O silêncio da noite no jardim de Marianne era quebrado apenas pelo som abafado do choro de Eloise. Ela tocava as folhas de arruda e os ramos de jasmim que a avó tanto amava, sentindo o peso insuportável da culpa. Por causa do orgulho, por causa da dor de ver Derick com outra, ela havia perdido os últimos sorrisos da única pessoa que realmente unia aquela família.

​— Ela sabia que você viria — a voz de Derick surgiu das sombras, rouca e carregada de exaustão.

​Eloise se virou bruscamente, limpando as lágrimas com raiva.

​— Você não deveria estar aqui, Derick. Vá cuidar da sua esposa grávida e deixe o meu luto em paz. Você e aquela... aquela intrusa me tiraram o direito de estar aqui nos últimos meses. Eu tive que fugir para não morrer sufocada por essa mentira que vocês construíram!

​Derick se aproximou, os olhos brilhando de dor sob a luz do luar.

​— Acha que foi fácil para mim? Ver você partir, ver o ódio nos seus olhos? Eu fiz o que achei que era certo, Eloise! Eu tentei seguir as regras do seu mundo, as regras do meu irmão!

​— Você foi um covarde! — ela gritou, avançando e batendo no peito dele. — Você trocou o que sentia por um contrato e um casamento de fachada!

​Derick segurou os pulsos dela, a respiração ofegante, os rostos a centímetros de distância. A tensão de um ano de silêncio e mágoa explodiu em um segundo. O ódio se transformou em necessidade, e ele a puxou para um beijo desesperado, amargo e sedento — o beijo de dois náufragos que finalmente se reencontram em meio à tempestade.

​Eles não viram o vulto na varanda. Suzana, sentindo o peso da barriga de sete meses, desceu os degraus tropeçando na própria fúria. Ao ver a cena — o marido beijando a sobrinha no santuário da sogra que acabara de ser enterrada —, a botânica perdeu o controle.

​— SEU CANALHA! — Suzana gritou, avançando sobre os dois. Ela tentou desferir um tapa no rosto de Eloise, mas a herdeira Lâfrer Jones foi mais rápida.

​Eloise segurou o braço de Suzana com uma frieza que gelou o sangue da moça. Com um empurrão firme, ela afastou Suzana, mantendo-a à distância.

​— Não ouse me tocar — disse Eloise, a voz baixa e letal. — Olhe para você, Suzana. Olhe para este lugar. Você está aqui cuidando de um jardim que não entende, carregando um sobrenome que não te pertence e um homem que nunca será seu por inteiro.

​— Eu sou a esposa dele! Eu carrego o herdeiro dessa família! — Suzana gritou, as lágrimas de humilhação escorrendo.

​— Você é uma intrusa — rebateu Eloise, aproximando-se com um olhar de superioridade absoluta. — Você foi um erro de percurso, uma tentativa desesperada do Derick de fugir da própria pele. Você acha que essa barriga te dá direitos? Aqui, nesta mansão e nesta empresa, você é apenas a funcionária que engravidou do patrão por acidente. Saia deste jardim. Ele tem o cheiro da minha avó e o meu sangue. Você não passa de um ruído em uma história que começou muito antes de você sequer saber o que era um perfume.

​Suzana recuou, tremendo, olhando para Derick em busca de defesa, mas ele estava paralisado, olhando para as mãos sujas da terra do jardim. Eloise deu as costas para os dois, caminhando em direção à mansão com a cabeça erguida.

​— Amanhã eu volto para Nova York — Eloise disse, sem olhar para trás. — Mas não se engane, Suzana: você pode ter o papel assinado, mas eu sempre serei a dona da alma de tudo o que você vê aqui.