A Escolha de Bulma

6 Invocando Shenlong


Notas iniciais
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Os dois olharam para trás simultaneamente e se surpreenderam ao ver Kuririn pedindo ajuda. O homem baixinho estava se arrastando pela grama esparsa, com os olhos inchados e os braços ensanguentados. Assim que Bulma correu para acudí-lo, percebeu que seus hematomas se estendiam por todo seu corpo e eram mais graves do que pareciam de longe. Ela desconfiou que o simpático homenzinho estivesse com hemorragia interna. Detectou três fraturas e rapidamente confirmou suas suspeitas: ele estava prestes a morrer.

– Piccolo, precisamos tirar ele daqui agora! — ela gritou. — Já! Ou ele vai morrer aqui!

A urgência da voz de Bulma despertou Piccolo que permanecia estarrecido em posição estática até então. Ele se aproximou das duas criaturas tão menores que ele e tentou agarrar uma em cada braço para correr o mais rápido possível de volta ao chalé na clareira. Chegaram lá em poucos minutos. Bulma sentiu outro estalo de dor ao ser largada no chão de madeira do chalé, e ainda por cima foi tomada por uma tontura a ponto de quase desmaiar. A primeira coisa que fez foi tirar a mochila das costas e puxar lá de dentro a última esfera. Colocou-a junto das outras na mesa de centro da sala.

Uranai analisava os ferimentos de Kuririn sem expressão alguma, enquanto Piccolo explicava para Mestre Kame tudo o que tinha acontecido na floresta nas últimas horas. Bulma anotava mentalmente os acontecimentos do ambiente ao redor sem conseguir desgrudar os olhos das sete esferas que, agora juntas, pareciam obter um brilho direrente, como se fossem peças que de repente se encaixavam formando um novo objeto. Colocou a mão sobre as pedras e sentiu que emitiam uma vibração sequencial. Era estranho como para ela, nada fazia sentido se fosse pensado com o seu cérebro tão racional, mesmo sabendo que aquilo deveria ter alguma explicação científica, mas seu lado emocional, que sempre atuou tão forte na sua vida, simplesmente sabia o que fazer.

– Ele matou a todos... — sussurrou Kuririn as primeiras palavras inteligíveis desde que o encontraram. — Apenas Goku sobreviveu e... Acho que ele consegue... matá-lo!

Cada sílaba dita pelo rapaz soava como um grande esforço. Uranai olhou para Bulma sabendo que a cientista compreendia o que acontecia naquele momento. Piccolo e Kame não conseguiam acreditar no que ouviram do rapazinho.

– Precisamos do dragão. — disse Bulma voltando o olhar para as esferas. — É preciso falar com esse tal Shenlong. O que eu faço com elas agora? Existe alguma língua dos mortos que os dragões ouvem?

– Saia da frente! — disse Piccolo impaciente apoderando-se do cesto.

O alien verde sussurrou algumas palavras em um idioma desconhecido para Bulma. Pronunciou poucas frases e terminou. Em seguida, após poucos segundos, o céu começou a escurecer bruscamente. O sol que iluminava e aquecia o chão amadeirado agora havia ido embora. Cada vez mais a escuridão tomava conta, trazendo junto o estrondo de trovões, que ora ou outra iluminavam a sala escura com a luz pálida de relâmpagos.

Bulma correu para fora com o cesto de palha onde estavam as esferas e o colocou no chão do jardim. Instintivamente olhou para o céu, lembrando-se do que havia lido sobre o dragão da mitologia oriental, mas não conseguia ver nada além dos clarões elétricos e da imensidão negra das nuvens.

Piccolo e Kame seguiram a cientista e começaram a procurar pelo céu, mas as camadas cinzas estavam por toda a parte, escureceram todo o lugar como se uma noite sem lua ou estrelas tivesse tomado conta da Terra. Bulma sentiu-se tão pequena diante daquele céu escuro e barulhento, que suas pernas tremiam como se algo terrível pudesse sair daquele buraco negro sem fim e devorá-la a qualquer momento.

