A Escolha de Bulma
13 Parte 2 - O Velho Ocidente
Notas iniciais
Estava mais uma vez vivendo na metrópole. A Capital Oeste, também conhecida como a cidade que nunca dorme, era a maior do continente ocidental, reunindo centenas de milhões de habitantes em uma cidade de vida efervescente, cujas luzes nunca se apagavam, funcionando sempre vinte e quatro horas. Era o lugar com a maior concentração de estradas aéreas do mundo e o bairro onde os Briefs moravam era o único local da cidade que não tinha a visão das estrelas tapada por carros e motocicletas. Para Bulma, foi como se nunca tivesse saído dali, gostava do cotidiano movimentado, das compras a qualquer hora, da vasta opção gastronômica, além de toda a tecnologia que facilitava a sua vida. Se readaptou muito rapidamente a sua antiga rotina de trabalho no laboratório do pai. O Sr.Briefs trabalhava em cima de robôs novos para ajudar Vegeta a treinar no simulador de gravidade. Ela achava curioso o modo como o sayajin tratava o seu pai cientista. Diferentemente de como era com ela, não utilizava de grosserias para se comunicar e parecia até ter certo respeito pelo senhor de bigode e óculos. O que ela também nao conseguia compreender era a obsessão de Vegeta em treinar. Passava quase o dia inteiro naquela sala de gravidade, acordava antes de todo mundo, quando o sol nem havia se posto, para ficar treinando até de noite. Por outro lado, era bom, pois essa rotina fazia com que ele e Yamcha não se esbarrassem com frequência, evitando maiores atritos.
Ela e o namorado reestabeleceram o vínculo naqueles dias e Maron voltou a trabalhar sem conversar com os dois. Estava completamente apática e se afastara de uma maneira que fez Bulma se sentir ainda mais culpada. Elas só se comunicavam por mensagens e de maneira unicamente profissional, apenas porque a reunião com a Corporação estava se aproximando e precisava estar preparada para o que viesse, já que sua ilustre presença seria o centro das atenções.
Receberam a visita de Oolong, o porquinho de quem Yamcha falara, a quem a Sra.Briefs passou a gostar muito quase que de imediato, simplesmente porque era um "animalzinho de roupinha", como ela mesma dizia. Bulma achou a criatura fascinante em seus aspectos físicos, mas se decepcionou ao perceber que o suíno metamorfo era tão tarado quanto Mestre Kame, sempre olhando descaradamente para seu decote e quase babava por suas pernas toda vez que Bulma resolvia usar vestido. Mesmo assim, era totalmente inofensivo, o que fez a garota deixar esses comportamentos de lado já que ele fazia companhia para sua mãe e deixava-a muito feliz. A Sra.Briefs continuava a dedicar tempo às suas superficialidades, de vez em quando levando Bulma junto para fazer compras. Não parava de falar o quanto queria ganhar netinhos logo, deixando a filha sempre irritada com conversas do tipo. A indelicadeza dos assuntos da mãe passava até por Vegeta, dizendo sempre que possível o quanto achava atraente a energia viril e inteligente que transcendia o sayajin.
Às vésperas da reunião na Corporação, mesmo seu pai tendo-lhe acalmado sobre o assunto, ela nao conseguiu dormir direito. Tinha uma intuição forte de que não estava preparada o bastante para o que surgiria. Seriam algumas perguntas feitas, nada muito comprometedor, pensava entre os lençóis. Então por que sentia que estava prestes a ser jogada para os leões? Não conseguia parar de pensar nisso e se levantou para ir lavar o rosto. Vestia um conjunto de pijama curto azul-royal, com a parte de cima sustentada por fitas de cetim que formavam dois laços em cada ombro. Seus cabelos turquesa caíam desgrenhados sobre a pele pálida, mas ela estava com muita preguiça para penteá-los antes de sair do quarto. Estava decidida que não conseguiria mais pegar no sono, portanto, pensava que quanto mais cedo estivesse pronta, melhor. E desceu as escadas para tomar café.
