A Escolha de Bulma

19 Estruturas Psicológicas


Notas iniciais
Boa leitura!

De início, ao conhecê-lo, teve certeza de se tratar de um caso clássico de psicopatia. A impossibilidade de sentir empatia ou compaixão por outro ser, a impulsividade incontrolável, o narcisismo, a intolerância à derrota, o desejo predatório do qual ela mesma era a presa, eram muito claras as facetas antissociais de Vegeta e Bulma sempre soube disso. Psicologia não era sua área de maior destaque quando se tratava de conhecimento abrangente, mas seu cérebro era bom o bastante para guardar as informações necessárias e memorizá-las como um elefante faria, caso um dia precisasse usá-las. Lembrava, por exemplo, das três estruturas de personalidade da psicanálise: a psicótica, a neurótica, e a perversa. Na primeira categoria encaixavam-se aqueles com dificuldade em se situar na realidade, como os esquizofrênicos. A segunda, era a comumente compartilhada pela maioria da população humana, onde uma pessoa normal desenvolve mecanismos de defesa para lidar com seus medos e anseios, muitas vezes transformando estas defesas em neuroses, como no caso do transtorno obsessivo-compulsivo. Bulma se identificava com essa estrutura, pois era a qual se encaixava, sua sede de aventura e seu vício em situações que elevavam seu nível de adrenalina denunciavam sua neurose particular. A terceira estrutura, no entanto, era a qual se enquadrava a menor porcentagem dos humanos, a dos perversos. Vegeta sempre lhe pareceu a personificação perfeita da teoria freudiana para a perversão. Só havia dois detalhes que confundia a perspicácia da cientista: a sinceridade e o remorso.

O sayajin não mentia sob hipótese alguma, quase beirando a uma ingenuidade onde ele não fazia ideia dos benefícios que se poderia obter omitindo a verdade. Era como se pensasse ser bom demais para ter que esconder o que pensava de quem quer que fosse. Já a questão do remorso era novidade, num momento de raiva em que quase deixou a garota inconsciente, Vegeta mostrou um inédito arrependimento de seu descontrole. Talvez ele estivesse desenvolvendo sua capacidade de empatia através dela, pensava Bulma, mas se isso fosse verdade, então sua análise de personalidade estava errada.

Enquanto maquiava a marca de mordida, pensava nos riscos reais, se tudo aquilo que sentia pelo alienígena valia à pena ou se eram apenas seus instintos lhe levando a mais uma descarga de adrenalina prazerosa. No entanto, não podia negar que sentia um pouco de medo, afinal, ela estava considerando a possibilidade de se envolver física e psicologicamente com um ser estranho de outro planeta que, além de ter traços de psicopatia, tinha o estranho gosto de violá-la. Gostava de vê-la sentir medo, de lhe causar algum tipo de dano, e quem sabe, poderia sentir prazer em machucá-la. A sua predisposição em dar-se a ele era tanta que a ideia de ser o objeto de sadismo do príncipe nem lhe parecia das piores, na verdade só botava mais lenha no que já estava em chamas. Mas a razão apurada lhe alertava sobre as consequências, pois uma vez em seus braços, não haveria nenhuma chance de defesa seja lá o que acometesse Vegeta em fazer com seu corpo. Todo o muro de respeito que ela conseguiu construir entre os dois poderia ser demolido para sempre.

Quando o grito de angústia de sua mãe chegou aos seus ouvidos, foi como se toda a esperança tivesse ruído, pois a garota teve certeza que desta vez, Vegeta confirmaria seus medos mais profundos. Tinha certeza de que aquele ser monstruoso havia cometido alguma barbaridade. Abriu a porta do banheiro às pressas, sentindo a visão embaçar aos poucos, andando sob o salto com cuidado para não cambalear. Chegou de volta à sala de jantar e o ar pareceu lhe faltar, mas seu suspirou foi de alívio ao ver todo mundo intacto. Vegeta foi o primeiro a olhá-la com preocupação. Kuririn veio na sua direção com as mãos estendidas, como se quisesse mostrar-se desarmado na tentativa de acalmá-la.

– Bulma, você tá pálida! – ele disse assustado. – Tenta ficar calma!

Todos estavam de pé próximos da Sra.Briefs que passava o celular para as mãos de Oolong. Sem entender muito bem o que acontecia, Bulma foi rápido até o metamorfo suíno e tomou o celular das mãos dele com rapidez. Na tela, viu o rosto de Yamcha. Ele estava com a barba por fazer e um olhar transtornado moldava suas feições.

