A Escolha de Bulma

11 Uma Simples Formalidade


Notas iniciais
Capítulo grande, como avisei no anterior, talvez isso se torne um padrão agora que a parte mais introdutória da história já foi contada. Boa leitura!

Após o banho, não se surpreendeu ao ver que Maron já havia providenciado um grupo de pessoas para tratar da aparência da cientista para a festa. A assistente era mesmo muito competente em tudo que fazia, até arrumou roupas sociais para os rapazes. Todas as peças nas medidas certas, o que deve ter sido difícil analisando o tamanho e proporção distintos de cada um deles.

As horas passaram rapidamente e Bulma não via a hora de sair daquele quarto de uma vez. Já podia ouvir vozes de conversas no andar de baixo da casa e estava cansada de ficar ali apenas esperando terminarem de arrumar seu cabelo. Mas quando se levantou e pôde finalmente se olhar no espelho não teve nenhum arrependimento. Estava linda de uma forma há muito não vista por si mesma. As madeixas azuis caíam em cascata de um dos lados de seu rosto. Estava com o cabelo dividido de uma maneira que deixava o pescoço pálido exposto do lado onde os fios não cobriam. A maquiagem suave deixava suas discretas sardas a mostra no rosto e nos ombros. Usou um vestido nude com bordados de fios prateados pelo tecido de tule. O busto ficava bem valorizado sustentado por alças bem fininhas. As coxas torneadas mostravam-se bastante com o comprimento da roupa. Quando calçou a sandália de tiras pretas pareceu que suas pernas chamavam mais atenção ainda.

Olhou pela janela antes de sair do quarto. Sua vista era o jardim da frente e na sua extensão podia ver vários carros estacionados no pátio interno. Saiu a procura de seu namorado, mas não o encontrou antes de descer as escadarias. Viu que a festa não tinha sido uma má ideia, definitivamente. Estavam todos bem arrumados e se divertindo no andar de baixo. Percebeu que Kuririn conversava com uma bela mulher loira, não só mais alta, mas muito mais atraente que ele. A garota ria como quem se diverte muito com o que ouve. Não sabia que seu amigo carequinha era tão galante com as mulheres. Chegou a procurar por Yamcha, mas foi difícil encontrar o rapaz com a quantidade de gente a cumprimentando. Não pôde deixar de notar que as pessoas cochichavam e lhe olhavam com um certo temor quando passava.

Foi até o bar beber pegar uma taça de champagne e foi surpreendida por Launch, sua colega de trabalho. A moça loira cuidava da engenharia de computação em um dos principais setores da empresa de seu pai. Olhava para Bulma com expectativa e irritação nos olhos. Se cumprimentaram com cordialidade e bastante animação por parte da garota, mas Lauch era séria.

– Bulma, você está bem?

– Nossa, Launch, que cara é essa?

– Os boatos correm, você sabe. – disse a loira acompanhando a colega na bebida. – Nem todo mundo é idiota o bastante pra acreditar naquele pronunciamento da n.a.s.a sobre sonda espacial que quebrou.

Bulma suspirou e tomou um gole comprido da bebiba. Aquela seria uma longa noite.

– A gente pode falar sobre essas coisas na reunião da empresa essa semana, você vai ter autorização pra comparecer.

– São alienígenas, não são? Aquilo que apareceu no céu e foi pro Oriente. Você sabe, não sabe, Bulma?

A cientista virou a taça e a colocou vazia no balcão.

– Sim, são alienígenas! E sim, eu estava lá e os conheci e têm uma inteligência que se assemelha a nossa e são seres incríveis e sim, tive que esconder isso de todo mundo. Satisfeita?

O rosto de Launch parecia ter visto uma assombração. Bulma não ligou, estava cansada de tudo aquilo, era muita pressão para uma pessoa só. E de qualquer maneira, Vegeta já tinha estragado com toda a tentativa de manter aquilo num segredo. Começou a passar os olhos pelo salão novamente e foi então que avistou Yamcha e Maron conversando do lado de fora, no terraço de frente pro jardim. Sorriu involuntariamente ao ver o quanto seu namorado estava lindo no terno preto. Maron estava incrivelmente linda e fazia o rapaz rir enquanto gesticulava sua fala com as mãos. Usava um belo vestido colado de cor púrpura. O comprimento comportado ia até abaixo dos joelhos, mas uma fenda generosa na saia revelava toda a extensão de uma de suas coxas. Ela apoiava a mão no braço de Yamcha a medida que falava sorridente.

