A Estrangeira, o Executor e o Capuz Vermelho
8 5 - Procure (por um caminho)
Pela manhã, o trio adentra na floresta, atravessando a ponte. De acordo com o mapa, falta pouco para chegar na Vila Edda. Pyrrha sente um misto de empolgação e medo pela aproximação de seu destino. Não faz ideia do que irá acontecer quando ela chegar, e só pode sentir medo e rezar para que não seja nenhuma das possibilidades, pessimistas, em sua cabeça.
Eles se deparam com uma série de descidas que leva até a Vila Edda, visível dali. Agora, vendo-a de cima, Pyrrha sente que já a viu. Sua cabeça se enchendo de questionamentos. Sua avó estaria lá embaixo. Deseja que todo esse medo seja apenas ela se preocupando demais mas tem essa pequena voz, quase imperceptível, que faz ela questionar seu passado, seus pais, quem ela foi, é e pode ser. Sua família.
— Ei, tá tudo bem? — Maria pergunta, colocando a mão no ombro dela.
Pyrrha vira o rosto para a caçadora e sorri.
— Estou sim, perdão. — Ela solta um riso tímido.
— Imagino como sua cabeça deva estar — a caçadora fala. — Mas, ei, relaxe. Vamos estar contigo.
— Promete? — Pyrrha diz em tom de gracejo.
Maria ri.
— Sim, prometo — ela responde, com um sorriso.
O caminho é uma estrada de terra batida com formações rochosas em volta, junto com algumas árvores e arbustos secos. Um pouco depois da metade da descida parece haver uma saída para as laterais, com uma mata mais densa. Johannes ergue sua mão, pedindo para que parassem. Ele move seu rosto de um lado para o outro, cheirando o ar, farejando alguma coisa. Sua expressão vai ficando cada vez mais tensa, cada vez mais tomada de preocupação.
— Ei, Jojo, o que houve? — Maria pergunta, se aproximando.
— Feras à frente — ele responde. — Várias delas.
Pyrrha e Maria inspiram fundo o ar, tentando sentir esse odor, mas nenhuma das duas tem um olfato tão afiado quanto o Executor. Pyrrha sente um cheiro que não sabe se vem das roupas dos três viajantes — que já passaram por uns bons bocados até aqui na Floresta Proibida — ou talvez algo vindo da terra e da vegetação do bosque atrás deles.
— Maria, cuide de Pyrrha — Johannes pede, tirando sua arma das costas. — Use seu machado curto, se possível.
Ele mantém sua Roda de Executor apoiada nas costas, mas agora solta do encaixe que serve de bainha para aquela arma tão peculiar.
Na noite passada, Pyrrha sonhou com Johannes andando em cima daquela roda, rindo enquanto ela girava e atropelava feras em seu caminho. Maria riu quando ela contou e prometeu que não iria contar para ele do sonho.
— E senhorita Pyrrha? — o caçador move o rosto para olhá-la por cima do ombro.
— Sim? — ela responde assustada, com medo que ele pudesse ter lido seus pensamentos.
— Nos abençoe com sua mira novamente, sim? — ele pede, com um sorriso.
— Sim! — ela responde cheia de entusiasmo.
Eles retornam a avançar, com Johannes andando a frente, Pyrrha retira a pistola que recebeu de Maria do coldre.
As bestas começam a saltar para fora de seus esconderijos, em vários estágios de transformações. Elas se focam em atacar Johannes. E ele responde a isso com movimentos pesados de sua arma. A cada giro de sua roda, feras são jogadas de volta para os buracos de onde saíram. Johannes traça um arco com sua roda que atinge uma fera que se aproxima dele pela direita. A roda acerta a mandíbula do monstro, quebrando-a. Antes da arma ter perdido seu momentum, Johannes já está trocando a mão que segura a alça da roda, trocando da esquerda para a direita. Outra fera é atingida, no meio de um salto para agarrar o Executor, jogando-a para longe.
A fera cai aos pés de Maria, que a finaliza sem piedade.
