A manhã seguinte na sede da Lâfrer & Jones não tinha o frescor da Linha Aurora. O ar estava pesado, carregado com a eletricidade estática de um segredo que explodira como uma granada de vidro.

​Derick atravessou o saguão com os ombros tensos. Ele não dormira. Passara a noite ouvindo o pranto contido de sua mãe e tentando encaixar as peças: o magnata que ele admirava era o irmão que sua mãe chorava em segredo todos os anos no dia do aniversário de Richard.

​Ele bateu na porta da presidência. Richard estava de costas, observando a cidade.


​— Como ficam as coisas, Richard? — a voz de Derick saiu firme, mas desprovida da audácia de antes.

​Richard virou-se devagar. Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma única noite. Os olhos azuis, idênticos aos de Derick e da mulher no jardim, estavam gélidos.

​— Eu sou um homem de palavra, Derick. A proposta da linha baseada no seu jardim está de pé. Os contratos serão redigidos. Eu não misturo traumas de infância com balanços comerciais. Você é um talento raro, e a empresa precisa de você.

​Derick soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Mas o alívio durou pouco.

​— No entanto — continuou Richard, caminhando até a mesa e apoiando as mãos no carvalho escuro — há uma condição inegociável.

​— Qual?

​— Eloise.

​Richard cravou o olhar no de Derick.

​— Ela é minha filha. E, como agora sabemos, ela é sua sobrinha. O que quer que estivesse florescendo entre vocês dois... aquela tensão, as visitas ao quintal, os olhares... tudo isso para agora.

​O impacto das palavras atingiu Derick como um soco físico. A imagem de Eloise rindo na estufa ao amanhecer passou por sua mente como um filme proibido.

​— Você vai transformar o laboratório em um bunker, Derick. Você terá sua sala, seus assistentes e seu orçamento. Mas a proximidade com a Eloise acabou. Se eu ver vocês dois juntos fora de uma reunião de diretoria, o contrato é rasgado e você nunca mais pisa nesta empresa. Entendido?

​Derick sentiu um gosto amargo na boca. Ele olhou para o homem à sua frente — seu mestre, seu carrasco e, agora, seu irmão.

​— Entendido, Senhor Lâfrer.

​Mais tarde, no laboratório de botânica, Eloise entrou radiante. Ela trazia um café para Derick e uma nova ideia para a embalagem da linha de vida.

​— Derick! Você não acredita no que eu desenhei para o frasco do Patchouli...

​Derick nem sequer levantou os olhos do microscópio. Suas costas eram um muro de concreto.

​— Deixa em cima da mesa, Eloise. Estou ocupado com a análise de solo.

​Eloise parou no meio do caminho, o sorriso vacilando.

​— "Eloise"? Ontem eu era "Lâfrer". O que aconteceu? Meu pai falou com você? A proposta foi aprovada, não foi?

​— Foi aprovada — respondeu ele, a voz mecânica, desprovida de qualquer emoção. — Mas a partir de agora, Miguel vai ser o seu contato direto para esse projeto. Eu vou me concentrar na extração técnica na nova sala.

​Eloise caminhou até ele, tentando tocar seu ombro, mas Derick desviou-se bruscamente, pegando uma bandeja de lâminas.

​— Derick, olha para mim. O que está acontecendo?

​— O que está acontecendo é que eu sou um funcionário e você é a dona — disse ele, finalmente encarando-a com uma frieza que ela nunca vira nele. — Eu vim aqui para trabalhar, não para ser seu amigo de jardim. Por favor, saia. Eu tenho prazos a cumprir.

​Eloise sentiu as lágrimas queimarem, mas o orgulho de Richard Lâfrer que corria em suas veias a impediu de deixá-las cair. Ela deixou o café na mesa, virou as costas e saiu sem dizer uma palavra.

​Do outro lado do vidro, Richard observava a cena pelo monitor das câmeras de segurança. Ele apertou o copo de uísque com força. Ele havia salvo a empresa e a "moral" da família, mas ao ver a expressão destruída da filha e o isolamento de Derick, ele percebeu que o perfume da vitória, desta vez, tinha cheiro de cinzas.