Bulma sentiu o sorriso desaparecer aos poucos, o mais lentamente possível, ao ver aqueles dois conversando com intimidade. Estava ficando louca ou acabara de avistar seu namorado colocar uma mecha de cabelo para trás da orelha de Maron? Desistiu da conversa com Launch, abandonando-a no balcão do bar para interferir na conversa do casal animado no terraço.

Bem na hora em que estava atravessando o salão, sua mãe apareceu com duas taças de drinks nas mãos e lhe empurrou uma.

– Toma, você tá sem bebida na mão. Onde estão seus modos? – disse brincando. – Esse é de maça verde, é ótimo!

Bulma quase entornou a taça de líquido esverdeado. Não tirava os olhos dos dois na sacada, mas sua mãe era insistente e pegava seu rosto para que lhe olhasse.

– Querida, seus amiguinhos estão se divertindo? Olhe só pra você, como está linda! Parece uma princesinha.

– Mãe, por favor, tô meio ocupada agora. Eles estão se divertindo muito sim. Não foi má ideia essa festa. Obrigada!

– Oh, querida! Isso é só uma simples formalidade! Uma reuniãozinha de empresa, você sabe como é. Agora eu vou ali ajudar os rapazes responsáveis pelos fogos de artifício, dá licença, Bulminha.

– Mãe, peraí! Fogos?

Sua mãe era incansável. A jovem olhou de volta para o terraço e não viu mais nem Maron, nem Yamcha. Ficou desconfiada e foi caminhando até o lado de fora. Não havia quase ninguém no terraço, o único grupo de pessoas lá conversando voltou para dentro pouco depois de ouvirem Bulma balbuciar alguns palavrões em voz alta. Como podia seu próprio namorado não procurar por ela numa ocasião daquelas? Maron deveria estar vigiando o rapaz e em vez disso sumia com ele quando a garota mais precisava de companhia.

Estava um clima agradável lá fora, pelo menos. Sem o falatório e as gargalhadas embriagadas. Colocou a taça já vazia no parapeito de mármore branco do terraço e olhou para o céu. Estava limpo de nuvens e repleto de estrelas. Pensou em Yamcha com carinho ao lembrar de sua primeira noite juntos e sorriu.

– Como alguém como eu pode ser tão insegura? Não combina comigo. Ele sabe a sorte que tem de me ter como namorada.

– Por favor, não me diz que você já pirou de vez. – disse uma voz lá de baixo no jardim. – Um dia no Ocidente e já tá falando com as paredes?

Olhou para o jovem ao lado da piscina e sorriu de alegria ao reconhecer Goku. Foi correndo para a escada lateral direto para o abraço do amigo. Como se já fizesse muito tempo que não o via.

– Eu tinha certeza que você não ia voltar. Kuririn me disse que você tem a mania de sumir do mapa sem falar pra ninguém.

Ele deu uma risada.

– Ele até que tem razão, sabe. Mas como você está linda, Bulma!

Ela corou com o elogio, mas em seguida começou a ficar séria ao notar os machucados no corpo e rosto do rapaz. Eram ferimentos leves, mas lembrava muito bem de ter visto a pele de Goku impecável há umas cinco horas atrás.

– O que aconteceu com você?

– Bulma, você confia em mim?

Ele a olhou sério e profundamente quando lhe fez a pergunta.

– Confio, é claro!

– Você precisa saber que pode confiar a sua vida a mim, está me ouvindo? É muito importante que você entenda isso.

Ele a pegava pelos ombros acariciando sua pele com os polegares. Sentiu um arrepio estranho vendo-o falar aquelas coisas.

– Goku, o que está acontecendo? Você tá me assustando.

Goku começou a caminhar devagar em direção oposta a mansão e Bulma o acompanhou nos passos lentos. Pegou na mão dela como quem não queria nada, fazendo o mesmo carinho nas mãos com o polegar. Parecia nem perceber que a tocava, como um gesto automático.

– Bom, você sabe que eu tenho um certo compromisso com as minhas origens. Não sei de onde isso veio, acho que tá no meu sangue. Fui procurar saber mais sobre a minha raça, a dos sayajins. Lembra que eu te disse uma vez que o Vegeta era o único que poderia me conectar a isso?

– Sim, lembro.

– Falei com ele hoje cedo. Como você pode ver, ele não é muito amigável. – ele apontou para os ferimentos no rosto. – Mas descobri o que precisava.

– O Vegeta ainda tá na Terra? – perguntou Bulma mais pra si mesma. – Não me diz que lutaram de novo?

