A Escolha de Bulma

5 A Última Esfera


A caminhada foi rápida e cansativa até que Piccolo aceitasse as súplicas de Bulma para descansarem. Trocaram poucas palavras durante o trajeto, mas para ela era cada vez mais nítido o quanto aquele ser, apesar de indiferente, era educado. Ela se portava como uma criança insuportável, pedindo para parar o tempo todo, de modo que obrigava o alienígena a responder. E mesmo nas negações, sua palavra era sempre dita com o mesmo tom sereno sem nunca deixar transparecer qualquer agressividade para com a cientista. Apesar de terem que parar algumas vezes para comer e ir ao banheiro, esse comportamento exaustivo era proposital. Queria ver até onde ia a obrigação de Piccolo em suportá-la.

Quando finalmente pararam por um tempo mais longo, Bulma percebeu o quanto estava cansada de verdade.

– Mas que estranho! Essa esfera parecia tão próxima no visor, mas caminhamos e andamos por entre essas árvores e ainda estamos à mesma distância dela de quando estávamos na cabana.

– Esse seu aparelho pode não funcionar tão bem. — reclamou Piccolo.

Ele estava de pé encostado em uma árvore alta enquanto Bulma suspirava de cansaço sentada sobre uma pedra. Haviam passado mais de duas horas desde que saíram da cabana de Uranai.

– Será que estamos trilhando o caminho certo? — pensou ela em voz alta.

– Se esse fosse o caso eu saberia. — respondeu Piccolo de modo sereno, mas sem deixar a antipatia de lado. — Conheço essa floresta como a palma da minha mão. Talvez sejam as suas parafernálias que não estejam dando certo.

Bulma suspirou, mas desta vez de impaciência.

– Não sei qual o seu problema comigo, mas você podia fazer algum esforço para que isso seja menos insuportável para nós dois. Pois caso não saiba, eu também não escolhi estar aqui. Fui recrutada como você.

Piccolo parecia não dar a mínima com o que a cientista dizia.

– Eu tinha um prêmio pra receber. Talvez um dos maiores da minha carreira... E cá estou eu caçando pedras mágicas com um ET verde! Então tente ser menos infantil, tá ok?

A franqueza da cientista pareceu desconcertar Piccolo que, contendo a ofensa ouvida, encarava Bulma com os olhos arregalados de surpresa. Ela se arrependeu imediatamente de ter dito aquelas palavras que agora lhe pareciam muito injustas.

– Você sabe o que fariam com você se estivéssemos no meu planeta? Poderia re decapitar só por falar nesse tom com um nameku!

– Pois bem, fique sabendo que está na Terra e neste planeta eu sou a pessoa com o gene humano mais inteligente que o mundo já viu! Você está falando com um gênio da Robótica e da Mecânica! Além de todas as coisas nas quais sou boa e você nem faz nem ideia! Agora para com o drama, por favor!

Piccolo se sentiu um tanto rebaixado pelas palavras e pela autoridade inquestionável de Bulma. Notou que sua amargura tinha afetado aquela humana a tal ponto de explodir em uma voz esganiçada. Não era essa a sua intenção, apesar de não levar a cientista tanto a sério. Por conta disso, o alienígena se acalmou um pouco e tentou se explicar.

– Estou preocupado com meus amigos e companheiros de luta. Sinto o Ki deles ficando cada vez mais fraco enquanto aquele miserável fica mais poderoso. Você ao menos sabe o que é um Ki?

Bulma ficou confusa, mas muito interessada.

– O seu é muito fraco, por exemplo. — explicou Piccolo. — Quase inexistente, na verdade.

– É algum tipo de poder ou capacidade? Algo que só os seres mais desenvolvidos como você e Goku podem perceber?

Os olhos de Piccolo que desviavam constantemente de Bulma espiaram ela por um instante. Ele percebeu que era mesmo muito esperta por ter deduzido aquilo tão facilmente. Fingiu não se impressionar, no entanto.

– É, algo assim.

– E como funciona isso? Você sente a energia de luta de qualquer um?

– Hm, sim, basicamente. Bem, não o tempo todo, é preciso estar pelo menos alguns quilômetros próximo da pessoa.

– Eles estão muito longe? — quis saber ela antes de tomar um gole de água do cantil que trouxera.

– Estão se afastando a medida que lutam. Não se preocupe, mesmo se caminhássemos em direção à batalha não alcançaríamos eles com essas passadas lentas. Estão se movimentando constantemente.

Bulma olhou o rastreador quando ouviu aquilo. O ponto laranja na tela estava agora mais distante do que quando caminhavam em sua direção. Ela se levantou rapidamente e começou a andar rápido.

– O que está fazendo?

– Não entendeu? Andamos muito e a esfera continuava longe, certo? Paramos, e ela ficou mais distante.

