A Essência do Amor 2 Eloise & Derick
6 O Perfume do Passado
A vitória da Linha Aurora trouxe mudanças imediatas. Derick não era mais apenas o "bolsista da zona leste"; ele agora tinha um crachá de pesquisador e uma sala de testes envidraçada, equipada com o que havia de melhor. Richard, movido por um instinto que nem ele mesmo conseguia explicar totalmente, decidiu que era hora de conhecer as raízes daquele talento de perto.
Richard Lâfrer desceu do seu sedã blindado em frente à casa de Derick. O contraste que Eloise sentira dias antes agora era vivido pelo próprio patriarca. Ele caminhou pelo corredor estreito, e ao chegar ao quintal, parou. O cheiro o atingiu primeiro: terra molhada, arruda, manjericão e flores silvestres.
— É impressionante, rapaz — disse Richard, tocando a folha de uma planta medicinal. — Há uma vibração aqui que meus laboratórios assépticos nunca conseguirão replicar. Eu tenho uma proposta: queremos lançar uma linha inteira baseada no seu "Jardim da Cura". Uma linha que cheire a vida real, a memórias, a raízes. Você seria o rosto dessa campanha.
Derick sorriu, incrédulo.
— O senhor está falando sério? Minhas plantas em frascos de luxo?
— Luxo é o que é autêntico, Derick. E isso aqui é...
A frase de Richard morreu no ar. O som de uma porta de madeira se abrindo ecoou no quintal. Uma mulher de aproximadamente 60 anos saiu com uma bacia de roupas, parando abruptamente ao ver o homem de terno impecável no seu jardim.
Ela era magra, com um rosto marcado pelo tempo e pelo trabalho, mas mantinha uma elegância natural. O que paralisou Richard, no entanto, foram os detalhes: os cabelos loiros, agora mesclados com fios brancos, presos em um coque frouxo, e aqueles olhos azuis acinzentados — uma cor que Richard via todas as manhãs no próprio espelho.
O mundo ao redor de Richard começou a girar. O cheiro de arruda do jardim, subitamente, transformou-se no cheiro de um corredor frio e úmido de quarenta e cinco anos atrás.
Ele tinha oito anos. Estava escuro. Ele segurava a mão de uma mulher que chorava silenciosamente. Ela o beijou na testa, entregou-o a uma freira e disse: "É para o seu bem, Richard. Eu não tenho nada para te dar além de fome."
— Mãe? — o sussurro saiu da garganta de Richard como um lamento quebrado, quase inaudível.
A mulher deixou a bacia cair. O som das roupas atingindo o chão foi como um trovão. Ela levou a mão à boca, os olhos se inundando de lágrimas instantaneamente. Ela reconheceu o porte, o queixo erguido e a mágoa profunda no olhar do homem à sua frente.
— Richard... — a voz dela era um sopro. — Meu pequeno Richard...
Derick olhou de um para o outro, o coração disparado, a confusão estampada no rosto.
— Do que vocês estão falando? Mãe? Senhor Lâfrer?
Richard deu um passo para trás, sentindo o ar fugir de seus pulmões. A ironia cruel do destino o atingiu em cheio: o jovem que ele tanto admirava, o rapaz que estava ganhando o coração de sua filha, era o filho da mulher que o abandonara em um orfanato para que ele sobrevivesse. O "Imperador" dos perfumes estava diante da única essência que ele nunca conseguiu engarrafar: a do seu próprio passado traumático.
— Você... — Richard apontou para a mulher, a voz agora carregada de uma fúria contida e uma dor ancestral. — Você mora aqui? Este tempo todo?
A mulher deu um passo à frente, as mãos trêmulas estendidas.
— Eu nunca parei de procurar por você, meu filho. Mas o mundo é grande demais para quem não tem nada... e você subiu alto demais para eu alcançar.
Richard virou as costas, incapaz de processar a imagem daquela mulher e a realidade de que Derick, seu protegido, era seu meio-irmão. Sem dizer uma palavra, ele atravessou o corredor e saiu para a rua, deixando Derick e a mãe parados no jardim que, segundos antes, cheirava a vida, e agora cheirava a segredos revelados.
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