– O que aconteceu? – ela conseguiu dizer em meio a agitação.

– Seu pai, Bulma. Ele foi sequestrado pela Maron! A gente tem pouco tempo, então me escuta: ela queria que eu ajudasse com o rapto, mas quando eu neguei ela não quis me dizer mais nada.

– Onde o meu pai tá, Yamcha? – ela gritou alto. – Fala logo!!

– Ela ia levar pra Sede da Corporação, disse até que tinha contratado um cara pra matar--

– Matar? Como assim? O que ela quer de mim, Yamcha?

– Bulma... Pelo que eu entendi ela não quer negociar. A intenção é justamente o contrário, ela não quer devolver seu pai. Ela enlouqueceu completamente! Me ameaçou de morte e tudo! Eu acho que Maron pode ter mandado alguém pra cá, Bulma. Não quero ter que machucar ninguém.

A voz de Bulma se tornou chorosa de uma hora pra outra. Todos estavam ao seu redor prestando atenção na conversa, igualmente chocados. Goku abraçava a Sra.Briefs com carinho enquanto ela desabava de chorar.

– Yamcha, obrigada por ter ligado. – ela disse tentando se manter firme. – Quando foi a última vez que você falou com ela?

– Acho que há uns dez minutos atrás. Liguei pra vocês em seguida. Ela deve estar a caminho da Corporação.

Bulma terminou a ligação e olhou para os rostos aflitos dos convidados ao seu redor.

– Vocês ouviram, temos pouco tempo. Alguém precisa ficar aqui, outro tem que checar se Yamcha está seguro e... Preciso de alguém pra ir comigo.

Piccolo decidiu-se por ficar ali protegendo a casa caso algo acontecesse, argumentando que não era apropriado deixar a mansão dos Briefs à mercê numa situação dessas. Kuririn e Tenshinhan saíram com pressa para ir até Yamcha. Kame e Oolong tentavam acalmar as visitas com uma conversa de que coisas daquele tipo sempre aconteciam na vida deles, que era comum e não precisavam se assustar porque daria tudo certo. Mestre Kame sequer tinha largado a taça de vinho das mãos.

– Piccolo, já que você vai ficar, gostaria que ligasse para a segurança da Corporação. Minha mãe sabe o número.

Piccolo assentiu com a cabeça.

– Eu vou com você, Bulma. – disse Goku ao seu lado. – Vai ser mais rápido com o teletransporte.

– Oh, querida! Tome cuidado! – a Sra. Briefs disse chorosa indo abraçar a filha.

– Mamãe, eu preciso ir! – disse a garota se soltando do abraço com cuidado. – Não temos tempo!

– Kakkaroto!! – resmungou Vegeta do fundo da sala. – Qual a necessidade de levar a terráquea? Essa inútil só vai atrapalhar!

– É o meu pai, Vegeta! Eu tenho que ir! Além disso ela tá indo pra Corporação e ninguém conhece o lugar melhor que eu.

– Ah, mas que idiotice! – ele disse irritado. – Anda, Kakkaroto! O que tá esperando?

Bulma já se posicionava ao lado de Goku para a viagem. Os três se encaravam com uma certa estranheza.

– Você vai com a gente, Vegeta? – perguntou Goku com verdadeira surpresa.

– Vocês são muito idiotas pra irem sozinhos!!! – ele gritou de punhos cerrados.

Goku olhou para Bulma como se pedisse uma autorização.

– Talvez ele esteja certo. – ele disse e então pegou na mão dela. – Somos dois idiotas, não é?

O jeito do rapaz fez a garota soltar um riso de nervosismo e ela sentiu o corpo dar uma relaxada. Percebeu que tudo ficaria bem ao seu lado. Ele beijou a testa dela como se adivinhasse a necessidade de apoio que precisava.

– Vai dar tudo certo, não se preocupe! – disse ele tranquilamente.

Vegeta grunhiu ao lado deles demonstrando impaciência.

– Aquele velho vai morrer até que vocês se decidam, seus vermes!

Goku assentiu e em segundos, os três desapareceram da sala de jantar dos Briefs. Foi tão rápido e tempestuoso que Bulma sentiu o vinho revirar no estômago. Ela mal teve tempo de fechar os olhos e já estava dentro do saguão da Corporação Cápsula. As luzes estavam acesas, mas não via-se uma alma no edifício petrificado naquele silêncio morto. Bulma saiu correndo, fazendo barulho pelo chão lustroso e indo direto ao alarme de segurança, mas ele já havia sido desativado.