— Senhora Maria! — Pyrrha grita.
Maria ouve o som de um disparo e um grasno atrás de si. Sem precisar parar para pensar, seu braço se move como um chicote e o machado encontra o pescoço da fera que tentou lhe atacar.
— Tome mais cuidado, Maria — Pyrrha pede, recarregando a pistola.
— Peço perdão — Maria responde.
As feras começam a correr na direção delas.
— Para trás, Pyrrha. — Maria ergue a voz.
Com um gesto já casual, o cabo do machado se estende. Ela leva a arma para trás de seu corpo. Acumulando força. Esperando o momento que o maior número de bestas esteja na linha do ataque. A familiaridade com a arma é tão grande que sabe bem o alcance dela. É uma extensão dos membros da caçadora. Feras tem garras e presas, Maria tem seu machado.
“E Johannes, uma roda” ela pensa, com um sorriso no rosto.
Sua arma se propulsiona para frente, cortando o ar e o corpo de quatro bestas. Duas não morrem ao serem golpeadas. E outras duas escapam ilesas. Uma sétima fera não estava nem atrás demais e nem na linha do golpe: ela se rastejou pelo chão, sentindo o vento assobiar acima de sua cabeça. Ele não está mirando em Maria, e sim correndo, na direção de Pyrrha.
“Imbecil” Maria pragueja em sua mente.
Uma das feras tenta saltar para pegá-la e Maria responde com um soco no focinho, que derruba a fera, recebendo a ponta do machado dentro de sua boca. A força aplicada foi grande o bastante para quebrar o osso do céu da boca, matando-a.
Maria retorna seu olhar para Pyrrha, que está erguendo a pistola na direção do lobisomem. Ouve uma besta que não matou vindo. Ela retira o machado do lobisomem já morto e investe em um golpe de ponta contra o peito da besta, que apenas salta para o lado. Isso fazia parte do plano de Maria. Colocando toda sua força no machado, ela não somente atinge a fera, mas a colide contra a que avança contra Pyrrha.
— Pyrrha! — Maria grita, trazendo seu machado para cima.
A garota entende o que Maria quer fazer, e confia em sua protetora. Ela move a mira de sua arma para a fera atrás de Maria. O estampido de um tiro explode no ar. A lâmina do machado despenca, como uma guilhotina, dividindo a cabeça da fera a frente de Pyrrha em duas. Maria puxa a fera, já morta para longe de Pyrrha.
Um outro problema surge: a fera que Maria arrastou até ali ainda está viva.
— Pyrrha, cuida dele só por um momento! — a caçadora grita.
— Da fera? — ela pergunta assustada.
Maria se vira já desferindo um soco contra a fera já ferida, que Pyrrha atirou. O soco acerta acerta o focinho do lobisomem, que vai para trás. Ela leva a mão para dentro do casaco, aproveitando para conferir Pyrrha. A fera ainda está contornando-a. Precisa acabar logo com aquela fera. Sua mão sai de dentro do casaco e joga um coquetel molotov no rosto da fera, mirando na boca, enquanto salta para trás, recuando sua mão para não ser ferida na explosão. O coquetel molotov explode e a fera grita, seu rosto sendo engolido por chamas. Assim que percebeu que o corpo caía sem vida, Maria gira em seus calcanhares e corre na direção de Pyrrha.
Ela grita para chamar a atenção da fera enquanto joga uma pequena faca, que se crava na coxa do lobisomem, que começa a se tensionar nas patas de trás, se preparando para atacar. Maria se prepara, esperando que o lobisomem avance contra ela. Contudo, a fera não avança, pois Pyrrha disparou contra a cabeça da criatura. Não a mata, mas a deixa gravemente ferida. Maria aproveita do fato que essa besta está de quatro e chuta o rosto do lobisomem. Maria parte para finalizar o oponente, andando lentamente, erguendo o machado acima de sua cabeça. Pyrrha não a vê terminar de matar aquela fera, pois seu olhar é puxado para Johannes, que está mais adiante lutando contra diversas feras. Elas se empilham perto dele, apenas para serem jogadas para longe. Os movimentos de Johannes são pesados. Intercalando os golpes com a roda com tiros de sua arma de fogo, que diferente da pistola que Pyrrha usa, atinge todos que estiverem em um cone a frente da arma.
