A Escolha de Bulma

7 Visita Inesperada


Os dias passaram numa velocidade impressionante. A relatividade nunca tinha tido um significado tão forte na vida de Bulma quanto naquelas semanas que se passaram. Estava vivendo bem, com conforto, do jeito que gostava. Possuía um dos melhores quartos do chalé, que era praticamente uma casa à parte. Tinha chuveiro dos mais modernos, banheira de hidromassagem, escritório, frigobar, sua enorme cama de casal, tudo que Goku prometera que lhe traria caso o ajudasse. Até o tapete azul marinho da sala de sua mãe ele lhe trouxe. Bulma chegou a achar engraçado os cuidados e as gentilezas do sayajin brincalhão, tinham estabelecido um vínculo forte de amizade naqueles dias, mas para ela era muito natural, já que era difícil não gostar de uma pessoa tão amável.

Dentro da parte central da casa, todos comiam juntos a cada refeição. A comida era sempre servida com fartura e feita com bom gosto. Uranai e Kuririn se dividiam na cozinha, ambos com enormes talentos gastronômicos. Em alguns momentos Bulma tentou cozinhar o pouco que sabia e, apesar de ter achado muito trabalhoso, todos ficaram deliciados com os seus preparos. Tenshinhan e Yamcha, que moravam ali perto, apareciam quase todos os dias para treinar, comer, e jogar conversa fora. Tinham energia para qualquer coisa aqueles rapazes, Bulma ficava sempre impressionada. Em alguns momentos jogavam cartas durante à noite, enquanto Mestre Kame fazia drinks alcoólicos para lhes acompanhar durante os jogos. Em uma dessas vezes, a brincadeira durou a madrugada inteira. Bulma gargalhava da maneira como Kame sempre roubava, escondendo cartas nas mangas e até no chapéu. Tenshinhan ficava desanimado, levava as coisas a sério, enquanto Yamcha, Kuririn e Goku achavam a maior graça da cara de pau do velho trapaceiro.

Lá fora, Bulma resolveu construir uma pequena arena de treinamento para os rapazes se divertirem. Tinha cápsulas de todos os tipos, usou quase tudo o que Goku trouxera e transformou o chalé em uma base de treinamento com fachada de hotel cinco estrelas. Até uma piscina eles tinham aos fundos do quarto de Bulma, algo que era aproveitado por quase todo mundo. Piccolo, por sua vez, apesar de fechado, ficava cada vez mais impressionado com a facilidade da cientista em resolver todos os problemas com sua tecnologia. Ele não participava das brincadeiras e às vezes mal comia nas refeições, mas aos poucos foi se abrindo mais com a jovem Briefs, até cedendo-lhe pequenos elogios sobre sua competência como cientista.

Já haviam recebido duas visitas dos pais de Bulma, a Sra.Briefs ficou apavorada com o que viu e ouviu em relatos sobre o que ocorrera ali semanas antes, mas ficou aliviada em ver a filha viva e contente, até fez elogios a respeito da aparência dos rapazes que a rodeavam. Bulma ficava sempre um tanto constrangida com esse tipo de comportamento da mãe. O Sr.Briefs, por outro lado, achou fascinante a história dos sayajins e encheu Goku de perguntas sobre a sua raça, algo que não soube responder muito bem, já que não tinha tanta informação sobre seu planeta natal quanto gostaria.

Acoplada à edícula onde o quarto de Bulma se encontrava, ela montou uma pequena salinha, que servia de enfermaria para o príncipe dos sayajins, este que ainda permanecia desacordado. Ela estava começando a desconfiar da gravidade do caso de Vegeta, pensou em chamar algum especialista, mas poderia arruinar tudo caso alguém mal intencionado quisesse se provalecer daquelas informações. Eram extraterrestres, afinal de contas, tentariam explorar eles de todas as formas no Ocidente, e sabe-se lá, pensava a cientista, que tipo de consequências isso poderia trazer.

