A Escolha de Bulma

4 Explicações Na Cabana


Quando Bulma abriu os olhos se viu em um mundo completamente diferente. Estavam em meio a relva. Se tratava de uma rica floresta de árvores altas, repleta de uma vegetação conífera. Era cedo, o sol parecia estar nascendo ainda, os pássaros cantarolavam do alto dos pinheiros e a sensação era de que estava no lugar mais calmo do planeta.

– Então é assim que é o Novo Oriente?

– Não é tão diferente de onde você vem, como pode ver. — observou Goku. — Por trás dessas árvores a nossa frente, é onde Sra.Uranai mora. Ela é quem vai te orientar. Eu e os rapazes precisamos voltar para a luta antes que o pior aconteça.

– Luta? Do que está falando?

– Não contou para a garota? — disse Tenshinhan um tanto invocado. — Essa é a parte mais importante!

– Ah, é que na hora não me passou pela cabeça. — respondeu Goku com um leve embaraço na voz.

Os outros três olharam para ele abismados com sua falta de bom senso.

– Bem, Bulma, o que precisa saber é que novos extraterrestres chegaram ao planeta e vieram atrás de mim. Teoricamente faço parte de sua raça e eles pretendem me eliminar. — disse Goku seriamente. — Nosso amigo Yamcha está lutando com um deles nesse momento, mas esse cara é muito forte.

– Uranai disse que nós precisávamos lhe buscar urgentemente se não quiséssemos morrer e perder a luta. — completou Kuririn, o baixinho. — Não sei que tipo de ajuda você trará, mas nós acreditamos em você. Tome as esferas. Uranai saberá o que fazer com elas.

Bulma ficava sem palavras a cada vez que um daqueles homens abriam a boca. Se sentia segura, no entanto. Eram pessoas honestas, ela sabia disso. O instinto que a levara até ali falou mais alto novamente.

– Eu vou fazer o que for possível. Podem ir, vou ficar bem!

Tenshinhan e Kuririn se apoiaram em Goku, este que antes de se teleportar com os companheiros olhou com firmeza para Bulma, acenando-lhe a cabeça em um sinal de confiança. Após os três desaparecerem na sua frente, Bulma levou poucos segundos para assimilar a situação. Caminhou cautelosamente em direção aos raios de luzes que vinham por trás dos arbustos a sua frente. Abriu caminho por entre as folhas e avistou uma bela cabana no meio de uma enorme clareira. Um caminho feito com pedras lisas saía dos degraus da varanda até a pequena cerca de madeira por onde os pés da cientista estavam prestes a atravessar. O jardim frente à casa era muito bonito e exalava um perfume agradável. O local todo emitia uma atmosfera de fantasia. Ela foi até a porta do casebre e percebeu que estava entreaberta. De onde estava podia sentir um leve cheiro de café passado e até avistou uma rede de tricô atravessada no meio da sala.

– Com licença? Uranai? Alguém?

Ao bater de leve na porta, esta se abriu por completo, revelando um velho senhor careca do lado de dentro. O velhinho era baixo, franzino, combinando a barba branca com óculos escuros vermelhos. Permaneceu em frente a cientista sem transparecer qualquer expressão.

– Você chegou rápido. — ele disse. — Mas vejo que não está com roupas de festa.

Bulma não entendia nada.

– O que o senhor disse?

– Bem, me disseram que iriam buscá-la em alguma festa importante, então imaginei você vindo até aqui com uma roupa mais interessante, sabe. Mas você veste roupas completamente normais, então pode ver que estou um pouco decepcionado. Fiquei aqui fantasiando sobre a beleza inebriante da tal cientista Briefs e com seu corpo em um vestido curto, ou com um decote revelador, mas--

Antes que o velho descarado pudesse continuar, uma senhora pequena e roliça apareceu ao seu lado para repreendê-lo.

– Ora, Kame! Você está cada vez pior! Que velho patético e tarado você se tornou! Vê se cala a boca e pare de assustar a nossa convidada. — ela disse com uma voz rouca e então olhou para Bulma. — Seja bem-vinda, querida. Sou Uranai. Entre, por favor. Temos muito para conversar em muito pouco tempo.

