demácia..
— Já estive melhor. — As palavras foram fracas, embora ainda carregadas pelo forte sotaque. — Você não devia estar aqui.
"Não, eu não devia", ela concordou em pensamento. Mas como poderia abandoná-la agora? Como poderia simplesmente deixá-la lá, após tê-la baleado pelas costas? "Eu fiz o que achei ser certo...", a vozinha em sua cabeça lhe perdoava e açoitava ao mesmo tempo. "Porra, Fiora!"
— Os noxianos iniciaram um cerco. Quer dizer que temos tempo. Talvez não muito, mas algum. — Ela sussurrou. — De qualquer modo, eu tenho que voltar para minha unidade logo. — Passou a mão no nariz, olhando a mulher deitada nos olhos. — Eu entendo perfeitamente se você não me quiser mais por perto.
Fiora sorriu fraco, os olhos quase fechados. A anestesia forte que lhe inebriava os sentidos dificultava extremamente a tarefa de permanecer acordada e manter aquela conversa.
— Eu nunca iria te odiar por cumprir seu deve, Shauna. — Ela a olhou nos olhos e tentou sorrir. — Parece que eu te dei um a zero e você empatou o jogo, huh? — Desistiu de fitá-la e encontrou uma posição confortável no travesseiro. — Eu já devia saber que um beijo fingido e uma faca ligeira não seriam suficientes para deter você.
Vayne desviou o olhar, suspirando. "Um beijo fingido..." Aquilo a machucava mais que qualquer outra coisa. No fundo, aquele havia sido o motivo de ter alvejado Fiora, não a ordem de Jarvan. Sentiu-se tão humilhada pelos atos da duelista, tão inútil... Que uma raiva potente tomou conta de si, influenciando em seu julgamento e fazendo-a tomar aquela medida extrema. Jamais machucaria Fiora em seu estado normal de consciência, independente das ordens reais ou não. Jarvan que fosse para o inferno. Havia uma boa parcela da elite demaciana que estava insatisfeita com a conduta do rei, nos últimos tempos. Vayne era um deles.
— Você o fez com muito mais classe. — Ela abaixou o olhar, quase envergonhada por seu método de conduta. — Eu te acertei pelas costas.
— Águas passadas não movem moinhos, Shauna. Foi uma noite difícil. Para todas nós. Pode acreditar nisso. — Fiora começou a erguer a mão de modo vacilante. Vayne se apressou em tomá-la, olhando nos olhos da morena. — Passou... — A espadachim sussurrou, entrelaçando os dedos nos dela. — Eu te perdoo.
Vayne assentiu, sentindo os olhos se encherem de lágrimas. Geralmente os soldados não são os seres mais emotivos do mundo, e a regra de aplicava à dupla, naquele quarto de hospital. Mas aquelas palavras foram como um baque para a atiradora. Ela finalmente respirou fundo, um pouco mais aliviada. Fiora não era somente o amor de sua vida, mas também sua melhor amiga e companheira de batalha. Estragar aquela relação de uma vez por todas seria a pior coisa que podia acontecer.
— Onde está toda aquela arrogância? Eu olho para você e mal posso reconhecer a Fiora Laurent que conheci. — Ela sorriu, cruzando o corpo por cima do dela e a abraçando carinhosamente.
— Sangue de mais, Shauna... Sangue de mais... — Fiora hesitantemente colocou uma mão em seu cabelo e começou a coçá-lo. — Eu matei muita gente, nesses últimos anos... Mais de 50, só naqueles duelos idiotas. Pela honra da casa Laurent. — Ela gargalhou, balançando negativamente a cabeça. — Eu achava que podia mudar as coisas com minha espada. Eu achava mesmo... — Ela sussurrou, com a voz cheia de remorso. — Eu lembro do rosto de cada um deles. Mas já esqueci os nomes. Eram tão cheios de si... Tão machistas... — As palavras se tornaram mais graves, necessitando de um esforço maior.
— Tudo bem, não importa mais... — Vayne sussurrou, sem querer irritá-la.
— A casa Laurent é respeitada novamente. Por causa do aço e do sangue. — Ela completou por fim. — Eu não sou mais a garota de 20 anos que bateu no peito e disse "Eu sou a regente agora". Que matou o próprio pai e jurou recuperar a honra da família. Não... Hoje eu sinto que tudo foi em vão. E que eu falhei com todos eles.
— Sh... Não diga isso. As pessoas tem fé em suas habilidades.
— As pessoas me desprezam. — Ela riu, negando com a cabeça. Desde que havia recusado se casar com o Crownguard e assassinado o próprio pai em duelo, Fiora jamais foi bem aceita em Demácia. — Isso não importa mais. Como Riven está?
— Ela está muito bem. Sua técnica a recuperou completamente. — Vayne se levantou, agora a olhando verdadeiramente impressionada. — Que diabos foi aquilo? Onde aprendeu aquela diabrura?
Fiora somente sorriu fraco, fechando os olhos.
— É sempre bom ter uma carta na manga, para uma situação adversa. — Não pôde esconder a satisfação em sua voz. Havia amadurecido muito, mas jamais deixaria de sentir seu ego crescer por alguns minutos, quando suas habilidades eram elogiadas.
— É, eu vi. Ainda me surpreendo com você, não sei por que. — Vayne voltou a se sentar na maca, sendo agora sua vez de acariciar os cabelos da outra. — Riven está como capitã. De sua unidade. Ela e Yasuo.
— Minha unidade está em boas mãos. — Fiora disse, a olhando. — Eu confio nos dois. Por favor, confie também. E os proteja.
Vayne assentiu, concordando.
— Lirael...? — Fiora perguntou também, preocupada.
— Nidalee está com ela. As duas foram ao abrigo subterrâneo.
— Ótimo. — Fiora disse por fim, se encolhendo na maca, em posição fetal.
Vayne percebeu que era hora de ir embora. Curvou seu corpo sobre o dela e a beijou na bochecha. — Fique bem... — Sussurrou fraco, caminhando em direção.
— Shauna... — Aquele último chamado a fez estacar. Vayne virou só o rosto, a olhando por cima dos ombros. — Faça com que o campo de batalha não sinta minha falta.
Vayne assentiu, lentamente.
— Ele não sentirá, Fiora... Ele não sentirá. Eu posso prometer isso.
Com essas palavras, ela se foi.
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