A Escolha de Bulma

3 Mudança De Planos


Notas iniciais
Obrigada a quem tem comentado. Espero que gostem.

O motorista precisou atuar como segurança para conceder a passagem de Bulma até o interior do teatro. Nunca uma entrega de Nobel tinha sido um acontecimento tão badalado. Geralmente a solenidade homenageava sempre o mesmo tipo de pessoa: idosos carrancudos, velhinhos carismáticos, rapazes esquisitos com óculos enormes no rosto, dentre outros tipos clássicos de cientistas famosos. Com Bulma, no entanto, era diferente. Era como uma rock star. Não só para a comunidade científica impressionada com suas habilidades inventivas, mas também para toda pessoa que assistia qualquer meio de comunicação existente no planeta. Era muito bonita, muito jovem, muito simpática para estar ali, naquele lugar que antes sempre parecera uma confraria de nerds caretas. A combinação excêntrica é o que levava seu belo rosto para páginas de revistas como "X-CIENCE MAGAZINE" ao mesmo tempo que também estampava as manchetes dos blogs de celebridades hollywoodianas.
O salão de entrada do palácio estava não menos cheio que o tapete vermelho que acabara de passar. Estavam todos bem vestidos, segurando taças de champagne na mão e atirando sorrisos burocráticos para qualquer lugar do salão. Alguns daqueles Bulma reconhecia de revistas de Ciências, da televisão e até do seu próprio local de trabalho, a Corporação Cápsula. Todos os funcionários de seu pai estava ali em peso, preenchendo todos os cantos do lugar.
Ajeitou a postura antes de começar a cumprimentar aquelas pessoas, quando sua assessora e assistente, Maron, surge de repente e lhe pega pelo braço discretamente.

– Uma hora de atraso! — disse a moça alta de cabelos azuis escuros. — As pessoas já estão falando.

– Foi a minha mãe. Teve que puxar uma conversa comigo antes de vir.

– Não vai dar tempo de falar com todas essas pessoas!

As duas caminhavam cada vez mais em direção às escadas do palácio que levavam ao teatro. Algumas pessoas olhavam atentas para as duas mulheres exuberantes, especialmente para a conhecida cientista, que muitos tinham visto pela última vez quando ainda era uma criança sob as asas do Sr.Briefs. As duas moças caminharam para dentro dos bastidores da cerimônia, esta que estava prestes a começar. Havia muita bagunça lá atrás do palco. Pessoas andando pra lá e pra cá, gente famosa bebendo junto, gente uniformizada falando em walkie-talkies, e no meio disso, Maron, que era uns bons anos mais velha que Bulma, alertou a companheira.

– Não fique nervosa, ok? Vai dar tudo certo! Vou procurar a diretora disso aqui e já volto com a programação confirmada da apresentação.

Dito isso, a moça sumiu entre as pessoas indo e vindo, deixando Bulma sozinha entre os estranhos.

O lugar era bonito e impressionava. O teto arqueado era muito alto, sustentado por várias colunas dóricas de mármore. No chão escuro, um conjunto de pisos largos e brilhosos. Ao redor, tendas de frutas e drinks se espalhavam pelo lugar. Tentou procurar por algum rosto familiar, mas ao correr os olhos pelo salão dos bastidores sua procura foi interrompida pelo susto. Um par de olhos escuros lhe encaravam sem piscar do terraço que cercava um dos lados do palácio. Era um rapaz jovem, mas parecia ser mais velho que ela. Sua figura era bastante alta e notavelmente forte, os músculos não se escondiam eficientemente por baixo do terno preto. Os cabelos negros eram um tanto esquisitos, sem corte e desarrumados em um emaranhado de fios desiguais. O olhar, no entanto, parecia amigável apesar de invasivo e um tanto mal educado na opinião de Bulma, mas ela não desviou de seus olhos, sem entender por que aquele homem a encarava de um jeito tão estranho. Cortou o contato visual lembrando-se que precisava estar perfeita para receber o prêmio e posar para todas as câmeras que estariam diante dela naquela noite. Foi a procura de um toalete em passos ligeiros. Ao passar por um casal de jovens conversando ouviu algo surreal demais para prestar atenção.

