Notas iniciais
Obrigada a quem tem comentado e mandado mensagens. Eis mais um capítulo. Boa leitura!

Acordou sentindo dor de cabeça. Podia sentir as consequências do álcool tomando seu corpo dos dedos do pé até o último fio de cabelo. O quarto escuro tinha apenas um pedacinho do chão iluminado pela luz diurna que vinha das frestas da cortina. Estava em sua cama, mesmo sem ter lembrado de como foi parar ali. Vestia a mesma roupa da festa, o cabelo espalhado pelo travesseiro ainda estava brilhante e arrumado, como se estivesse em um filme onde as atrizes já acordam lindas e maquiadas. Ainda sentia o gosto artificial de maçã verde na boca. Ao se virar, para sua surpresa, viu Yamcha dormindo do seu lado na cama. Também não lembrava de tê-lo visto chegando, aliás, assim como não tinha nenhuma memória de vê-lo na festa, com exceção do momento em que o avistou com Maron. Aos poucos, as lembranças da noite anterior foram tomando espaço em sua cabeça e ela conseguiu se levantar para poder ir ao banheiro.

– Como nos velhos tempos. – disse para si mesma ao ver a cara borrada pelo rímel.

Fazia tempo que não bebia e parecia que tinha enferrujado seu organismo para o álcool. Trancou a porta do banheiro para tomar banho. Não estava com humor para o Yamcha desde o que vira na festa. Não tinha motivo para acreditar que poderia trai-la, mas teria que ser muito enfática ao explicar que no Ocidente aquele tipo de comportamento não era decente e que não aceitaria um namorado que flerta com outras mulheres. Ficou cada vez mais enciumada em pensar no seu sumiço. Assim que recuperasse suas energias teria uma conversa bem séria com o rapaz. As coisas não podiam permanecer daquele jeito como se nada grave tivesse acontecido, mesmo ela não sabendo ao certo o que tinha ocorrido de verdade.

Pensando nisso, lembrou-se de Vegeta e sua presença imponente, agora em um dos quartos de hóspede de sua casa. Fazia tudo por Goku mesmo, pensou indignada consigo mesma, não havia uma coisa que o simpático sayajin lhe pedisse que conseguisse negar. Yamcha não ia gostar nada de saber que o alien que uma vez o assassinou estaria morando sob o mesmo teto de seus sogros. Ele não tinha que achar nada, pensou, a escolha era unicamente dela.

Depois do banho revigorante, resolveu se dar ao luxo de banhar-se em cuidados cosméticos. Sentia que precisava se sentir uma garota da cidade novamente, pois a última coisa que queria era parecer acabada ou mal cuidada por causa de uma noite de bebedeira. Também tinha esperanças que ninguém desconfiasse que havia bebido muito caso aparecesse impecável. Não estava afim de ouvir comentários sobre seu pudor alcoólico. Para isso, usou um dos seus cremes favoritos, cujo aroma misturava morango e flor de cerejeira, além de possuir alta eficiência hidratante. Passou um creme especial para olheiras e outro nos cabelos ainda úmidos. No armário por trás do espelho havia um conjunto de pílulas coloridas, com funções específicas cada uma. Tomou uma especialmente desenvolvida para ressaca e outra para a pele, com proteção ultravioleta. Em poucas horas estaria perfeita novamente.

No quarto, Yamcha ainda dormia com a respiração pesada. Ela mal o olhou sem coragem de dar-lhe um beijo sequer, não conseguia ser tão fria ao lembrar da festa e foi direto para o closet. Pela janela no alto do pequeno cômodo viu que o dia estava bonito e ensolarado. Tentou se animar ao vestir uma de suas peças florais favoritos, mas ainda sentia-se um pouco abatida mesmo alimentando um de seus hedonismos preferidos, que era a sua vaidade. As cores na estampa do vestido eram pálidas e frias, deixavam o aspecto de sua beleza ainda mais lírico. Penteou o cabelo enquanto se dava conta de que sua última lembrança da noite anterior foi quando estava no quarto de Vegeta. Pensava nisso olhando-se na frente do espelho encaixado entre as prateleiras de roupa.