Cuidar do Vegeta passou a ser rotineiro para a cientista. Todas as manhãs ia até a salinha verificar o pulso, a pressão, e até construiu um tanque de higienização para não violar a privacidade do rapaz. Sentia-se constrangida toda vez que o colocava nu no tanque. Fazia o possível para não olhar, especialmente às partes mais íntimas, mas em uma das vezes seus olhos escaparam e não conseguiram desviar do corpo porfeitamente esculpido do sayajin. No final das contas, toda vez que ia cuidar de Vegeta acabava se sentindo um tanto culpada por não poder fazer de sua situação algo mais prático para os dois. Se ele ao menos acordasse, pensava ela, facilitaria tanta coisa!

Com o passar dos dias, e com o desenvolver do profissionalismo de Bulma, muitas vezes ela até esquecia que aquele homem na maca era um assassino sádico. Seu organismo alienígena, no entanto, lhe era fascinante. Recolhera amostras de sangue de Goku e Vegeta e fez comparações. O padrão de hemácias era diferente, uma porcentagem bem menor comparando com humanos, e as células sanguíneas tomavam diferentes funções na circulação, tendo um volume bem maior que as dos humanos. E além disso, seu DNA era algo completamente diferente de qualquer espécie terrestre. Bulma percebeu pela arcada de Vegeta que sua idade beirava os quarenta anos, quando fisicamente, mal parecia ter trinta sequer. Quando descobriu isso foi até Goku iniciar os exames comparativos e sua suspeita se confirmou: Sayajins são uma raça muito mais evoluída que a dos seres humanos, mas ao mesmo tempo tem muitas semelhanças físicas. A cientista chegou a pensar que o processo evolutivo de seleção natural deveria ter sido muito similar, não só pelo organismo quase humano, mas principalmente, pela cauda de macaco.

– Nossos ancestrais perderam a cauda no processo evolutivo, porque não precisaram mais dela para a sobrevivência. — disse ela para si mesma enquanto fazia anotações sobre os sayajins. — Provavelmente a cauda tem alguma importância vital para a sobrevivência evolutiva dos sayajins. Talvez algo a ver com suas características de guerreiros...

Estava no quarto de enfermagem, olhando Vegeta dormindo tranquilamente, enquanto fazia novas descobertas sobre alguma parte de seu corpo não humano. Sua mente concentrava-se tanto em teorias que nem percebeu quando Kuririn entrou na sala para falar com ela. Levou um susto quando ouviu a voz do amigo.

– Como ele está, Bulma? — perguntou o amigo com um certo tom de preocupação, ela só não soube idenficar ao certo o porquê.

– Ele vai bem, só me preocupa esse sono tão profundo.

– Será que ele nunca mais vai acordar?

– Dificilmente! É um guerreiro da raça de Goku, não sucumbiria dessa forma. Mais cedo ou mais tarde teremos que lidar com o seu despertar.

Bulma soltou um suspiro. Nem queria pensar nesse dia. Kuririn também ficou pensativo antes de quebrar o silêncio que se instalara no quartinho.

– Às vezes não entendo Goku, é como se esquecesse o mal que as pessoas lhe fizeram no passado.

– Ele sempre foi seu amigo? — interessou-se ela. Era realmente difícil imaginar alguém não gostando de Goku.

Os olhos de Kuririn baixaram um pouco, como se tivesse de repente se dado conta de algo importante.

– Na verdade não. Eu o odiava no começo, nos conhecemos quando ainda éramos apenas dois moleques, mas você sabe como ele é meio pirado. No fundo acho que eu não entendia suas razões. — o rosto do rapaz careca voltou ao semblante nostálgico. — Se formos analisar bem, até o Piccolo virou amigo de Goku e os dois se odiavam! Ele foi uma dessas criaturas que queria a aniquilação da humanidade, poder, e é claro, exterminar Goku. E olha só pra eles hoje, até já foram a aulas de direção juntos. Dá pra acreditar?

– Piccolo dirigindo um carro? Imagina o terror do instrutor dele! — disse Bulma aos risos.

– Aqui no Oriente não é tão incomum ver alienígenas por aí, vocês lá do outro lado não sabem porque ignoram este lugar há décadas, mas na Cidade Leste existem até professores alienígenas dando aulas em escolas. É claro que não são muitos, mas vocês nem devem fazer ideia de como é a vida aqui.

– É bem diferente do que eu imaginava, devo admitir. A imagem que nos construíram sobre o Novo Oriente é de que é um lugar inóspito aos humanos, cheio de animais e plantas estranhas, fora os vestígios de radiação da guerra que traz muitas lendas urbanas.