– Dizem que foi há duas horas que aconteceu! — disse um deles. — Está no planeta Terra e ninguém sabe de onde veio!

– Impossível! — satirizou o outro. — Os únicos extraterrestres que conhecemos são os Tullianos e eles nem são tão inteligentes como nós. Deve ter alguma explicação astronômica para isso.

Bulma coletou as informações sem entender realmente do que falavam. Numa situação normal seu cérebro presumiria toda a conversa através de poucas deduções, mas aquela era uma situação única, não conseguia focar sua atenção em nada por mais de dez segundos. Por conta da emoção à flor da pele, todas as cenas que seu cérebro captava pareciam surreais e estranhas demais para estarem acontecendo de verdade, como peças de um quebra-cabeça que se encaixam, mas não formam imagem alguma. Por isso, ignorou tudo que lhe parecia fora de contexto.

Quando achou o toalete, sentiu-se aliviada. Estava completamente sozinha no banheiro feminino. Era um espaço amplo e luxuoso demais para um banheiro, mas pensou que para um palácio daqueles até era de se esperar. Era tudo dourado em tons de ouro. O espelho, impecavelmente limpo, refletia a imagem de sua silhueta pálida moldada pelo vestido cor de champagne. Abriu a bolsa para tirar lá de dentro uma pastilha calmante, mas ao fazê-lo deixou a pequena bolsa cair no chão brilhoso. Abaixou-se para pegar o objeto no chão, e quando levantou-se o reflexo do espelho mostrava uma grande figura masculina atrás de si.

Deu um grito de susto e um pulo tão dramático, que seu corpo foi parar diretamente nos braços daquela assombração. Ele a segurou com cautela, aparentemente tentando acalmá-la, um tanto sem jeito, e em instantes Bulma reconheceu a face do rapaz que a encarara anteriormente no salão. Apesar do susto, sua feição diante das luzes fortes do banheiro parecia mais inofensiva e até um tanto inocente.

– Desculpa, Srta.Briefs! Não queria assustá-la desse jeito.

Bulma se desvencilhou dos braços do alto rapaz e não conseguiu conter o volume da voz.

– Quem diabos você? Não está vendo que esse é um local para damas? Que tipo de educação seus pais lhe deram? Saia já daqui! AGORA!

– Calma, eu só vim aqui porque precisava falar em particular com a senhorita. — disse o rapaz amedrontado pelo temperamento da cientista. — Você vai precisar desculpar minha indelicadeza, mas o assunto é urgente. Ah! Tenho que me apresentar primeiro... Oi, eu sou Goku!

Ele estendeu a mão como se toda a situação fosse corriqueira e Bulma não pode deixar de duvidar a respeito da idade mental do brutamontes a sua frente. De repente, começou a se sentir culpada. Pensou que poderia ser um desses casos de gênios "especiais" como muitas das crianças que estudaram com ela no internato.

– Ahn... Eu sou Bulma. Er... Prazer! — disse a cientista ficando vermelha de vergonha.

– Eu sei Srta.Briefs.

Mas é claro, ela pensou, provavelmente até estudaram juntos e ela nem lembrava.

– Ah, céus, me desculpa! Eu raramente lembro das pessoas com quem estudei na infância e--

– O que? Não, não Srta.Briefs. Você não me conhece. Eu conheço você por causa da Senhora Uranai, mas é a primeira vez que nos encontramos. Por sinal, eu imaginei que você fosse um pouco menor.

– Você tá maluco? O que quer aqui então? É isso mesmo que ouvi? Você ainda me chamou de gorda!!

A voz da cientista parecia intimidá-lo.

– Não, não, Senhorita! Não foi isso! É que pensei que você fosse mais baixinha, só isso. — o grandalhão passava a mão na cabeça tentando medir as palavras e o desconforto. — Poxa, você é bem vaidosa mesmo!