Saiu do closet com os cabelos úmidos penteados direto para fora daquele quarto, tentando lembrar do que acontecera antes de apagar na sua cama. Talvez o sayajin soubesse, mas sentia-se intimidada em ter que falar com ele estando sóbria. Viu a porta do quarto dele fechada e passou direto para as escadas. Seu destino era a cozinha e foi lá que viu todos os seus amigos reunidos para o café da manhã. Tecnicamente já estava perto da hora do almoço, mas assim como ela, todos haviam acordado tarde. Ela era a única que não parecia um zumbi.

– Bulma, bom dia! – disse Kuririn sem animação. – Puxa, sua mãe sabe mesmo dar uma festa.

– Vejo que se divertiram bastante. – ela comentou ao se sentar na mesa do café. – E você Kame? Aproveitou bastante?

O velhinho só sorriu maliciosamente e tomou um gole da sua xícara. Piccolo estava tomando seu café em pé, encostado em um dos balcões da pia. Bulma achou uma visão um tanto engraçada quando parou pra pensar que tinha um alien verde, de quase dois metros de altura, ali na sua cozinha, tomando café com seus amigos.

– Vocês são muito hospitaleiros. – disse ele. – Temos muito o que agradecer a você e seus pais antes de irmos embora.

– O Goku esteve aí ontem. Ficou procurando por você. — disse a garota bebericando o copo de suco. — Conseguiram conversar?

– Sim, sabemos todos da nova situação de Vegeta e que vai nos ajudar.

Kuririn resmungou em sua voz sonolenta.

– Ah, Bulma, não acredito que esse lunático vai ficar aqui com vocês. O que deu nele pra resolver ajudar a gente?

– O que importa é que ele está disposto e seu poder será de grande ajuda na hora da batalha. E Bulma, Goku pediu pra te avisar que qualquer coisa pode chamá-lo.

– Ele já foi embora?

– Lembra aquilo que eu te falei sobre ele desaparecer do mapa? – disse Kuririn desanimado. – Ele faz bastante isso.

– Foi treinar em um lugar distante. Ao menos foi o que me disse.

– Piccolo, ele não te disse onde? Pra onde será que ele vai quando some desse jeito? Vocês não acham estranho? – Bulma indagou. – Poxa, nem sei quando vou ver ele de novo. Que droga! Vocês todos vão ficar treinando. Podiam ficar aqui me fazendo companhia, não é mesmo?

Mestre Kame sorriu com a ideia e Bulma se arrependeu de ter abrido a boca.

– Viremos te visitar, Bulma. Ninguém aqui vai te abandonar. – disse o carequinha com carinho. – Serão três longos anos.

– Seu pai fez uma grande gentileza de nos emprestar uma de suas naves para a viagem. – disse Piccolo. – Vocês possuem um arsenal tecnológico impressionante!

– Hm, ele ensinou a vocês como colocar a nave no piloto automático?

Eles afirmaram com a cabeça simultaneamente. A ideia de ficar longe dos três já desanimava. Queria que ficassem pelo menos mais um pouco até que se acostumasse com a nova rotina, mas sabia que era algo egoísta de se pedir aos amigos que tanto a ajudaram.

– Bom, é melhor eu ir acordar o Yamcha antes que ele acabe perdendo a despedida de vocês. Além disso, quero que levem algumas cápsulas úteis com vocês. Já volto, rapazes!

Ela tomou o último gole de suco e saiu da cozinha arrastando os chinelos. Nos pés da escadaria que levava aos quartos, encontrou Maron. Já estava com o microcelular encaixado no ouvido e um bloco de anotações nas mãos. Falava com um dos criados da casa sobre a arrumação do salão. Quando viu Bulma se animou de repente.

– Ah, aí está você! A nave já está pronta na base de lançamento do laboratório. Seu pai está lá cuidando do combustível. Sua mãe foi fazer compras hoje cedo. Trouxe doces de uma nova loja que abriu aqui perto, alguns engradados de café gelado que você gosta, coisas pro Yamcha vestir, alguns sapatos novos pra você e... – ela falava animadamente com caneta na boca enquanto checava as anotações feitas. – Ah! Ela também comprou várias roupas novas pro novo hóspede, aquele esquisito. Tudo o que você pediu: Bastante preto, tons escuros de azul, um pouco de cinza e umas camisetas brancas.

