A vitória da Linha Aurora trouxe mudanças imediatas. Derick não era mais apenas o "bolsista da zona leste"; ele agora tinha um crachá de pesquisador e uma sala de testes envidraçada, equipada com o que havia de melhor. Richard, movido por um instinto que nem ele mesmo conseguia explicar totalmente, decidiu que era hora de conhecer as raízes daquele talento de perto.


​Richard Lâfrer desceu do seu sedã blindado em frente à casa de Derick. O contraste que Eloise sentira dias antes agora era vivido pelo próprio patriarca. Ele caminhou pelo corredor estreito, e ao chegar ao quintal, parou. O cheiro o atingiu primeiro: terra molhada, arruda, manjericão e flores silvestres.

​— É impressionante, rapaz — disse Richard, tocando a folha de uma planta medicinal. — Há uma vibração aqui que meus laboratórios assépticos nunca conseguirão replicar. Eu tenho uma proposta: queremos lançar uma linha inteira baseada no seu "Jardim da Cura". Uma linha que cheire a vida real, a memórias, a raízes. Você seria o rosto dessa campanha.

​Derick sorriu, incrédulo.

​— O senhor está falando sério? Minhas plantas em frascos de luxo?

​— Luxo é o que é autêntico, Derick. E isso aqui é...

​A frase de Richard morreu no ar. O som de uma porta de madeira se abrindo ecoou no quintal. Uma mulher de aproximadamente 60 anos saiu com uma bacia de roupas, parando abruptamente ao ver o homem de terno impecável no seu jardim.

​Ela era magra, com um rosto marcado pelo tempo e pelo trabalho, mas mantinha uma elegância natural. O que paralisou Richard, no entanto, foram os detalhes: os cabelos loiros, agora mesclados com fios brancos, presos em um coque frouxo, e aqueles olhos azuis acinzentados — uma cor que Richard via todas as manhãs no próprio espelho.

​O mundo ao redor de Richard começou a girar. O cheiro de arruda do jardim, subitamente, transformou-se no cheiro de um corredor frio e úmido de quarenta e cinco anos atrás.

​Ele tinha oito anos. Estava escuro. Ele segurava a mão de uma mulher que chorava silenciosamente. Ela o beijou na testa, entregou-o a uma freira e disse: "É para o seu bem, Richard. Eu não tenho nada para te dar além de fome."

​— Mãe? — o sussurro saiu da garganta de Richard como um lamento quebrado, quase inaudível.

​A mulher deixou a bacia cair. O som das roupas atingindo o chão foi como um trovão. Ela levou a mão à boca, os olhos se inundando de lágrimas instantaneamente. Ela reconheceu o porte, o queixo erguido e a mágoa profunda no olhar do homem à sua frente.

​— Richard... — a voz dela era um sopro. — Meu pequeno Richard...

​Derick olhou de um para o outro, o coração disparado, a confusão estampada no rosto.

​— Do que vocês estão falando? Mãe? Senhor Lâfrer?

​Richard deu um passo para trás, sentindo o ar fugir de seus pulmões. A ironia cruel do destino o atingiu em cheio: o jovem que ele tanto admirava, o rapaz que estava ganhando o coração de sua filha, era o filho da mulher que o abandonara em um orfanato para que ele sobrevivesse. O "Imperador" dos perfumes estava diante da única essência que ele nunca conseguiu engarrafar: a do seu próprio passado traumático.

​— Você... — Richard apontou para a mulher, a voz agora carregada de uma fúria contida e uma dor ancestral. — Você mora aqui? Este tempo todo?

​A mulher deu um passo à frente, as mãos trêmulas estendidas.

​— Eu nunca parei de procurar por você, meu filho. Mas o mundo é grande demais para quem não tem nada... e você subiu alto demais para eu alcançar.

​Richard virou as costas, incapaz de processar a imagem daquela mulher e a realidade de que Derick, seu protegido, era seu meio-irmão. Sem dizer uma palavra, ele atravessou o corredor e saiu para a rua, deixando Derick e a mãe parados no jardim que, segundos antes, cheirava a vida, e agora cheirava a segredos revelados.