– Meu planeta foi destruído, Bulma. Junto com meu pai e o pai de Vegeta. Eu nunca mais vou poder conhecê-lo!

– Sinto muito, Goku! – disse apertando-lhe a mão. – O que aconteceu pra destruir um planeta inteiro?

– Freeza. – ele disse com desprezo. – É de uma raça alienígena antiga e bem diferente de nós. Deveria trabalhar junto com o rei, mas traiu os sayajins por medo de nossos poderes. Meu planeta natal foi destruído por uma supernova, Bulma. Vegeta sobreviveu, mas foi usado como guerreiro de Freeza, até ter a chance de fugir a procura de aliados para derrotá-lo.

Bulma suspirou fundo. Desde o começo nutria verdadeira compaixão pelo amigo e sua história de vida, mas diante daquela nova versão de fatos só conseguia pensar no quanto os sayajins eram complicados. Ninguém no universo estava disposto a deixá-los em paz. E afinal de contas, quantos tipos de alienígenas existiam no universo? Como pretendiam derrotar um ser que criava supernovas com as próprias mãos? Os humanos pareciam umas formigas se comparados a todos aqueles seres.

– Vegeta quer que você ajude ele a se vingar de Freeza? Tem certeza que é uma boa ideia?

– Sim, tudo isso surgiu porque fui procurá-lo pra pedir ajuda. O acordo é que vamos atrás desse Freeza assim que Vegeta nos ajudar a acabar com os androides.

Via nos olhos de Goku uma mistura de esperança com expectativa que fez a cientista pensar que poderia estar sendo ingênuo demais.

– Então fizeram um trato de ajuda mútua... O que te faz pensar que ele vai cumprir com a sua parte do trato sem nenhum tipo de trapaça? Você sabe do que ele é capaz.

– Ele está interessado em lutar contra os androides. Bem, até nosso acordo se cumprir ele vai se comportar, eu acredito. Temos um inimigo em comum agora.

– E depois desse acordo você vai voltar a ser o inimigo dele. – disse Bulma com ceticismo.

Já estavam bem em frente ao laboratório quando o rapaz virou de frente pra ela e deu uma de suas risadas contidas.

– É, ele comentou algo sobre me eliminar, mas você sabe... A gente acerta as contas depois.

– Tem certeza que isso vai dar certo, Goku? Porque, sem ofensas, mas você é meio idiota pra algumas coisas.

Ele ficou surpreso em ouvi-la falar consigo daquele jeito. Curiosamente, era a segunda pessoa que o chamava de idiota naquele mesmo dia.

– Por isso que eu te disse pra confiar em mim.

– Confio em você, só estou sendo sincera. Bem, era isso? Você queria seu plano aprovado pela minha inteligência? Tudo bem, eu acho que pode dar...

– Não, Bulma. – interrompeu. – Não é por isso. Na verdade, preciso de um favor seu. É crucial que você confie em mim pra isso.

A cientista cruzou os braços com toda a desconfiança que algumas taças de champagne podiam demonstrar em linguagem corporal.

– Ah, é? E que favor é esse?

– Eu disse pro Vegeta que você fazia questão de hospedá-lo enquanto treinasse para as batalhas. Que podia confiar em você porque foi quem cuidou dele enquanto esteve inconsciente e tudo o mais. Quando eu falei da cápsula de gravidade ele ficou bem interessado.

– Você o quê?

Ela não podia acreditar no que ouvia. Levou as mãos no rosto tentando medir em sua mente as consequências daquela conversa.

– Ele quase matou uma pessoa na minha frente, Goku.

Ele pegou seus pulsos com delicadeza para tirar as mãos que tapavam o rosto de Bulma.

– Ei! Olha pra mim. – disse baixinho. – Ele não vai machucar você. Tenho certeza absoluta disso. Não vou estar muito longe, você sabe. Yamcha vai ficar aqui te fazendo companhia e viremos visitá-la de vez em quando.

– Goku... Sei que de alguma forma ele é um tipo de família pra você. Por também ser um sayajin e tudo, mas... Talvez esteja me pedindo muito desta vez.

Ela suspirou forte e se desvencilhou dos braços do amigo. Ouviu o farfalhar de arbustos e alguns passos se aproximando pela grama. Olhou para trás e viu a silhueta masculina tomar forma a medida que se aproximava da fronte iluminada do laboratório.

– Kakkaroto! Aquilo lá atrás é uma nave espacial ou uma sucata qualquer?