O homem uniformizado ao lado de Maron carregava uma penca de sacolas das lojas que sua mãe gostava de comprar. Nos primeiros degraus da escada tinham caixas empilhadas que eram embalagens de mais roupas e sapatos. Era muita coisa. Sua mãe era uma exagerada mesmo. Depois de uma festa daquelas, ainda conseguia ter pique para acordar cedo e ir fazer compras no shopping no eterno final de semana que era a sua vida de milionária.

– Você não especificou que tipo de sapato trazer pra ele, então sua mãe comprou alguns pares daquele tipo ajustável. São todos pretos e bem discretos. Acha que está bom?

Bulma olhou para Maron com receio. Era óbvio que estava mais que bom, o que lhe incomodava era a imagem da assistente falando com seu namorado na noite da festa. Não ia levar desaforo pra casa, sabia disso, mas não queria meter os pés pelas mãos.

– Maron, eu já te disse o quanto é importante pra essa família? No quanto confiamos em você? Seríamos nada nessa casa sem a sua competência.

A mulher ficou vermelha de repente. Bulma era mais esperta que todos eles. Sabia o que estava acontecendo e o rubor da mulher só deixou tudo mais suspeito. Desde quando sentia vergonha ao receber elogios? Maron mordiscava a extremidade da caneta enquanto lhe atualizava, o que era obviamente um movimento sexual inconsciente levando em consideração o símbolo fálico que era o objeto, estava mais animada que de costume, evitava olhar a cientista nos olhos, algo que nunca fazia.

Bulma cruzou os braços na defensiva, sem poder acreditar no que via. Sentiu seu orgulho ferido na possibilidade de estar certa quanto a lealdade da assistente e amiga de tantos anos. Maron olhava para Bulma como se adivinhasse o que poderia estar se passando na cabeça de sua chefe, afinal, a conhecia muito bem e há muitos anos. Já tinha visto aquele olhar felino noutras circunstâncias em que Bulma atacava friamente com suas palavras perspicazes, por isso, sempre tinha algum temor quando via a garota irritada.

Ela pediu ao criado levar as coisas para o seu quarto e deixá-las sozinhas. Assim que o homem desapareceu escada acima, Bulma apontou o dedo indicador na cara de Maron.

– Seja lá o que tiver acontecido entre você e meu namorado ontem, espero que, pelo seu próprio bem, não tenha sido grave.

– Bulma! – a garota realmente parecia surpresa. – Do que está falando? Senhor! Yamcha? Nos falamos por dez minutos ontem! Tá ficando louca?

– Maron, vocês conversavam de uma maneira totalmente íntima! Eu vi!

A assistente continuava a mostrar-se indignada com a suposta acusação.

– Acha que botaria meu emprego no lixo por causa de um cara? Está me ofendendo!

– Então quer dizer que sou cega?

Maron sentiu-se ainda mais insultada com a pergunta retórica da cientista. Bulma era confiante, mas balançou-se de dúvidas neste momento e por pouco não se arrependeu. A voz de Maron era firme, agora ela que levantava o indicador para a garota.

– Não acredito que teve a coragem de me humilhar desse jeito, depois de tudo que já fiz por sua família e por você! Como pode ser tão mimada?

A mulher jogou o bloquinho de anotações e a caneta no chão e saiu bufando para fora da casa. Antes de fechar a porta do saguão, voltou seu olhar furioso para Bulma.

– E quando foi que você me viu te traindo com Yamcha? Depois de virar todas as garrafas do bar? Ou depois de esquecer de tomar os remédios pro seus problemas mentais desse seu cérebro incrível!? – ela dizia com um sarcasmo furioso. – Eu tô cansada dessa sua arrogância!

Quando a enorme porta bateu, fez-se um longo eco pela casa. Conseguiu escutar o barulho de motor ligando lá fora e então, ouviu o carro de Maron acelerando para longe da residência dos Briefs. Nem nas melhores previsões Bulma poderia adivinhar a reação de sua assessora. Sentia uma culpa crescente abater seu coração, pois nunca imaginou aquilo acontecendo. Pareceu mais um desabafo do que irritação, no entanto, deixou a cientista se perguntando há quanto tempo Maron se sentia assim sobre ela.

