A Escolha de Bulma

14 Não Estamos Sozinhos


Dirigiu até a sede da corporação deixando as lágrimas rolarem por seu rosto. Sua vaga de estacionamento estava isolada das outras, com um pequeno grupo de pessoas a esperando. Entre elas, Bulma avistou os cabelos azuis presos em um coque. Maron sorria com os outros a sua espera, sem poder ver os olhos vermelhos da moça dentro do carro. Ela colocou seus óculos de sol pra disfarçar. Antes de sair, abriu o porta-luvas e tirou de lá um frasco de pílulas calmantes. Tomou uma com rapidez, para que ninguém percebesse, guardando o frasco dentro da bolsa com as mãos tremendo.

– Adorei a roupa! – disse Maron quando a viu. – Ótima escolha! Bem, você sabe como vai ser, né. Algumas perguntas, nada demais, não precisa responder nada relacionado aos alienígenas, tá legal? Mas é provável que queiram saber, sabe como essa gente é intrometida.

Ela guiou a cientista para dentro do prédio da Corporação, ambas protegidas por uma escolta de seguranças que lhe barravam a visão completa do ambiente interno. Apenas conseguiu ver que havia muita gente no saguão, mais do que o necessário para uma reunião de setores, mas Bulma estava colocando toda a sua concentração em acalmar-se, pois só assim não faria nenhum tipo de escândalo. Só pensava em arrancar os cabelos da cabeça de Maron e quebrar-lhe todos os dentes da boca.

Na sala de espera no interior do auditório, havia um espaço reservado como um camarim, para que Bulma ajeitasse sua aparência antes da reunião. Os maquiadores fizeram um serviço rápido e deixaram seu rosto com um ar mais leve e atento. Maron não parava de falar no mini-celular grudado no ouvido. Quando os cabelereiros acabaram, a cientista estava um pouco desconfiada de uma reunião ter que acontecer no auditório. Era grande demais para a quantidade de pessoas que compareceriam àquele tipo de solenidade.

– Vocês podem me dar licença, por favor? Tenho que conversar com Maron a sós. – ela pediu aos homens.

A assistente reconheceu a apatia da cientista e desligou o telefone depois que já estavam sozinhas na sala.

– Você mentiu pra mim. – disse Bulma calmamente. – Minha família te deu tudo o que podia e você puxou o meu tapete de um jeito sujo!

Maron arregalou os olhos e por um tempo, analisou a fisionomia da jovem cientista com ar inocente. Ao ouvir aquelas palavras, todos os músculos de seu rosto mudaram e a mulher deu uma gargalhada.

– Você é maluca, Bulma! Além de patética, é claro. Como demorou tanto pra descobrir? – dizia provocando a garota com um olhar fugaz. – E ainda dizem que você é a pessoa mais inteligente do mundo.

– Você é uma cobra! – exclamou sem acreditar no que ouvia. – Por que faria algo tão cruel comigo?

– Você é uma mimada arrogante que vai ter o que merece! Acha que todos tem que se curvar diante de você e sua família de retardados, não é?

Nessa hora, uma batida na porta interrompe o diálogo e avisa com uma voz grossa:

– Senhorita! A NASA já chegou. Estão todos a postos.

Bulma arregalou os olhos de surpresa.

– Eu ouvi bem? Você tinha marcado duas reuniões separadas! Que tipo de assembléia está para acontecer aqui? Como pôde fazer isso? – dizia a cientista com uma voz de derrota.

Maron riu com o prazer de ver seu plano dando certo.

– Não só a Corporação e a NASA te esperam lá fora com pedras na mão, mas também o governo e a imprensa. Ah, eu não tinha te contado? – perguntou dissimulada. – Ah, claro! É que eu estava muito ocupada trepando com o seu namorado idiota!

Bulma sentia tanta raiva que no fundo, tinha medo de cometer alguma besteira irreversível. Pensou que todos os seus instintos e intuições estavam corretos, além de estar oficialmente sendo jogada para os leões, como temia.

– Como poderia gostar daquele babaca? Tudo bem, eu sei que você era uma virgenzinha boba antes dele aparecer, mas honestamente... Esperava um pouco mais de você.