Bulma reconheceu Vegeta imediatamente. Caminhava de braços cruzados em direção aos dois.

– É uma nave. – disse ela sem ser rude, mas também sem a menor das simpatias.

– Hunf! Imaginei. Tínhamos um modelo parecido na frota de Vegetasei.

Sentiu uma pontada de curiosidade em perguntar sobre como era a tecnologia de seu planeta, mas quando o sayajin se aproximou o bastante para que visse o estado de sua aparência seus pensamentos se desviaram. Estava com as mesmas vestes de quando o viu na cabana, provavelmente perambulou por aí sem ter tido qualquer lugar pra ficar e tomar um banho para poder se trocar. Bulma então lembrou das vezes em que tirou um pedacinho do organismo de Vegeta para usar em seus exames. Fio de cabelo, glândulas, sangue, etc. Fora os momentos de violaçao de privacidade que o sayajin nem sonhava que havia sido submetido. Sentiu o coração amolecer pela culpa e olhou para Goku rapidamente, mas num gesto cheio de significado que fez com que ele percebesse que a garota tinha mudado de ideia. Era ingênuo e tinha um coração puro, mas decifrava expressões humanas como ninguém.

– Você vai ficar aqui, então? – disse ela com um tom de voz mais amigável. – É muito bem-vindo pra usar da nossa hospitalidade o tempo que precisar.

Ele só fez um grunhido quase inaudível e olhou para o lado, em direção a mansão iluminada pelas luzes da festa. Dava pra ouvir vozes, música e risadas ao longe.

– O que está acontecendo aqui? – ele perguntou desconfiado.

– Minha mãe está dando uma festa. Você vai ver bastante dessas enquanto estiver aqui. Ela gosta desse tipo de coisa. – disse olhando o rapaz de braços cruzados cujos olhos pareciam meio atônitos com a falaçada vinda do salão. – Quer ver a cápsula de gravidade?

Ele imediatamente a olhou como quem já havia esquecido de um detalhe muito valioso.

– Você gosta de treinar bastante? Posso deixar a cápsula por sua conta pra ficar treinando lá dentro.

Bulma abriu a porta metálica do laboratório com uma senha digitada no visor da maçaneta. A porta se abriu e as lâmpadas do corredor acenderam automaticamente.

– Bom, vocês podem fazer isso sem a minha presença, né? Tenho que achar o Piccolo. É urgente!

Bulma o fuzilava com os olhos, mas sua fala transparecia a calma e a doçura típicas de seu timbre feminino.

– A última vez que o vi estava em cima do telhado. – ela o ignorou com vontade de dar-lhe um tapa e então se dirigiu a Vegeta. – É por este corredor aqui, vou te mostrar onde fica.

Ela entrou no laboratório seguida por Vegeta e a porta de entrada fechou-se assim que os dois passaram por ela. Bulma preferiu ignorar Goku depois de decidir hospedar o príncipe dos sayajins em sua casa. Enquanto caminhavam em silêncio, lembrou-se que seriam três anos até os androides aparecerem e que isso era muito tempo pra ficar assistindo homens perderem suas línguas.

– Você sabe mexer nessa coisa? – perguntou Vegeta enquanto observava o conteúdo das salas de portas abertas.

– Fui eu que projetei. Sei melhor que ninguém!

Pararam em frente uma porta cuja placa de alumínio tinha gravado o nome de Bulma em letras garrafais. Precisavam passar pelo seu laboratório para entrar na cápsula simuladora de gravidade. Ela abriu a porta e as luzes automáticas iluminaram o enorme recinto. Era repleto de mesas compridas cheias de eletrônicos por cima de suas superfícies. Tinha um extenso quadro branco, pregado em uma das paredes, totalmente preenchido por cálculos e fórmulas. Algumas coisas eram só rabiscos, mas a maioria lhe serviam de base para as invenções da Corporação. Vegeta a seguia quieto, observando minuciosamente o ambiente estranho ao redor.

Nos fundos da sala de Bulma, uma porta grande de chumbo dava passagem para o simulador de gravidade. Quando chegaram em frente a larga porta de metal, ela hesitou.

– Eu posso fazer uma entrada no lado de fora do laboratório depois. Pra você não precisar ter que fazer esse caminho todo até aqui.

– Não faz diferença pra mim. – respondeu de modo ríspido.

Ele a encarava de braços cruzados com aquele olhar irritado. Mas ela ainda estava conseguindo manter a calma.