A noite ainda escurecia os jardins do lado de fora da casa. Devia ser por volta de cinco da manhã quando atravessou o saguão do segundo andar e faltavam ainda algumas boas horas até que a reunião acontecesse. Caminhou de pés descalços até a cozinha e percebeu que Vegeta já tinha se levantado para o treino diário. Já vestia o macacão azul escuro da armadura de sayajin. Depois que Bulma fizera a clonagem celular do tecido para novos uniformes, eram só as roupas sayajins que ele usava pra treinar. Estava abaixado entre as duas portas abertas da geladeira, abrindo as gavetas com um olhar curioso. Quando viu a presença de Bulma na cozinha, apesar de não ter levado susto, ficou olhando-a com surpresa e demoradamente até deixá-la vermelha de desconforto.
– O que está procurando? – ela perguntou. – Quer algo pra comer? Você costuma comer o que antes do treino?
Ele não respondeu. Continuou olhando-a com seriedade.
– Senta aí, vou fazer umas panquecas pra gente. – ela sorriu. – Você nem deve saber o que são panquecas, não é?
Ela o viu sentar-se junto ao balcão no centro da cozinha. Bulma foi pegando os ingredientes da massa nos armários, ficando de costas pra ele, colocando tudo na batedeira e posteriormente na tostadeira redonda para moldar a massa. Enquanto esperava, já ia colocando os ingredientes para o recheio em cima da mesa de mármore onde Vegeta esperava silencioso. Juntou pastas de chocolate, baunilha, amendoim, cobertura de caramelo, cremes salgados e uma pequena porção de frutas que catou cuidadosamente de dentro da geladeira.
– É só você colocar o que quiser naquela massa ali e comer. – disse Bulma apontando para a diversidade de ingredientes sobre a mesa. – Só tem que esperar ficar pronto.
Ele estava sentado em um dos bancos mais altos que acompanhavam a mesa de mármore acima do balcão. Cruzava os braços em espera seguindo cada passo seu com o olhar inquisitivo. Bulma estava de frente pra ele do outro lado da mesa, mas de pé, e enquanto escolhia um cacho de uvas para beliscar, sentia os olhos de Vegeta se revezarem entre seu rosto e o decote. Recebeu aquele gesto com certa lisonja, diferente de quando Mestre Kame e Oolong lhe comiam com os olhos.
– Você já comeu isso? – perguntou oferecendo um pequeno cacho de uvas para ele. – É uma fruta terrestre, o nome é uva. É amargo por fora e doce por dentro. tem que arrancar cada bolinha roxa dessas e comer uma por uma.
Ela fez uma demonstração colocando uma uva inteira na boca e engolindo. Depois, pegou uma nova uva e arrancou um pedaço de sua casca com o dente para mostrar-lhe a anatomia da fruta.
– A maioria das pessoas come só a parte interna dela, essa gosma verde com veias, tá vendo? Porque é mais doce, mas eu gosto de comer tudo junto. Acho que o amargor da casca deixa o sabor mais interessante.
Viu que Vegeta analisava minuciosamente a pequena uva entre os dedos e depois de ouvir aquela demonstração quase científica, colocou a fruta inteira na boca, mordendo devagar.
– Não é tão amargo. – ele disse finalmente.
Bulma viu que o sayajin tinha gostado e saiu devorando as frutas que havia colocado sobre a mesa. Ela, por sua vez, sentou-se no balcão da pia, ao lado da tostadeira e a uma distância segura, dobrou os joelhos em cima do mármore frio, permanecendo em posição de lótus. Deliciava suas uvas calmamente, sentindo a curiosidade por Vegeta nutrir seus pensamentos.
– Vegeta... Como eram as comidas do seu planeta? Vocês tinham frutos como esses?
– É claro que sim! Que bobagem! – respondeu ele sério sem tirar os olhos da comida. – Tínhamos vários tipos de frutos e vegetais. Parecidos com esses.
– Então vocês sayajins são vegetarianos? Quer dizer, vocês não comem carne?
Ele pareceu se sentir ofendido quando ouviu aquela pergunta. Olhou para ela estupefato.
– Mas é claro que comemos carne! Matar pra comer é uma das grandes tradições em Vegetasei.