Deu um forte suspiro entregando-se à culpa que lhe tomou. Subiu as escadas em passos lentos, até ouvir um grito abafado vindo do terceiro andar. Foi correndo para a direção dos quartos assustada, sem saber o que poderia estar acontecendo. Chegou no corredor de seu quarto e viu uma das criadas saindo correndo de lá.

– O que aconteceu? – perguntou Bulma preocupada. – Você tá pálida!

– Licença, Senhorita! O Senhor Vegeta precisa descansar.

Bulma sentiu a raiva subir às têmporas.

– Ele não te machucou, né?

A mulher fez que não e abaixou a cabeça.

– Apenas prefere ficar sozinho, Senhorita.

– Olha só, você vai tirar o dia de folga hoje, tá me entendendo? Estou pedindo que faça isso!

– Sim, Senhorita! – disse a mulher saindo às pressas.

A garota estava possessa. Foi até o quarto de Vegeta batendo o pé de raiva e quando chegou até a porta, nem pensou em bater, abrindo-a com toda a força que tinha nos braços delgados. Se deparou com o sayajin sem camisa, encharcado de suor, vestindo apenas uma bermuda preta e curta. Parecia ter acabado de sair de seu treinamento na cápsula de gravidade. Ele estava de costas quando ela chegou e ficou um tanto alarmado quando se virou e viu a cientista parada na porta. Tinha uma toalha de rosto branca ao redor do pescoço e ainda secava o suor do rosto enquanto via Bulma entrar no quarto.

– O que pensa que está fazendo? – ele perguntou.

– Você não pode ser violento com as pessoas que trabalham nessa casa! – vociferou ela com as mãos na cintura. – Ouviu bem?

Ele fez uma expressão de dor ao ouvir sua voz estridente, mas era apenas uma careta de deboche para provocá-la.

– Como você fala alto!

– Você prometeu que não machucaria ninguém!

– Quem é que eu machuquei, sua escandalosa?

– Agrediu verbalmente a mulher que estava limpando os quartos!

– Você só me enche o saco! – e deu-lhe as costas voltando a secar a nuca com a toalha.

Bulma suspirou procurando calma dentro de si, sabia desde o princípio que não seria fácil ter aquele homem sob seu teto. Aproveitou que estava ali para colher informações sobre a noite anterior.

– Vegeta... – disse ela mais tranquila e ele se virou para olhar. – Ontem estávamos aqui conversando no seu quarto, certo? E depois... você sabe...

Não queria dar a entender que não lembrava de nada depois disso, mas era impossível perguntar de outra forma. Ele cruzou os braços e começou a formar um meio sorriso sarcástico no rosto.

– Não sei do que está falando.

– Mas você tava aqui e... Eu também, mas… Ah, que droga! Será que dá pra refrescar a minha memória sobre o que aconteceu ontem aqui?

– Você caiu por cima da cama e dormiu. Deve ser por isso que não se lembra. O que imaginou que tivesse acontecido? — perguntou ele desafiadoramente.

Não imaginava que essa tinha sido a sequência de fatos, mas ainda não respondia exatamente como havia ido parar na sua cama. Ignorou aquela insistência quase sádica que o sayajin tinha em deixá-la constrangida sempre que se viam.

– Meu namorado veio me buscar depois?

Ele pareceu não entender direito e franziu a testa.

– O quê?

– O Yamcha, veio me pegar? Você sabe quem ele é.

Vegeta se mostrou muito surpreso, ao mesmo tempo que divertido, a sombra de sorriso voltou aos seus lábios acompanhando os olhos arregalados.

– Aquele verme é o seu namorado?

– Vegeta! – repreendeu a garota.

– Não, ele não veio aqui. Pra mim esse inseto já tava morto. Lembro bem de o fazer cuspir as próprias tripas.

Bulma ficou com medo pelo jeito sinistro que Vegeta lhe dissera aquelas palavras tão friamente, mas não resistiu ao impulso e levou a mão para esbofetear sua cara. Ele segurou seu pulso com facilidade antes que pudesse tocar-lhe o rosto. Ele não soltou a cientista depois disso. Percebeu que ela se irritava fácil e mostrou achar isso engraçado.

