A Escolha de Bulma
21 Sozinha
Notas iniciais
Aquele sábado tinha sido um dos piores dias de sua vida, sentia-se uma grande sobrevivente ao passar por tudo aquilo ilesa. Acordou na manhã seguinte com a claridade vinda do feixe na janela. Lembrava de ter ido dormir segurando a mão de Vegeta, num momento de intimidade que nunca pensou que partilharia com o agressivo sayajin. Quando despertou do sono profundo sem sonhos percebeu-se dormindo sobre o peito dele. Cabiam perfeitamente na cama de solteiro mais larga que o comum, mas estavam grudados um no outro como se houvesse pouco espaço. Vegeta tinha os dois braços lhe envolvendo, mas a musculatura estava completamente relaxada, a respiração num ritmo tranquilo deixavam suas feições mais suaves. Bulma o achou tão bonito dormindo, com o rosto tão calmo e terno. Completamente diferente daquele Vegeta predador sexual e assassino sádico. Gostaria de poder vê-lo assim com mais frequência, mas justamente por saber que era um momento raro, ficou ali lhe observando, escutando o som calmante de seu coração batendo, acompanhando a respiração lenta e silenciosa de seus pulmões. Nunca tinha se sentido tão protegida em toda a sua vida, dormir com ele a fez confiar no sayajin novamente. Seu instinto perspicaz estava certo em reconhecer uma natureza sentimental no rapaz, pois estava começando a adentrar nas camadas mais profundas de suas emoções. Sabia que era apenas uma semente, um fio tênue, mas era real.
Observou seu corpo enquanto deleitava-se no momento em que se encontrava. Nunca pensou que se sentiria atraída por músculos, caras muito fortes nunca lhe pareceram muito atraentes, não fazia o seu tipo, mas Vegeta conseguia despertar seus instintos primitivos e a fazia gostar do corpo viril que possuía. Passou a mão pelo peitoral dele e deslizou até o abdômen, sentindo as elevações musculares na ponta dos dedos. Não era nada mal ter aqueles braços fortes lhe envolvendo, sentir os ombros largos e definidos na palma da mão, e ainda por cima ele tinha pernas ótimas, nunca tinha reparado nelas tão de perto. Ela estava se aproveitando do momento, achava que tinha todo o direito e que Vegeta não se importaria, mas ao ouvir vozes não muito distantes de seus amigos sentiu urgência em sair dali. Precisava se despedir e agradecer por tudo antes que eles voltassem para a casa de Mestre Kame.
Tentava encontrar uma maneira de sair daquele abraço sem acordá-lo. Quando estava levantando um dos braços para tirar de cima de si, Vegeta se mexeu e mudou de posição de uma forma que a enjaulou mais ainda. Abraçou-a de lado, por trás, fechando os dois braços na volta de sua cintura e grudando seu corpo no dela. Pela respiração calma e pelo silêncio viu que ele ainda dormia, fora um movimento inconsciente. Vendo que não havia outra alternativa, começou a dar tapas de leve nos braços dele para que acordasse, era um aperto delicioso que lhe proporcionava toda vez que a abraçava por trás, mas tinha que sair dali antes que dessem por sua falta. Ele soltou um suspiro em seus cabelos quando começou a chamá-lo pelo nome.
– Vegeta, alguém pode aparecer me procurando, já deve ser meio tarde. É melhor que eu desça agora.
– Você que sabe. – resmungou com o rosto entre seus cabelos.
Ela esperou, mas ele nem se mexeu.
– Então me solta, com você me apertando desse jeito eu não consigo sair!
– Tenta. – ele disse simplesmente.
– Vegeta, não começa! Meus amigos vão embora daqui a pouco, quero me despedir deles. Me solta!
Ele a largou de supetão e lhe deu um leve empurrão que foi o bastante para que a cientista caísse da cama. Bulma estava tão envolvida no momento que achou a situação engraçada e não ficou brava. Ele se virou pro outro lado da cama e não falou mais nada, quando ela se levantou ficou lhe olhando sem entendê-lo muito bem.
– Eu posso ter me machucado, sabia?
