A Escolha de Bulma

8 Perguntas e Mais Perguntas


Uranai foi a primeira a se mexer. Não se intimidava diante de nada, era de se esperar que tomasse a atitude enquanto os outros não sabiam o que fazer. Olhou para Piccolo e Goku como se estivesse surpresa.

– O que ainda estão fazendo aqui? — disse ela invocada. — Deem o fora antes que estraguem tudo. Kuririn, você ouviu a Bulma, cale a boca e apenas escute. Agora vamos se livrar desses ocidentais bobos.

O olhar de Bulma se encontrou com o de Goku antes que ele se teleportasse com Piccolo. A expressão do sayajin sempre lhe transmitia mensagens pontuais e significativas, sem dizer qualquer palavra, deixando a sincronia natural entre os dois fazer com que Bulma entendesse que ele cumpriria sua promessa, a ajudaria, e a protegeria em todas as situações. Era um imenso alívio para ela ter alguém como Goku por perto, que além de doce e compreensivo, poderia protegê-la de qualquer mal que lhe aparecesse pelo caminho. Sorriu para ele antes de vê-lo desaparecer em um piscar de olhos.

A mente de Bulma voltou a funcionar num fluxo intenso de sensações e novas percepções de sua situação. Mentalizava todas as possiblidades daquele encontro e suas consequências, para que de alguma forma pudesse estar preparada para tudo. Quando chegou até o hall de entrada da sala, Uranai já recepcionava os cientistas com seu jeito simpático, acompanhada de Mestre Kame. Kuririn ficava entre a sala e o corredor observando de canto de olho, tentando fingir que não tinha capacidade o suficiente para entender a gravidade daquele encontro.

Eram três cientistas com mais um carro forte de segurança esperando lá fora. Eles vieram mal preparados, Bulma pensou ao ver os poucos soldados com suas armas de fogo. Olhou para os cientistas depois, cumprimentando-os, sem deixar de notar seus olhares de ansiedade sobre ela.

– É uma honra, Srta.Briefs!! — disse um deles. — Nunca pensei que fosse conhecê-la pessoalmente! Você é ainda mais bonita pessoalmente, é inacreditável!

O rapaz, cujo crachá do uniforme lia-se Charles em letras garrafais, ficou imediatamente constrangido por transparecer tanto nervosismo. Um homem de trinta e poucos anos deixando escapar elogios bobos a uma garota que se morasse em seu país, nem teria permissão para beber álcool devido a sua pouca idade. Bulma, no entanto, nem corou, agradeceu friamente o elogio e observou os nomes dos outros dois cientistas antes que lhe fossem apresentados. Hugo e Ian.

– A Senhora tem uma casa adorável! — disse Charles. — É mesmo muito bonita! E como é grande e espaçosa por dentro!

Quando todos já estava sentados frente à frente, Uranai trazia-lhes chá enquanto Bulma se prontificava em resolver os fatos em pratos limpos.

– Bem, o que a N.A.S.A quer comigo agora?

– Ah, sim, Srta.Briefs, foi por isso que viemos. Nós recebemos a informação de que você veio pra cá no dia da entrega do seu Nobel. Ninguém entendeu direito, porque você foi na festa, mas desapareceu no meio dela de repente. Foi o que disseram.

Instalou-se um breve silêncio. Bulma observava os três pares de olhos atentos lhe observando com expectativa. Sabia que aquelas pessoas, de alguma forma, lhe temiam. Seu status de cientista mais importante do último século fazia com que poucos na comunidade científica não a adimirassem. Se Bulma entendia qualquer coisa sobre psicologia comportamental, ela sabia que isso poderia ter suas vantagens naquele momento.

– Foram motivos pessoais que me trouxeram até aqui naquela noite, por isso não me pronunciei ainda sobre esse caso. — Bulma captou os olhos atentos e respirou fundo antes de continuar. — A Sra.Uranai aqui é uma velha amiga de minha mãe, muito próxima da família, alguém por quem tenho muito apreço. Na noite da minha premiação recebi uma ligação do Sr.Kame sobre o estado de saúde de sua esposa.

Neste momento, Kame, que mantivera-se em uma postura sóbria até então, se engasgou com o chá que tomava e teve um breve acesso de tosse. Bulma ignorou e continuou contando sua história.

– Sua doença é rara e... É fatal! Tive que largar tudo e ficar com ela nesses tempos. Por tudo que ela já fez por nossa família!

Os três cientistas ficaram chocados com a notícia, falaram palavras de condolências para Uranai, e um deles, Ian, pegou uma ficha de arquivo de dentro de uma pasta preta. Suas mãos tremiam quando folheavam a papelada.