– Me solta, seu macaco idiota! – ela rosnava. – Seu animal estúpido!

– Você é mesmo uma terráquea muito malcriada! – disse ele se divertindo com a fúria de Bulma. – Só espero que perca logo essa mania de desmaiar perto de mim. Se eu soubesse, teria chamado o verme do seu namorado pra te carregar pra fora daqui e me poupar o tempo.

Ele soltou o pulso dela e a garota pendeu para trás pela força que fazia ao tentar sair da algema que era a mão do sayajin.

– Você que me levou lá? – perguntou um pouco receosa.

– Eu deixei seu corpo ali, achei que iria embora alguma hora, mas percebi que teria que te levar.

Ela ouvia cada detalhe tentando imaginar o ocorrido e tudo pareceu plausível. Até que ele não era tão selvagem, pensou, poderia tê-la chutado dali literalmente, mas teve a paciência de levar seu corpo até a cama do outro quarto. Não quis agradecer, ainda assim, julgou que ele não merecia esse tipo de educação. Ficou ali olhando-o, sem entender bem as mudanças bruscas nas atitudes de Vegeta. Fitou o peitoral nu e o abdômen oleoso de suor a dois palmos de distância. Seu corpo parecia mais forte que da última vez que o vira sob seus cuidados na enfermaria de Kame. Principalmente os braços, eram visivelmente maiores agora, ainda mais àquela distância.

– Por que tá me olhando com essa cara? Acha, por acaso, que te machuquei? Pois fique sabendo que se essa fosse a minha vontade, não esperaria você dormir pra fazer isso.

Estando tão próxima, ela pôde notar que Vegeta tinha um cheiro estranho. Era um perfume natural, até que agradável, mas bem diferente de qualquer coisa que já passara pelo seu olfato. Lembrava um pouco almíscar com um fundo amadeirado, misturando-se com o cheiro azedo e enferrujado de suor. Odiava esses breves momentos em que as características alienígenas do sayajin lhe tomavam a atenção como um ímã maligno, só permitindo que ficasse com raiva de si mesma ao sentir-se fascinada por cada detalhe que o compunha. Ao pensar nisso, viu por trás de Vegeta a comprida cauda felpuda balançar no ar suavemente, como a de um gato.

– Aquilo que os criados trouxeram nas sacolas são roupas novas que minha mãe comprou pra você. Fique com o que quiser. – ela ia saindo do quarto quando virou-se pra ele. – Ah, e vê se não anda por aí desse jeito, tá bom? Não sei quais eram os costumes em seu planeta, mas aqui as pessoas andam vestidas.

Falando isso, ela o viu caminhar em sua direção e bater a porta na sua cara. Não se chateou com aquilo, estava na verdade se acostumando rapidamente com aquele tipo de comportamento.

Do outro lado do corredor, Bulma nem tinha percebido antes, mas a porta do seu quarto estava aberta e Yamcha não dormia mais na cama. Não estava em nenhum lugar do seu quarto. Era incrível o modo como as pessoas conseguiam se desencontrar naquela casa, pensava. Bulma precisava falar com seu namorado e tirar a limpo aquela história com a Maron. Se tivesse visto coisas na sua cabeça, então pediria desculpas a sua assistente e ficaria tudo resolvido. Talvez ela tivesse exagerado, afinal de contas.

Mais uma vez desceu as escadas, mas até o andar térreo. Tinham alguns funcionários do seu pai rondando o jardim com pequenas máquinas rastreadoras. Era só mais um dia típico na casa dos Briefs, pois havia sempre alguma experiência sendo feita dentro dos arredores do terreno. Viu os seus amigos com as malas prontas na beira da piscina, incluindo Yamcha e sua mãe que comentavam sobre a festa. Estavam sentados em volta de uma das mesas com sombreiro que tinham em volta da piscina. Animaram-se quando viram a garota chegando.

– Ah, olha só ela! – disse Yamcha se levantando para lhe dar um beijo. – Você tá tão linda hoje, amor!