– Ótimo!
Ela vestiu uma camiseta dele que estava jogada em cima da poltrona. Tinha o cheiro dele concentrado no tecido o que a fez olhar de volta para o príncipe em reflexão. Vegeta tinha deixado a parte de cima do seu pijama em pedaços e após vestir a camiseta larga, Bulma se sentiu estranha ao se lembrar de como ele a tinha deixado de machucá-la por muito pouco. Sabia que nos momentos em que o sayajin se mostrava agressivo, o que mais precisava fazer era mostrar-se presente e compreensiva, porque sabia que a agressividade de Vegeta muito vinha do instinto que ele tinha em afastar as pessoas. Queria mostrá-lo que podia confiar nela independente do que acontecesse.
– Vegeta, eu... – ela hesitou pois não sabia como dizer aquilo.
Ele se virou para olhá-la de mal humor, mas continuou deitado.
– Que foi agora?
– Obrigada... por ter se preocupado comigo. – falou timidamente.
– Que seja! Só não vai se acostumando. – ele disse com a típica amargura e sorriu discretamente. – O que tá fazendo nas minhas roupas, mulher?
– Bom, você rasgou meu pijama, lembra? – respondeu desconfortável ao se lembrar do momento do qual falava.
Ao ver uma seriedade estranha tomar conta das feições de Vegeta, ela quis animá-lo de alguma forma. Tinha tanto que queria lhe dizer e lhe mostrar, se aquele teimoso ao menos a deixasse. Se aproximou da cama o mais rápido que pôde e antes que ele reagisse, se colocou em cima de seu corpo sentando no abdômen rijo do sayajin. Inclinou-se até estar com o rosto perto do dele.
– O que está fazendo? Achei que estava indo embora! – resmungou pegando nas suas coxas. – Já ficou com saudade de ser maltratada?
– Eu gosto do seu jeito, sabia? – ela sorriu e viu que ele ficou um pouco espantado com o que disse. – Nunca pensei que fosse dizer isso, mas é verdade! Gosto de você assim: chato, insensível, rabugento, sarcástico, idiota, grosseiro...
Ele deixou um sorriso escapar antes de lhe calar com um beijo. Ainda tinha a mão sobre as coxas expostas, enquanto Bulma acariciava sua nuca e seus cabelos por entre os dedos finos. Percebeu que Vegeta não avançou com as carícias e a garota estranhou aquelas mãos comportadas, ele estava diferente, beijando sua boca sem o apelo sexual de antes. Não que fosse ruim, na verdade era muito bom, mas já conhecia aquele sayajin o bastante para saber que toda demonstração física de afeto vinda dele continha segundas intenções. Ela desgrudou de seus lábios antes que quisesse avançar mais e começou a encher-lhe de carinhos. Beijou a bochecha, a testa, o nariz, o pescoço, e logo sentiu o rapaz protestar.
– O que você tá fazendo? – ele perguntou ao tentar se esquivar de seus beijos. – Para com isso!
– Ué! Tô demonstrando o quanto gosto de você! Porque eu gosto de você, lembra?
Bulma havia percebido que declarações e elogios não eram tão facilmente recebidos por Vegeta e ele ficava um pouco constrangido. Talvez ainda não entendesse os costumes culturais dos terráqueos quando se tratava de romance.
– Argh! Acha que sou surdo? Não precisa ficar repetindo isso a toda hora!
– E eu gosto de vestir suas roupas porque têm o seu cheiro. – ela disse puxando um pedaço da camiseta que vestia para aproximar do nariz. – É um cheiro estranho, mas é bom.
Vegeta parecia indignado com o rumo que aquela conversa estava tomando.
– Por que tá me falando essas coisas? – perguntou desconfiado. – Você não é uma dessas criaturas que se comportam como animais carentes, não é? Fique sabendo que não vou corresponder a nenhuma de suas expectativas sentimentais idiotas!
– Não precisa ser grosso, Vegeta! Não espero nada romântico de você, de qualquer maneira. Não tem que me avisar disso!