– Srta.Briefs... — disse o jovem gaguejando. — Um dos nossos representantes da N.A.S.A no governo quer saber sobre a coincidência da noite do seu Nobel. Você deve ter visto nos noticiários que coisas foram vistas aqui no céu do Oriente, mais precisamente neste local onde a Sra.Uranai reside. Dois objetos não-identificados foram localizados sobrevoando o céu da Cidade Leste e nenhum registro dessa aparição repentina tinha sido feita por nenhum orgão de astronomia.

Bulma olhava para Kame e Uranai, que agora limpavam xícaras na cozinha, como se não estivessem ouvindo a conversa. Antes de responder a Ian, ela hesitou um pouco assim que percebeu a ausência de Kuririn no canto da sala. Ignorou o fato pensando em permanecer séria e competente na sua atuação.

– Não entendo aonde você quer chegar.

– Algumas pessoas acharam que você poderia estar envolvida em algum tipo de... contato... com esses objetos não-identificados.

– Eu sei que parece teoria da conspiração. — disse Charles, o mais desenvolto. — Mas você precisa reconhecer que é bastante estranho a mais importante cientista do mundo vir parar num lugar como esse exatamente no dia das aparições no céu. Ainda por cima deixando a entrega do Nobel, uma das maiores honrarias da sua vida, eu presumo, da vida de qualquer cientista!

– Eu não estava a par dessa situação... não assistimos à televisão aqui. Soube porque meu pai mencionou alguma coisa no telefone, mas minha preocupação maior vocês já sabem. Não há nada que eu posso estar escondendo. Se eu tivesse obtido qualquer descoberta, certamente levaria para o Ocidente.

Os três homens se olharam com receio como se temessem algo que estava prestes a acontecer.

– Nós precisamos revistar o local, Bulma, é um trabalho do governo. — disse Charles com pesar. — Trouxemos uma equipe especializada para dar uma volta pelo perímetro. Temos que cumprir ordens. Atividades estranhas foram vistas por aqui e precisamos analisar a situação antes de voltar pra casa.

– Não vamos ficar muito tempo. — disse Hugo. — É só uma revista pela área onde foram vistos os objetos, você pode ficar aqui sem problemas. Não queremos atrapalhá-a.

– Só precisávamos saber seu relato antes de fazer uma vistoria.

Por um momento, Bulma imaginou que a revista incluiria a casa e o terreno de Uranai, mas percebeu que os cientistas não tinham uma ideia concreta sobre o que estava acontecendo, nem pareciam acreditar na sua participação nos fatos ocorridos. Concordou em ajudá-los caso precisassem de alguma coisa. Após a quebra de tensao na conversa, Uranai e Kame se ofereceram para ajudar os cientistas a se localizarem naquela região. Quando avisados a respeito dos animais pré-históricos vivendo na Floresta, os três imediatamente concordaram em ser guiados pelo casal de idosos, que além de simpáticos tinham a capacidade de transmitir sabedoria em suas falas ganhando fácil a confiança de quem queriam.

– Foi um imenso prazer lhe conhecer Srta.Briefs! — disse Charles na saída.

Os outros dois já haviam se despedido e estavam agora ocupados ajeitando os assentos de Kame e Uranai na van dos soldados. Bulma reparou que um deles, dos rapazes armados, estava de prontidão fora do veículo. Ele observava a casa e os arredores, como se quisesse achar alguma coisa perdida. Quando seu olhar se encontrou com o de Bulma, ela sentiu uma certa hostilidade por parte do soldado. Como se ele a desprezasse. Foi uma sensação estranha que tomou a curiosidade da cientista.

– O prazer foi meu! Pode me chamar de Bulma... Você sabe o que aquele soldado está fazendo?

– Ah! Um dos animais que o governo mandou com a gente. — sussurrou Charles com um sorriso amarelo. — Uma agência como a nossa e ainda somos obrigados a nos submeter a mercenários do governo.

– O preço do sucesso, nao é? — comentou Bulma fazendo o cientista rir. — O que ele está olhando tanto, afinal?

– Você... ou a estrutura da casa... ou procurando por algo que os políticos sujos que controlam a N.A.S.A querem que ele ache.

Os dois se despediram com um aperto de mãos e ela ainda sentia um receio ao observar o soldado de olhar estranho. Bulma acenou para Kame e Uranai dentro da van, pensando que na verdade seria bom ter aqueles dois controlando os cientistas. Saberiam se virar, certamente. Por fim, o carro forte foi embora por entre as árvores, deixando um rastro de pneu no belo jardim frontal do chalé. Depois disso, desapareceu na floresta de pinheiros altos, deixando Bulma na quietude silenciosa da natureza ao seu redor.