Johannes movimenta sua roda e feras são jogadas com o golpe. Uma escapou. Ele puxa sua pistola e dispara no rosto dessa, que cai morta. Guardando a pistola, ele percebe mais uma fera, bastante humana, caída ao chão, tentando se rastejar para fora do alcance do caçador. Ele ergue sua roda, vagarosamente. A caixa toráxica do lobisomem é esmagada assim que a roda encontra o corpo da vítima. Ele desvia para a esquerda, desviando de bestas que vinham atacá-lo pela direita. Apenas seu corpo se move para a esquerda, enquanto a roda se mantém imóvel, ainda sobre o corpo da última fera abatida.
Duas feras avançam para cima dele. E é como se um martelo acertasse seus rostos, pois usar uma arma tão exótica deu a Johannes uma força surpreendente até mesmo para os caçadores. E ele não para, acertando com velocidade e força absurda. Após derrubar uma das feras, uma segunda parte para cima do caçador. Johannes desvia das garras da fera e seu cotovelo acerta a bochecha com uma força tão grande que faz a mesma cair rolando no chão, desmaiada.
Johannes pega sua roda pela alça e a coloca no ombro, pronto para usá-la. Sente que seu corpo estava começando a ficar ofegante. Ele recua para retomar o fôlego, deixando os inimigos se reagruparem para poder tirar proveito dos golpes pesados da roda. A maior parte das que estão ali são bestiais em sua forma, apesar de ainda manterem formas humanóides. Poucos ainda têm formas humanas, tais quais os enfermos que vinham lutando na Floresta Proibida.
As bestas apenas o encaram. Rosnam, rugem e andam de um lado para o outro. O caçador dá um passo à frente. E depois outro. As feras se entreolham, com mais surgindo de trás delas, saindo das pedras e rochedos, essas bem mais humanas, ainda com roupas. Um apego à humanidade perdida ou apenas descaso? Johannes não sabe, mas pensa sobre. Queria poder desligar sua mente e só atacar.
Uma fera salta contra ele, e Johannes a agarra pelo rosto e a joga no chão. A fera cai de costas na terra e a roda despenca sobre a cabeça dela, de modo cru. Apenas a gravidade fazendo seu trabalho. Sangue, ossos e miolos se espalham no chão, manchando ainda mais o lugar com sangue.
Ele traz a roda novamente até seu ombro, e a arma se segmenta em duas. Dizem que as rodas dos Executores, após serem banhadas no sangue dos habitantes do Castelo Cainhurst adquiriram essa habilidade peculiar. Que a raiva dos mortos por essa arma ainda persiste. Contudo, Johannes não participou desse massacre. Toda vez que ele gira a roda e permite-a sugar de seu sangue, ele se pergunta se cada criatura que esmagou até virar uma polpa é o que fortalece a sua. Conforme os aros da roda girarem e sente o sangue ser sugado a partir da palma de sua mão. A arma começa a ser tomada por uma névoa vermelha, com formas que lembram caveiras dançando, subindo e se diluindo no ar.
— Sabem — Johannes diz. — Dizem que a roda, tanto a arma quanto o símbolo dos Executores, simboliza “destino justo”. Uma roda, um ciclo completo e perfeito. É uma simbologia bonita, para um grupo que ora é visto como templários da Igreja, aqueles que caçam freneticamente o mal e a impureza, as feras, e ora é visto como fanáticos, tão selvagens quanto as feras que caçam.
As feras rosnam. Johannes para e sua perna esquerda passa a acumular pressão.
— Uma filosofia bonita, para embelezar o ato de reduzir vocês a polpas de sangue.