Ela saiu de cima dele e se levantou. Estava na hora de sair daquele quarto antes que o dialogo fosse ladeira abaixo. Antes de abrir a porta pra sair, foi surpreendida pela mão de Vegeta lhe segurando, mas ele não disse nada, apenas segurou seu braço e lhe deu um beijo intenso de repente. Era um beijo lento, mas com uma sensualidade envolvente, fazendo Bulma amolecer de dentro pra fora e esquecer da estupidez com que o sayajin lhe tratara. Não entendeu o porquê daquilo, somente correspondeu os seus movimentos. Quando a largou, ele mesmo abriu a porta para que ela saísse e a cientista ficou sem reação.
– Você é bipolar. – ela disse ainda ofegante.
– Ah, não enche o saco! – ele respondeu mal humorado. – Você que tá com pressa de ir embora. Anda, vai logo antes que eu te empurre pra fora!
Ela lhe deu um tapa no rosto e viu Vegeta quase rosnar de raiva. Em seguida, empurrou a garota pra fora e bateu a porta na sua cara. Bulma não conseguia entender como alguém como ela podia se acostumar com aquela dinâmica de relacionamento, aquilo estava começando a parecer uma montanha-russa sem fim.
Foi para o seu quarto e bateu a porta após entrar. Tirou a camiseta de Vegeta do corpo e a guardou na primeira gaveta de um dos bidês. Ali dentro já tinha quase um santuário reservado para o sayajin. Era a segunda camiseta dele que colocava ali dentro ao lado do scouter quebrado que a cientista resolveu guardar para estudos futuros. Ao encarar as coisas de Vegeta no fundo da gaveta, se deu conta de que ele nunca havia estado em seu quarto pelo que se lembrasse. A única vez em que entrou no quarto da cientista foi para levá-la a sua cama, mas ela estava desacordada quando isso aconteceu. Queria vê-lo ali algum dia, em seu próprio território, mas para passarem a noite em claro em vez de dormirem. Bulma percebeu que estava sonhando demais e foi direto para o banho para lavar aqueles pensamentos. Não demorou muito para se arrumar, queria ter tempo com os amigos antes de ir embora, vestiu uma combinação simples de short e camiseta depois de sair do banho.
Chegando lá embaixo, tomou o café da manhã com seus amigos que tentavam animá-la a todo custo para que não precisasse ficar lembrando da noite anterior. Já estava tudo pronto para o retorno dos rapazes e Bulma ficou um pouco entristecida que até Oolong iria para a casa do Kame para acompanhar Yamcha. O ex namorado estava começando a tomar um lugar melhor naquela situação, Bulma parou de julgá-lo instantaneamente depois do rapaz ter ajudado a encontrar o seu pai e até estava feliz por ele em saber que seu ânimo para treinar havia voltado. Vendo-o comer e conversar com seus amigos em comum, ela chegou à conclusão de que Yamcha era apenas um garoto, um menino em muitos aspectos, e que não era de se surpreender que caíra nas garras de uma louca como Maron. Às vezes se mostrava tão ingênuo quanto Goku, mas tinha algo nele que ainda era muito puro, como uma criança boba, e Bulma gostava disso. Pensou que foi bom ter tido Yamcha como namorado, mas certamente aqueles dois haviam nascido para serem amigos.
Enquanto Bulma ajudava uma das empregadas a retirar a mesa, Goku se aproximou em um momento propício para conversar com a garota em privacidade. Guiou a amiga até onde ninguém pudesse ouvi-los e a abraçou carinhosamente.
– Você tá bem? – perguntou segurando seu rosto. – Ontem deve ter sido difícil pra você. O jantar, seu pai, aquele cara na Corporação...
– Foi, mas eu vou me recuperar. – ela respondeu ainda meio surpresa pela atenção de Goku. – Não precisa se preocupar comigo.
– Foi bom ver você de novo! Espero que não tenha ficado brava de verdade por causa daquela aposta. Que você não cumpriu direito, por sinal!
– Idiota!!
Ela lhe deu um tapa no braço, mas seu rosto estava sorrindo. Era impossível guardar alguma mágoa dele.