Ficou aliviada por estar em um momento de calmaria depois de ter corrido o risco de ser taxada como traidora pelo governo ocidental. Mal acreditara que tudo tinha dado certo sem muito esforço da sua parte. Na verdade, não conseguia parar de pensar no quão fácil havia sido. Voltou para dentro da cabana pensando em quem teria enviado aqueles soldados, e o que essa pessoa acharia das declarações que dera aos três cientistas.

Procurava por Kuririn enquanto tentava lembrar de algum conhecido, ex-colega, que poderia estar trabalhando para o governo e chegou a conclusão de que seu novo amigo tinha ficado entendiado e provavelmente ido se juntar aos outros na casa de Tenshinhan. Outra conclusão era de que nenhum nome específico vinha na sua cabeça, ninguém em especial poderia estar particularmente interessado em persegui-la.

Bulma caminhava pelo extenso corredor do interior da cabana que levava até o caminho para sua edícula, tinha muito trabalho a fazer antes de ir embora. O chão da madeira sob seus pés estalava e rangia a cada passo e com o silêncio em que se encontrava aquela casa vazia, era possível ouvir qualquer ruído vindo de qualquer cômodo. Sentindo-se estranha por estar sozinha pela primeira vez desde que chegara ali, ela concluiu que deveria tentar achar o caminho para Tenshinhan e se juntar aos outros até que Uranai e Kame voltassem. O chalé obtinha um ar sinistro quando não estava preenchido por todas as pessoas que moravam ali, era como se o lugar estivesse mais escuro e intimidador, mas Bulma não sabia bem dizer o porquê.

Estava prestes a dobrar o ângulo do fim do corredor, mas uma presença a impediu de chegar até a porta. Era como se estivesse caminhando de um túnel escuro para a luz e fosse impedida de chegar até o fim. De repente, aquela sensação de estar em um casebre abandonado e mal-assombrado parecia estar tomando conta do ambiente e transformando sua realidade em um pesadelo.

Foi tudo muito rápido, no entanto. A presença que lhe impedira, tomou-lhe por trás com braços fortes e opressores, segurando seus pulsos com uma destreza tão violenta, que não conseguia nem mexer os ombros pela maneira como estava imobilizada. A outra mão ocupava-se por cobrir sua boca impossibilitando que seu grito involuntário fosse ouvido. Sentiu o rosto de seu agressor se aproximando para falar-lhe perto da orelha. Mesmo num tom baixo e velado, o timbre grave de sua voz continha uma ferocidade que fez Bulma pensar que não sobreviveria para contar aquela história.

– Eu vou falar só uma vez. Você vai ouvir quieta e depois vai responder as perguntas e me falar toda a verdade. Está me entendendo, terráquea?

– Hunhun! — foi o único som que ela conseguiu proferir.

Os braços largaram seus pulsos e ele a virou para si, mas de uma forma não-agressiva. Colocando-a literalmente contra a parede, possibilitou que ela visse seu rosto. Era Vegeta, mas estava diferente. Bulma o reconheceu pelos cabelos negros desgrenhados e os traços másculos que o diferenciava de Goku. O que deixava a cientista surpresa era não só a voz, extremamente ríspida, mas principalmente os olhos. Abertos, aqueles olhos possuíam uma força que definia por completo o ímpeto da personalidade do sayajin. Era de repente um rapaz diferente do que Bulma cuidou durante todos aqueles dias, já que, de olhos fechados Vegeta sempre lhe parecera tão inofensivo. Agora era como se aquele corpo, antes imóvel, tivesse sido possuído por uma fúria e um ímpeto incontroláveis.

Ele agora não a machucava, nem a prendia de alguma forma para que não fugisse, apenas permanecia impondo-se diante do corpo pequeno da cientista. Levantou o dedo para ela antes de falar, hesitando, mas sem nunca desviar de seus olhos, e pousou o indicador abaixo de seu pescoço nu, fazendo pressão exatamente no espaço entre as clavículas. Bulma ficou impressionada, pois sabia que com aquele gesto, o sayajin pretendia verificar seu batimento cardíaco pela artéria que levava seu sangue diretamente a aorta no peito. Estava testando-a.

– Primeira pergunta: Onde estou?

– No Novo Oriente, em uma casa que pertence a um velho homem chamado Mestre Kame. — disse ela sem hesitar. — No planeta Terra.

– Segunda pergunta: Por que estou aqui?