Bulma entrou na casa se sentindo um tanto desconfortável. O velhinho não parava de olhar para ela, agora sem os óculos, de um jeito inconveniente. Sentia uma vontade crescente de lhe dar uma bofetada na cara. Uranai, no entanto, era simpática e hospitaleira, fez a cientista sentar em uma enorme poltrona de couro na sala enquanto lhe trazia um chá. Quando os dois idosos se sentaram a sua frente para conversar, lembrou-se das esferas.

– Hm, acho que minha tarefa tem a ver com as esferas, não é? Bem, eu possuo apenas três, mas tenho um novo aparelho que rastreia essas pedras, então...

Bulma mal parou de falar e Uranai colocou uma cesta na mesa de centro entre eles. O pequeno cestinho de palha continha três esferas, idênticas às que ela tinha, com exceção do número de estrelas em cada pedra laranja. Ela colocou as suas junto as do cestinho, estupefata com a sequências de surpresa que seu dia estava acumulando. Pegou o aparelho rastreador de esferas e viu que na tela, as seis esferas apareciam reunidas em um aglomerado cor de abóbora. A última esfera aparecia solitária e muito próxima no visor do aparelho.

– Só falta uma. — disse Uranai como se adivinhasse os pensamentos de Bulma. — E precisamos dela.

– Você sabe o que essas coisas são?

– São as Esferas do Dragão. O dragão Shenlong, um demônio muito antigo, mais antigo que este planeta, as criou para obter vantagem dos outros demônios. Elas são reunidas por um feitiço muito poderoso, mas são mais inofensivas do que aparentam.

– Então a lenda é verdadeira? — perguntou Bulma com certo ceticismo na voz. — Li sobre isso no Ocidente, mas me pareceu tão mitológico. Elas tem algum tipo de poder cósmico?

– Sim e não. As esferas só são poderosas quando colocadas todas juntas. Neste momento, o Shenlong aparece como seu guardião, para realizar desejos. E ele pode realizar qualquer pedido que você fizer. É semelhante a um ritual pagão como pode perceber.

A voz de Uranai era calma e sua fala pontual. Bulma olhou as esferas no cesto de palha e estremeceu por dentro por saber que possuía algo tão valioso há tanto tempo sem ao menos saber de sua história. Ainda assim, aquela história de magia negra e dragão demoníaco deixava uma pulga atrás da orelha.

– Como você sabe de todas essas coisas? As esferas... Adivinhou a gravidez de minha mãe... Como é possível?

– Alguém previu todos esses acontecimentos muito antes que eu, mais ou menos da maneira que está acontecendo agora. É difícil poder te passar todas as informações sem alterar seu destino. Eu apenas obtenho o conhecimento e o repasso se for preciso. Você está aqui, Bulma, porque é a pessoa mais inteligente do planeta nesta era. Seu destino está totalmente ligado aos acontecimentos aqui presentes.

– Mas o que eu devo fazer? Eu mal sei o que está acontecendo! Vocês parecem estar em guerra por aqui. Sou só uma cientista.

Mestre Kame que até então estava calado prontificou-se a explicar.

– Existe um planeta chamado Vegetasei, muito longe daqui, cuja vida inteligente se assemelha muito a nossa. São extraterrestres com forma humana, mas com um poder completamente diferente de tudo que já viu. Esses aliens são os guerreiros Sayajins. É uma linhagem de raça pura, de guerreiros espaciais, que conseguem obter o máximo de energia de seus corpos para desenvolverem formas de ataques mais poderosas que um exército inteiro com armas de fogo. Um garoto com cauda de macaco foi encontrado pelo meu irmão há muitos anos, e nunca soubemos sua origem, ele cresceu conosco como alguém da família sem ter qualquer memória de seu passado, mas sempre apresentou algumas características inexistentes na raça humana. Você conheceu ele hoje.

– Está falando de Goku?