Bulma retribuiu o beijo como um bloco de gelo e se juntou à mesa. Percebeu que mesmo ainda sendo meio-dia, a mãe já bebia um de seus drinks e Mestre Kame a acompanhava. Yamcha parecia bem relaxado na sua cadeira sem notar que a garota estava diferente com ele.

– Oh, mas como vamos sentir saudades! – dizia a Sra.Briefs. – Essa casa é muito grande pra ficar vazia desse jeito. Que tragédia!

– Vocês vão ter que visitar! E vê se tragam aquele rabugento do Tenshinhan com vocês na próxima.

Só de ouvir a voz de Yamcha já sentia raiva. Ele pousou uma das mãos em sua coxa exposta e ela sentiu vontade de empurrá-la para longe, mas permaneceu quieta. Percebeu então que havia ficado muitíssimo chateada com o seu abandono durante a festa, muito mais do que imaginava que ficaria em um desentendimento daqueles.

– Onde você estava, Bulma? Demorou bastante. – disse Kuririn de um jeito meio intrometido. – Eu até fiquei preocupado.

– É que encontrei a Maron pelo caminho.

Pela sua visão periférica, sentiu o rosto de Yamcha virar pra olhá-la quando disse o nome da assistente. Estava começando a ficar difícil manter a pose de moça controlada com aquela história toda.

– Bulminha, sabe se as roupas vestiram direitinho no Vegeta? – perguntou sua mãe desviando completamente de assunto. – Ele pode trocar se não servir.

Yamcha resmungou alguma coisa incompreensível que já demonstrava sua posição sobre dividir um teto com o sayajin que lhe era tão odioso. Bulma também se deixou transparecer irritadiça só de ouvir falar aquele nome.

– Eu sei lá, mamãe! Já falei pra ele das roupas, deve ter servido. Se precisar de alguma coisa vai ter que pedir!

Kuririn riu com o mal humor da amiga.

– Bulma, daqui a pouco até o Vegeta vai ter medo de você. – disse dando risada.

– Ora, querida, ele continua sendo um convidado na nossa casa. Trate de ser educada com o moço alienígena.

– Quando Goku me falou ontem, mal acreditei. – disse Yamcha de cara fechada. – Esse cara é muito estranho mesmo. Você tem que tomar cuidado com esse lunático, Bulma!

Piccolo, que estava sempre sério e incomodo com alguma coisa, voltou a defender Vegeta e o plano de Goku. Bulma não sabia de onde o alien nameku tinha tirado tanto apreço pelo príncipe sayajins. Goku devia ter convencido-o da mesma forma que fizera com ela.

– Ora, vocês parecem não reconhecer o quanto será mais fácil lutar com Vegeta do nosso lado quando a hora chegar!

Em pouco tempo o Sr.Briefs estava com a nave pronta no gramado do jardim. Era um veículo espacial redondo, para pequenas viagens sobre a órbita do planeta, que mostrava-se igualmente eficiente se utilizado na atmosfera terrestre como um avião. Quando acima das nuvens, adquiria a potência de um jato veloz e assim poderia fazer a volta no planeta em poucas horas, se assim fosse preciso. Por conta disso, Bulma não se preocupou que Goku não tivesse ali pra fazer o teletransporte com os amigos, sabia que a viagem seria segura e rápida.

Mestre Kame teve a prudência de não abraçar a cientista, sabia que sua reputação de pervertido alterava o tipo de relação que tinha com a garota. Ela apertou a mão do velhinho de óculos escuros.

– Bulma... você é um achado. – foi tudo o que disse antes de entrar na nave.

Depois de cumprimentar o amigo Yamcha, Kuririn a abraçou com muita comoção e carinho. Ela sentia o mesmo sobre o baixinho, sabia que tinham sido muito companheiros um para o outro e talvez fosse o amigo de quem Bulma sentiria mais falta.

– Se cuida! Vê se não bate muito no Yamcha, tá legal? – riu o careca. – Vou vir te visitar sempre que puder!

Bulma o abraçava envolvendo todo o seus braços ao redor da cabeça de Kuririn. A baixa estatura dele mal alcançava seus ombros e se a garota chegava a ter um metro e sessenta e quatro de altura, já era muito. A figura pequena e feminina de Bulma só se tornava imponente quando próxima de Kuririn.