Ela não se conteve, em poucos instantes sua mão direita pesava no rosto de Maron em um tapa que a fez cuspir gotas de sangue na parede. O tabefe proferiu um eco profundo nos camarins do auditório e Bulma percebeu que depois disso, só ouvia silêncio do lado de fora da sala. A assistente não esperava aquilo, muito menos vindo dos bracinhos finos de Bulma e não parava de olhar para o próprio sangue na ponta dos dedos. Seus lábios estavam banhados de um vermelho escarlate.

Bulma ia saindo da sala, tentando fazer o possível para que não acabasse matando aquela mulher que de repente se tornara tão desprezível. Antes de sumir pela porta, disse com frieza:

– Está despedida.

Quando saiu da pequena sala, passou por um corredor de pessoas que tentavam inutilmente nao encará-la, mas ignorou todos aqueles rostos. Estava tendo que dar conta do recado sozinha pela primeira vez na vida. Nunca tinha enfrentado tanta gente importante de uma vez só, ainda tendo sido enganada por Maron, só lhe deixava mais sem chão. Agora sabia que estavam naquele auditório as pessoas mais relevantes do governo ocidental, esperando para tomá-la com perguntas inconvenientes e colocá-la contra a parede para que o mundo inteiro assistisse a mulher mais inteligente do mundo ser encurralada como um rato.

Atravessou o corredor até uma das entradas para o palco. Só de espiar, já via que o lugar estava cheio. Havia um palanque com um microfone embutido no meio do palco, onde presumiu que seria a sua posição para responder à comitiva entrevistadora. Com a sua presença, todos dos bastidores entenderam que era a hora de sua entrada. Uma mulher de terno e aparência meio máscula foi até o palanque anunciar sua chegada. Antes que Bulma pudesse se preparar completamente, estavam batendo palmas esperando por sua presença no palco.

Respirou fundo, esguiou-se para ajeitar a coluna e foi caminhando pé por pé até chegar diante do palanque de madeira. As palmas cessaram, as luzes do teto estavam todas direcionadas a ela, e aos poucos, o silêncio foi se instalando criando uma forte expectativa naquele auditório.

– Boa dia! É um prazer recepcionar a todos sob o teto da Corporação. – disse simpática. – Por uma questão de ordem, as perguntas serão selecionadas pelos assessores à beira do palco e... Acho que vocês já sabem como isso funciona, não é, então me poupem, preciso guardar minha saliva para todos os questionamentos.

Uma risadinhas se fundiram em meio a platéia de engravatados e ela viu a primeira pessoa a ser escolhida para perguntar. Era uma mulher muito magra de cabelos curtos e castanhos.

– Dra.Briefs, o que a Corporação Cápsula tem a dizer sobre a sonda espacial que rompeu e caiu direto no planeta Terra? Foram vocês que fizeram aquele projeto, não foram?

– Sim, fomos nós que vendemos o projeto à NASA. A responsabilidade dos instrumentos que projetamos é nossa quando ainda estão no papel. Uma vez prontos, testados e aprovados, a responsabilidade está nas mãos da organização que os utiliza. Não produzimos para falhar.

– Dra.Briefs, você é a recordista em ser a pessoa mais jovem a conquistar méritos na ciência. Por que sua cerimônia do Nobel foi rejeitada?

Agora era um homem baixo de barba ruiva que lhe dirigia a palavra. Bulma sabia que os veículos de imprensa estavam sendo orientados também pelos assessores dos executivos da NASA, não tinha dúvidas disso.

– Não abandonei a cerimônia de propósito. Já havia me pronunciado sobre esse assunto e a bancada do Nobel foi compreensiva com o imprevisto que me ocorreu àquela noite. Este é um tópico já resolvido.

As perguntas se seguiram num fluxo similar, alguns fazendo questionamentos sobre sua teoria mais conhecida e outros mais ousados em torno de sua vida pessoal, mas a jovem cientista observava tudo e tinha sempre uma resposta pronta na ponta da língua. Sentia-se afiada como uma faca de trinchar mesmo com a adrenalina bombeando em suas veias.

Um dos homens engravatados da primeira fileira levantou o braço ao final da coletiva, tinha cabelos brancos sem corte e límpidos olhos azuis, tão claros como água cristalina. O assessor lhe deu a palavra e o senhor que possuía um marcante bigode branco foi direto em sua pergunta:

– O que realmente aconteceu naquela noite, Srta.Briefs? – indagou com placidez. – O que você viu quando foi para o Novo Oriente horas depois daquele fenômeno no céu? Somos todos cientistas, com exceção desses jornalistas imbecis, portanto, sabemos que coincidências desta magnitude não existem! Sonda espacial? Que besteira! Nunca qualquer equipamento feito pela Corporação Cápsula falhou em sua execução.