O Executor salta, avançando subitamente, seu torso vindo antes de seus braços, trazendo sua roda. Ele freia seu corpo usando o pé direito, enquanto seu corpo, ainda se movendo com o impulso, realiza o ataque. Várias das feras são mortas no impacto brutal da arma contra seus corpos, quebrando ossos e membros. Algumas poucas conseguem sair apenas feridas. Johannes saca sua arma de fogo e dispara contra as feras. Mais uma vez ele avança, golpeando as feras a torto e a direito. Ele vê que as feras começam a se preparar para atacar.
Ele recua, receoso. E um vento passa por ele, sacudindo seu cabelo. As feras que iam avançar são jogadas para trás por Maria, com um balanço de seu machado.
— Recuando, pequeno Jojo? — ela fala, em zombaria.
O Executor, ofegante, ri sarcasticamente.
— O senhor está bem? — Pyrrha pergunta.
Johannes se vira para ela, fazendo que sim com a cabeça, ainda ofegante. Maria termina o trabalho que ele começou, dançando entre as feras. Ela gira, balança e descreve arcos com seu machado.
Pyrrha estreita o olhar, para ver a Vila dali. Ela é murada. Talvez para se proteger das feras. Pyrrha sempre pensou que só existiam em Yharnam, mas está aqui também. Pyrrha se pergunta se o flagelo das feras também existe na terra natal de Maria.
Outra coisa visível além das muralhas é uma luxuosa catedral. Bem no meio do lugar. Isso agora explica, para a garota, o motivo de sua família ter pedido ajuda da Igreja e ela ter atendido, mas agora se pergunta o quão fortes são essas ligações da Igreja da Cura e a Vila Edda.
“Ainda tem o que o cara que pedia a senha falou” Pyrrha relembra. “Não sou a primeira garota, com o capuz vermelho, que é mandada para a Vila Edda.”
Maria termina de limpar as feras que surgiram e caminha até seus dois companheiros arrastando os pés, cansada, guardando a arma na bainha nas costas.
— Mandei bem? — ela pergunta com um sorriso.
Johannes faz que sim.
— Eu temo pelo caminho a frente — ele diz, apontando para a descida que leva até a Vila Edda. — O cheiro de feras não cessou, ainda tem muitas escondidas adiante.
— E? O que sugere? — Maria questiona.
— Eu não sei, apenas… Apenas não sei se seguir reto é o caminho mais seguro — Johannes explica, suspirando irritado por não ter uma resposta.
Maria cruza os braços, sua expressão se tornando pensativa.
— Não sei se gosto disso. Estamos tão perto — ela comenta. — E o caminho mais curto entre dois pontos é uma reta.
— Um pouco antes do fim da descida, a estrada tem dois desvios, um para cada lado — Pyrrha comenta. — Podemos ir por esses lados.
— Ir direto para as feras? — Maria retruca, com um riso de descrença na voz.
— Vamos lutar apenas com as que estão em um lado, não chamando todas para nos atacar — Pyrrha explica. — O caminho até a Vila é longo. Mesmo que a gente corra, ou vá devagar, estaremos sempre sobrecarregados com inimigos de todos os lados.
Pyrrha respira fundo, desviando o olhar por um momento.
— Não sabemos o quanto podemos aguentar nesse ritmo, e se a todo momento for tão grande quanto a que acabamos de sair. Vocês dois terminaram ofegantes! — Ela retorna o olhar para os caçadores. — Eu concordo com o senhor Johannes.
Johannes sorri, não por sua ideia ter sido apoiada, mas por ver Pyrrha ser assertiva.
— E isso seria uma ordem, senhorita Pyrrha? — Maria questiona, colocando a mão na cintura e erguendo a sobrancelha.
A garota sorri, envergonhada, e desvia o olhar.
— Sim. — Sua voz é firme, mas cheia de timidez. — Por favor.
E assim, eles voltam a avançar. Não demora para as feras surgirem, com Johannes e Maria se focando em manter Pyrrha protegida.
