A Essência do Amor 2 Eloise & Derick
16 O Inverno no Jardim
A partida de Eloise para Nova York foi como uma amputação para a família Lâfrer. Ela se trancou em um escritório de vidro na Quinta Avenida, mergulhando em fórmulas e planilhas, tentando abafar o som do próprio coração com o barulho incessante da metrópole.
Mas o destino, que une e separa com a mesma mão implacável, trouxe o chamado que ninguém queria ouvir.
Sete meses haviam se passado. A mansão estava silenciosa, o jardim de Marianne florescia sob os cuidados técnicos de Suzana, que carregava o ventre visivelmente proeminente de uma gestação avançada. Mas a "raiz" daquela família, a mulher que costurou os retalhos do passado, não resistiu ao peso dos anos. Marianne faleceu calmamente, cercada pelo cheiro das suas ervas favoritas.
O enterro ocorreu em uma manhã cinzenta e úmida. O cemitério estava repleto de coroas de flores brancas. Richard estava parado diante do jazigo da família, a postura rígida, mas os ombros ligeiramente curvados pela perda da mãe que ele acabara de reencontrar.
No momento em que o caixão começava a ser baixado, o som de saltos sobre o cascalho cortou o silêncio fúnebre.
Uma figura elegante, vestindo um sobretudo preto longo e óculos escuros, atravessou a multidão com passos decididos. Era Eloise. Ela não avisara ninguém. Simplesmente pegara o primeiro voo ao saber da notícia.
Sem dizer uma palavra, ela se posicionou ao lado de Richard. O pai, ao sentir a presença da filha, não precisou olhar para saber quem era. Ele apenas abriu o braço, e Eloise se encaixou ali, abraçando-o com uma força que dizia tudo o que os meses de silêncio esconderam. Richard descansou o queixo no topo da cabeça da filha, encontrando nela o porto seguro que lhe restava.
Do outro lado do jazigo, o olhar de Eloise encontrou o dele.
Derick estava ali, de braços dados com Suzana. O contraste era brutal: Suzana exibia a barriga de sete meses sob um casaco de lã, a mão possessiva sobre o braço do marido, o rosto marcado pela dor e pela vigília constante de quem sabe que o terreno que pisa é instável.
Derick parecia ter envelhecido. Seus olhos, ao encontrarem os de Eloise por cima das flores, brilharam com uma mistura de choque, saudade e uma agonia surda. Ele não podia soltar o braço da esposa, não podia correr até a sobrinha que era sua alma gêmea botânica. Ele estava preso ao compromisso, ao filho que chutava dentro de Suzana e ao título de "tio" que a sociedade lhe impusera.
Eloise sustentou o olhar por apenas três segundos. Foram os segundos mais longos da vida de ambos. Depois, ela desviou os olhos para o caixão de Marianne, a única pessoa que talvez tivesse as palavras certas para aquele caos.
O enterro terminou sob uma garoa fina. Enquanto os convidados se dispersavam, Eloise continuou grudada ao pai.
— Eu volto com você para a mansão, pai — sussurrou ela, a voz rouca. — Só por hoje. Amanhã eu volto para Nova York.
Richard apenas assentiu, apertando-a mais forte. Ele sabia que a presença da filha ali era um milagre amargo.
Longe dali, no carro que os levaria de volta, Suzana sentiu o bebê se mexer e olhou para o perfil de Derick, que ainda olhava para o lugar onde Eloise estava.
— Ela voltou — Suzana disse, a voz sem emoção, apenas constatando o início de uma nova tempestade. — Mas não por você, Derick. Lembre-se disso.
Derick não respondeu. Ele apenas ligou o motor, sentindo que o perfume daquele dia não era de flores, mas de terra fria e adeus.
Fale com o autor