– O que sei é que você batalhava contra Goku quando ele o venceu, mas não quis te matar. Ele te trouxe pra cá quando você ainda estava inconsciente e desacordado, e depois me pediu para cuidar do seu estado até que melhorasse.

Ele a fitou desviando o olhar pela primeira vez. Observou seu semblante olhando cada parte de seu rosto como se certificasse de que ela não estaria mentindo. O dedo indicador em seu peito afrouxou quando ele fez a próxima pergunta.

– Por que ele me deixou viver?

– Não sei bem, mas... — quando Bulma hesitou, o dedo pressionou de novo entre as clavículas. — O que ele me disse, foi que você é o único elo conhecido com a raça e a origem dele. Não quis te matar porque te viu como um vínculo com o seu passado desconhecido.

Ela percebeu que Vegeta viu uma certa graça na escolha de Goku, pois depois que respondeu, o sayajin deixou escapar um grunhido, como o resquício de uma risada, que carregava um forte tom de escárnio.

– Onde ele está agora?

– Na casa de um amigo aqui perto. Até onde sei, sou só eu aqui.

– Última pergunta... — e ele a olhou de uma maneira tão ansiosa e profunda, que Bulma ficou apreensiva pelo o que ouviria a seguir. — Quem é você?

– Meu nome é Bulma Briefs, sou uma cientista, vim do outro lado do planeta, do Ocidente, pra ser mais exata. Não moro aqui, só vim porque Goku precisava da minha ajuda.

– Por que Kakkaroto ia precisar de você? — disse ele num tom sarcástico.

Bulma não saberia como responder àquele homem a respeito das esferas. Talvez fosse o momento de mentir, mas era difícil para ela olhar naqueles olhos escuros invocados e não falar-lhes a verdade. Sua situação foi momentaneamente salva por um ruído do lado de fora da cabana. Os dois ouviram uma voz agressiva chamando por alguém, uma voz desconhecida, mas que causou um frio na espinha de Bulma quando ela começou a perceber que as possibilidades de lidar com aquele sayajin numa situação daquelas não resultaria em boas experiências.

Ele se afastou dela, andando em direção à sala. Bulma o seguiu com cautela e quando percebeu que ele não ligava para a presença dela atrás de si, checando seus movimentos, ela pensou em ousar um pouco mais e começou a falar.

– Eu acho que eu sei quem é. — disse numa voz baixa. — Um soldado... um soldado terráqueo de um lugar para o qual já trabalhei uma vez. Eles estavam aqui conversando comigo, antes de você despertar... Na verdade, foi por isso que Goku e os outros foram pra casa de Tenshinhan, para que eu pudesse conversar a sós com esses caras que vieram me cobrar do meu sumiço. É que eu não avisei ninguém que viria pra cá. E... ninguém no planeta sabe sobre os sayajins, ou sobre outros alienígenas com vida inteligente semelhante à nossa. Acho que...

Vegeta que espiava pelas cortinas o homem lá fora, não interrompeu Bulma nenhuma vez, sequer parecia perceber que alguém estava ali além dele, o que a encorajou a falar mais. Após checar todas as janelas da sala e da cozinha, voltou para Bulma aproximando-se de novo, ficando a dois palmos de distância de seu corpo.

– Acho que... Talvez... Ele esteja inspecionando a casa... Só pra ver se eu falava a verdade sobre os extraterrestres não terem nenhum contato comigo. Acho que podem estar desconfiados de mim.

Alguém bateu na porta, mas os dois ignoraram mesmo tendo ouvido o barulho sonoro da mão pesada do soldado na madeira. Ele a olhava de todas as formas agora, de braços cruzados, como se estivesse a analisando por completo, mas mantinha o cenho franzido demonstrando incômodo. E depois de fitá-la de cima a baixo disse:

– Como você fala!

Por mais estranho que lhe parecesse, e apesar do medo e da confusão, a primeira impressão dela sobre Vegeta foi precisa: Era de fato alguém da realeza. Não mentiram sobre isso. Não somente suas palavras ditas pela voz agressiva denunciavam sua superioridade arrogante, mas toda sua postura demonstrava a autoconfiança e a firmeza de uma autoridade. Ainda assim, seus traços sóbrios de guerreiro remetiam mais à violência que à nobreza. Os olhos eram de um negror profundo, estes possuidores de íris tão escuras, que mal se via o limite que as diferenciavam da pupila. Bulma nunca havia visto olhos tão escuros quanto aqueles, e a sombra que carregavam transmitia uma insanidade incomum. Bastava ele olhá-la por um instante e sentia-se imediatamente violada por seu olhar sinistro.