– E como ele tá? – Goku mudou de assunto de repente.
– Meu pai tá--
– Não! – interrompeu calmamente. – Eu sei que o seu pai está bem. Tô perguntando do Vegeta.
– Hm... Ele tá bem! – ela tentou parecer casual. – Quero dizer, eu acho, não sei. Você vai ter que perguntar pra ele.
– Eu confesso que fiquei um pouco assustado com o que ele fez ontem. Extremo demais, não?
– Talvez não pra alguém como ele.
Bulma estava de braços cruzados numa pose defensiva inconsciente. Bastava ter que falar sobre Vegeta para começar a se sentir desconfortável, mas Goku parecia nem desconfiar ou não ligar para a reação negativa da garota.
– Bom, ele fez aquilo pra te proteger , então é o suficiente pra que eu não me preocupe com a sua segurança. Você está em boas mãos!
– Ah, e quem é que vai me proteger dele? — perguntou a cientista irritada.
– Ah, Bulma! Não precisa ter segredos comigo! – ele a cutucou lhe encarando com um olhar zombeteiro. – Eu sei que você é a única neste planeta que não precisa ser protegida dele.
Ela sentiu o rosto aquecer pela vermelhidão que lhe tomou. Estava com as bochechas rosas, os olhos enfurecidos, e morrendo de vergonha. Aquele não era um assunto do qual se sentia à vontade em conversar com Goku, mas o amigo insistia em provocá-la. O intrigante era que ela não entendia como ele poderia ter tanta certeza de que havia algo rolando entre os dois.
– O idiota do Piccolo te falou alguma coisa?
Goku se mostrou confuso de repente.
– O quê? Não! O que o Piccolo tem a ver com isso?
– Deixa pra lá! Um dia a gente conversa sobre isso, ok? Nesse momento minha cabeça ainda tá agitada.
– Não precisa falar se não quiser. Eu tô brincando com você, sabe disso, não é? Gosto da ideia de vocês dois juntos. Só isso!
– É difícil lidar com ele. – ela confessou baixinho. – Eu conheço um lado dele que ninguém mais conhece... é de enlouquecer!
Goku a abraçou novamente e sorriu ternamente para a cientista.
– Eu sei disso! É por isso que eu sou seu fã, você sempre consegue ter acesso às coisas mais difíceis.
– Vê se não some por muito tempo, tá? – ela pediu com um tom irritado na voz.
Ficou um tempo ajudando os amigos a fazer as malas. Bulma tinha separado várias cápsulas para que levassem de volta com eles. Sabia que demoraria a vê-los de novo e ficou matando tempo com os rapazes até que não tivesse mais desculpas. Mestre Kame era o único isolado dos outros. Estavam todos lá fora aproveitando o clima veranesco e o velhote se mostrava distante, de braços cruzados ao longe olhando em direção ao laboratório. A cientista ficou preocupada, pois apesar da idade, Kame era sempre o espírito mais jovial do grupo e nunca se afastava daquele jeito. Generosa como era, deixou de lado a raiva que sentia do velho por causa de suas brincadeiras e foi até ele ver se precisava de alguma coisa.
– Mestre Kame... Tá tudo bem com o senhor? Vocês vão partir daqui a pouco e eu reparei que sua cara está meio diferente e--
– O Vegeta está bastante avançado no treinamento. – interrompeu o velho. – Percebo que evoluiu muito rápido desde a última vez que estivemos aqui. Tem um ki impressionante!
– Ele treina quase vinte e quatro horas por dia. Se não fosse o sono e a fome esse aí ia morar na nave gravitacional! – disse Bulma de modo agourento. – Esses sayajins são todos lunáticos pelo visto!
Ficou olhando o teto côncavo da sala de gravidade junto com Kame, refletindo sobre a obsessão de Vegeta em se tornar mais forte. Sua força de vontade era admirável, mas o sayajin conseguia levar tudo aos níveis mais extremos e Bulma sabia o quanto isso poderia gerar coisas ruins para todos. Seus olhos foram tirando o laboratório de foco ao perceber um dos aero-carros fora da garagem, estava estacionado no gramado ao lado das macieiras, flutuando a meio metro do chão.