– Pra mim faz. Essa é a minha sala, meu local de trabalho. Vai ser melhor se fizermos a entrada do outro lado.

Quando disse isso, ele olhou ao redor, reparando o monte de metal e ferramentas jogados em cima das mesas. Tinha o cenho franzido, como se nao entendesse como alguém poderia trabalhar com aqueles objetos estranhos. Ela finalmente abriu a porta com outra senha e entrou na sala de teto côncavo.

Havia um painel circular no centro, que Bulma ligou prontamente para mostrar todos os níveis de gravidade que a máquina podia suportar. Explicou como funcionava e o tipo de manutenção que era necessário fazer de vez em quando. Ele parecia pouco impressionado, mas prestava atenção em cada palavra que ela dizia.

– Então, acho que com a prática você pega o jeito. Vai ter bastante tempo até os tais androides aparecerem.

Ainda com os braços cruzados, ele se aproximou de onde estava, encurralando-a entre o painel eletrônico e o seu corpo rígido.

– Eu não sei que tipo de idiotice o Kakkaroto falou pra você, mas meu único objetivo neste planeta inútil é treinar dia e noite até superar os poderes daquele imbecil.

Ela não se intimidou. Havia algo no jeito em que ele falava, no entanto, que a enfurecia de modo que não conseguia temer sua força. Tentou manter-se indiferente.

– Faz o que você quiser. – disse num tom de voz controlado e frio.

Ele fez um movimento estranho com as sobrancelhas sem que ela entendesse o motivo, mas parecia estar um tanto surpreso por tê-la ouvido dizer aquilo.

– O que eu quiser? – perguntou ameaçador.

Bulma sentiu o rosto corar ao perceber o tipo de interpretação que Vegeta tinha dado a sua frase. Ela viu os olhos negros desviarem dos seus para observarem suas bochechas rosadas. Sentia seu rosto quente como nunca.

– Faça o que quiser porque não me importo… desde que não incomode ninguém enquanto estiver aqui. Foi isso que eu quis dizer.

Não desviou o olhar em nenhum momento, mas assim que terminou a frase arrependeu-se imediatamente. Sentiu-se uma idiota por ter que explicar o que dissera, já que era óbvio que ele tinha entendido e apenas estava encontrando uma forma de deixá-la desconfortável.

– Você está bem mais calma que aquele dia. – ele continuou a provocar. – O que aconteceu com aquela terráquea escandalosa que desmaia quando vê um pouco de sangue?

Ela não conseguia acreditar. O que tinha feito pra merecer aquilo? Só porque era linda, rica, inteligente e bem sucedida não precisava ser castigada pelos deuses. Tomou um susto quando ele ousou se aproximar mais, pareceu ficar mais encorajado ao perceber que conseguiu botar medo na garota. Os olhos negros a fitavam incessantes. Falou em uma voz baixa, quando estava bem próximo do seu rosto.

– E se for o seu sangue... você desmaia também?

O coração de Bulma batia como um tambor. Estava completamente petrificada e não conseguia pensar em nada, mas aquela sombra de riso naqueles olhos maléficos despertou a sua raiva novamente. Ela conseguiu sair de onde estava levando o corpo do sayajin para frente com um empurrão leve, mas eficiente, pois Vegeta se afastou.

– Sai da minha frente, idiota! Já fui legal demais. Agora deixa eu voltar pra minha festa, seu estúpido!

E saiu batendo o pé pra fora da sala.

Quando passava pelo corredor, Bulma teve um sentimento ruim com o que aconteceu e, ainda irritada consigo mesma, foi até a sala de testes laboratoriais procurar alguma roupa sobrando. Dependendo do tipo de química que usavam para compor as cápsulas, algumas vestes especiais eram necessárias e por isso sempre tinham roupas de reserva nos armários disponíveis para todos os funcionários. Voltou de lá com uma camiseta preta e uma calça azul escura de algodão em mãos. Não parava de resmungar palavrões, mas também não poderia sair daquele laboratório sem ter cumprido sua tarefa e tratar de ser hospitaleira.

Voltou para a sala de gravidade e surpreendeu-se ao ver, pelo lado de fora, que Vegeta já estava testando os limites de sua invenção. Não quis interromper, pois poderia resultar em mais um diálogo raivoso. Deixou a muda de roupa dobrada em uma cadeira do laboratório e a colocou bem em frente à porta de chumbo. Pegou um pedaço de papel do meio de suas tralhas de trabalho e rabiscou um recado, para que ele soubesse que no fim do corredor mais a frente das outras salas tinha um banheiro com toalhas limpas lhe esperando.