– Ela já tá aqui! – ela concluiu. – Esse prédio é um dos maiores do continente, ela pode tá em qualquer lugar! Podemos levar horas até encontrá-los!

– Dá pra sentir o ki do seu pai. – disse Vegeta concentrado. – E mais outros dois.

Depois de dizer isso, ele saiu voando na frente e desapareceu por trás das dobras dos corredores. Goku ficou esperando, como se já tivessem combinado algo entre os dois, e poucos segundos depois ele voltou a olhá-la saindo do transe compenetrado.

– Ele encontrou encontrou alguém. Vamos!

E pegou a amiga pelo pulso levando a outra mão à testa. Aquela sequência de teletransporte deixou Bulma com uma náusea crescente.

Estava tudo acontecendo muito rápido e Bulma mais uma vez encontrava-se em outro recinto. Ao olhar ao redor, mesmo com a pouca luz, reconheceu o auditório da Corporação. O mesmo no qual tinha feito o discurso famoso sobre vida inteligente em outros planetas. As poucas luzes acesas por trás do palco deixavam o ambiente com uma iluminação sinistra, mas a figura que Bulma esperava ver não era exatamente a que encontraram em cima do tablado.

Um homem forte de aparência bruta mostrava-se de pé com uma arma, como se já os esperasse de prontidão. Seu cabelo era sem corte e meio desleixado, os fios oleosos penteados para trás lhe davam um aspecto asqueroso. Os olhos aparentavam cansaço e a pele era repleta de cicatrizes e rugas. Bulma nunca tinha visto aquele rosto na sua vida, mas certamente jamais se esqueceria daquela cara repulsiva lhe encarando com presunção.

– Finalmente! – a voz rouca do estranho ecoou pelo auditório. – Já estava desconfiando daquela vadia.

– Cadê a Maron? – respondeu a garota com a pergunta urgente.

Fez menção de se aproximar, mas Goku segurou seu braço e a impediu de dar um passo sequer. Vegeta apareceu ao lado deles de repente, comentando alguma coisa sobre a aparência do homem estranho, com a impaciência de sempre. Goku teve de contê-lo como fizera com Bulma.

– Ele pode saber onde o Sr. Briefs está. Não sabemos nada ainda.

– Eu não consegui achar ninguém aqui dentro. Quando eu vi que demoraria muito, tive que voltar. – disse Vegeta irritado. – Essa porcaria é um labirinto!

– Vegeta, eu posso encontrar o ki dele com facilidade. Acho que posso me teletransportar até lá antes que Maron perceba. Vocês ficam aqui.

Dito isso, o sayajin alto deixou a sala pela porta principal antes de se teletransportar, deixando garota de frente para Vegeta.

– Antes que você faça qualquer coisa, eu preciso saber o que eles querem, tudo bem?

Ele não olhou para ela, estava encarando o homem no palco de olhos injetados. Apenas concordou em um movimento breve de afirmação, cruzando os braços em espera. Bulma o encarou e reconheceu no quanto sentia-se segura com aquele sayajin ao seu lado. Havia um homem com um revólver em mãos logo a sua frente, mas ela tinha plena certeza de que nada aconteceria com sua integridade física.

– Bulma! – o homem disse na voz quase asmática. – Não faz ideia do quanto esperei por esse encontro! Ah, e antes que me pergunte, seu pai está bem... por enquanto!

– Quem é você? Por que você e Maron raptaram meu pai?

– Aquela vadia é louca! Quer chamar atenção pra si de qualquer jeito! – ele soltou uma risada. – Uma megalomaníaca! Eu só estou aqui por você, menininha. Maron lançou seu nome como prêmio nos piores becos do Ocidente até eu comprar seu plano.

– Eu nem sei quem você é! – a cientista respondeu sem se sentir intimidada.

– Mas eu sei de você e pra mim é o bastante! Sabe o quanto poderia ganhar com você? Não deve fazer ideia da fila de espera me ofertando valores exorbitantes por esse seu corpinho, mas eu não sou idiota!

– Vocês querem dinheiro, é isso? Nós podemos pagar qualquer quantia!

– Eu disse que não sou idiota porque vim te pegar pra mim! Sei tudo sobre você, Bulma! Desde as suas publicações científicas até suas medidas corporais. Você é uma delícia vista de perto. É inacreditável!