– A esfera está se mexendo! — disse Piccolo surpreso.

– Exatamente! Na verdade, quem está na posse dela é que está se mexendo. Temos que alcançar essa pessoa agora!

– Não sabemos quem está carregando esta esfera e eu não sinto nenhum Ki de onde estamos.

– Não importa! — insistiu Bulma em tom firme. — Tem como você correr mais rápido que eu?

Piccolo olhou o tamanho e o peso de Bulma e logo concluiu que poderia levá-la por ser pequena, mas também poderia machucá-la por ser frágil.

– Você não vai ter medo? Eu costumo correr bem mais rápido que humanos.

– Vamos logo!!

O jeito com que Piccolo a pegou no colo foi totalmente desajeitado, tanto que ela pôde sentir alguma parte de seu corpo estalar causando-lhe uma dor incômoda. Antes que pudesse reclamar, Piccolo já tinha parado de correr com Bulma nos braços. Foi tudo muito rápido. Ela sentiu um vento frio por alguns segundos, a dor, e uma náusea ao pararem tão de repente.

– Que cheiro horrível! — foi tudo o que ela conseguiu dizer.

Ouviram um rugido feroz por trás dos arbustos diante deles. Para a surpresa de ambos, de lá se levantou um animal enorme, com escamas e dentes afiados, direcionando seus grunhidos para os dois. A criatura era lenta de tão grande e a cada movimento seu corpo parecia ocupar mais espaço entre as árvores. Era uma espécie clonada de dinossauros, um dos poucos de sua espécie gigantesca. Piccolo tentou proteger Bulma colocando-a atrás de si, mas a cientista saiu da barreira de seus braços esverdeados e começou a dar passos em direção ao animal pré-histórico, sem conseguir conter a emoção de ver um dinossauro pela primeira vez.

– É fascinante! É tão... real!

– Porque é real! — alarmou Piccolo antes de puxá-la para longe dali.

Se assim não o tivesse feito, o predador teria facilmente abocanhado o corpo de Bulma, o que não fez por pouco se não fosse seu guarda-costas. Atrás de uma alta árvore de tronco largo, ela tremia sem saber o que fazer, mal acreditando no que acabara de acontecer diante de seus olhos. Piccolo foi mais rápido que seus instintos humanos e a salvou, mas para Bulma o alien ainda parecia nervoso demais para uma situação daquelas que ele havia contornado com facilidade.

– Não me diga que não pode conter um dinossauro com o seu super Ki? — perguntou nervosa sem esconder o sarcasmo.

O animal rugia a procura das duas presas.

– Não é esse o nosso problema. — disse ele sussurrando. — Não somos os únicos se escondendo da criatura neste momento. Há o Ki de mais alguém aqui!

Bulma olhou o visor do rastreador de esferas e percebeu que estavam exatamente em cima do pontinho laranja na tela.

– É muito forte? O Ki dele é muito poderoso?

– Argh! Estou tentando diminuir meu Ki para que ele não nos ache primeiro. Já percebi que está atrás daquela árvore ali. Deve estar com a esfera.

Piccolo estava tão preocupado que fez com que Bulma quase falasse alto demais.

– Não me diga que a droga do Ki dele é mais forte que o seu, por favor!

– É muito poderoso! Tanto quanto eu! Apenas um sayajin poderia ter um Ki assim.

– Pode ser o Goku! — sussurrou Bulma esperançosa. — Não?

– Não, Goku ainda está na batalha.

Quando menos esperavam, deixaram de ouvir os ruídos do dinossauro predador. Ambos se olharam com receio e desconfiança e logo em seguida, a cabeça do animal apareceu ao lado da de Piccolo, rugindo ferozmente para os dois. Bulma não se controlou devidamente, soltando um sonoro e agudo grito que despertou os ouvidos do portador da última esfera que se escondia atrás da árvore.

Então tudo ocorreu muito rapidamente em uma sequência de acontecimentos violentos. Piccolo empurrou Bulma para longe do animal, fazendo-a cair em um buraco embaixo de uma enorme raiz de árvore. Dali, sem ligar para os novos hematomas, viu Piccolo lutar contra o animal com pequenas bolas de energia, para afastá-lo. Do outro lado, um homem muito forte apareceu diante dele com uma roupa esquisita e cabelo estranho. Ela teve a imediata certeza que também era um alienígena devido sua aparência peculiar. Os olhos azuis quase saltaram do rosto quando viram em sua mão a esfera que estavam procurando. Piccolo que também havia percebido a presença do estranho, voou pra cima do homem com uma agressividade assustadora. Bulma concluiu que era um dos alienígenas destinados a matar Goku.

Quando os dois começaram a lutar, houve algum diálogo que a cientista não pôde ouvir por conta do animal que ainda rugia em sua frente. Seu guarda-costas havia parado de atacar o dinossauro para lutar com o novo inimigo que apareceu, deixando sua protegida totalmente a mercê do réptil gigante. O animal quebrou a raiz sob a qual a cientista se escondia, obrigando-a a fugir pelo espaço aberto.