– Rapazes, vocês pretendem usar o carro? – perguntou a garota voltando-se para os amigos em frente ao salão. – E o teletransporte?
– Não iremos de carro. – respondeu Kuririn enquanto afagava o gato do Dr.Briefs no colo. – Seus pais é que estavam falando em colocar a bagagem no porta-malas. Acho que vão viajar.
– Logo hoje? Não faz nem doze horas que o meu pai quase morreu!
Nesse momento, a Sra.Briefs apareceu no jardim com uma bagagem de mão, seu marido cientista a acompanhava com uma aparência saudável como se fosse apenas mais um domingo ensolarado. Como qualquer outro. Bulma correu para abraçar o pai e lhe encheu de beijos no rosto.
– Como você tá se sentindo, pai? E o seu machucado?
– Querida, estou me sentindo ótimo! O Sr.Piccolo teve a gentileza de me remediar com uma semente dos deuses.
– Do que você tá falando? Piccolo, você drogou o meu pai?
– É uma semente com propriedades curativas de Namekusen. – respondeu Piccolo calmamente. – Não possui efeitos colaterais, não se preocupe.
A garota ainda estranhava a melhora do pai. Não havia nenhuma cicatriz sequer em sua testa. A Sra.Briefs apareceu para dar um beijo na filha como se estivesse se despedindo.
– Vamos voltar daqui uns dias! Eu e seu pai resolvemos passar um tempo na casa de praia!
– Como assim? Quanto tempo vocês vão ficar fora?
– Oh, querida! Como você é controladora! – disse a mãe sorrindo. – Vamos ficar o tempo que quisermos! Seu pai merece umas férias e eu preciso retocar o bronzeado.
– Vão me deixar sozinha aqui? – perguntou a garota inconsolável.
– Filha, os empregados vão continuar frequentando a casa, assim como os funcionários do laboratório virão trabalhar normalmente. – disse o pai na típica calma que chegava a irritar a garota.
Os rapazes estavam todos distraídos com os truques que Kuririn havia ensinado o gato a fazer e o Dr.Briefs já se encaminhava para o aero-carro. Bulma puxou a mãe para dentro do salão de jogos e fechou a porta, estava se sentindo desconfortável com aquela situação. Primeiro seus amigos e agora seus pais também iriam embora.
– Mãe, eu não quero ficar sozinha aqui com o Vegeta. Você tá maluca? A gente vai se matar antes que vocês voltem!
A loira deu uma gargalhada.
– Bulminha, não seja boba! Agora deixe seus pais terem uma folga dessa vida porque nós merecemos, ok? Eu sei que o Vegetazinho vai se comportar!
Estava sem acreditar no descaso que todos tinham com sua segurança. Não que pudesse correr algum risco de vida, mas era um pesadelo imaginar uma casa enorme como a sua ter como únicos moradores ela e Vegeta. Teria que dar um jeito em ampliar seus projetos no laboratório para que não caísse em rotinas tediosas ou talvez, quem sabe, poderia passar alguns dias na casa do Kame pra esfriar a cabeça. Nunca tinha ficado tanto tempo sozinha com Vegeta e a ideia lhe assustava um pouco, pois a presença dos pais funcionava de certa forma como um contraponto para os dois. O pior é que não teria escolha a não ser ficar por ali, porque jamais deixaria a residência dos Briefs nas mãos de Vegeta. Não podia deixá-lo sozinho com os empregados e os cientistas da Corporação. Tinha medo do que ele fosse capaz de fazer na sua ausência.
Os pais foram embora primeiro, estavam tão contentes que Bulma não teve coragem de impedi-los, talvez merecessem uma folga de verdade. Poucas horas depois, foram os amigos a partirem. Como sempre, Bulma os envolveu em abraços e agradecimentos até os rapazes cansarem. Piccolo ficou um pouco constrangido com o afeto da cientista, tinha sempre que ser tão sentimental. Goku já tinha se acostumado muito bem com o jeito da garota ocidental e retribuiu o carinho com seu sorriso amável. Yamcha se despediu brandamente e sem muitas cerimônias, havia levado a conversa com a ex namorada a sério e não tentava forçar amizade com ela.