Um burburinho se instalou no auditório e via-se que o senhor de bigode havia tido a coragem de perguntar o que muitos ali também gostariam de saber. Sem orientação nenhuma, sem ponto no ouvido, sem assistente ou assessora, Bulma olhou para a platéia de olhos curiosos em expectativa e encontrou o rosto de seu próprio pai no meio da multidão. Ele estava em uma das fileiras do segundo andar do auditório, com os funcionários da Corporação em peso o acompanhando. Tentou captar alguma mensagem da pessoa que tanto a protegera de momentos como aquele, mas viu que a expressão do pai era de confiança, de orgulho e se pudesse arriscar, de certo apelo pela honestidade.

Naquele momento de rápidos pensamentos em frações de segundos, Bulma lembrou de Goku, do seu olhar bobo e sorriso inocente, do jeito que tocava suas mãos ao acalmá-la. Lembrou de Piccolo e sua aparência exótica, além de sua amargura e lealdade incomuns aos homens. Oolong com sua anatomia suína e sua obsessão por calcinhas femininas. Kuririn, Kame, Uranai, Tenshinhan, o garoto Trunks, até Yamcha, todos passaram como um vulto assombroso em sua cabeça. Também pensou em Vegeta e em seus olhos negros indecifráveis. Lembrou-se do quanto os achava solitários e sinistros ao mesmo tempo. De um negror intenso, como se estivesse prestes a cair num poço profundo toda vez que os encarava de perto.

– Tudo bem... A humanidade precisa saber, é uma responsabilidade minha e eu escolho compartilhar este fardo, na esperança de que deixe de pesar tanto sobre os meus ombros. – iniciou Bulma com tranquilidade, mas seu coração batia forte. – Naquela noite escura, o nosso planeta foi ameaçado por forças que a nós são desconhecidas. O fenômeno visto no céu, foi uma ínfima prova destas forças. Eu estava lá porque um rapaz muito especial pediu a minha ajuda só por ter ouvido falar da minha notória inteligência. O tipo de vida que encontrei no Novo Oriente, me fez enxergar muito mais que apenas criaturas de outras espécies, eu vi muito mais que somente um grupo de seres estranhos protegendo um planeta que nem era sua terra natal. O que eu vi... Foram indivíduos, pessoas, seres pensantes, de outra raça sim, mas nenhum pouco adestráveis, nada parecido com os ratos de laboratório que a Área 51 já viu, tampouco semelhantes às figuras franzinas e cabeçudas das lendas urbanas de outras épocas. São seres amáveis com capacidade empática e mental equivalente à nossa, que estão há muito tempo vindo e indo embora deste planeta sem que ninguém os perceba. Eles não querem ser percebidos, nem encontrados, nem questionados sobre suas supostas intenções para conosco. Não querem nos machucar. Não são domáveis nem rastreáveis e se quiserem, jamais serão vistos por quem quer que seja. Hoje pode ser um dia marcante na história da ciência e da humanidade, temos que pensar nesse momento como evolução, expansão, e quem sabe, esperança... De novos laços, novas possibilidades de explorar a infinitude do universo, pois já dizia Hawking que onde há vida, há esperança! Porque o que eu vi... O que eu vi naquela noite é o mesmo que eu vejo todos os dias quando olho as estrelas antes de dormir: A certeza... de que não estamos sozinhos!

Em nenhum momento o seu discurso pausado havia sido interrompido. Foi ouvida por uma quietude quase mórbida, escutando sua própria voz ecoar pelas paredes do auditório. Quando acabou, um silêncio mortal pairou sobre o lugar e Bulma chegou a se questionar se estavam a tomando como uma louca, mas o que se seguiu foi algo totalmente inesperado. Os funcionários da Corporação no andar de cima começaram a bater palmas efusivamente, pouco a pouco acompanhados pelo resto dos convidados da comitiva. Seu rosto iluminava-se com a quantidade de flashes que foram apontados em sua direção. Viu que as pessoas estavam levantando de seus lugares para aplaudí-la de pé. Os cientistas e jornalistas cochichavam emocionados uns com os outros, alguns comentavam palavras entusiasmadas entre si, sem parar de ovacionar a cientista. Ela olhou para os assentos lá do alto e viu estampado no rosto de seu pai um sorriso complacente de admiração.