– E quais animais vocês matavam? Que tipo de carne vocês sayajins comem?
– Qualquer animal, qualquer carne que servir. – respondeu na habitual frieza.
Bulma estava se divertindo com tudo aquilo. Vegeta estava respondendo suas perguntas abertamente enquanto ela lhe preparava o café da manhã. Era uma cena rara de se presenciar.
– É mesmo? Qualquer carne? Até de macaco? Porque isso seria canibalismo, você sabe, né!?
E deu uma risadinha infantil. Ele acompanhou seu riso com o olhar duro, não achando a menor graça, e depois percorreu os olhos negros pelo corpo da garota em um gesto automático. Bulma percebeu e desceu do balcão para colocar as panquecas prontas em um grande prato de porcelana branca. De costas, ele não poderia ver o quanto seu rosto estava ruborizado.
Voltou-se para a mesa com o prato em mãos e colocou diante dele. Sabia que ele não precisaria de talheres, pois já tinha notado que comia tudo com as mãos. Como um macaco, pensou a garota se divertindo.
Ela usou uma faca para passar pasta de chocolate na massa e estendeu a panqueca diante de Vegeta. Para sua surpresa, ele não pegou como pensou que faria, mas mordeu um pedaço da massa nas próprias mãos de Bulma. Ela quase se assustou com a atitude inesperada e praticamente jogou a panqueca na mesa diante dele. Estavam sujando a cozinha toda sem perceber.
– Até que não é nada mal. – disse ele ao engolir. – E você, Bulma, não vai comer?
A cientista arregalou os olhos sem entender. Era a primeira vez que ele a chamava pelo nome e ela podia jurar que ouvira um forte sarcasmo naquela simples pergunta. Seu coração começou a bater rápido de repente e ele não parava de olhar para ela enquanto comia. Não quis pensar no porquê de ter sentido um arrepio na barriga só por tê-lo ouvido dizer seu nome. Bulma começou a devorar sua panqueca sem encará-lo diretamente, procurando um assunto pra preencher aquele silêncio.
– Como está indo o seu treinamento de sayajin?
Ele logo se envolveu pela pergunta e voltou com seu tom arrogante de sempre.
– Ótimo, é claro! Vou superar os poderes de Kakkaroto em breve.
– Não entendo sua obsessão com Goku. O que vai fazer depois de finalmente ganhar uma luta com ele?
Nessa hora, ela se levantou para abrir a geladeira, procurando algo gelado pra beber.
– Vou matar Kakkaroto, dominar o exército de Freeza, explodir esse planeta miserável e me tornar o ser mais poderoso do universo. – ele respondeu muito naturalmente. – Não se preocupe, você vai ser a primeira a morrer quando o dia chegar. Eu mesmo cuidarei disso.
Bulma se abaixou pra pegar uma caixa de suco e fechou a geladeira olhando seriamente para Vegeta.
– Pode deixar, não vou me preocupar.
– Estou falando sério, você vai se sentir agradecida quando esse dia chegar. Sabe o que acontece com garotas idiotas como você quando seus planetas são tomados? Se revezariam em uma tropa de cem soldados até desmembrarem você de tanto ser estuprada. Além disso, não vai ter que ver o que farei com seus amigos insetos quando eu acabar com eles.
Ela arregalou os olhos ao dar um gole no suco de laranja. Era uma imagem aterrorizante a que ele estava fazendo a cientista imaginar e Vegeta falava das coisas mais violentas como se fossem corriqueiras. Mas de repente, aquela conversa tinha ficado muito interessante quando Bulma se deu conta do que o sayajin estava lhe dizendo.
– Ah, quer dizer que você vai me matar primeiro como um gesto de misericórdia! Desculpe, minha mente idiota entendeu isso como uma ameaça! Não sei onde eu tava com a cabeça. – disse sarcástica. – Bem, obrigada por me avisar! Agora vou ficar mais tranquila sabendo que meu hóspede pretende me matar com as próprias mãos.