– Tem alguém aí, afinal? — gritava o soldado rudemente lá fora. — Cientista Briefs? Garotinha Briefs, está aí? Você precisa passar na entrevista comigo antes daqueles nerds irem embora!

As suspeitas em torno do caráter de Vegeta se confirmaram poucos minutos a seguir. Ela ficou petrificada quando o viu caminhando para abrir a porta. Não sabia o que fazer vendo-o tomar aquela atitude inesperada. De prontidão na varanda estava o soldado em uma roupa toda preta, portando armas e munições no colete militar.

Ele mal teve tempo de dizer o seu nome, quando viu Vegeta, algo em seu olhar mudou, foi como se percebesse o perigo de imediato. O soldado ia levantar a sua arma, quando Vegeta o tomou pelo pescoço com uma mão, levantando-o do chão. A arma do soldado caiu e seu rosto estava vermelho como fogo. A outra mão do sayajin entrou pela boca do rapaz e saiu de lá segundos depois totalmente ensanguentada segurando alguma coisa. Então Bulma percebeu que o pedaço de carne vermelha na mão de Vegeta era a língua do soldado. Ela levou as mãos ao rosto de pavor ao perceber o homem ainda vivo, agonizando de dor no chão da varanda de madeira assim que o sayajin o soltou bruscamente.

Vegeta empurrou o corpo do homem com um arrastão de pé, para poder fechar a porta. Ele olhou para os lados, como quem procura algo, e passou pelo balcão que dividia a sala da cozinha aonde Bulma estava encostada, em choque. Ela ouviu o barulho da torneira da pia abrindo e fechando.

Ele apareceu em frente a cientista secando as mãos em uma toalha.

– É isso que acontece com pessoas que falam demais. Inseto! Aposto que vai morrer só por causa disso! — comentou ele divertido, mas sem deixar de soar ameaçador. — Agora, escute, mulher terráquea... Eu vi aquelas suas tralhas naquele lugar onde me deixaram! Que porcaria era aquela sala?

– Uma enfermaria. Com objetos de fins medicinais para que eu pudesse acelerar sua cicatrização. E um tanque de recomposição para ajudar na higiene automática e também para manter os ferimentos limpos e medicados.

– Você é uma cientista, então? — perguntou ele desconfiado.

– Sim. — disse Bulma com a voz ainda trêmula. — Fui condecorada com um Nobel recentemente, que é a honraria mais importante que um cientista pode receber neste planeta. Sei algumas coisas sobre medicina e técnicas de enfermagem.

– E quando vou recuperar minha energia por completo?

Bulma ficou um pouco surpresa com a pergunta. Ainda sentia o cheiro de sangue.

– Hm... Bem, não poderia dizer. Pensei que se recuperaria por completo quando acordasse. Não está se sentindo bem?

Ele a olhou com desprezo como se tivesse sido ridículo ter feito aquela pergunta, mas ponderou e respondeu mesmo assim.

– Sinto que falta algo. Me responda, mulher, fiquei quanto tempo desacordado?

– Três semanas, aproximadamente.

Os olhos cerrados do sayajin ganharam um ar de surpresa e se arregalaram com a notícia. Vegeta estava agora visivelmente preocupado. Levou um tempo pensando até que soltou um suspiro pesaroso.

–Mas que droga!! Quanto tempo falta para que eu fique normal de novo, terráquea idiota?

O tom de voz de Vegeta era tão rude que Bulma foi tomada por um impulso violento em empurrá-lo ou dar-lhe um belo tapa. Se conteve o quanto pôde e apenas elevou o tom de voz para se impor diante dele. Não estava mais se importando se seria um erro.

– Escuta bem, se você está vivo agora é graças a mim e a Goku, entendeu? Então trate de me respeitar porque além de ter cuidado de você eu nunca deixei ninguém chegar perto de você enquanto estava desacordado, tá bom? E meu nome é Bulma! Faça o que quiser, mas é bom que saiba que sou uma dama, e damas são respeitadas!!!

A medida que Bulma explodia diante do sayajin, este caminhava para trás, evitando o contato entre os dois, e quando ambos já estavam dentro da cozinha, ela sentiu o cheiro de sangue ficar mais forte. Nem percebeu a reação de Vegeta quando parou de gritar, pois seus olhos só conseguiram fisgar a sua atenção na língua que jazia ensanguentada no fundo da pia. Ao ver aquele pedaço de músculo humano tão de perto, com o cheiro ainda forte, as pernas de Bulma tremeram e sua pressão caiu. Antes que pudesse se arrepender do que disse a Vegeta, ele a segurou quando seu corpo desfaleceu e a cientista apagou por completo em um desmaio repentino.