Quando chegam na encruzilhada, Maria é a primeira a notar, arregalando os olhos, enquanto decapita mais uma fera. À esquerda, existe o que parece um pequeno acampamento. Barracas e casebres, lembrando bastante as que viram na Floresta Proibida. Várias bestas estão ali, erguendo o olhar para os três.
— Johannes? — A voz de Maria escapa, assustada, de sua garganta.
O Executor olha para a esquerda. As feras os observam em silêncio, até que uma delas grita, fazendo as demais gritarem e irem para cima deles.
— Para a direita! — Johannes fala, assustado. — Vão!
Maria segura o pulso de Pyrrha e a puxa para a direita. Golpeando com seu machado as feras que saltam de trás de árvores. Pyrrha precisa se focar unicamente em correr para não tropeçar, por causa da caçadora a puxando e por causa do relevo do lugar. A área é uma descida cheia de árvores e arbustos, bastante irregular.
Maria percebe que aquele lugar já foi uma estrada, consegue ver como a grama e vegetação difere em uma parte do espaço, e avança por ele. Ela escuta as feras vindo atrás dela. Maria nota como está segurando Pyrrha e a solta de imediato.
— Desculpa. — A caçadora abre o cabo de seu machado e decapita uma fera que estava logo atrás delas.
— Tudo bem, eu entendo — a garota fala, tentando dar um sorriso para a caçadora.
Elas vêem as bestas serem jogadas para todos os lados assim que Johannes inicia uma disparada agressiva, usando sua roda para abrir espaço. Maria consegue ver como ele está “apertado”, usando-a em um lugar apertado, por causa dos troncos de árvores.
Maria e Pyrrha começam a ajudar o Executor, matando as feras que ele arremessa mas não morrem, com machadadas e disparos. Johannes finalmente chega até as companheiras, se virando para trás e disparando contra as feras que vinham em seu encalço.
— Vamos! — ele ordena. — Antes que nos alcançam.
O terreno é íngreme. Johannes tem dificuldade de andar por ele, tropeçando aqui e ali por causa de seu peso somado à arma que carrega. Os uivos e urros das feras se mantêm em peso atrás dele, e Maria vai lidando com inimigos que surgem à frente deles, com Johannes só podendo contar com sua pistola, e ainda assim, precisa tendo em mente que balas são limitadas.
Um tronco próximo de Johannes é alvejado por um disparo. O barulho que veio antes enfim se torna claro: alguns deles têm rifles.
“Ótimo” o Executor pensa, irritado. “Eles têm armas.”
Pyrrha também nota isso, olhando para trás, por um momento. Vê alguns dos homens com rifles erguendo as armas para cima da cabeça e urrando. Urros não muito diferentes dos gritos das feras. Seu coração se aperta e ela volta a correr, colocando o capuz vermelho sobre a cabeça, escondendo o rosto.
As bestas a frente começam a cessar, vindo em menor quantidade, mas os tiros atrás deles? Isso continua, ficando mais constante. Johannes começa a correr atrás de Pyrrha, querendo protegê-la, visto que ele é maior que a garota.
— Precisamos encontrar um lugar para nos protegermos! — Johannes grita, um tiro atingindo sua roda.
— Estou atrás disso! — Maria retruca, seus olhos vasculhando o terreno à frente.
Ela teme que estejam correndo para algum lugar sem saída. Começa a enxergar a frente apenas algumas formações rochosas, que vão ficar mais altas e mais montanhosas em seus formatos. Poderiam escalar aquilo? Johannes com aquela roda certamente não conseguiria.
“E pedir para ele deixar para trás ela só traria mais confusão”, conclui.
Ela ouve um grito, vindo de Johannes, e se vira assustada. Um tiro acertou seu braço direito e o Executor se curvou de dor, trincando os dentes. Seu rosto se molda horrivelmente em ira e ele joga, contra o amontoado de feras que perseguem eles, um coquetel molotov. Maria vê o frasco voar, descrevendo um arco perfeito, e tudo que sente é pânico. O coquetel explode, e as chamas se espalham não somente nas feras, mas começa a cair em algumas folhas e nas gramas. As chamas se espalham de modo selvagem, começando a crescer.