Ela procurava uma fruta atraente no meio daquelas que colocara na mesa, fingindo não perceber que estava sendo fuzilada com os olhos. Vegeta quase rosnou ao ver a garota fazer aquele tipo de gracinha, mas em vez de explodir de raiva, mostrou-se frio.
– Vai ser rápido e limpo, eu prometo.
– Será uma honra, Alteza!
E mordeu um morango com os olhos azuis vidrados nele, provocando-o com um nítido deboche. Ele a encarava com uma seriedade seca, sem achar graça nenhuma, mas tampouco tirava os olhos da garota.
– Terráquea insolente! – ele resmungou baixo, quase para si mesmo.
Eles continuavam a comer, dividindo os ingredientes da mesa enquanto falavam.
– Seus objetivos não me parecem muito atraentes, Vegeta! Imagina só, ficar destruindo planetas por aí até que não sobre mais vida no universo além dos sayajins. – ela falava seriamente dessa vez. – Não te parece muito solitário?
Ele deu um sorriso de lado.
– Me parece perfeito.
– Bom, o universo me parece perfeito do jeito que é: Cheio de vida, fenômenos e mistérios para explorar e desvendar. – ela disse de modo sonhador. – Por exemplo, se eu paro pra pensar, acho incrível que um ser como você e um ser como eu estejam aqui, agora, juntos, conversando e desfrutando de um belo café da manhã no planeta Terra. Eu acho isso o máximo!
– Que irônico! Porque eu acho isso um saco! – retrucou o sayajin com acidez.
Bulma revirou os olhos de impaciência.
– Você é um animal mesmo!
– Escuta, isso que você acabou de dizer sobre o universo é a coisa mais patética que já ouvi! Acha mesmo que lá fora existem coisas incríveis a serem descobertas? Só mesmo uma idiota como você pra acreditar numa bobagem dessas! A única coisa que existe além dessas nuvens são os que morrem e os que matam! Todos os seres do universo são separados por essas duas categorias. Nada mais! Fim de história!
Falava com muita seriedade, fazendo Bulma pensar que de fato Vegeta não estava brincando ao lhe contar seus planos malignos. Aquilo era o que realmente pensava sobre o universo e seu planeta natal. Não tinha mais dúvidas sobre as intenções do sayajin quando disse que Bulma seria a primeira a morrer. Mas o coração da garota era mole e logo começou a sentir pena do homem à sua frente. Aquela era uma visão determinista de mundo, além de bastante cruel, que só uma pessoa com um passado muito sofrido poderia ter em mente. Ninguém escolhe ver a vida dessa forma por livre e espontânea vontade. Sentiu um forte impulso de tocá-lo, de pegar na sua mão e de alguma forma, consolar aquela mente tão atormentada. Mas conteve-se.
– Você acha então que eu sou do tipo que morre e você do tipo que mata?
– Exatamente. – disse com um olhar diabólico. – Mas para a sua sorte, quando eu te matar, vou ser gentil para que não sofra mais que o necessário.
– É melhor a gente deixar esse diálogo pro dia da minha execução. O que acha? – ela disse sorrindo e deu uma piscadela. – Não era disso que eu queria falar, afinal. Você acabou desviando o assunto.
– Você me enche de perguntas inúteis e eu que desvio o assunto? – disse irritado. – Só me torra a paciência!
– Me fale, estávamos falando do seus treinos... Acha que o simulador tá dando conta?
– Está servindo... mas ontem a maquina empacou na gravidade de cem vezes e eu sempre treino com a de trezentas. Seu pai deu uma olhada, mas disse que só você saberia o defeito porque foi uma invenção sua.
– E por que não me pediu pra ir ver a máquina?
– Porque isso não é problema meu! Seu pai disse que ia falar com você.
Ela engoliu o último pedaço de panqueca e tomou um longo gole do suco. Olhou pela janela da cozinha e viu que o céu já nao estava tão escuro. Tinham ficado um bom tempo ali conversando.
– Quer que eu vá ver o que houve? Eu não sei que horas vou poder depois, vou ter um dia bem ocupado. – disse ela com seu jeito prestativo. – Aposto que foi algo bobo, nunca falhou antes. Posso consertar agora.