Lá fora, Goku já não se encontrava mais. Tomava chá de sumiço quando mais se precisava dele. Até parecia o Yamcha naquela festa. Voltou sozinha para o salão de festas se sentindo muito estranha. Ainda estava nervosa e com o coração batendo forte pela descarga de adrenalina que sua raiva por Vegeta havia liberado. Chegando ao topo das escadarias do terraço, foi direto na direção de um garçom. Tomou a primeira taça numa golada só como se fosse um shot de tequila e a segunda taça de champagne ficou na sua mão só pra fazer aparência enquanto passava pelas pessoas do salão.

O lugar parecia ter ainda mais convidados que antes, o que só dificultava na hora de achar alguém específico naquele monte de rostos. Bulma às vezes não entendia como conseguia sobreviver àquele cotidiano de badalações que era a sua vida com os pais. A "simples formalidade" de sua mãe tinha resultado em uma grande festa reunindo um monte de gente importante num lugar só. Quando a viu de volta no salão, a Sra.Briefs a tomou pelo braço para bater fotos com todos os convidados. O fotógrafo ficou particularmente obcecado com Bulma e não parava de tirar fotos dela a todo o momento, até quando não estava olhando para as lentes.

Passaram-se horas desde o início da festa e mais tempo ainda desde que falara com Yamcha pela última vez. Não era o tipo de namorada grudenta, mas achava falta de consideração do rapaz em esquecer dela dessa forma logo no primeiro dia dos dois juntos em sua casa. Bebeu mais do que podia, sem compreender como conseguiu ingerir tanto álcool sem passar mal, mas por cada espelho que passava via que continuava linda com tudo no lugar e isso já lhe bastava. Quando os fogos de artifício foram acionados, todos os convidados se amontoaram no terraço para assistir o espetáculo. Era realmente lindo, mas Bulma nem queria imaginar o quanto a mãe tinha gastado de dinheiro com aquele show pirotécnico. O fotógrafo veio mais uma vez nesta hora e Bulma posou ao lado da mãe tendo o jardim e os fogos como plano de fundo. A esta altura já estava bastante alta pelo álcool e nas fotos só conseguia sair fazendo caretas ou sorrindo de modo muito forçado. Seus olhos ora procuravam Yamcha, ora Goku, outrora Kuririn, sem conseguir perceber a presença de nenhum deles. Kame foi o único que cruzou com ela durante o show de fogos. Estava acompanhado de uma mulher bonita demais pra ele e Bulma nem quis se intrometer.

Ao fim do interminável show de fogos, ela olhou o jardim iluminado pelas explosões no céu e ao fundo, em frente a parte externa da cápsula da gravidade, viu Vegeta de braços cruzados olhando para o céu. Chamou a mãe na hora, mas de tão bêbada quase não conseguiu falar direito.

– Mãe!! Tenho que te avisar uma coisa, mãe! – ela gritava no ouvido da Sra.Briefs por conta do barulho dos fogos. – A gente tem mais um hóspede! Só que você toma cuidado com esse que é de outro planeta!

– Ahhh, Bulma, como você traz rapazes pra esse planeta! Quem é ele?

– O nome dele é Vegeta, ele é um sayajin, vai ficar por aqui quase tanto tempo quanto Yamcha.

Bulma apontou para onde Vegeta estava de braços cruzados. A mãe da garota continuou sorrindo e ao avistar o rapaz, iniciou um aceno escandaloso na sua direção.

– Ah então ele é como o Goku. Aposto que também é muito bonito! Alô!!! Ei, Vegeta! Seja bem-vindo ao nosso lar!

E ao dizer isso, abriu os braços como se estivesse literalmente oferecendo seu lar. A mulher loira era superficial, mas nada boba, lembrava de cada detalhe sobre os novos amigos de sua filha e não deixava passar nada pelos seus olhos azuis atentos, o que deixava Bulma surpresa de tempos em tempos, quando a mãe resolvia mostrar que ainda raciocinava como pessoas normais. Bulma caiu na risada com o jeito maluco da mãe e percebeu que Vegeta ouviu a gritaria no meio dos fogos e agora as olhava. Mesmo de longe dava pra perceber que sua expressão facial não era das mais agradáveis.

– Vamos disponibilizar o melhor quarto pra ele. Por que não vai lá, Bulma? Mostre os cômodos pra ele, faça-o se sentir em casa.

– Mãe, ele não é nada sociável. É bem diferente de Goku.