O homem misterioso pulou do palco para o chão, caminhando entre as fileiras de cadeiras estofadas em direção aos dois. Ele afagou o revólver, como se ganhasse confiança por lembrar-se que estava armado. Vegeta não se moveu um centímetro da posição que estava, continuava a encarar o homem com atenção e uma aparente calma. Bulma, por sua vez, deu um passo pra trás ao ver aquela criatura horrível se aproximar. Era de fato apenas um homem, mas a repugnância de sua aparência lhe dava um ar verdadeiramente monstruoso.

– Escuta... – ela alertou. – Maron usou você pra conseguir sequestrar meu pai, tá me ouvindo? Ela te trouxe pra uma emboscada! Então se você quiser sair daqui vivo, é melhor parar por aí!

Ele não lhe deu ouvidos.

– Você é cheia de si! Sabe o que vou fazer com você, cientistazinha? – ele disse com o sorriso largo. – Vou te fazer sangrar! Isso mesmo! Por todos esses seus buraquinhos rosados. Te estuprar feito um animal e depois vou cuspir na sua cara como se fosse uma puta suja! Porque no fim das contas é só pra isso que vocês servem, certo? Não importa se ganham um Nobel ou se batem ponto na esquina, mulheres nascem pra servir de depósito de esperma, é o que eu sempre digo.

Ele estava a menos de dois metros de distância quando terminou de falar. Bulma nunca tinha ouvido algo tão nojento e absurdo em toda a vida. Ela mal teria tempo de responder a altura, porque no mesmo instante, Vegeta voou no pescoço do homem como um animal feroz, arrancando a mão que segurava a arma. O sayajin asfixiava o brutamontes que era quase o dobro de seu tamanho e o que fez a seguir deixaria a garota traumatizada para sempre. As mãos já ensanguentadas agora arrancavam os cabelos da nuca, com tanta força, que a pele saiu junto em um puxão. Vegeta arrancou todo o couro cabeludo até chegar a fronte do homem que agonizava de dor. Deu um soco na boca dele que lhe quebrou todos os dentes da frente e fez gotejar mais sangue no chão. Depois, soltou o homem desfigurado que caiu de joelhos diante dele. Quando ela achou que fosse parar, viu suas mãos adentrarem a boca da vítima e abri-la com tanta violência que Bulma levou as mãos aos ouvidos pelo eco que o estalo dos ossos quebrando proferira no auditório.

Quando Vegeta saiu de sua frente, a cientista viu o estrago feito. O corpo era irreconhecível, parecia uma assombração de filme de terror. O rosto havia sido esfolado da nuca até a altura dos olhos, a carne viva exposta vermelha e gosmenta, parecendo um zumbi carcomido. A mandíbula pendia solta, ligada ao rosto apenas pelo filete de pele rasgada que a segurava. Dentro da boca ensanguentada a língua pendurava-se pra fora sem qualquer sustentação. Não haviam muitos dentes sobrando, os que restavam estavam cobertos de sangue, este saindo sem parar do buraco nojento que se transformara aquela boca humana. A mão segurando o revólver jazia a um metro de distância do corpo dilacerado. Bulma sentia o corpo todo tremer, mas o calafrio mais intenso veio ao perceber que o homem ainda estava vivo. Ele grunhia palavras inaudíveis ao mesmo tempo em que gemia de dor.

No momento em que olhou para Vegeta, encontrou a sombra dos olhos negros a encarando sem o menor remorso. Não estava nem ofegante pelo esforço físico, parecia ter sido um esforço mínimo, na verdade, permanecia de braços cruzados como se nada grave tivesse acontecido. Como se o que acabara de fazer fosse totalmente justificável. Bulma tinha as duas mãos cobrindo a boca e o nariz, os olhos azuis arregalados de pavor observavam a calma com que Vegeta lidava com tudo aquilo. Foi o instante em que Goku apareceu com o Dr.Briefs apoiado nos ombros. Ele parou na entrada do auditório segurando o cientista desfalecido e percebeu a cena sanguinolenta com o mesmo horror da garota.

– Vegeta! O que você fez?

– Cala a boca! Não me enche o saco! Vamos embora logo desse lugar imundo.

Bulma foi correndo de encontro ao seu pai desacordado e chegou os sinais vitais percebendo que ele estava bem. A única lesão em seu corpo era um corte na testa, provavelmente o mesmo que ocasionara o desmaio. Era algo recuperável, mas que deixou a filha enfurecida. O pai era um homem de meia idade, baixo, magro, com um corpo franzino e frágil que a fazia querer matar Maron por ter feito toda aquela cena.

– Onde ela tá, Goku? O que fez com ela?

O olhar do rapaz hesitou.