Logo que as pessoas começaram a se alvoraçar, uma das assessoras da Corporação a retirou do palco guiando-a até os fundos do auditório. O pessoal da organização batia palmas e sorriam em sua direção, alguns estupefatos lhe perguntando se aquilo que dissera era verdade, outros elogiando sua desenvoltura diante de tanta tensão. Ouviu comentários de que seu discurso tinha sido televisionado e estava sendo reproduzido em todas as cidades do Ocidente até a última capital do Novo Oriente.

Bulma chegou à salinha com espelhos de camarim e viu Maron grudada na frente da pequena televisão acoplada ao espelho. Estava revendo o discurso da cientista e assim que notou sua presença, a olhou furiosa com os lábios inchados.

– Você não cansa de ter tudo, não é mesmo? – disse com uma voz venenosa.

– Não me diga que fez tudo o que podia pra me prejudicar por cobiça, Maron! Que clichê ambulante você é! – respondeu Bulma com a sua confiança recuperada, mas verdadeiramente decepcionada com a assistente. – Você escolheu a pior pessoa pra invejar. Existe alguma remota parte desse seu cérebro podre acreditando que poderia ser alguém como eu?

De relance, viu sua figura no espelho se transformando. O olhar de Maron era de claro temor ao ver a cientista se aproximar sorrateiramente com uma expressão de quem poderia lhe matar literalmente. Os enormes e redondos olhos de Bulma estavam saltados em transe, as olheiras começando a reaparecer com o estresse, seus ombros arqueados para frente salientando os ossos do colarinho. Sentia que poderia explodir a qualquer momento, um sentimento incontrolável subia e descia em seu corpo como uma arma se engatilhando.

– Se você acha que é esperta, saiba que sou o dobro. A sua beleza patética, a minha ofusca; seu dinheiro, vai virar pó antes mesmo de meus filhos nascerem. Riqueza! Inteligência! Beleza! Juventude! O que você nomear! O que você quiser comparar entre nós duas, eu vou estar sempre dez passos à frente de você.

Quando terminou de falar naquela voz ameaçadora, estava com as mãos no pescoço de Maron, apertando-a mais que o necessário. Foi então que se deu conta do ato violento na qual estava se envolvendo e largou a mulher antes de deixar qualquer marca de agressão em sua pele. Não podia se deixar levar daquela forma, não era o tipo de pessoa que queria ser, mesmo que fosse para uma traidora como a Maron.

Deu as costas a todos do camarim assim que os seguranças chegaram na porta. Reconheceu um deles da noite de cerimônia do Nobel e sentiu-se um pouco menos desprotegida entre a meia dúzia de homens altos e fortes que a cercavam. Os jornalistas tentavam passagem entre os guarda-costas quando chegaram ao saguão. Bulma conseguia ouvir suas perguntas, mesmo fingindo estar aérea, sobre quantos amigos alienígenas ela tinha, se eram humanóides, se podiam ler mentes ou se possuíam naves espaciais próprias. Por baixo dos óculos escuros, seus olhos só queriam uma boa cama para dormir tranquilamente. Aquele dia turbulento tinha esgotado com todas as suas energias físicas e psicológicas.

Quando chegou em casa, levada por um dos seguranças da Corporação que atuou de motorista, não estava com vontade de ver ninguém. Viu que no celular haviam dezenas de chamadas não atendidas e mensagens de vídeo e texto, boa parte destas de Yamcha pedindo-lhe perdão. Mal botou os pés pra dentro do saguão de entrada e já podia ouvir o telefone tocando sem parar ecoando o ruído irritante pela casa toda. Sentia-se muito cansada, mas sabia que seria procurada pela voz esganiçada de sua mãe, querendo saber todos os detalhes possíveis de seus sentimentos mais profundos, além de Yamcha e sua ridícula tentativa de fazer a ex perdoá-lo. Se é que não haveria algum empregado lhe enchendo os ouvidos de compromissos, agora que Maron não estava mais ali como suporte. Só havia um lugar daquela imensa mansão aonde tinha certeza que não procurariam por ela. Seus pés, quase que instintivamente, foram levados direto para o quarto que era de Vegeta.