– Tenshinhan é uma dessas lendas urbanas. Ele nasceu, hum... daquele jeito... porque sua família sempre viveu na área radioativa, até mesmo antes de ajeitarem aquele lugar existiam muitos vilarejos povoando o local. Por isso que ele é assim, diferente.

Bulma lembrou do terceiro olho do rapaz alto e em todas as coisas que o baixinho Kuririn lhe falava de sua terra. Pegou-se pensando que gostaria de tê-los conhecido antes, vivido mais histórias com aquelas pessoas, outras aventuras. Era como se estivesse em paz. Nenhum daqueles seres, por mais estranhos que fossem, tentaram tirar proveito dela, nem sequer enganá-la para ter um pouco de sua inteligência, beleza, ou fortuna. Diferentemente das pessoas com quem convivera a vida inteira, que sempre quiseram tirar um pedacinho de seu sucesso, essas eram pessoas simples e humildes. Até mesmo Kame quando não tentava roubar as roupas da cientista conseguia ser um senhorzinho amável e gentil.

Talvez fosse muito mais saudável ficar ali por um tempo do que voltar para o Ocidente onde todos pareciam querer comê-la viva. Só de lembrar de todas as vezes que foi perseguida por fotógrafos ou constrangida por jornalistas sensacionalistas, já lhe trazia um embrulho no estômago. A ciência dava tudo para o mundo e a humanidade continuava a limitar-se à comportamentos medíocres. Presa nessas reflexões, mal se deu conta que Kuririn a chamava de novo, mas dessa vez do seu quarto, aonde segurava o telefone celular nas mãos estendendo o objeto a Bulma.

– É a sua mãe. Espero que não se importe de eu ter atendido. Você estava tão pensativa, nem me respondeu. — disse o homenzinho coçando a cabeça confuso. — Tome, vou deixar vocês a sós. Depois nos falamos.

– Ok, obrigada Kuririn.

Bulma imediatamente ligou o visor que estava pausado e viu o rosto de sua mãe tentanto conter uma notável expressão de aflição.

– Mamãe? Está tudo bem? Que cara é essa?

– Ah, querida, você não vai acreditar! Que coisa horrível!

– Mãe, desembucha, fala logo o que tá acontecendo!

– Você sabe que seu paizinho tem amigos na N.A.S.A, aquele lugar onde constroem espaçonaves pro governo, não sabe, querida? Então, desde que eles detectaram a chegada dos macaquinhos na Terra, esses homens têm vigiado o Novo Oriente. Oh, Bulminha, você vai ter que falar com eles, não sei o que querem...

Houve um ruído forte e Bulma não conseguia entender o que aconteceu quando sua mãe saiu do foco da tela. De repente, apareceu o rosto alvo de seu pai, que tomou o telefone das mãos da esposa e começou a falar com seriedade.

– Bulma, descobri que a N.A.S.A está indo a onde você tá neste momento. A chegada dos sayajins estava em todos os noticiários na noite em que você foi parar aí com Goku. O governo do Ocidente inventou uma história de que foi um pedaço de um satélite que caiu no lugar errado, de uma sonda espacial que quebrara, mas agora esses cientistas querem saber o que realmente aconteceu.

– Não pode ser! Eles sabem que estou aqui?

– Infelizmente sim, e assim que souberam ficaram desconfiadíssimos. Você sumiu exatamente na noite do seu Nobel, todos esperavam um grande descurso, mas você simplesmente sumiu do mapa. Depois de a visitarmos, sua mãe abriu a boca em uma festa aqui em casa. Ela bebeu champagne demais aquela noite.

Bulma ouviu sua mãe protestando no fundo do vídeo, dizendo não saber que a bebida servida era tão barata a ponto de fazê-la perder o limite das palavras. A concentração da cientista girava em torno de alguma solução para aquela visita desagradável. Sentia-se como uma polonesa escondendo judeus em casa e descobrindo que os nazistas viriam visitá-la para uma inspeção.

– Ah, mas que droga! O que é que eu vou fazer?