– Não tive coragem de fazer qualquer coisa, Bulma! Precisa me perdoar, mas... é só uma garota e ainda por cima se parece um pouco com você. – disse Goku como um apelo. – Ela saiu correndo na primeira oportunidade.

– Você o quê? – ela gritou puxa do a roupa do rapaz. – Deixou ela fugir, seu animal idiota?

Na mesma hora, como que num deslize pelo susto ao ouvir a vociferação, passos de salto estalaram pelo piso no chão do corredor lá fora. Imediatamente, Bulma saiu correndo para fora do auditório, reconhecendo a presença e o corpo longilíneo de Maron assim que a viu. Saiu correndo em disparada atrás da mulher e alcançou seus cabelos azuis escuros antes que ela fosse muito longe. O puxão que deu fez a rival derrapar no salto e cair no chão.

Os xingamentos começaram antes mesmo de Bulma iniciar os tabefes na cara da ex assistente. Falava as coisas mais podres e sujas que poderia lembrar do seu vocabulário mais malcriado, se colocando em cima da mulher caída no chão. Agarrava-a pelos cabelos e batia com a cabeça de Maron no piso duro, estava dominada pela raiva, sem controlar os próprios movimentos. A única coisa que sabia era do seu desejo animalesco de ver aquela criatura sofrer, de fazê-la pagar caro, mesmo que Bulma precisasse sair de si para isso acontecer. Até mesmo para ela era difícil entender o que estava acontecendo, fora tudo tão rápido e violento desde que chegara a Corporação, que era difícil manter um raciocínio são quando uma das pessoas que mais amava quase morrera por uma bobagem daquelas.

– O que você tava pensando, sua vaca? Achou que ia fazer o que com a minha família?

– Bulma, não! Eu só queria tirar algo de você. – dizia Maron tentando se defender. – Por que se importa se você tem tanto?

– Como assim, sua louca? Mas que cretina! Você enlouqueceu de vez?

Os dois sayajins olhavam para a cena com surpresa quando encontraram as duas mulheres se estapeando no corredor. Goku estava se desfazendo do corpo do Dr.Briefs para interferir na briga, mas Vegeta o impediu segurando seu braço.

– Nem pense nisso! – ele disse sem tirar os olhos das duas mulheres.

– Ela vai acabar fazendo alguma besteira! Como pode deixar--

– Cala a boca! – respondeu Vegeta irritado com uma sombra de sorriso no rosto. – Eu to assistindo.

Bulma só voltou a si quando percebeu o sangue de Maron se arrastando pelo piso branco. Sentiu um leve arrependimento lhe abater, pois sabia apenas pelo olhar dela que aquela mulher tinha se perdido completamente na própria insanidade. Não estava em suas mãos o direito de julgá-la ou de decidir se deveria morrer ou viver.

– Você vai apodrecer numa cela acolchoada depois disso tudo. Não preciso sujar minhas mãos.

Saiu de cima de Maron e voltou-se para Goku e Vegeta que lhe encaravam com expressões distintas.

– Vamos embora! – ela disse. – A segurança já deve estar a caminho de qualquer maneira, essa aí não vai a lugar algum.

Ela olhou para os dois sayajins, se colocando entre eles. O mais alto segurando seu pai em uma pose heróica, com o olhar firme e sereno, já o outro, se colocava ao lado dela com a roupa ensanguentada pelo homem que acabara de trucidar. Olhava para Bulma de modo invasivo, o contrário era difícil com aqueles olhos, pois tudo que era percorrido pela sombra do seu olhar se sentia como alvo de sua ruindade. Na hora do teletransporte, em vez de tocar em Goku, ele tocou na perna dela com a cauda, enrolando o membro na sua coxa e apertando de leve. A cientista não soube interpretar muito bem aquele gesto, mas já tinha percebido que o sayajin se expressava bastante pela sua cauda, o que a deixava mais curiosa e confusa quando não compreendia esse tipo de atitude.

Voltaram para a casa dos Briefs em um piscar de olhos, para a mesma sala de jantar onde todos os esperavam de pé. Todos seus amigos, inclusive Yamcha, este com a maior cara de ressaca do mundo. Vieram de encontro ao trio que resgatara o Dr.Briefs, abraçando o cientista com cuidado e levando-o para o quarto com a ajuda dos criados. O que se seguiu foi uma série de perguntas e falatórios sobre o ocorrido. Dr. Campbell mandou médicos e seguranças do governo para ficarem de prontidão na mansão enquanto Dr.Briefs se recuperava da pancada na cabeça. Pouco tempo depois a polícia ocidental apareceu e Bulma teve que dar sua versão da história, sem deixar de dar o testemunho sobre a morte bizarra do homem estranho no auditório.