Não se surpreendeu ao ver o aposento do sayajin vazio, era um dos motivos que a fez se esconder ali. Deveria estar treinando desde aquela hora em que se viram mais cedo. Ela tirou o blazer e os sapatos, ficando só de camisa social e saia-lápis. Deu uma observada no banheiro, só por precaução, e se deitou na larga cama de solteiro do quarto. As cortinas fechadas pela metade criavam o breu perfeito para um cochilo. A garota se acomodou na cama desarrumada, inalando o cheiro inconfundível de Vegeta no travesseiro. Aspirou o ar profundamente, sentindo-se um tanto pervertida por suas motivações, mas pela primeira vez escolheu não julgar aquela sensação que o cheiro do príncipe dos sayajins lhe causava. O sono lhe arrebatou como uma onda forte e em poucos minutos, já estava dormindo.

– Eu falei que você tinha que perder a mania de desmaiar perto de mim. – sussurrou uma voz mal-humorada.

Bulma sentiu seu cabelo ser acariciado e tirado da frente de seu rosto com leveza. Começou a despertar aos poucos, com a sensação de estar há dias adormecida, mas ao olhar para o relógio do pulso com urgência percebeu que foram apenas nove horas de sono. O dia inteiro dormindo ali e nem tinha se dado conta da noite chegando. Se sentou na cama, tentando abrir melhor os olhos.

Estavam no escuro, Vegeta sentado ao seu lado na cama com as pernas esticadas e braços cruzados. Sua silhueta visível apenas pelo feixe de luz que vinha do luar lá fora. Estava com cheiro de banho tomado, devia ter visto a garota ali e ido tomar banho como se nada tivesse acontecendo, pensou Bulma mais uma vez tentando desvendar os pensamentos do sayajin. Num gesto natural, ela apoiou a cabeça nos ombros nus dele, suspirando aquele cheiro que tanto gostava, sem se importar com o que ele iria pensar. Sua pele aquecia suas bochechas e lhe causava torpor ao emanar aquele perfume bom.

– Estão procurando por você. – disse ele com os lábios encostando em seus cabelos. Deu um suspiro depois de não ouvir resposta. – Tá, me ouvindo, terráquea?

– Eu tive um dia horrível. – disse numa voz fraca.

– Isso não é problema meu! Não me envolva nas suas maluquices, não tenho nada a ver com isso. Só deixei você dormir aqui porque fiquei com preguiça de te levar pro outro quarto. Não sou obrigado a te carregar por aí!

– Vegeta... No seu planeta as pessoas seguiam uma moral? Algum código de honra? Algo para orientar os sayajins e não haver traições entre vocês?

Ele pensou um tempo antes de falar.

– Nós temos o orgulho dos sayajins, de honrar nosso poder e nossa raça a qualquer custo. – respondeu a sério. – Éramos leais entre si até Freeza aparecer. Depois disso, cada um agia do jeito que podia para sobreviver. Kakkaroto te falou dele?

– Sim. – respondeu baixinho. – Sinto muito pelo que houve, Vegeta! Com seu planeta... Sua família... Sinto de verdade!

Bulma deixou sua mão deslizar até um dos antebraços de Vegeta e o acariciou sem que ele os descruzasse. Sua musculatura era rígida como um objeto inanimado, mas a pele era macia e quente, com alguns pelos esparsos cedendo ao seu toque ao se arrepiarem.

A cientista tirou a cabeça dos ombros dele para olhar dentro de seus olhos negros. Ele a olhava de volta na mesma intensidade, mas seu corpo rígido não movia um centímetro sequer. Quando começou a sentir o batimento cardíaco elevar, saiu do meio das cobertas e se levantou da cama antes que pudesse fazer algo impulsivo. Ajeitou a saia colada ao quadril e abotoou o decote da camisa já estando de pé.

– Obrigada por não ter contado pra ninguém que eu estava aqui. – ela agradeceu arrumando os cabelos. – Desculpa ter te incomodado.

– Não incomodou. – retrucou ele rapidamente.

Ela olhou pra trás um pouco surpresa, tentando enxergar sua expressão e viu que Vegeta agora sorria.

– Só me encheu o saco, como sempre! – disse sarcástico.