Bulma já estava de pé andando para a sala e percebeu que Vegeta seguia seus passos. Caminharam em silêncio até a área externa da piscina. Ela estava calada por não conseguir parar de pensar em seus compromissos e todas as coisas que deveria fazer até chegar na sede da Corporação.
Lá fora, o céu acinzentado ainda não dava sinal dos raios de sol. Estava cheio de nuvens e projetava sombras no extenso jardim. Bulma sentiu alguns arrepios de frio por ter saído do antro quente de sua casa para o fim de noite gelado do pátio, mas notava que Vegeta a observava atrás de si e ela tinha uma necessidade infantil de não lhe demonstrar nenhuma fraqueza.
Chegaram até a porta do simulador pelo lado de fora. A entrada colocada para que Vegeta e Bulma não precisassem se cruzar no laboratório. Ela digitou a senha na maçaneta e a porta abriu. Bulma foi direto para o painel de controle no centro da sala, fuçando todas as entradas e cabos. Abriu uma porta pequena de acesso ao interior do painel e ficou ali agachada procurando algo que estivesse fora do lugar. Percebeu que um dos botões do painel tinha emperrado e se deslocado. Ela riu com o diagnóstico do problema.
– Você tem que medir melhor a força dos seus dedinhos sayajins. – disse ela sorrindo. – Quase quebrou o botão principal.
Vegeta estava de pé observando a garota de braços cruzados com um olhar atônito. Ela não compreendeu muito bem.
– O que foi?
Ele suspirou impaciente.
– Vai demorar muito?
Ela ignorou sua ingratidão e foi direto para a outra porta.
– Eu tenho que pegar umas ferramentas aqui do lado, na minha sala. É rapidinho!
Em poucos segundos ela estava de volta com uma grande caixa de ferramentas nos braços. Colocou-a em cima do painel e abriu a maleta revelando o monte de chaves e alicates dos mais diversos tamanhos. Em um compartimento pequeno, Bulma tirou de lá um elástico vermelho e o utilizou para prender os cabelos em um rabo de cavalo improvisado. Fazendo isso, se virou pra Vegeta novamente.
– Você tem que esperar o aumento da gravidade até que aperte o botão de novo pra aumentar mais.
Com as mãos na cabeça para dar voltas no cabelo com o elástico, sua blusa do pijama levantava, deixando a barriga à mostra. O sayajin mais uma vez a olhava de cima à baixo, com a expressão séria que a cientista tinha dificuldade em desvendar. Bulma então sentiu um clique bater na sua mente, mas ainda assim não conseguia acreditar. Estaria Vegeta sentindo-se compelido pela visão de seu corpo? É claro que poderia estar ficando louca e seria algo que ele nunca admitiria mesmo se fosse verdade, mas a maneira como tentava não olhar sua pele exposta pela pouca roupa, com os olhos negros a cercando o tempo todo, era indiscutível que apreciava o que via. Estaria se sentindo provocado dessa maneira? Bulma se sentiu um gênio ao fazer tal descoberta, como quando terminou sua teoria que a fez famosa. Acima disso, sentiu uma excitação inesperada. Pensou que aquilo poderia ser divertido.
Pegou uma lanterna pequena e um alicate, e então, dobrou os joelhos para encostá-los no chão, ficando de quatro na frente da porta aberta do painel. Colocou a lanterninha acesa na boca e começou a usar o alicate para desafrouxar o botão estragado. Estava quase com a cabeça inteira dentro do painel de fios, sugestivamente com suas costas e quadris virados para o sayajin, mas era de fato a melhor posição para aquele trabalho mesmo que sua intenção fosse se mostrar um pouco.
Ao terminar, se levantou do chão sentindo uma leve dormência no músculo das coxas. Vegeta a encarava na mesma posição, mas com o rosto levemente corado, o que ela fingiu não perceber mesmo estando em êxtase por dentro ao ver suas suspeitas se confirmarem. Guardou as ferramentas e fechou a maleta.
– Bom, era só isso? Já tá pronto e vê se controla essas mãos, ok?