Em pouco tempo, quando o sol já dormia no horizonte, Bulma estava sozinha na própria casa como nunca estivera antes, ouvindo os ventos farfalharem nas macieiras e ondular a água da piscina. Era muito estranho ter uma casa tão grande com tão poucas pessoas vivendo nela. Olhou para as luzes acesas da sala de gravidade e voltou para dentro de casa. Fez o que pôde para se distrair, deu telefonemas, procurou antigos amigos de faculdade pra ver se gostariam de se encontrar com ela em algum dia daqueles, mas estavam todos ocupados demais. Alguns haviam trocado de número de telefone, outros se mudado de cidade, o que só fez a jovem cientista se sentir mais só. Arrumou o quarto, o que era raro, pois geralmente esperava a segunda-feira para que os empregados arrumassem. Fez o próprio jantar, cozinhando numa quantidade maior ao lembrar do apetite de Vegeta, ele provavelmente sentiria fome depois do treino. Tomou banho pelo que lhe pareceu a milésima vez naquele dia, vestiu um vestido casual listrado e até se aventurou no videogame enquanto bebia na sala de jogos. Quando já estava perto das dez da noite, foi até o bar e serviu-se de uísque com gelo, depois levou a garrafa até uma das mesas à beira da piscina e se sentou para ver o céu noturno.
Não demorou muito para que Bulma ouvisse os ruídos vindos do laboratório indicando que Vegeta já tinha terminado o dia de treino. O sayajin saiu do laboratório vestindo uma das bermudas pretas do vestiário e já se deslocava do chão para voar até seu quarto quando viu a garota parada do outro lado da piscina lhe observando. Voou até a mesa onde ela estava sentada e parou de pé na frente dela ao tocar o chão.
– Seus amiguinhos te abandonaram? – ele zombou.
– Más notícias pra você, meu caro! Estou entediada e sozinha e o senhor vai ter que me fazer companhia.
– Sozinha? Não tem ninguém aí? – perguntou dando uma olhada em direção à mansão. – Pra onde foi todo mundo?
– Meus amiguinhos, como você disse, voltaram pra casa do Kame. E meus pais resolveram fazer uma viagem romântica de última hora.
– E o porco?
– Voltou pro oriente com Yamcha.
Ele ficou fitando seu rosto por um momento, tinha um semblante sério e parecia refletir sobre o que ouvira. De repente, Vegeta soltou uma gargalhada maligna daquelas que fazia Bulma duvidar da sanidade do sayajin lunático.
– Do que você tá rindo, demônio? Às vezes você me assusta, sabia disso?
Ele parecia nem ter ouvido o comentário, continuou rindo de braços cruzados diante dela.
– Te deixaram sozinha? Comigo? – perguntou depois de parar de gargalhar. – Esses vermes não têm mesmo nenhuma consideração por você!
– Ah, Vegeta, por favor! Se você quisesse me fazer mal já teria feito. – disse a garota com um olhar malicioso. – Não é?
– Se eu fosse você não brincava com a sorte. – disse o sayajin se afastando.
– Vegeta, espera! – ela se levantou pra segurá-lo pelo braço. – Fica aqui comigo! Eu já tô morrendo de tédio, é sério. Fica!
Bulma sentiu os braços relaxarem e ela conseguiu descruzar aquela pose defensiva puxando-o por uma das mãos. Afagou a mão dele com o polegar, gostando de tê-lo feito ceder a um gesto tão simbólico. Talvez Vegeta nao soubesse, mas segurar na mão de uma garota poderia significar muita coisa e despertava um sentimento bobo na jovem. Levou ele de volta à mesa e se sentaram de frente um pro outro.
– Você já bebeu álcool? – a garota perguntou enchendo o copo.
– Não gosto dessas coisas. Por que tá perguntando?
– Porque já que a gente tá sozinho aqui eu queria te propor uma brincadeira. – disse piscando pra ele.
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