– Ora essa! Mas ele não vai dormir ali na rua, não é mesmo?

Embriagada como estava, não tinha pensado que precisava mostrar a Vegeta seus aposentos. Foi direto falar com ele depois de ver a mãe quase dar-lhe uma bronca. A Sra.Briefs tinha uma necessidade anormal em ser uma boa anfitriã e mostrar-se a pessoa mais hospitaleira de todas. Bulma desceu degrau por degrau, sentindo o torpor do álcool fazendo efeito nos seus movimentos. A caminhada de alguns metros até onde Vegeta estava parecia quilométrica no estado que se encontrava o seu sistema nervoso. Ele a observava parado com os pés descalços no chão e vestindo a roupa emprestada do laboratório.

– Você já tomou banho! Que bom! – ela comentou mais simpática que o necessário. – O que achou da cápsula?

– Útil.

Percebeu que o sayajin estava lhe tratando com uma frieza especial agora. Ela tentou parecer séria, mas sua língua já dava umas enroladas ao falar.

– Acha que vai ajudar você com os treinos? Posso aperfeiçoar os comandos. Minha inteligência brilhante também poderá ser muito útil pra você.

– Você tá falando como uma retardada. – disse com frieza e indiferença.

– Olha, Vegeta! Escute. Vim aqui por uma trégua. Acho que você é um macaco selvagem, mas posso te ajudar se você me ajudar. Sei que o treinamento com gravidade vai te ajudar muito a chegar ao nível de Goku.

– Você não passa de uma ridícula. De que modo pensa que poderia me fazer te ajudar?

Ela tentava ignorar os insultos gratuitos sem se opor. Começou a perceber que aquele linguajar era o vocabulário oficial do príncipe e que faria parte do seu cotidiano na convivência com Vegeta.

– Você fica treinando aí, te ajudo no que precisar com a máquina, te dou robôs pra você lutar, vai ter comida boa, roupa lavada, um bom lugar pra dormir, enfim. Mas o que eu quero em troca é bem simples.

– Então fala logo! – disse ele começando a perder a paciência.

– Só quero que não faça nenhuma barbaridade como aquela com o soldado, tá ok? E se for fazer, que seja longe daqui.

– Hunf! Que seja!

– Bom, então tá feito! – disse a moça sorrindo. – Agora venha comigo, vou mostrar seu quarto. Deve estar cansado, eu imagino.

Ele ficou ali observando a garota sem entender.

– Você vai dormir em um dos ótimos quartos daquela casa ali ó! – e apontou para a mansão iluminada. – Esperava que sua nova cama fosse o chão da cápsula de gravidade? Vamos logo! Ou você quer que eu traga um tapete vermelho, Vossa Alteza?

O álcool que deixara a língua da cientista afiada deixou o príncipe transtornado e sem reação. Ela só podia não ter a mínima noção do perigo, era o que parecia.

– Vulgar! – ele resmungou.

Ela foi caminhando pela beira da piscina com a fútil ideia de ver seu belo rosto refletido na superfície da água. Queria ter certeza de que ainda estava linda. Ela tirou as sandálias e foi caminhando descalço pela beirada, um pé na frente do outro. Vegeta caminhava ao seu lado com cara de poucos amigos. Não demorou muito para a garota escorregar e quase cair na piscina. Isso só não aconteceu porque o sayajin a puxou pelo braço e empurrou seu corpo para longe da margem. Foi estranho sentir as mãos dele fechando em torno do seu bíceps. Tinha um aperto tenso e agressivo, o que fez Bulma checar a pele pra ver se não havia deixado nenhuma marca.

– Vê se anda direito, sua tonta!

Para além da grama nos arredores da piscina, ao leste do terreno dos Briefs, havia uma plantação de macieiras e do lado oeste, algumas árvores altas cobriam o muro alto que as separavam do vizinho. Bulma teve a impressão de ter ouvido algum barulho estranho vindo da plantação de maçãs de sua mãe, mas estava tão embriagada que ignorou completamente os ruídos mais estranhos.

Guiou Vegeta em linha reta, até o salão de jogos abaixo do andar onde a festa acontecia. Precisava levá-lo até os quartos sem passar por toda aquela gente. Foi até a lavanderia onde sabia que poderia usar o único elevador existente na casa. Era um elevador muito antigo, de uma estética decorativa que agradava sua mãe, mas era pouco prático. Precisava fechar a porta de ferro antes de apertar o botão.