Foi quando um dos relâmpagos lhes deu o vislumbre do quão gigantesca era a criatura que estavam invocando. Umas cem vezes maior que o dinossauro que vira na floresta, uma silhueta espessa e escamosa deslisava por entre as nuvens como uma cobra gigante circundando sua presa com cautela. Outro relâmpago e enormes garras iluminaram-se no céu. Instantes de total breu cegaram seus olhos brevemente, até que, de repente e sem aviso, uma sequência de relâmpagos revelou completamente o rosto largo de Shenlong encarando-os poucos metros acima de suas cabeças. A imensidão do seu corpo flutuava por entre as árvores até as nuvens, se misturando com as cores cinzas e azuladas no céu. Bulma nunca havia tomado um susto tão pavoroso.

– Quem me chama? — disse em uma voz gutural cujo som assemelhava-se ao ruído dos trovões. — Quem está sobre o poder das esferas?

– Shenlong... É você o dragão que realiza desejos? — falou Bulma tomando coragem.

– Apenas um desejo, sim, se estiver em meu poder. A que lhe posso servi-la?

– Queremos que ressuscite os terráqueos que o príncipe sayajin Vegeta assassinou hoje. — intrometeu-se Piccolo com uma voz em alto e bom som. — São Kuririn, Tenshinhan, e Yamcha!

A cabeça gigante do dragão retornou os olhos vermelhos para Bulma. Sua respiração era pesada e barulhenta como um ronco sinistro, possuía chifres escuros que curvavam-se para trás de sua cabeça, a pigmentação de suas escamas era esverdeada e azulada, camuflando-se por entre o céu e as árvores mais altas. Era impossível saber seu tamanho real, pois o emaranhado de nuvens ainda o cercava como uma névoa escura, impedindo que sua extensão total fosse visível.

– Que assim seja! — resmungou o dragão.

Shenlong foi coberto pelas trevas da tempestade e um estalo agudo, como o de um chicote, ensurdeceu os céus quando ele desapareceu. Em poucos minutos, o dia já estava voltando novamente. Quando a tempestade foi embora, não havia mais nada diante deles além de nuvens claras e esparsas em um céu azul celeste.

A jovem cientista olhou para o cesto onde anteriormente se localizavam as esferas e viu que no lugar delas estavam sete pedras redondas e escuras. Imediatamente foi analisá-las e percebeu que as suas relíquias alaranjadas haviam transformado-se em pedras. Lamentou por ter perdido a oportunidade de estudar mais aqueles artefatos raros, mas ficou contente por ter dado certo a sua missão de ajudar a salvar vidas.

– Piccolo, será que... Será que isso funcionou de verdade? Olha isso! São pedras!

– Isso sempre acontece depois de se usar as esferas. Agora só poderão ser usadas para invocar Shenlong novamente daqui um ano. Pensei que soubesse.

– Como eu saberia? Estou me sentindo perdida até agora nessa história maluca em que vocês me meteram! — Bulma começou a descarregar todo o nervosismo contido até então, cada vez mais aumentando o tom de voz. — Olha só pra mim! Poderia estar em casa comemorando com champagne ao lado do meu troféu, poupando minha pele desse sol forte, desses répteis gigantes, e de alienígenas assassinos e mal educados!!

Piccolo rosnou e voltou para a cabana deixando Mestre Kame com cara de assustado diante de Bulma.

– E você, seu velho tarado! Trate de tirar os olhos de mim antes que eu meta a mão nessa sua cara enrugada!!

– Oh, do q-que está f-falando, minha jovem?

– "Minha jovem" a sua mãe, seu velho maluco!! Acha que não percebi seu desrespeito desde quando cheguei? Se o senhor sequer ousar tentar tocar em mim eu te chuto bem no meio da cara!! Acha que não posso fazer isso porque sou uma garota nerd e mimada? Espere só até você me testar, seu pervertido!

Uma risada ecoou pelo jardim. A cientista irritada e o velhote assustado reconheceram de imediato a voz tranquila de Goku. O simpático sayajin os observava da varanda do chalé, cheio de hematomas, arranhões, e inchaços por todo o corpo, mas com um sorriso de satisfação no rosto que transparecia verdadeiro divertimento com a cena que acabara de presenciar.

– Ela é ou não é uma resmungona, Kame? — disse o rapaz zombeteiro. — Fico feliz que já estejam se conhecendo tão bem!

Os dois foram rapidamente de encontro ao sayajin e Bulma o abraçou com cuidado sem conter a felicidade em vê-lo.