— Johannes, qual seu problema? — ela berra, pasma.
A caçadora vai até o colega, o puxando para olhá-lo, irritada. E ela vê o quão assustado ele está, incrédulo. Os gritos de dor das feras é nauseante. Horrendo. Parece arranhar algo dentro deles, ferindo-os na alma. Maria ia falar algo, quando tanto ela quanto Johannes, são agarrados pelo pulso. Por Pyrrha.
— Discussões ficam para depois, vamos fugir daqui — ela diz.
Maria vê, se aproximando mais das colinas, que uma parte dela está cheia de estacas. Dentro desta área, parece haver uma entrada, algum tipo de caverna. Além das estacas haviam corpos de feras empalados e crucificados ali. Um aviso.
Maria corta as estacas, abrindo espaço para passarem. Ali dentro poderia haver um caminho para a Vila Edda.
— Entrem, entrem! — ela diz enquanto pega algo do casaco.
— O que vai fazer? — Johannes pergunta, entrando por último.
Maria olha a floresta, com fumaça e um pouco de fogo sendo visível dali, mesmo após terem se afastado do lugar da onde Johannes jogou os coquetéis.
— Gostei da sua ideia e é bom ter uma apólice de seguro que não vão querer entrar aqui — ela responde.
Johannes não consegue entender de imediato, mas sua boca se abre assim que ela joga um coquetel molotov. Maria passa por ele e o puxa.
Já dentro da caverna, Johannes tira duas tochas de suas coisas e oferece uma para Pyrrha.
— Peço perdão por antes — ele resmunga, de cabeça baixa.
— Ei, não tem porque pedir desculpas — Pyrrha fala, sorrindo. — Essas coisas acontecem. E, ei, estamos todos bem.
Maria se aproxima dele.
— Tira essa cara triste do rosto, faço merda assim o tempo todo. — Ela ri. — Acontece. E a gente aprende com essas coisas.
— Mais cedo você me deixou em perigo duas vezes — Pyrrha comenta.
— E eu aprendi com meus erros e depois disso você correu zero riscos — Maria pontua, constrangida.
Johannes solta um suspiro que vira um riso. Eles acendem as tochas e voltam a caminhar caverna adentro, com Johannes carregando uma para que Maria possa se ver à vontade para defendê-los, caso algo surja. A caverna é uma descida suave.
— Será que vão vir atrás da gente? — Pyrrha pergunta, para Johannes.
O Executor move a cabeça, deixando uma das orelhas na direção da onde vieram e se concentra em sua própria audição. Não escuta nada vindo dali.
— Presumo que não. Além do fogo, a área em si já buscava afugentar as feras por si só — ele comenta. — Apesar que destruímos parte das estacas que protegia a entrada.
— Senhor Johannes, posso perguntar mais uma coisa? — Pyrrha leva a mão ao queixo. — Fora essa que já fiz.
Maria solta um risinho.
— Claro, senhorita Pyrrha — ele diz.
— Aquele caçador que o senhor mencionou, Eu… “Eu” alguma coisa…
— Euthymos? — Johannes sugere.
— Isso! Você tinha dito que ele se perdeu vindo para a Floresta Proibida.
— Exato.
— Você sabe se ele teria, tipo, vindo para a Floresta ou para a Vila Edda? Ou para aquela faculdade lá — Pyrrha fica pensativa de novo.
— Byrgenwerth — Johannes fala. — Bem, eu nunca soube. É só dito que “ele se perdeu indo para a Floresta Proibida”.
Pyrrha assente.
— Espero que tudo esteja bem lá na Vila — Pyrrha resmunga. — Com minha vó.
Johannes demora para dizer algo.
— Existem feras até aqui — Pyrrha prossegue. — E se estiverem lá também?
Johannes não queria dizer o que acha, não quer deixar a garota pior.
— Há quanto tempo estamos andando? — Maria corta o assunto. — Esse caminho é uma eterna descida?
