A Escolha
4 Lijig
“Quanta melação, parece que nunca mais vai ver a vovó na vida” Felipe fala meio irritado.
Entro e simplesmente o ignoro. A única coisa impossível de ignorar era os olhares de Malu para Caio, que somente ele conseguia ignorar, ou fingir não ver.
Entramos no aeroporto já meio atrasado. Subo no avião, sento e me preparo para um longo sono.
“Ele é muito lindo, como não me contou dele antes?” Malu interrompe meu sono, e pega o assento ao meu lado, começa a falar do Caio para mim como se eu não o conhecesse, na verdade não o conheço como ela me apresenta, conheço apenas o Caio padrinho do meu irmão, e quase um pai para nós.
“Como você está?” Ela para de falar nele, e começa do nada outro assunto, o mais impressionante não é sobre ela, nem sobre o trabalho dela, ou a faculdade dela, e sim sobre mim, apenas eu.
“Vou bem” Digo, ainda não acreditando nisso, ela é mais do tipo que se importa apenas para ela.
“Como conseguiu isso?”
“Isso...?”
“Ah, você sabe a vovó nunca deixou você sair. E agora olha você aqui, viajando para o outro lado do mundo, uma ilha que para mim era inexistente. Conte-me, como conseguiu?”
“Não foi ideia minha, o Caio que nos convidou para conhecer onde ele trabalha... Sabe ele desenterra ossos, o mesmo trabalho do meu pai”.
“Sei, é arqueologia”.
“É... E a vovó deixou, não sei como nem porque, ela confia nele. E você?! Não sabia que viria”.
“E perder a primeira viagem de verdade da minha priminha? Nunca”.
“Vovó te chamou?”
“Foi, disse que você iria precisar de companhia”.
“Ela estava certa” Falei rindo calorosamente para minha prima.
Acabei dormindo o resto da viagem, parecia que nunca iria acabar.
É uma floresta linda, como as de conto de fadas, aquelas que você jura que não existe. Eu entrava cada vez mais a fundo tentando conhecer mais e mais aquele belo lugar. Quando percebo entro em uma clareira com gramas macias, há flores para todos os lados, girassóis, Heliconias, Narcisos e muitas outras... Elas dançavam para mim, o vento cantava e o sol brilhava forte lá no alto. Uma nuvem, diferente das outras começa a se mover, toma lugar no centro da clareira. No centro dela começa a parecer uma mulher. Bela, seu corpo estava coberto pela mais fina seda, cada pedaço de sua pela estava coberto. Não conseguia olhar seu rosto, eu tentava me aproximar.
“Alice” Ela disse, o que me fez arrepiar todinha, de pavor ou alegria.
Queria responder, mas nada sai da minha garganta.
“Alice” Ela repetiu, agora estendia sua mão para mim, o movimento fez com que a seda caísse de seu braço deixando aparecer sua pele clara e macia.
Como não conseguia dizer nada, fui andando em direção a ela, algo naquela mulher me dava à sensação de conhecê-la.
“Alice me ajude” Ela disse, e começou a ir embora.
Queria gritar impedi-la de ir, ajudar? Mas como?
“Fique” Gritei com toda minha força, mas minha força era pouca, meus gritos não passavam de sussurros “Por favor, fique”.
Ela continuava a andar... Ela não andava, seus pés estavam acima da grama macia, ela flutuava.
“Eu quero te ajudar!” Gritei.
“Acorda Bela Adormecida” Minha prima me sacode, até eu acordar.
“Nossa, que sonho sinistro que tive”.
Falei me levantando e indo em direção à saída do avião.
“Tome” Felipe me entregou uma latinha de Coca-Cola e um pacote de Doritos “É o café da manhã ou da madrugada né” Ele fala rindo.
Entramos em um barco, e fomos em direção à ilha.
No meio da viagem coloquei todo meu café da manhã –madrugada- para fora.
Sentei na proa e fiquei admirando a paisagem. O sol começava a nascer, era como se ele saísse de dentro do mar, era um belo espetáculo. Mas ao fundo, uma ilha começava a parecer, primeiro achei que era miragem, porque nem em sonho vi algo tão lindo.
“Bem-vindos a Lijig” Caio falou quase sem folego.
Entendo como ele se sentiu, eu também perdi o folego ao ver a ilha, não parecia real, era tão perfeita que dava medo.
“Como eu não nunca ouvi falar dessa ilha?” Falou Malu depois de recuperar o folego “Ela é simplesmente perfeita”.
“Ela é mantida em proteção pelo governo, ela é habitat de muitas espécies, e por ser um lugar tão lindo tem se muito receio de revelar, o homem não é mais confiável”.
Descemos de bote até a ilha, ao sentir a areia em meus pés tive uma sensação tão estranha, era como se lá fosse o lugar a onde eu pertencia, era onde eu devia ficar e nunca mais sair.
Lipe e Caio começaram a armar a tenda. E Malu ficava fotografando cada pedaço de terra que encontrasse pela frente. E eu continuava com aquela sensação de já conhecer esse lugar.
“Como você está?” Caio sentou-se ao meu lado.
“Esse lugar é perfeito”
“Eu sei”
“É como se eu pertencesse a essa ilha”
“Seu pai tem uma forte ligação com esse lugar”
“Eu sei, eu sei. Mas é mais forte que isso. Não conseguiria te explicar mesmo se tentasse.”
“Pode tentar”
“Eu vi este lugar, antes e hoje no avião.”
Ele me olhou meio desconfiado, como se estivesse pronto a me levar para o manicômio.
“Explique-se”
“Eu sonhei com ele hoje, tinha uma mulher no meu sonho, muito linda” Olhei para ele, e ele me incentivou a continuar “Ela me chamava e pedia minha ajuda”.
“Sabe Alice, tem algo que precisa saber” Ele falou sério e me encarou, com um olhar que nunca havia visto antes em seu rosto, ele tinha algo a me revelar e eu não conseguia esperar para ouvir.
“Fala”
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