Ela deu uma risadinha no escuro ao perceber a brincadeira amigável que ele fazia. Então, saiu do quarto recolhendo suas coisas pelo chão e deixando o príncipe desacompanhado na escuridão de seu quarto solitário.

Quando fechava a porta de Vegeta sem fazer ruído, deu de cara com a mãe vindo do outro lado do corredor, a pegando no que parecia um flagrante. A Sra.Briefs parou de andar a poucos metros de distância ao ver a filha sair de fininho do quarto do sayajin, segurando o blazer e os sapatos nas mãos, com as bochechas vermelhas e o cabelo amassado. Bulma caminhou de encontro à mãe.

– Mãe, eu sei que vai parecer suspeito e clichê te dizer isso, mas... Não é o que parece! Sério!

– Querida, você estava no quarto do Vegetazinho esse tempo todo?

– Sim, mas sozinha! Ele tava treinando, só me acordou agora. Não aconteceu nada entre a gente, você sabe...

– Bulminha, você é inteligente, mas não esqueça que sou sua mãe. Sei que não transou com o alienígena bonitão. Te conheço melhor que isso. – disse a mulher loira com o volume da voz diminuído. – Não que você não quisesse, mas sei que não aconteceu.

– Mãe! – repreendeu Bulma levando a Sra.Briefs para longe dos quartos. – Você tá louca? Nunca mais fala esse tipo de coisa por aí, tá bom? A senhora não sabe das coisas ruins que o Vegeta já fez!

– Ah, como essa juventude é nervosa! Cruzes! Tá bom, não toco mais no assunto. Agora vem cá, me dá um abraço!

A mãe foi tomando a garota nos braços e a apertou fortemente. Bulma retribuiu o carinho se sentindo acalentada.

– Bulminha, meu geniozinho! Sinto muito pelo Yamcha! Nunca imaginei que Maron fosse capaz de tanta maldade, não entendo o que aquela moça tanto odeia em você, querida.

– Obrigada, mãe! Também não entendo, mas você sabe que sempre atraí pessoas ruins a vida inteira.

A Sra.Briefs agora lhe olhava nos olhos.

– Você é brilhante, querida! E diamantes atraem gananciosos! Em pensar que quase deixei esses dois organizarem uma festa surpresa pra você. Ah, falando nisso, vamos ter que resolver esse assunto em breve, mocinha. Vinte anos é uma data marcante! Temos que comemorar!

– Mãe, qualquer coisa é uma data marcante o bastante pra você comemorar.

– Não censure sua mãe que está só tentando te alegrar, querida!

Elas desciam as escadas quando encontraram Oolong no meio do caminho. O porquinho falante vestia a extravagante combinação entre uma camisa de manga curta vermelha e uma bermuda amarela.

– Ah, Bulma, não dá pra aguentar o Yamcha agora que você terminou com ele.

– Ele foi pra sua casa, então?

– É claro, pra onde mais iria? Está insuportável ficar lá!

– Oolong, você pode ficar aqui o quanto quiser e aquele canalha miserável que se exploda!

Oolong fez uma cara feia.

– Coitado, Bulma! Como você é má!

Ela vociferou com o seu hóspede.

– Como assim? Ele me traiu com a vaca da Maron!

– Ah, Bulma, sei lá! – disse o porco como se não houvesse nada. – Ele deve ter confundido vocês duas já que são muito parecidas.

Mal terminara a frase e Bulma já puxava Oolong pelas orelhas com força, tal qual fazia quando o pegava no flagra aprontando uma das suas safadezas.

– Você é um nojento, Oolong!

A mãe teve que acalmar a filha antes que a jovem matasse a pobre criatura e interveio entre os dois.

– Bulma, não faça mais isso com o Porquinho! Ele é nosso convidado!

A Sra.Briefs havia adquirido o hábito de chamar Oolong de Porquinho, como se ele fosse algum tipo de brinquedo em edição limitada comprado de uma loja de departamentos. Bulma achava isso extremamente irritante, ainda mais naquele momento em que se encontrava tão sensível. Saiu dali deixando os dois sozinhos ao pé da escadaria.