Ela deu uma piscadela e saiu da sala deixando-o sozinho. Não podia nem acreditar no que acontecera naquele fim de madrugada. Teria imaginado tudo? Ao sentir-se tão excitada com a ideia de Vegeta achá-la atraente, voltou a pensar em Yamcha e se sentiu culpada. Como poderia se deixar levar por uma coisa dessas? Era um ato de infidelidade, certamente, mesmo que nada tenha acontecido. Nada aconteceu nem fisicamente nem através das palavras. Nada fora dito ou feito. Foi apenas um sentimento instintivo, talvez nem estivesse certa sobre Vegeta, afinal de contas. Onde já se viu, pensava, uma garota linda, uma jovem sofisticada, um gênio da física, se sentir atraída por um animal de outro planeta? Só podia ser uma piada! No entanto, admitia intimamente que perceber Vegeta desejando-a lhe causou uma emoção muito forte.
Voltou para o quarto com a garganta apertada. Fazia as coisas impulsivamente para depois sentir uma culpa avassaladora. Se insultava em pensamentos quando viu Yamcha dormindo profundamente em sua cama. Pelo menos nada grave tinha acontecido, era o que a consolava. No entanto, pensar nisso a fez ter novos temores quando já estava debaixo do chuveiro. O que seria algo mais grave? E se Vegeta fosse capaz de atacá-la de alguma forma? Não era tão mais alto que a cientista, mas as comparações físicas eram indiscutíveis. Ele poderia fazer qualquer coisa que quisesse com ela, se essa fosse sua vontade. Qualquer coisa, pensou no banho, deixando a imaginação fantasiosa domar sua mente. Uma de suas mãos começou a descer pela barriga, deslizando na pele ensaboada até o limite de seu sexo, até abrir os olhos e conter seus instintos. Tudo o que menos precisava naquele momento era reconhecer que a presença do sayajin se tornara tentadora. Não admitiria viver uma Síndrome de Estocolmo às avessas.
– Isso é ridículo! — ela disse a si mesma.
Se besuntou de cremes antes de sair do banheiro só de toalha. Vestiu um conjunto de blazer e saia pretos com uma camisa roxa por baixo. Não tinha tanto tempo para esperar por Maron e sua comitiva de cabeleireiro e maquiadores. Escovou as madeixas azuis mantendo os fios lisos, e passou uma gota de um gel no rosto que deixava sua pele mais bonita do que já era normalmente. Quando já estava pronta, o relógio que vestira em seu pulso já marcava oito horas e ela saiu para o corredor pela porta do closet. Não conseguia entender como Yamcha dormia tanto se não fazia praticamente nada o dia todo.
Lá embaixo, sua mãe já tomava café com a correspondência do dia na mesa. Tratava-se de uma pequena pilha de jornais, contas para pagar, encomendas de seu pai, além de presentes que recebiam de bajuladores. Bulma se surpreendeu ao ver café com leite na xícara da mãe ao invés de conhaque.
– Querida, você tá linda, mas está muito séria com essa roupinha! Tem que usar algo mais divertido pra essa reunião.
– Mamãe e seus conselhos! – riu a garota se sentando para calçar o salto agulha. – A Maron ainda não chegou?
– Não, querida. Deve estar organizando as coisas para você, sabe como ela é.
A Sra.Briefs manuseava um pacote de papel pardo enquanto falava. Rasgou o embrulho com as unhas compridas e quase deu um grito de alegria.
– Oh, Bulminha! As fotos da festa! Que lindas que ficaram, aquele fotógrafo era muito bom mesmo.
– Já? Que rápido! Deixa eu ver também, mãe. Espero que eu não pareça uma bêbada nessas fotos.
A mãe estendeu um pedaço do bolo de fotografias para a filha. Bulma começou a passar uma por uma nas mãos, rindo com as imagens do Mestre Kame virando copos de bebida, de Kuririn abraçado em uma garota, de sua mãe sorrindo embriagada em todos os momentos. Ficou surpresa em ver-se e perceber o quanto estava linda em todas as fotos tiradas. Seu cabelo, os olhos, o sorriso, perfeita como alguém que não tomara uma gota de álcool.