Enquanto eram levados para cima, sentiu-se estranha no silêncio que pairou. Aquele objeto era lento demais e logo se deu conta que estava em um cubículo dividindo o pouco espaço com um alien sanguinário. Sentia uma tensão forte dentro daquele elevador, fazendo-a culpar o álcool pelo desconforto. Olhou para o sayajin misterioso de braços cruzados a sua frente. Os dois apoiavam as costas nas paredes opostas. Não conseguia parar de encará-lo com curiosidade e se perguntar: Quem era aquela criatura? O que pensava por trás daqueles olhos tão escuros? Como fora sua infância em um planeta onde seu pai era o rei? Quais eram seus traumas e temores, se é que possuía algum? Será que era digno da confiança de Goku? Poderia em algum momento fazer mal a ela e sua família? Ele a encarava de volta, com olhar sério e penetrante, em uma expressão indecifrável.

A porta do elevador abriu-se no terceiro andar, mas os dois levaram um tempo para se mexer. Bulma foi na frente indicando o caminho, sentindo os passos quase mudos do sayajin atrás de si. Aquele andar possuía todos os quartos da mansão, cada um mais luxuoso que o outro. Havia uma escada no centro, que levava os degraus até as escadarias principais do enorme saguão de entrada. Era o único andar cujos corredores eram revestidos por um carpete cor de creme, para que se evitasse qualquer tipo de ruído durante a noite. A sua mãe não tinha deixado nada especificado sobre qual dos quartos deixar para Vegeta, mas como estavam em sua maioria ocupados pela visita dos amigos, restou o cômodo em frente ao seu.

Abriu a porta branca e fez sinal para que ele entrasse. Era um quarto tão grande quanto o seu, com uma cama de solteiro próxima a uma janela e um guarda-roupa largo todo preto do lado oposto. Toda a extensão do quarto era revestida por um papel de parede azul escuro de estampa vitoriana, mesma cor das cortinas que levavam a uma pequena sacada na lateral da mansão. Quando observou o lugar, chegou a pensar que até combinava com Vegeta. Foi verificar se ele tinha tudo o que precisava no banheiro e estava tudo cem por cento: chuveiro, banheira, toalhas, e todos os objetos de higiene pessoal. Ela pegou uma embalagem lacrada de escova de dentes elétrica e ficou pensativa encostada no vão da porta.

– Vegeta, no seu planeta as pessoas escovam os dentes? – perguntou ela sentindo-se divertida. – Aqui na Terra a gente usa isso ó, pra limpar os dentes e a língua, tá bom? Essa aqui é só ligar no botãozinho verde e fazer assim ó…

Ela começou a simular a escovação com o aparelho ainda na embalagem, abrindo a boca e fazendo sorrisos forçados. Vegeta observava a garota com uma expressão de surpresa e repulsa.

– Eu sei o que é uma escova de dentes, sua idiota! — disse com desprezo.

Bulma largou o objeto na pia do banheiro dando uma risadinha. Estava totalmente movida pelo álcool. Olhou as roupas de Vegeta, serviram-lhe bem, mas ia precisar de mais que aquilo até que ela lavasse e costurasse seu uniforme de batalha. Lembrou-se que estava de volta no Ocidente e lá as lojas eram abertas vinte e quatro horas por dia, podendo escolher e pagar as coisas pelas máquinas automáticas dos estabelecimentos. Tomou um papel do bloco de anotações ao lado do abajur do bidê. Deixou um recado para quem fosse limpar o quarto na manhã seguinte.

– Não tem nenhuma roupa aqui, mas não se preocupe que já vou pedir pra um dos empregados fazer compras pra você. Tem alguma preferência por cor? Bom, acho que preto e azul-marinho ficam bem em você, talvez algumas camisas brancas, mas nada estampado, acho que você não iria gostar.

Ela anotou as especificações no pedaçinho de papel e o colocou por baixo da caneta em cima do móvel.

– Você nunca cansa de falar?

Ele a observava ainda do mesmo lugar, e Bulma percebeu que era melhor deixar o sayajin sozinho antes que ele perdesse a paciência.

Por último, foi verificar a roupa de cama por debaixo das colchas negras que serviam mais para decorar o ambiente. Passou a mão pelos lençois macios e achou que estavam limpos o bastante pra serem usados naquela noite.

Um cansaço lhe tomou o corpo de repente quando tentou levantar do colchão onde sentara. Não sabia se eram suas pernas, o álcool, ou sua mente transbordada de pressões profissionais, mas sabia que precisava sair dali o mais rápido possível. Estava sentindo-se esgotada.