Chegou ao jardim frontal da mansão e encontrou-se sozinha diante do céu estrelado. Não pôde deixar de lembrar do discurso mais cedo. Acabou deixando um sorriso escapar-lhe os lábios, pois era verdade o que tinha dito, aquilo sobre olhar o céu e ter o arrebatador sentimento de saber que há mais vida lá fora. Um infinito mundo de possibilidades. Infelizmente, esse pensamento também a fez lembrar do que Vegeta dissera no café da manhã. De que lá fora as criaturas guerreavam sem parar e que, naquele exato momento, o misterioso alien Freeza encontrava-se em algum lugar daquele universo cometendo genocídios como fez em Vegetasei.

Sentiu um cheiro de cigarro de repente e percebeu que estava acompanhada. Reconheceu de imediato a figura engravatada do senhor que lhe fizera a última pergunta no auditório. Usava uma boina russa sobre os cabelos brancos que Bulma agora notava o quanto eram compridos. Lembrava de já tê-lo visto conversando com o pai em alguma festa, pois aquela figura pálida de enorme bigode branco era difícil de esquecer. Ele estendeu a cigarreira aberta para ela, mas a garota negou.

– Claro, você deve ser jovem demais pra isso. Eu me lembro de você quando ainda era uma garotinha de tranças no cabelo! – disse o velho numa voz rouca. – O tempo passa tão rápido, não é?

– Depende. É relativo.

Ele riu com a garota.

– E como é! Fiz a gentileza de dar carona pro seu pai. Os jornalistas cercaram o carro dele hoje. Que barbaridade!

– Desculpe, mas... Esqueci o nome do Senhor, faz tanto tempo.

– Dr.Maki Gero! – disse o velho rouco estendendo a mão. – Talvez nunca tenhamos sido apresentados apropriadamente.

– Talvez. – Bulma apertou a mão seca e enrugada com receio. – Está esperando por meu pai?

Neste momento, o Sr.Briefs aparece saindo da casa sem o jaleco habitual, mas com o mesmo jeito de levar o cigarro nos lábios. Sorriu ao ver a filha e lhe deu um tapinha nas costas mais forte que o necessário. Às vezes seu pai esquecia que Bulma era uma mulher e a tratava como se fosse um moleque.

– Querida, está bem? Ficamos preocupados, mas eu sabia que só precisava de um tempo sozinha. Fiquei surpreso que você tenha chamado tanta gente para a reunião hoje! Você planejou tudo, não foi?

– Não fui eu, pai, foi a Maron. É uma longa história… Você nem vai querer saber, acredite!

– Nós estamos indo comemorar com os outros caras da Corporação. – disse Maki Gero. – As ações da empresa subiram loucamente depois do seu discurso hoje. Deveria ir também, Bulma! É a responsável por tudo isso. Já não é nenhuma garotinha, ouvi dizer que vai completar vinte anos no próximo mês.

– É verdade, vou sim. – confirmou Bulma com um sorrisinho forçado. – Obrigada pelo convite, mas hoje foi um dia estressante demais! O álcool não vai cair bem, com certeza!

– Tchau, meu pequeno gênio. – disse seu pai dando-lhe um beijo na bochecha. – Estou muito orgulhoso de você! Você foi incrível! Está sempre me surpreendendo com suas escolhas!

E saiu para se aconchegar no banco do passageiro do carro estacionado mais adiante. Ela nem tinha percebido o automóvel ali. O Dr.Gero ainda terminava de fumar seu cigarro direcionando seus olhos azuis estranhos para a moça.

– Você sabe que tive que perguntar aquilo no final, não sabe? Alguém iria perguntar alguma hora. Essas coisas são assim.

– Não estou chateada pelo Senhor ter sido sincero. Estava na hora de todos saberem.

– Bem, agora você só vai precisar aguentar a NASA pegando no seu pé pra saberem mais sobre esses seus amigos extraterrestres. – disse o velho rouco apagando o cigarro com a sola do sapato. – Mas você sabe que essa gente do governo são todos uns trouxas, não sabe? Vai saber, de qualquer maneira.

O velho caminhou para o carro e deu um tchauzinho com as mãos antes de entrar no veículo.

– Nos vemos por aí, garota Briefs!

Bulma não se sentiu muito bem com a presença daquele senhor de jeito estranho tão perto de sua casa e sua família. Não parecia alguém muito agradável de estar por perto, por mais que fosse amigo de seu pai há muitos anos. Algo nele lhe despertava medo e repulsa, mesmo sendo apenas um velhote de bigode branco e voz ridiculamente rouca. Ela entrou em casa sentindo frio nos braços e trancou a porta do saguão.