– Você é um cara estranho mesmo! Achei que poderia estar morto, nós fomos procurar as esferas, Piccolo é insuportável, mas me salvou duas vezes, e depois o Kuririn apareceu... — Bulma lembrou-se do rapaz baixinho que tanto tinha apreciado ao conhecer. — Como ele está? Você chegou agora? Viu o que fizemos com as esferas?

Goku pegou Bulma pelos ombros delicadamente e a afastou alguns centímetros achando o jeito ansioso da cientista um tanto engraçado.

– Calma, calma! Ele está bem. Acabei de voltar das montanhas com os outros. Yamcha e Tenshinhan estão vivos também. É, acho que deu tudo certo, só preciso descansar um pouco.

– E Vegeta? O que aconteceu a ele e seu escudeiro Nappa? — perguntou Mestre Kame desconfiado.

O rosto de Goku ficou sério de repente e seu semblante já não era mais o do rapaz brincalhão de outrora.

– Nappa está morto e... Vegeta foi derrotado. Foi um dos desafios mais difíceis vencê-lo, mas superei minhas próprias habilidades.

Goku deu dois passos para trás como quem estava prestes a fazer algum tipo de demonstração. Então, em um piscar de olhos, seu corpo todo foi tomado por uma áurea dourada. Seus cabelos negros ficaram loiros e seus olhos castanhos se tornaram verdes de repente.

– Mas o que é isso? Você é o Super Sayajin! — disse o velho Kame com alegria. — Vegeta deve ter ficado furioso em saber que você é o mais poderoso de sua raça.

– É, ficou um pouco. — disse Goku rindo.

Bulma não podia acreditar que aquele rapaz ria daquilo como se não fosse nada de mais. Não conseguia acreditar nos próprios olhos. Sua mente mais uma vez mergulhava num turbilhão de pensamentos incontroláveis na tentativa de racionalizar a situação. Não podia negar o quanto todos aqueles seres eram estranhos, até mesmo os humanos do grupo. Como poderia Goku sobreviver uma batalha que poderia decidir o destino no planeta e posteriormente ficar tão tranquilo daquele jeito?

– Vou ver como Kuririn está. — disse ela em estado de choque, tentando ignorar a sequência de acontecimentos surreais.

Dentro do chalé, espiou Kuririn, Tenshinhan, e um rapaz moreno que presumiu ser Yamcha, na cozinha comendo como se não houvesse amanhã. E como se não houvessem morrido e ressuscitado minutos atrás. Piccolo estava parado na porta de um dos vários cômodos do chalé, olhando para dentro do quarto com as feições demonstrando seu mal humor típico.

Bulma foi até ele, movida por sua enorme curiosidade, e quando parou ao lado do alien viu que dentro daquele quarto havia um homem gravemente ferido deitado em uma cama estreita. Uranai limpava os ferimentos do homem desacordado com um pequeno kit de primeiros socorros.

– Quem é ele?

– Vegeta. — respondeu a voz ríspida de Piccolo cheia de raiva. — Não sei porque ajudar essa criatura a se curar. Só para que sobreviva e tente matar a todos nós novamente?

– A escolha é de Goku e não sua, Piccolo. — disse a voz calma de Uranai. — Além do mais, com um Super Sayajin por perto você não vai precisar temer a este aqui, não?

Piccolo resmungou palavrões inteligíveis em sua estranha língua e adentrou o corredor escuro que levava a outros aposentos. Bulma entrou no quarto e rodeou a cama do sayajin assassino, que agora, de alguma forma, parecia muito inofensivo aos seus olhos. O rapaz não tinha toda a altura de Goku, mas aparentavam a mesma faixa etária, além de outras semelhanças indiscutíveis, como os cabelos profundamente negros e a musculatura bem desenvolvida. Sentou-se em uma cadeira de madeira ao lado oposto da cama de onde Uranai estava. Entre elas, deitado na cama, o sayajin respirava pesadamente, como se tivesse sido hipnotizado a cair em um sono profundo.

– Pensei que Goku tivesse...

– O matado? — adivinhou Uranai com uma sombra de sorriso nos lábios. — O coração de Goku é ainda maior que seu tamanho... ou sua força.

Bulma percebia aos poucos as distintas características do rosto de Vegeta que o diferenciava de Goku. O tom de sua pele tinha um fundo mais dourado, os traços do rosto eram mais rígidos, com a mandíbula mais quadrada, e possuía uma ruga de preocupação que não saia de seu cenho.