– O que é necessário você saber agora é que aquele homem era um mercenário. – disse um dos detetives. – Estava envolvido em uma rede de tráfico humano no norte do continente, estávamos a procura dele há anos.

Bulma se lembrou da face presunçosa do mercenário e do modo como acabou, parecendo um morto-vivo pútrido.

– Como Maron poderia conhecer gente desse tipo?

– Não sei, mas ela conseguiu os contatos. E pior, convenceu ele que te teria como pagamento.

– O que vai acontecer com ela? – perguntou a cientista demonstrando verdadeira preocupação.

– Uma instituição psiquiátrica a está recebendo neste momento. – respondeu o detetive. – Ela está completamente fora da realidade, Srta. Briefs.

– Fora da realidade? Você quer dizer delirando?

– Temo que sim, Senhorita. Quando a interrogamos não parava de falar sobre o quanto vocês duas eram parecidas, sobre como as pessoas a confundiam com você na rua, do quanto foi difícil achar uma pílula que deixasse os cabelos parecidos com os seus...

Bulma estava chocada, nunca tinha parado pra pensar que nesse tempo todo Maron se esforçava constantemente para ser como ela. Não sabia que havia tomado a pílula transformadora para ter cabelos azuis, tampouco imaginava do delírio da mulher em querer ser a própria cientista. Talvez tivesse guardado essas ideias surreais há muitos anos. Voltou a pensar nas bases psicológicas de Freud e se surpreendeu ao reconhecer que Maron se encaixava na estrutura psicótica. Desde o dia de seu discurso a moça tinha demonstrado sua obsessão pela cientista, falando sobre sua cobiça por tudo que os Briefs haviam conquistado, com uma mania de perseguição doentia, como se a família de Bulma não a tivesse tratado como uma filha desde o princípio. Lembrou-se dos olhos perdidos que encontrara ao bater de frente com a ex assistente e passou a ter certeza que a mulher que tanto se esforçava para se parecer com ela permaneceria um bom tempo trancada no hospício.

Tinha a sorte de ser uma figura conhecida na sociedade e de ter Harvey em sua residência naquela noite, pois os policiais e detetives foram brandos, compreendendo a situação da garota e obviamente ocultaram de seus relatórios o assassinato sanguinolento no auditório da Corporação. Harvey alegou ser de interesse confidencial do governo que mantivessem tudo longe da mídia e foi tratado como autoridade pelos oficiais. Mesmo assim, Vegeta foi o único a não se submeter ao interrogatório policial, o que não foi surpresa para ninguém.

Depois que a polícia foi embora, Harvey e seu assistente tomaram seu rumo alegando que deveriam deixar a família em paz em um momento conflitante. Bulma reconhecia que aquela tinha sido uma noite bastante turbulenta para os dois funcionários da NASA. Acompanhou-os até a porta, agradecendo a paciência, a ajuda e pedindo mil desculpas por todo o transtorno. Gus, o assistente, despediu-se com mais pressa e foi direto esperar no carro, como se estivesse desesperado para ir embora daquele lugar e Bulma não o julgava, devia estar horrorizado com o que vira. Harvey permaneceu um tempo a mais nas escadarias de mármore com a garota, do lado de fora da entrada da mansão.

– Estou sem palavras! – ele disse depois de um tempo em silêncio. – São criaturas fantásticas, Bulma! Tão inteligentes! Falam nossa língua com fluidez e entendem nosso raciocínio com facilidade. Acha que podem existir mais criaturas assim lá fora?

Ela imitou o gesto do homem e olhou para o céu estrelado.

– Acredito que sim, Harvey. E antes que pergunte de novo... eu aceito o emprego. Desde que eu não precise sair de casa pra te levar esses relatórios.

O homem de meia idade se animou com a resposta da garota como uma criança. Sorriu em resposta com as bochechas rosadas pelo calor do vinho.

– Não vai se arrepender, Bulma! Tem a minha palavra!

– Não pense você que eu sou trouxa, tá me ouvindo? Se eu souber que mais alguém além do senhor está tendo acesso a essa pesquisa, não vou pensar duas vezes antes de puxar o seu tapete.

A ameaça não tirou o sorriso infantil do rosto de Harvey. Os dois apertaram as mãos um do outro, se despedindo com palavras gentis e planos sobre seu futuro trabalho juntos. Após descer as escadarias, ele voltou a olhá-la como se tivesse lembrado de alguma coisa.