– Exatamente! — continuou Kame. — Goku é um guerreiro sayajin enviado para terra quando criança para conquistar o planeta dizimando a raça humana. Mas ele bateu a cabeça na queda e esqueceu de sua missão.

Bulma lembrou-se da sensação estranha de estar com Goku. Realmente parecia de outro planeta. Seu jeito de falar, a natureza de sua expressão calma e honesta, era diferente de qualquer ser humano que já tinha conhecido.

– Entendo. Preciso encontrar a última esfera para ajudar Goku a se livrar desses guerreiros malignos de sua raça. Posso ir agora mesmo! — respondeu ela levantando-se prontamente da poltrona.

A mente de Bulma era um turbilhão de informações complexas. Era muito a ser assimilado em tão pouco tempo, mas por algum motivo, estava totalmente receptiva àquela realidade. Queria ajudar aquelas pessoas esquisitas e simpáticas, sentia que tinha algo de muito grandioso a ganhar naquela aventura.

Mestre Kame olhou para a jovem da cabeça aos pés de uma maneira nada discreta, mas logo voltou pro tom sério ao alertá-la.

– Espero que não se ofenda, mas você parece um tanto frágil para trilhar esse caminho sozinha. Temos aqui alguém lhe esperando para protegê-la, especialmente para que você encontre as esferas e volte sã e salva.

– Eu tenho certeza que com o rastreador posso encontrar a esfera rapidinho e voltar sem nenhum arranhão mas...

– Mas continua sendo apenas uma garota terráquea. — interrompeu uma voz ríspida de timbre grave.

De um corredor escuro, de onde parecia estar há um tempo sem que Bulma se desse conta, saiu um estranho ser verde com antenas proeminentes na testa. Era alto, forte, tinha dentes brancos e afiados como os de um felino. Suas orelhas se sobressaíam, grandes e pontudas como as de um elfo, para fora to turbante branco que usava na cabeça. Os olhos eram escuros e ferozes em um tom verde amarelado profundo. Como cientista, Bulma não pôde de deixar analisar aquela criatura como a mais fantástica que já vira na vida. Estava sem palavras.

– Esse é o Sr.Piccolo, nosso amigo namekuseijin. — disse Uranai. — Ele irá te acompanhar até o encontro da última esfera.

Bulma estendeu a mão para Piccolo. Ele passou reto pela cientista sem descruzar os braços, ignorando seu cumprimento.

– Vamos logo! Já perdemos muito tempo! — disse em tom seco.

Quando Piccolo saiu pela porta até o jardim, Kame e Uranai trocaram olhares significativos.

– Piccolo é um pouco amargo. — disse Kame. — Ainda mais porque gostaria de estar na batalha ao invés de proteger uma garotinha pela floresta, se é que entende a situação dele. Está acostumado com outros tipos de missões, mas garanto que pode confiar nele!

Bulma olhou para o rastreador das esferas que tinha em mãos e caminhou em direção ao jardim. Ao sair da casa viu que o tempo estava nublando aos poucos. Piccolo esperava-lhe de braços cruzados de frente para a floresta. A cientista agradeceu aos dois idosos que a orientaram tão pacientemente. Fingiu não notar Kame olhando indiscretamente para suas coxas e seguiu até aonde o homem verde esperava.

Ele nem sequer olhou em seus olhos quando lhe dirigiu a palavra.

– Espero que você saiba o que está fazendo. Esse lugar não é o palácio que está acostumada a viver.

– Como sabe sobre...

– Qualquer um pode saber sobre a sua vida. Acha que somos ignorantes que não sabem o que é uma televisão ou um jornal? Só quero que saiba que seus bons genes de gênio da física não vão lhe ajudar a sobreviver em um lugar como este. Então, antes de partirmos, você deve saber que precisa me obedecer quando for preciso. Está claro?

Bulma assentiu calada. Aquele era mesmo um ser estranho e ela não estava preparada para lidar com Piccolo até que o conhecesse melhor, por isso, achou mais prudente não o contrariar naquele momento importuno.

– Vamos de uma vez! — respondeu ela sentindo a raiva subir.

E partiu na frente seguida pelo antipático guarda-costas.