As habilidades de luta de Bulma eram mínimas, portanto, sua única reação foi correr, algo que fazia muito mais facilmente que o animal que lhe perseguia. Seu corpo enxuto lhe permitia passar por buracos entre raízes e espaços estreitos entre os troncos das árvores, o que confundiu o animal por alguns minutos. Sem que percebesse, Bulma já estava próxima onde Piccolo lutava, este que parecia ter alguma desvantagem na luta.

– Você nunca vai conseguir, Raditz! — ouviu Piccolo dizer. — Nunca achará as outras esferas, ainda que nos derrote!

– Como pôde se tornar tão patético? — disse o guerreiro de cabelo comprido. — Se não fosse essa sua aparência ridícula e verde até poderia dizer que é um terráqueo!

Raditz não percebeu, mas Bulma observou com atenção quando um dos pés de Piccolo discretamente chutou a esfera que pendia no cinto da armadura sayajin. A pedra laranja caiu na terra afofada sem emitir qualquer barulho enquanto os dois discutiam. Bulma viu os olhos de Piccolo a encararem por uma fração de segundos e então ela soube imediatamente o que precisava fazer. Momentaneamente pensou que o alienígena verde estava confiando demais na sua agilidade, ela era apenas uma humana, uma terráquea, e aqueles dois poderiam perceber qualquer passo seu. Piccolo pareceu prever o que ocorreria então. Raditz se espantou ao ver que o animal gigante, ao não encontrar Bulma, foi diretamente ao seu encontro e a cientista se aproveitou desta distração para ir correndo pegar a última esfera sem que o sayajin percebesse.

Seu coração batia com intensidade e sua respiração falhava. Ficou um tempo escondida atrás de uma grande pedra depois que roubou a esfera. Mal conseguia se mexer, mesmo sabendo que a pedra estava repleta de musgo e o chão lamacento cheio de folhas úmidas. Sua roupa já estava imunda. A cor do jeans sumira com as manchas terrosas e na região do joelho via-se rasgos que expunham a pele com arranhões. Ao olhar para a parte de cima, Bulma reparou pequenos pontos vermelhos no moletom cinza claro. Se deu conta que mal vira o que aconteceu com Piccolo depois que saiu correndo do sayajin e do dinossauro. Nem saberia dizer quanto tempo ficou ali, imersa no próprio cansaço, encostada naquela pedra úmida. Uma forte preocupação com o seu guarda-costas a fez levantar-se do chão quase aos rastejos.

O enorme animal jurássico encontrava-se desfalecido brigando espaço por entre as árvores. Bulma sentiu um cheiro forte ao se aproximar e notou que o dinossauro estava morto. Como havia perdido aquilo? Não entendeu como seus sentidos ficaram tão mudos diante de uma situação tão crucial. No entanto, quando viu Piccolo de pé ficou mais aliviada. Ele também tinha manchas de sangue nas roupas, mas não era o seu sangue. O corpo de Raditz jazia ensanguentado por cima de folhas e galhos de árvores. Seu rosto estava tão dilacerado que Bulma fechou os olhos se arrependendo por não ter ignorado o cadáver.

– Você não precisava ter visto isso. — disse Piccolo limpando as mãos. — Mas poderia ter sido pior, se isso lhe consola.

Ela suspirou de alívio por aquilo tudo ter acabado. Ao menos era o que pensava. Estava com a última esfera, então a missão estava cumprida e em poucos dias poderia voltar para casa.

– Não se preocupe, estou bem. Você matou esses dois?

– Hm, você não viu? Bem, não tive escolha.

Bulma se aproximou do corpo do sayajin desfalecido. O cabelo de Raditz era de um negror profundo e brilhante, os fios eram visivelmente grossos, o que tornava o comprimento ainda mais evidente por conta do volume. Ela passou a mão em uma mecha. Era muito macio e enchia a mão. A roupa que vestia, uma espécie de armadura resistente, era composta por um tipo de fibra desconhecida muito espessa, mas provavelmente muito flexível e confortável para caber naquele corpo enorme cheio de músculos.

– O que você pensa que está fazendo? — perguntou Piccolo com o maior dos escárnios.

– É uma criatura fantástica... — disse Bulma baixinho. — Gostaria de poder examiná-lo. Deve ter um DNA único e...

– Ele não é um rato de laboratório, Bulma, é um dos nossos piores inimigos! — retrucou com firmeza. — Vamos, levante-se! Precisa voltar rápido para a cabana e acabar com essa história antes que todos morram.

Piccolo já se preparava para levar Bulma de volta para o chalé, quando uma voz aguda e suplicante despertou a atenção de ambos.