– Você tem certeza que está segura com esse sayajin na sua casa? Quero dizer, o Príncipe Vegeta… Não me parece muito amigável.

– Quem deve se preocupar com o Vegeta é o senhor e a NASA, Harvey! Não eu.

Mais uma vez o homem mal percebia que estava recebendo uma ameaça por tabela e voltou a sorrir para a garota. Bulma ficou desconfiada de que talvez ele estivesse bêbado afinal de contas.

– Você que sabe, garota Briefs! Esperarei os relatórios no fim do mês!

Bulma voltou para a sala de jantar onde a maioria dos amigos a esperavam. Uma das empregadas trouxe chá e chocolate quente como num gesto hospitaleiro para acalmar os nervos. Os amigos só foram dormir no alto da madrugada, ficaram conversando até os olhos não aguentarem mais. A garota teve a sensibilidade de convidar Yamcha para ficar em um dos quartos da casa, já que o rapaz tinha decidido voltar para o Oriente com os amigos e retomar os treinos. Quando todos subiam para seus quartos, Bulma já havia perdido Vegeta de vista há tempos, queria falar com ele e se acertarem de uma vez, mas no meio de uma situação daquelas era mais difícil.

Estava caminhando em direção ao corredor que levava ao seu quarto, mas foi interceptada por Yamcha no meio do trajeto. Ele ainda parecia muito abatido.

– Bulma, eu sinto muito! – ele disse. – Por tudo!

– Tudo bem, Yamcha, eu entendo, ela era uma louca varrida que te manipulou.

– Não faz ideia do quanto me sinto culpado por ter te trazido tanto problema. – falou Yamcha baixando a cabeça. – Fui um idiota!!

– Eu te perdoo, Yamcha! – ela disse sentindo compaixão pelo rapaz que um dia amara. – Não precisa se sentir culpado por mim. Você me ligou, se não fosse sua ajuda tão rápida eu poderia não ter chego a tempo de ver meu pai com vida.

– Bem, eu só queria dizer que estou pronto para aceitar sua amizade. Assim que você estiver pronta, é claro! Só queria que você soubesse disso.

Bulma achou simpática a iniciativa do rapaz, mas de fato ainda não estava preparada para tê-lo como amigo, mesmo depois daquilo tudo. Mesmo depois de ter desenvolvido sentimentos por Vegeta. Aquele era o cara que havia quebrado seu coração em pedaços, a quem ela confiara seus maiores segredos e inseguranças para ser traída de maneira desleal.

– Você vai saber quando eu estiver pronta. Obrigada, Yam! – ela se esforçou para sorrir. – Espero que tenha um bom retorno amanhã.

Retomou o rumo para o quarto e deixou o rapaz ali em reflexão. Não tinha muito a ser dito. Ela se sentia agradecida, queria que ele ficasse bem, mas não o queria de volta, nem por perto, de maneira alguma. Ainda sentia um profundo rancor e não se sentia obrigada a eliminar um sentimento legítimo. Era o direito dela.

Foi para o quarto da mãe depois de tirar o vestido sujo e tomar um banho rápido. Tinha a urgência de ver seu pai antes de dormir. Quando chegou à maior das suítes da mansão, viu a mãe parada ao lado da cama, com uma expressão de aflição. Ao ver a filha chegando no seu pijama de seda, a mulher se prontificou de levá-la para fora do quarto quando começaram a conversar.

– Ele já acordou e falou um pouco comigo e com os médicos. – disse a Sra.Briefs com um lenço no nariz. – Vai ficar bem logo!

– Então, mamãe! Ele está são e salvo, você já pode parar de chorar!

– Ah, querida! Não é só por ele, você sabe! Olhe só o que as pessoas fazem por você! Essa mulher horrível, aquele homem que queria te pegar e...

Antes de terminar a fala a mulher loira já desabava no choro novamente. As duas estavam na entrada do quarto, próximo a rótula oval que ligava todos os corredores do andar. Tentou abraçar a mãe, mas a mulher parecia mais interessada em desabafar do que em ganhar algum consolo.

– Desde que você era pequena sempre foi um ímã pra gente ruim, Bulminha! Como uma criatura amável como você pode atrair tanta maldade? Aqueles médicos sempre querendo fazer exames no seu cérebro, aquele maldito pedófilo do internato que quase roubou você da gente! Oh, querida! Você era só uma garotinha! Como pude deixar que a levassem de mim?