– Nossa, essas com os fogos de fundo ficaram incríveis! Olha, querida!
A garota olhou rapidamente para a foto sorrindo, pois fazia parte de uma daquelas sessões em que fazia diversas caretas para a câmera. De relance, deu uma olhada, mas seus olhos voltaram para a foto de novo, sentindo que havia algo estranho naquela imagem capturada. Bulma e Sra.Briefs posavam no terraço e devido às luzes dos fogos de artifício, todo o jardim iluminava-se atrás delas. Desde a piscina até as árvores macieiras. Bulma espremeu os olhos ao não acreditar no detalhe que estava percebendo.
No fundo da foto, entre os pés de maçã, Yamcha e Maron figuravam de coadjuvantes. Estavam abraçados, com os corpos completamente grudados e as bocas quase se tocando. Bulma sentiu a adrenalina subir a cabeça liberando uma fúria incontrolável. Começou a caçar todas as fotos para olhá-las detalhadamente e o que encontrou a fez se sentir esmagada como um inseto. Yamcha e Maron se beijavam entre as macieiras ao fundo de todas as fotos do terraço, sendo impossível não reconhecê-los com a luminosidade causada pelos fogos. Ora apareciam se beijando calorosamente, ora se abraçando como um casal de jovens apaixonados.
– Filha, o que houve? Você tá pálida! – disse sua mãe com uma seriedade inédita.
Com as mãos tremendo, Bulma catou todas as fotos reveladoras e saiu porta à fora. Mal conseguia subir as escadas com as pernas bambeando, mas manteve-se firme na caminhada o quanto pôde, dando passos longos com a maior urgência possível. Quando abriu a porta do quarto, viu Yamcha de toalha, tinha acabado de sair do banheiro. Ela jogou as fotos com agressividade diante da cara dele, e depois, voou para cima do rapaz com as mãos direto no seu rosto. Não só estapeando, mas com as mãos quase fechadas como se fossem garras, fazendo suas unhas arranharem a pele do rapaz. Deixou um rastro de inchaço onde as unhas tocaram.
Foi então que ele a segurou pelos braços, amedrontado com a fúria da garota, sem saber direito como contê-la. Estava completamente desarmado ao ver o conteúdo das fotos caídas pelo chão.
– Bulma... – suspirou. – Você precisa me ouvir, por favor!
– Me solta! – ela gritou. – Some daqui! Some da minha casa!
– Bulminha, o que está havendo? – perguntava a mãe preocupada do lado de fora.
A garota tentava diminuir o volume da voz, mas sua respiração ainda era ofegante. Quando ele soltou seus braços, Bulma olhou incisivamente para o rapaz, sentindo as lágrimas deslizando por suas bochechas.
– Você vai arrumar as suas coisas, fazer as malas e sumir dessa casa. Quando eu voltar da Corporação não quero mais te ver aqui dentro, tá me ouvindo? Vai pra casa do Oolong, da Maron, eu nao me importo, desde que você me deixe em paz. Entendeu bem?
Ela apanhou a carteira em cima da penteadeira e jogou um bolo de dinheiro nele. As notas voaram como penas flutuando no ar. Em seguida, a jovem saiu do quarto batendo a porta com força e percebeu que tinha uma pequena platéia do lado de fora. Sua mãe, seu pai e meia dúzia de empregados da casa lhe encaravam de olhos arregalados. A Sra.Briefs parecia particularmente mais abalada que os outros, seu olhos estavam se enchendo d'água e suas mãos pousavam no colo como numa tentativa de acalmar-se. Bulma precisou ignorar a todos, não tinha tempo para aquele tipo de coisa, pois no momento, nada além de sua reunião lhe importava. Mas sabia que, assim que resolvesse os assuntos da Corporação, iria direto prestar contas com Maron.
As condições climáticas não pareciam querer ajudar. O céu estava se fechando em nuvens negras aparentemente acompanhando o seu humor sombrio, diante das gotas de chuva batendo sobre o vidro do carro, não tinha como não sucumbir ao luto amargo que sentia. Aquele dia estava se tornando o pior de sua vida.
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