– Se descobrirem a respeito de Goku e seus amigos estranhos, vão tomá-los como aberrações, você sabe, não pode deixá-los usar criaturas inocentes como experiência.

– Pai, nem que eles tentassem conseguiriam. Goku e Piccolo têm um poder inimaginável, como se fossem super-heróis e...

– É disso que estou falando, Bulma! — interrompeu Sr.Briefs com urgência na voz. — Se perceberem que seus novos amigos são perigosos, sabe lá a idiotice que podem fazer... Não falo só pelos os agentes da N.A.S.A que poderiam se machucar, mas pelos seus amigos que querem ficar como estão, na privacidade de seus lares. E principalmente, falo por você, querida. Precisa se proteger!

Não deu nem tempo de descansar a cabeça e Bulma já tinha uma tarefa difícil pela frente: Se encontrar com um dos mais respeitados grupos de astrofísicos do mundo, e mentir para eles.

– Papai, mamãe, não se preocupem. Vou dar um jeito! Falo com vocês assim que for possível.

Quando ela desligou o celular sentiu uma estranha presença no quarto lhe acompanhando. Olhou rapidamente para trás e se deparou com Kuririn, Mestre Kame, Uranai, Piccolo e Goku a encarando com olhos de admiração e surpresa.

– Quem é esse tal de Nasa? — perguntou Goku inocentemente. — Por que deveríamos temê-lo se é só um terráqueo ocidental?

Os outros cinco se olharam, até Piccolo sabia do que o pai de Bulma falava, se encararam sem saber como aquele sayajin podia ser tão bobo em momentos tão cruciais. Bulma respirou fundo olhou seus amigos com firmeza e segurança. Estava certa de que protegeria aquelas pessoas, eram do seu time agora.

– Tudo bem, pessoal, temos que bolar um plano! E tem que ser agora!

– Esses caras não são seus amigos, Bulma? — perguntou Kuririn, tão inocente quanto Goku. — Vocês são todos cientistas, não?

– Não é bem assim, Kuririn. — respondeu Piccolo. — No mundo Ocidental existe competitividade em todo o canto, as pessoas trabalham juntas enquanto esperam para puxar o tapete um do outro.

– Piccolo está certo. Temos que ouvir o que Bulma tem a dizer. Você conhece essas pessoas, minha jovem? — perguntou Kame interessado em ajudar.

– Bem, conheço algumas pessoas de lá porque já trabalhei temporariamente nessa empresa, eles tem um contrato de sociabilidade com a empresa do meu pai, mas não sei que tipo de gente estão mandando pra cá. Poderiam muito bem trazer um grupo de policiais junto deles. O plano é a gente ser o mais amigável possível. Piccolo, você tem que se esconder, vá para a casa de Tenshinhan e leve Goku com você. Não voltem aqui até que algum de nós os chame.

– O que eu vou ficar fazendo aqui? — perguntou Kuririn perdido.

– Você vai ser meu assistente autista. E não vai falar nada, tá

– Ei, como assim autista? Está me insultando!

– Não sinta-se ofendido, pessoas das mais brilhantes no ramo da física tem autismo mesmo em baixo grau. É bem comum, você só vai precisar ficar em silêncio e não encará-los muito diretamente. Você pode fazer isso?

– Se for a melhor solução, posso fazer facilmente.

Bulma olhou finalmente para o casal de velhinhos na expectativa.

– Uranai e Kame, vocês são os amigos dos meus pais de longa data que me deixaram ficar aqui para que eu explorasse o lugar e tirasse umas férias da minha vida de cientista famosa.

Os dois acenaram firmemente com o queixo e todos pareceram confiar no plano de Bulma e estavam prontos para botá-lo em prática em poucas horas. Quando Piccolo e Goku discutiam sobre qual era o melhor caminho para passarem despercebidos até Tenshinhan, ouviu-se uma batida alta e pesada na porta do chalé da frente. Um silêncio repentino assolou o quarto de Bulma enquanto os seis se olhavam como se adivinhassem o que viria a seguir. A batida na porta ecoou novamente pelos corredores de madeira até uma voz grossa alcançar os ouvidos no quarto de Bulma.

– Olá, aqui é do governo do Ocidente, estamos procurando pela Srta. Bulma Briefs, por favor.

Notas finais