— Melhor tentarmos ir até o fundo antes de retornar para o bosque. — Johannes fala, aliviado por Maria ter falado por cima da conversa.
— Sim, ao menos aqui podemos conversar e andar tranquilamente — Pyrrha fala.
— Realmente — Maria resmunga. — Como seu braço está, Jojo?
— Usei um pouco de sangue e já está melhor — ele conta.
Tanto Pyrrha quanto Johannes ouvem algo. Não vem de trás deles. Não, veio à frente. Os dois seguram Maria, para que ela parasse. Maria para e vê eles levando o dedo indicador à boca, pedindo silêncio.
Maria ergue a sobrancelha, sem entender.
— Escutei um rosnado — Pyrrha sussurra.
Johannes concorda com a cabeça.
— Cheiro de fera — ele complementa.
Maria engole em seco e pede para que eles fiquem ali, por um momento. Em sua cabeça, indaga como Pyrrha conseguiu ouvir um rosnado, se ela, uma caçadora, não conseguiu.
Cruza um arco de pedra. Ainda não ouve nada. O chão à frente é uma escada estreita, que leva ainda mais para baixo. Não sabe o quanto daquilo é a formação natural do lugar ou foi escavado, como eles presumem, uma passagem para a cidade.
Em uma quebra de lances, Maria se vê em um espaço um pouco mais aberto. Ela encontra uma lanterna no chão. Não uma lanterna comum, mas uma que leva e traz do Sonho do Caçador. A expressão de Maria fica um pouco mais séria, pensativa. Haver uma lanterna do Sonho do Caçador sempre simboliza algo. Seja um alívio ou para se tomar cuidado adiante. Ela se ajoelha, acendendo-a com um estalo de dedos. Seus outros dois companheiros alegam cheiro de fera adiante. E agora uma lanterna. Maria engole em seco e se levanta, voltando a andar em frente.
Suas mãos tocam as paredes. Sente que ela foi cravada com vários símbolos, mas não tem como lê-las agora. A descida não parece acabar, como uma escada sem fim, que a fez descer mais e mais. Suas mãos, ainda na parede, sentindo as frestas na terra por o que quer que esteja marcado ali. Imagens? Algum aviso? Garras?
— Maria? — Ela escuta a voz de Pyrrha.
A voz da garota vem junto com a surpresa de seu pé ser mergulhado em água, que bate um pouco além do calcanhar. A caçadora vira para trás, com machado na mão.
— Pyrrha? — ela responde, tentando manter a voz baixa.
Ela ouve os passos de sua protegida se aproximando, com os de Johannes logo atrás. Eles chegam com tochas apagadas.
— Ficamos preocupados contigo indo sozinha por tanto tempo — ela explica.
— E a senhorita Pyrrha me convenceu a virmos atrás de você — Johannes complementa.
Maria sorri.
— Até agora não achei nada — ela explica, em baixo tom. — Ainda escutam e sentem algo?
— Está adiante de nós — Johannes, claramente apertado naquele corredor, responde.
Pyrrha saca sua pistola. E então confere se está carregada, por segurança.
Maria segue andando na frente, o túnel agora estando reto. Machado em mãos, pronta para o embate. Assim que sai daquele túnel, ainda com os pés imersos em água, se depara com uma larga caverna, bastante larga e bastante alta.
“Aquilo é o teto?” ela se questiona.
O topo parece um céu noturno. O céu noturno mais lindo que ela já viu. Diversas pilastras, algumas quebradas e algumas inteiras, mas sustentando o nada, estão espalhadas pelo solo. Colunas brancas, parecendo mármore, um tipo de construção que jamais havia visto por Yharnam. O chão não parece ficar mais fundo, a água permanece batendo no mesmo ponto. Ela se esquece da presença de uma fera ali, encantada pelo lugar, até que vê ela. Do outro lado do lugar, a frente deles. Longe, aos pés de uma escadaria, sentado tranquilamente. Tem um canhão, de caçador, ao lado dele.
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