– Mas que imbecil! Você chega invadindo uma área restrita às mulheres e ainda diz que nem me conhece, que uma senhora... — Bulma pausou a fala ao lembrar do nome familiar que Goku tinha usado. — Uranai? É isso que você acabou de dizer?

– Sim, ela disse que você saberia alguma coisa sobre ela.

As mãos da cientista gelaram de repente e seus olhos arregalaram-se de temor. Começou a se afastar em direção da porta com os olhos vidrados em Goku. Só então os músculos e a estatura do rapaz lhe intimidaram.

– Você... Como entrou aqui tão rápido? Não fez nenhum barulho... — parecia balbuciar as palavras para si mesma. — Seu nome é oriental... O que quer?

– Era isso que eu estava tentando dizer. Desculpe-me se te assustei, mas não tive outra opção. Precisava entrar em contato com você o mais rápido possível. Nós precisamos de sua ajuda, Srta.Briefs. É um caso urgente e extremamente sigiloso. Uranai disse que podíamos confiar em você, mas... Bem, vai ter que prometer não contar para ninguém. Absolutamente nada!

A esse ponto, Bulma tremia dos pés a cabeça, sem pensar em qualquer reação. Lembrou imediatamente das palavras da mãe sobre a anciã do oriente, dos alienígenas, do dragão, das esferas laranjas...

– Vocês querem as pedras? As pedras alaranjadas que tenho em minha casa. É isso?

– As esferas do dragão? Ahh, claro! Mas não é só por isso que viemos, na verdade. Você precisa vir com a gente também.

– A gente? Do que está falando? Ir pra onde? Você deve ser louco! — Bulma deu as costas para o estranho em um ato de coragem. — Vou esquecer que isso aconteceu para o seu bem, ok?

Antes que alcançasse a porta, Goku magicamente apareceu em sua frente, em um piscar de olhos. Sua imagem simplesmente se teleportou em um segundo para impedir sua passagem. Bulma quase caiu no chão. Seus olhos não poderiam estar maiores.

– Srta.Briefs, isso é coisa séria! O planeta Terra está correndo um enorme risco. Se importa com o planeta, não é? Esse prêmio que está ganhando hoje não é por ter salvo o planeta? Então! Precisa acreditar! Eu sei que estou pedindo muito, mas precisa confiar em mim! — sua voz agora era firme e sincera. — Jamais machucaria você! Estou no mesmo time que o seu.

Ela se acalmou imediatamente quando percebeu na transparência daquela voz a verdade que falava. Tentou retomar o raciocínio para que pudesse tomar a melhor atitude possível.

– Preciso receber o prêmio primeiro.

– Não vai dar tempo! É urgente, Srta.Briefs!

– Ok, primeiro: Me chame de Bulma. Segundo: Preciso achar minha assistente para receber o prêmio em meu lugar. Terceiro: A gente tem que passar na minha casa antes. Vai dar tempo?

– Você vai precisar escolher entre a segunda e a terceira opção. É possível que não a deixe ir embora se disser que não vai receber o prêmio.

– Mas que droga! Não é possível! Quer saber? É melhor você vir me procurar outro dia, tá bem? Essa noite é muito importante pra mim e--

Antes que Bulma pudesse completar a frase, Goku a segurou pelo pulso e em uma fração se segundos não estavam mais no banheiro do palácio. Uma náusea bateu forte seu estômago e ao abrir os olhos e observar ao seu redor, percebeu estar em seu próprio quarto na casa de seus pais. Com um certo detalhe que o diferenciava: Estava todo desarrumado. Desde a cama até o tapete, passando pelo closet e penteadeira. Um furacão parecia ter passado por ali. Viu a gaveta da penteadeira vazia e antes de questionar Goku sobre o sumiço das esferas, um ser baixinho e careca saiu do banheiro em vestes de moletom. Estava portando as três esferas em uma bolsa de pano quase transparente.