Os rapazes estavam distraídos com as bugigangas espaciais da nave e nem perceberam que deixaram Piccolo e Bulma a sós em um momento propício. O grande guerreiro nameku apertou sua mão.

– Sabe... Você é melhor do que falam por aí. – disse sério. – Devo pedir desculpas pelo meu comportamento amargo quando nos conhecemos. Não a levei a sério como deveria.

Ela ficou feliz em ouvir aquilo.

– Piccolo, você me surpreende às vezes! Mas não precisa pedir desculpas, por favor.

– Por mais que lhe pareça incompreensível, Goku confia em você de olhos fechados e... eu o compreendo, é uma garota que sabe se virar sozinha. Tenho certeza que você vai ter a sabedoria necessária para lidar com Vegeta sem que precisemos nos preocupar com a sua integridade física.

– Bom, já que você tocou no assunto, acho que vai ser bem complicado. Já percebi que não tenho muita paciência pra lidar com sayajins.

Ele deu uma de suas raras risadas, ficando sério quase em seguida.

– Se cuida, garota! E não se dê por vencida.

Piccolo então cruzou os braços tranquilamente e entrou na nave, dando-lhe as costas por um tempo que se estenderia longamente a partir dali. Ela e Yamcha acenaram para os outros antes de verem a porta de aço fechar. A nave começou a dar partida, quase enchendo os olhos da cientista de lágrimas, e voou para cima das nuvens quando ganhou velocidade.

Sua mãe chorava como se tivesse acabado de perder os próprios filhos. Sr.Briefs a consolava com um abraço enquanto comentava sobre o quanto seus novos amigos eram criaturas divertidas. Tudo era tão facilmente aceitável por seus pais, que Bulma não sabia se deveria se sentir grata ou desconfiada da sanidade mental do casal. Seu pai resolveu levar a esposa ao teatro como uma distração, deixando Yamcha e Bulma sozinhos para conversar, finalmente.

Estavam de volta ao quarto dela depois da despedida quando ela deu início ao diálogo.

– O que você fez na festa ontem?

O seu tom de voz era bem afiado, mas Yamcha agiu sem perceber.

– Ah, amor, ficamos conversando e bebendo, você sabe. Rondando por aí.

– E por que diabos você não me procurou ontem?

Agora o volume da voz de Bulma era nitidamente agressivo e intimidou Yamcha na mesma hora. Ele arregalou os olhos pra namorada e sentou na cama sem saber o que dizer.

– Por que está braba? Você estava falando com todas aquelas pessoas da Corporação... – a voz dele era insegura, mas seus olhos se mantinham firmes nos dela. – Eu não queria atrapalhar você nas suas relações de trabalho. Não tinha ninguém que eu conhecesse.

– Ah, essa é a sua desculpa? Eu queria te apresentar a todos como meu namorado, mas você preferiu sumir de vista e ficar de papo com a puta da Maron!

Ela tinha uma das mãos na cintura enquanto a outra gesticulava enfaticamente no ar. Não conseguia conter os palavreados de tanta raiva, por mais que tivesse a possibilidade de estar errada e de ter humilhado a assistente há poucas horas atrás. A falta de noção do rapaz a sua frente era o que a tirava do sério. Não suportava pessoas que se faziam de inocentes. Autopiedade era uma das características mais repulsivas ao seu ver, fazia com que as pessoas não se responsabilizassem por suas ações se colocando como vítimas do mundo.

– Calma, Bulma! Você tá perdendo a razão.

– Por que você não me diz o que tava falando com ela, ein? Não posso saber? Vocês se conheceram ontem e já têm segredinhos um com o outro?

Yamcha suspirou fundo.

– Quer saber? Estávamos... Que droga, Bulma! Nunca pensei que fosse te ver assim. A gente tava tentando planejar uma festa surpresa pra você. Kuririn também estava na conversa em vários momentos. Se você não acreditar em mim, liga pra ele.

Aquilo desarmou Bulma de uma forma inesperada. Ela lia todos os seus movimentos faciais procurando algum sinal que denunciasse sua história, mas se aquela era uma mentira, então Yamcha só poderia ser um sociopata. Refletiu um pouco: Se fosse verdade e ligasse para Kuririn, ficaria em uma situação vilanesca em seu relacionamento.