Aqueles eram assuntos que a cientista já tinha deixado para trás. Fora obrigada a fazer essa escolha se não quisesse levar todos esses fantasmas para o resto da vida, mas compreendia perfeitamente o momento de colapso da mãe. Era um peso muito grande ter uma filha como ela, a mulher teve de fazer escolhas difíceis para dar a melhor criação para Bulma e nem sempre o destino de quem amamos permanece sempre nas nossas mãos. Não era culpa dela que o mundo fosse infestado de pessoas de má índole.

– Mãe, não precisa trazer isso à tona! Nada disso é culpa sua ou minha ou de papai! Estamos todos bem! – ela abraçou a mãe carinhosamente. – Não gosto quando você fica assim.

A Sra.Briefs desfez o abraço e secou as lágrimas com o lencinho. Estava olhando para a esquina do corredor enquanto refazia a pose. Bulma acompanhou o olhar da mãe e viu Vegeta a esperando de pé, com os braços cruzados e as costas encostadas contra a parede. Estava a cinco metros de distância, mas nem tinha o percebido ali, talvez estivesse há tempos a esperando ou só chegara naquele momento.

– Vê se para de brigar com ele, temos muito a agradecê-lo por hoje. – disse a mãe em uma voz baixa. – Amanhã seu pai vai estar mais disposto, tenho certeza. Boa noite, querida!

Deu um beijo na filha e voltou para o quarto fechando a porta na cara dela. Bulma ficou um pouco aflita com o que Vegeta poderia ter ouvido daquela conversa, mas também não poderia deixar de pensar no porquê de tê-la seguido até ali. Poderia querer explicações sobre a coleta de DNA que fizera sem a sua autorização e confrontá-la mais uma vez.

– O que foi? – ela perguntou ao se aproximar. – Pensei que já estivesse dormindo. Anda me seguindo agora? Não sabe que é falta de educação ficar ouvindo a conversa dos outros?

– Cala a boca! Por que não foi dormir ainda? – perguntou como se lhe cobrasse uma ordem.

– Fui ver se meu pai tava bem, oras!

Ele resmungou.

– Não gosto que você fique andando por aí.

Ela achou aquela frase tão surreal que quase riu.

– Como assim, seu lunático? Do que você tá falando?

– Dá pra voltar pro seu quarto agora ou vou ter que te levar à força?

– Escuta aqui!! – ela rosnou tentando conter o volume da voz. – Você não tem que gostar de nada! Eu to na minha casa e faço o que eu quero porque você não manda em mim! Não gosta que eu ande na minha própria casa? Mas que maluquice é essa?

– Você não tem jeito mesmo!

Ele a pegou pelas pernas e jogou seu corpo pequeno para trás das costas como se estivesse carregando um saco de batatas. Saiu flutuando até a entrada de seu quarto. Bulma não entendia bem o que estava acontecendo pela visão pouco privilegiada, só enxergava o chão e os vultos causados pelos movimentos rápidos de Vegeta, mas ao reconhecer os tons escuros do ambiente, percebeu que estavam no quarto dele.

– Ei! O que pretende fazer? Me solta!

Seu corpo foi jogado na cama e imediatamente ele já estava sobre ela colando seus corpos na horizontal. A garota foi tomada por um susto, não entendia de onde aquilo tinha vindo, porque que ele de repente estava fazendo tudo errado, pois não era assim que o queria. Não daquele jeito bruto, mas ele não parecia ouvir nada do que ela dizia. Tomava seu corpo com ferocidade e grunhia no seu ouvido como um animal, enquanto lhe mordia e sugava a pele do colo ao pescoço. Sentiu a cauda apertando sua coxa para forçar a abertura das pernas. Percebeu então que era assim que ele agia quando não estava se contendo, era daquela forma que ele a queria, sem máscaras e sem controle, com a mesma fúria que dilacerou o rosto daquele homem mais cedo.

Talvez estivesse certa desde o princípio e o sayajin fosse apenas uma típica personificação da psicopatia, com uma estrutura perversa incorrigível e não havia nada que Bulma pudesse fazer para mudá-lo. Por um momento, pensou no que a mãe havia lhe dito sobre atrair coisas ruins para sua vida e que talvez ela também estivesse certa, pois a sensação era de que Vegeta tinha se tornado mais um na lista de pessoas que queria tomar algo dela à qualquer custo.

Notas finais
Dou a minha palavra que o próximo capítulo vai chegar em menos de seis dias como foi com esse haha :) Até mais!