– Bulma! Finalmente! Estávamos esperando. — disse o homem baixinho. — Sou Kuririn, prazer! Nossa, você é bem bonita mesmo!

A cientista apertou a mão estendida de Kuririn, completamente atônita.

– Já é hora de voltar, Goku! Estamos arriscando muito. — falou uma outra voz em tom sério. — Olá, Bulma! Que bom que aceitou em cooperar conosco. Daremos um jeito de recompensá-la, certamente!

Goku não conseguia esconder o que sentia, sua face sempre demonstrava desconforto se assim se sentia.

– Bem... hehe! Não foi muita cooperação, mas... Ela vem com a gente, né Bulma?

Bulma ainda encarava o rapaz que apareceu por último. Era alto, mas não tanto quanto Goku, careca, de regata branca e calça de moletom verde escura. No entanto, era de seu rosto que a cientista não conseguia tirar os olhos. O rapaz tinha um terceiro olho no meio da testa. Um globo ocular humano, vivo e atento, revestido de pálpebras e cílios, encarando-a com a maior tranquilidade.

– Este aqui é Tenshinhan, ele veio nos ajudar. — disse Goku percebendo a expressão de repulsa no rosto de Bulma. — Ele é nosso amigo também.

– Mas, ele... — Bulma não sabia mais o que dizer. A situação era totalmente surreal.

Goku se aproximou de Bulma e lhe disse baixinho ao pé do ouvido:

– Te explico tudo depois.

Aquela era definitivamente a voz mais amigável que Bulma ouvira na vida. Era difícil não acreditar no que ele falava, seja lá o que fosse. Olhou para o pequeno homenzinho, que quase parecia um anão, e para o ser de três olhos. Aquelas duas criaturas peculiares lhe encaravam com enorme expectativa. Seja lá o que estivesse acontecendo, Goku não brincava sobre o fato de precisarem dela.

– Ok. Só esperem eu colocar algumas coisas na mochila, pegar umas cápsulas e trocar de roupa, é claro. Não sei o que está acontecendo, mas certamente meu vestido vai ser inapropriado pra situação. Vocês me dão cinco minutos?

Goku estava satisfeito. Sabia que tinha convencido a cientista de viajar com eles. Os outros dois, Kuririn e Tenshinhan, seguiram Goku e ficaram esperando a garota do lado de fora do quarto.

– Deve ser uma piada! — reclamou Tenshinhan. — Essa é a garota que vai nos ajudar? Um garoto de treze anos é mais forte que ela!

– Tenshinhan, não é de força que estamos precisando. Esta garota é o ser humano mais inteligente deste planeta. E se Mestre Kame e Uranai dizem que ela é crucial para nosso grupo, é porque é verdade!

– Eu achei ela simpática. — Kuririn disse reflexivo. — Quer dizer, para uma situação dessas. Talvez o cérebro dela seja realmente diferente dos outros.

Dentro do banheiro, Bulma já estava com a mochila pronta. Tirou o excesso da maquiagem com um certo pesar, tinha demorado tanto tempo de fazer... pra nada! Tirou todas as jóias e finalmente o vestido. Rapidamente escolheu uma calça jeans azul escura, uma camiseta azul celeste sem estampa, uma jaqueta de moletom cinza, e um par de tênis vermelhos. Voltou ao encontro dos rapazes em menos de cinco minutos.

– Eu não acredito que isso está acontecendo. — foi a única coisa que conseguiu dizer. — Minha mãe estava certa.

Ela se aproximou de Goku, tendo que levantar bem a cabeça para olhá-lo nos olhos. Ele lhe olhou de volta com compaixão.

– Assim que tudo isso acabar você vai poder vir embora. Agora, segure em mim e tente relaxar.

– Céus, espero que isso valha a pena! — foi a última coisa que a cientista disse. Um último voto de confiança.

Bulma, Kuririn, e Tenshinhan colocaram suas mãos no braço de Goku e imediatamente foram teleportados para longe dali.

Notas finais
Deixem comentários! :)