– O que vai acontecer com ele?

– Acredito que Vegeta tenha entrado em algum tipo de coma por ter usado demais suas forças. Seu organismo teve um colapso após esgotar todas as suas fontes de energia.

– Ele vai morrer?

A presença masculina de Goku entrou no quarto neste exato momento. Estava agora de volta ao normal, sem a áurea de energia amarelada o rodeando.

– Meu avô costumava dizer que existem tipos de vasos tão ruins, que nunca quebram! — disse em seu tom bem humorado. — Uranai, será que poderia ficar a sós com a Srta.Briefs por um momento?

Uranai sorriu para os dois e saiu de fininho pela casa de madeira. Goku fechou a porta do quarto quando ela saiu e foi sentar exatamente no banco aonde a velhinha estava anteriormente.

– Pode me chamar de Bulma, você sabe.

– Ah, claro! Bem, Bulma, você foi bem eficiente procurando as esferas. Fiquei impressionado que não tenha tentado matar o Piccolo ou algo assim.

Bulma riu divertida com o humor do sayajin, mas tinha uma ponta de desconfiança a respeito de onde aquela conversa iria chegar.

– Por que você não matou ele de uma vez? Este homem assassinou seus amigos!

– É, mas nós revivemos todos graças a você! E bem, Vegeta é como... Não sei o que me deu, mas... Ele é o único elo com a minha origem. Fiquei com pena dele no final. Como se fosse injusto demais matar alguém da minha raça.

– O nome disso é empatia. — falou Bulma sem compreender direito o que queria o sayajin.

– Você sabe o que aconteceu com ele? Se ele vai ficar bem?

– Sou uma cientista, não médica, Goku.

Ele riu.

– É, mas você é bem inteligente, não é... Bem que poderia dar uma olhadinha nele por enquanto e...

– O que quer dizer? Eu estou prestes a ir embora. Do que você tá falando?

Goku se intimidou com a ligeira mudança no tom de voz de Bulma.

– Nada! Quero dizer, você poderia ter o melhor quarto daqui, se quisesse. Eu posso pegar o que você quiser na sua casa em minutos e trazer pra cá. Acredito que ele vá precisar de uma ajuda especializada... como a sua.

– Já disse que não sou médica--

– Mas é a pessoa mais inteligente do planeta, não é? — ele interrompeu.

Bulma soltou um suspiro pesaroso. Olhou para o rosto suplicante de Goku. Parecia um filhote de labrador, mais inocente e infantil do que qualquer outra criatura no universo. Desviou dos olhos insistentes de Goku para observar Vegeta dormindo como uma pedra. Pensou em todas as descobertas importantes que poderia fazer em um simples exame de sangue numa criatura fantástica daquelas. Teriam um DNA muito diferente dos humanos? Teriam o mesmo sistema nervoso e respiratório? E principalmente, como seriam os genes de um sayajin de sangue puro? Essas perguntas aguçavam a mente inquieta da cientista e lhe traziam novas vontades. Era uma oportunidade única.

– Eu fico, mas você tem que me prometer que não vai sumir do mapa, que vai me obedecer, e que vai me proteger se esse psicopata acordar enquanto eu estiver aqui.

Goku abriu o maior dos sorrisos.

– Mas é claro que sim! Está feito!

– E eu quero que busque algumas cápsulas que tenho no meu quarto. Pode se teletransportar pra lá de novo, não é? Vai ter que me trazer diversas coisas das quais preciso. Ah, e falar com a minha mãe, se você conseguir!

– Tudo bem, eu vou pra lá agora mesmo se quiser!

– Não! Agora eu preciso urgentemente de algo calórico pra comer porque eu to morrendo de fome! — disse a cientista pousando a mão sobre o abdome enxuto.

Goku saiu na frente rindo da cientista, falando orgulhosamente do quanto eles tinham de comida para alimentar um exército inteiro. Bulma o seguiu, mas antes de fechar a porta, deu uma última olhada para dentro do quarto, exatamente para o sayajin desacordado. Observou pequenos espasmos de tensão em sua perna e pensou ter ouvido algum murmúrio, como se estivesse tendo algum pesadelo. Tentou não se prender a pensamentos negativos sobre a que tipo de futuro aquele novo caminho poderia levá-la e fazendo essa escolha, fechou a porta.