Ele levantou da cama e a abraçou devagar, conferindo sua reação. Beijou sua bochecha, seu pescoço, mas Bulma não estava nenhum pouco rendida aos seus encantos, apenas sabia que aquela discussão não acabaria bem se fosse levada adiante. Ela afastou o rosto de Yamcha para longe de seu pescoço e foi vestir-se para dormir. Fora a primeira vez que ela rejeitava qualquer tipo de carinho seu e o rapaz ficou um tanto chocado, mas como Bulma, escolheu não dizer nada.

Dentro do closet, ela digitou uma mensagem de desculpas no celular e mandou para Maron, sentindo a consciência pesar de culpa. Será que estava ficando louca no meio daquela pressão toda? Sua mãe ia querer matá-la se soubesse das coisas que tinha dito a sua querida e fiel escudeira Maron. Resolveu manter o profissionalismo em nome da família Briefs, escrevendo palavras gentis para a assistente saber que Bulma estava colocando seu orgulho de lado.

Voltou pra cama vestindo uma camisola de seda cor de lavanda. Yamcha tentou animá-la quando se deitou: beijou seu rosto com ternura, pediu desculpas por não ter tido tato para lidar com o estilo de vida dos Briefs, fez carinho nos seus cabelos, dizendo que ainda estava tendo dificuldades para se adaptar ao fuso horário e ao choque cultural do Ocidente.

– Ah, me desculpe Yamcha. Eu bebi muito naquela festa, tenho que aprender a controlar meu álcool de uma vez por todas. – disse encostando a cabeça no peito nu do namorado. – Não queria que você se sentisse sozinho aqui, sei que tinha bastante amigos no Novo Oriente.

– Na verdade, Bulma, eu conheço um amigo que mora aqui na capital ocidental. Ele já morou um tempo com Kame, mas mandamos ele pra cá logo depois que os sayajins apareceram querendo exterminar a todos.

– Engraçado como o Kame não se importa em fazer da sua cabana um hotel, não é? – disse a garota agora muito mais calma. – Mas quem é esse seu amigo? Por que não convida ele pra vir pra cá?

– O nome dele é Oolong. Você vai tomar um susto quando ver ele.

Ela ficou curiosa.

– Por que diz isso?

– Bem, você já conheceu um metamorfo?

Ela virou a cabeça pra olhar o rapaz. Já tinha ouvido falar de aliens que poderiam mudar de aparência, ouvia todo o tipo de coisa nos corredores da NASA na sua época de estágio. Sempre tinha um colega que conhecia fulano que trabalhava na área 51 ou um conhecido no time de astronautas que eram mandados ao espaço explorar outros planetas. Dessa forma, nunca tinha como distinguir boatos de fatos.

– E como é que ele se parece?

– Ele é um porco.

Dizendo isso com a maior casualidade do mundo, Bulma não conseguiu segurar o riso. Era a última coisa que esperava ouvir. Yamcha sorriu divertindo-se em fazer a namorada dar risada.

– É, sério! Quer dizer, tecnicamente ele não é um porco, você sabe, mas tem a aparência idêntica a de um. Com exceção de que ele é bípede e fala. Nossa, e como ele fala! Você vai gostar dele, Bulma!

– Quando eu penso que já vi de tudo... – disse a garota risonha. – Traz ele pra cá, Yam. Mamãe e papai vão achá-lo o máximo! E você vai ter uma boa companhia enquanto eu estiver no laboratório trabalhando.

Eles ficaram conversando brevemente sobre as espécies diferentes de seres que Yamcha já tinha visto na sua vida turbulenta. Bulma voltou a se sentir confortada com o momento de tranquilidade. Mesmo com a pontinha de desconfiança machucando seu orgulho de mulher, ela ainda gostava muito daquele rapaz e sentia que tinham uma boa sintonia, principalmente para conversar sobre qualquer coisa que lhes surgisse à mente. Naquela noite, adormeceu nos braços de Yamcha sentindo-se diferente, pois mesmo em um momento de paz, não conseguia amenizar a sensação de estar sendo enganada.